28 de maio de 2015

A Igreja primitiva não cria na imaculada conceição de Maria


Este blog já possui um artigo sobre "Os Pais da Igreja contra a imaculada conceição de Maria", mas decidi traduzir um artigo mais completo escrito pelo apologista reformado Keith Thompson (originalmente em inglês), do excelente site "Reformed Apologetics", que simplesmente destrói sem piedade todos os argumentos papistas em torno da imaculada conceição nos Pais da Igreja. Boa leitura.



Definindo a Imaculada Conceição de Maria

A doutrina da imaculada conceição de Maria afirma que desde a primeira instância da concepção de Maria ela foi preservada do pecado original, e deste modo não o contraiu. Portanto, sua concepção foi limpa ou pura. Este ensinamento foi oficialmente proclamado como dogma e definido pelo catolicismo romano em 1870, quando o papa Pio IX declarou o seguinte na bula Ineffabilis Deus:

“Nós declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que afirma que a Santíssima Virgem Maria, em primeira instância, desde a sua concepção, por singular graça e privilégio concedido pelo Deus Todo-Poderoso, em vista dos méritos de Jesus Cristo, o Salvador da raça humana, foi preservada imune de toda a mancha de pecado original, é uma doutrina revelada por Deus e, portanto, deve ser acreditada firmemente e constantemente por todos os fieis”

Mais explicações sobre esta doutrina podem ser encontradas no Catecismo da Igreja Católica, promulgado pelo papa João Paulo II. Ele afirma:

“Para se tornar a mãe do Salvador, Maria foi enriquecida por Deus com presentes apropriados para este papel. O anjo Gabriel, no momento da anunciação, a saúda como ‘cheia de graça’ (...) Através dos séculos, a Igreja tornou-se cada vez mais consciente de que Maria, ‘cheia de graça’ através de Deus, foi redimida desde o momento da sua concepção (...) O ‘esplendor de uma santidade inteiramente original’ pelo qual Maria é ‘enriquecida desde o primeiro instante de sua concepção’ vem inteiramente de Cristo: ela é redimida, de uma forma mais exaltada, em razão dos méritos de seu Filho”[1]

Assim, na teologia romana, Maria não contraiu uma natureza pecaminosa como todos os outros seres humanos obtêm na concepção. Ela era, portanto, sem pecado, devido à sua alegada preservação do pecado original. A posição sensata a se tomar sobre este assunto é que ninguém no período da igreja primitiva acreditou na imaculada conceição de Maria.


Os Pais Apostólicos

Os pais apostólicos eram discípulos dos apóstolos. Tais homens incluem Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Clemente de Roma e Papias. Um manual de instruções cristãs conhecido como a Didaquê também é relevante, uma vez que foi composta por alunos dos apóstolos. Não só estes escritos extra-bíblicos não têm nada em apoio a alegada imaculada conceição de Maria ou qualquer outra doutrina mariana romanista, mas seus escritos nem sequer mencionam Maria em quase nada. Assim como o livro de Atos, eles não estão realmente preocupados com Maria. Nesses escritos há apenas sete referências a ela. Eles são encontrados nos fragmentos de Papias e em Inácio. Policarpo, Clemente e a Didaquê não têm nada a dizer sobre ela. E a maioria das sete referências a ela em Inácio e Papias é ou breves observações passageiras, ou então em um contexto que está centrado em Cristo.

O estudioso patrístico católico-romano Luigi Gambero concorda quando observa que “o nome de Maria raramente aparece nos escritos dos Pais apostólicos”[2]. No entanto, ele prossegue argumentando que a razão por que isso é assim é porque quase todas as religiões que os rodeavam tinham uma deusa feminina, e estes primeiros cristãos não queriam arriscar confundir aqueles a quem testemunhavam de que isso tivesse um fundo pagão. Pois ao exaltar Maria, poderiam ter provocado os pagãos para exaltá-la como uma deusa. Essa visão deixa espaço para a possibilidade de que os pais apostólicos pudessem ter ensinado a doutrina romanista mariana, embora, na visão de Gambero, eles não o fizeram abertamente.

Que evidências Gambero têm em apoio à ideia de que os pais apostólicos conscientemente evitaram mencionar Maria pela razão que ele propõe? Nada. Além disso, o argumento não se sustenta, uma vez que os pais apostólicos não apenas deixavam de mencionar doutrinas marianas romanas quando escreviam para igrejas compostas por muitos convertidos do paganismo, mas também não a mencionavam nem a exaltavam da maneira romana mesmo quando escreviam cartas a crentes firmes (por exemplo, a carta de Inácio a Policarpo).

Ademais, os discípulos dos apóstolos pregavam práticas cristãs e crenças que poderiam ser mal interpretadas pelos pagãos convertidos em função de suas ideias semelhantes errôneas. Contudo, este fato não impediu que os pais apostólicos ensinassem abertamente sobre tais assuntos. Pode-se observar que os pagãos abraçavam os seguintes ensinamentos: sacrifício propício para deuses pagãos[3], que poderia ser visto como semelhante à expiação; purificação com água nos cultos de mistério[4], que poderia ser visto como semelhante ao rito do batismo cristão; refeição pagã para celebrar o nascimento de alguém ou onde o deus ou deusa preside[5], que poderia ser visto como semelhante à eucaristia cristã, e assim por diante.

Gambero também tem outro argumento. Ele afirma que Inácio se silenciou em relação a Maria para que este misterioso silêncio fosse uma forma de exaltação ou honra em seus escritos. Portanto, de acordo com este raciocínio, os pais apostólicos podem ter realizado uma “presença materna na fé e na vida dos primeiros cristãos” através de Maria por ficarem em silêncio sobre ela em um sentido misterioso, que seria mais sublime do que algo que eles poderiam realmente escrever sobre ela.

