6 de outubro de 2015

A tradição oral de Papias


Em meu livro "Em Defesa da Sola Scriptura", que conta com mais de 400 citações patrísticas em favor da Sola Scriptura e de uma ampla refutação à tradição oral romana, eu mostro o que os Pais da Igreja entendiam pelo termo "tradição", que, obviamente, não tinha nada a ver com doutrinas extra-bíblicas papistas. O capítulo a isto referente eu postei neste artigo do meu outro site. Se havia mesmo uma tradição oral que legitimamente remetesse aos apóstolos, os primeiros que deveriam falar disso seriam os Pais do século I até meados do século II, ou seja, os que tinham mais contato com os apóstolos ou com sucessores diretos dos apóstolos. Contudo, o que vemos realmente é isso:

• Nas sete cartas de Inácio de Antioquia (305-107), a palavra "tradição" não aparece nenhuma vez.

• Nos livros de Teófilo de Antioquia (120-186), a palavra "tradição" não aparece nenhuma vez.

• Nos escritos de Aristides de Atenas (75-134), a palavra "tradição" não aparece nenhuma vez.

• Nos escritos de Hermas (70-155), a palavra "tradição" não aparece nenhuma vez.

• Nos escritos de Policarpo (69-155), a palavra "tradição" não aparece nenhuma vez.

• Nos escritos de Clemente (35-97), a palavra "tradição" só aparece uma única vez, em um contexto que não menciona nenhuma doutrina romana extra-bíblica.

• Nos escritos de Atenágoras de Atenas (133-190), a palavra "tradição" só aparece uma única vez, em um contexto onde ele chama as tradições do império romano de "ridículas"!

Sim, são esses mesmos que, na cabeça dos apologistas católicos, foram os guardiões da tão estimada e gloriosa "tradição apostólica", aquela mesma que foi transmitida oralmente pelos apóstolos sem nenhuma consonância com as Escrituras e que servia de base para as doutrinas romanistas particulares, como a imaculada conceição de Maria, o purgatório, o papado, etc. É rir pra não chorar.

Mas será que não tem ninguém nos primeiros cem anos de Igreja que mencionou tradições orais na Igreja primitiva? Sim, tem. E seu nome é Papias (70-155), o bispo de Hierápolis. Ele teria convivido com o apóstolo João e com muitos discípulos dos apóstolos. Portanto, se tem alguém que recebeu tradições orais, este alguém foi Papias. Ele foi o único que falou explicitamente em "tradição oral", em seus fragmentos preservados que podem ser conferidos clicando aqui. Eusébio de Cesareia expressa a seu respeito:

"O próprio Papias acrescenta outras coisas que teriam chegado a ele por meio da tradição oral, além de certas parábolas estranhas do Salvador, bem como o ensinamento dele e outras coisas que parecem ainda mais fabulosas. Entre essas coisas, diz que haverá mil anos após a ressurreição dos mortos e que então o reino de Cristo se estabelecerá fisicamente nesta nossa terra"[1]

Note que essa "tradição oral" de Papias consistia em:

a) Parábolas "estranhas" de Jesus.

b) Alguns outros ensinos esquisitos.

c) O milênio literal.

O que a Igreja Romana, essa mesma que tão espetacularmente guarda essa tão estimada tradição oral ao longo destes dois mil anos, faz a respeito da tradição oral guardada pelo único autor primitivo que mencionou uma tradição oral?

Resposta: não faz a mínima ideia de quais sejam essas parábolas, e crê no oposto ao que Papias cria no concernente ao milênio! Papias diz que o milênio futuro na terra tinha chegado a ele através de tradição oral, a Igreja Romana arroga guardar as tradições orais primitivas, mas paradoxalmente deixa de fora exatamente a única tradição oral que realmente remonta aos primeiros séculos, crendo no oposto a esta tradição, já que a #ICAR é amilenista em vez de pré-milenista. Pode isso, Arnaldo?

O próprio Eusébio, que menciona as três tradições orais de Papias, desdenha de todas elas. Ele chama as parábolas de estranhas, os ensinamentos de fantasiosos, e também descrê no milênio. E, mesmo assim, a Igreja Romana jura de pés juntos que a tradição oral é super ultra mega hiper confiável. Tão confiável que ela mesma crê no oposto do único caso concreto de uma tradição oral nos escritos dos primeiros Pais da Igreja, os que conviveram com os apóstolos. Em vez de crer na tradição oral de Papias, ela inventa um monte de tradição esdrúxula e tardia que nem de longe foi pregada por um apóstolo, e que só servem para enganar os trouxas.

E depois ainda são descarados o suficiente em atacar os evangélicos por seguirmos somente a Bíblia em questão de doutrina, porque nós ignoramos essa tão maravilhosamente confiável "tradição oral", que coloca todas as fantasias e invencionices romanistas para dentro do chapéu mágico da tradição "apostólica". Não, obrigado, prefiro ficar com a Bíblia.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[1] História Eclesiástica, Livro  III, c. 39, 8-11.

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