Entretanto, há três problemas com este argumento:

1) As poucas citações fornecidas realmente não demonstram que Inácio acreditava que um misterioso silêncio fosse uma forma de exaltação ou honra no que diz respeito a santos ou a Deus. O mais próximo seria seu comentário de que um homem realiza mais pelo silêncio do que falando em vão[6]. No entanto, Inácio se refere a um bispo tranquilo e manso, e não a um método de exaltação em relação aos santos ou a Deus. Logo, Gambero está envolvido em eisegese.

2) Os poucos trechos de Inácio citados por Gambero o colocam diante de grande problema para si mesmo (por exemplo, um em que Cristo vem em silêncio, e em atos silenciosos de Cristo em relação ao Pai). Se Gambero está correto, teríamos, portanto, que esperar que Inácio não mencionasse nem o próprio Senhor Jesus Cristo, já que não mencioná-lo seria uma forma de homenagem. Entretanto, ele o menciona muito. Isso significa que Inácio não conseguiu dar honra a Cristo com o misterioso silêncio, embora suas declarações sobre o silêncio na maior parte fossem preocupações em relação a Cristo. Isso nos leva à conclusão de que Gambero está lendo ideias e formas de honra nos escritos de Inácio onde ele próprio não ensina isso, nem o pratica.

3) Tais observações sobre o silêncio de Inácio realmente não provam que os outros pais apostólicos acreditassem nos modernos ensinamentos católicos marianos. Mesmo se concedêssemos o argumento de Gambero, o máximo que poderíamos concluir a partir disso é que Inácio não mencionou Maria nem ensinou sobre ela. Mas isso não seria o mesmo que estabelecer ensinos sobre ela, o que ele não mencionou. Não haveria justificativa a afirmação de que Inácio defendia doutrinas marianas romanas específicas, ainda que o argumento de Gambero fosse concedido.

O fato é que os alunos dos apóstolos não escreveram sobre os dogmas marianos católicos que eles reivindicam que é preciso acreditar sob pena de excomunhão. Nem tampouco eles escreveram sobre as doutrinas marianas que distinguem os católicos-romanos dos demais cristãos. Isso demonstra o quão completamente divorciado do Cristianismo moderno o papismo está. A resposta de Gambero a este fato é ilusória e irresponsável.


Os Pais da Igreja após os Pais Apostólicos

Havia três principais pontos de vista sobre a condição de Maria no período patrístico após os pais apostólicos: (1) Maria pecou às vezes. Esta visão anula uma concepção imaculada; (2) Maria foi purificada do pecado em torno da época do nascimento de Cristo, o que também não é uma concepção imaculada. Uma pequena variação dessa visão é que ela foi parcialmente santificada no útero e, em seguida, completamente santificada no momento do nascimento de Cristo; (3) Maria foi totalmente santificada em algum momento enquanto estava no ventre de sua mãe, embora não na primeira instância da concepção. Isso ainda não é uma concepção imaculada. Estes pontos de vista na igreja primitiva são todos contrários à alegação romana de que Maria foi preservada de toda mancha do pecado original no primeiro momento da concepção.

A linha (1) está alinhada com a posição protestante. Tertuliano declarou o seguinte em seu “Tratado sobre a Carne de Cristo”:

“Sua mãe também não é relatada aderindo a ele, embora Marta e a outra Maria são muitas vezes mencionadas como estando em sua companhia. Nesta conjuntura, sua incredulidade finalmente veio à tona[7]

Descrença e dúvida são pecados (2ª Crônicas 30:7; Salmos 119:158; Jeremias 3:12; Mateus 8:26; Mateus 14:31; Romanos 14:23; Tiago 1:6). Tertuliano também entendeu Mateus 12:46-50 como uma irritação muito grande de Jesus com Maria por causa da incredulidade desta, enquanto os outros o ouviam atentamente:

“Ele estava justamente indignado, porque as pessoas muitos próximas a ele se levantaram contra ele, ao mesmo tempo em que os estranhos estavam atentamente ouvindo as suas palavras. E então ele disse: ‘Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ Ele acrescentou que a resposta era ‘ninguém’, senão aqueles que ouvem as suas palavras e as praticam. Ele transferiu a prioridade de relação de sangue com os outros, a quem ele julgou ser mais estreitamente relacionado a ele por causa da sua fé”[8]

No segundo século, Irineu observou que Jesus repreendeu Maria por sua pressa inoportuna:

“Pois todas estas coisas foram conhecidas de antemão pelo Pai; mas o Filho os trabalha no momento adequado em perfeita ordem e sequencia. Esta foi a razão pela qual, quando Maria estava incitando Jesus para executar o maravilhoso milagre do vinho, e estava desejosa antes da hora de tomar o copo de significado emblemático, o Senhor, verificando sua pressa inoportuna, disse: ‘Mulher, que tenho eu contigo? Minha hora ainda não chegou. Espere aquela hora que foi conhecida pelo Pai’”[9]

Basílio comentou sobre a espada de Lucas 2:35-36 afirmando:

“Mesmo você mesma [Maria], que tem sido ensinada do alto nas coisas concernentes ao Senhor, será tomada por algumas dúvidas. Esta é a espada”[10]

João Crisóstomo argumentou que Maria, de um modo ímpio, procurou a glória dos milagres de Jesus:

“Talvez excessivamente ela tinha alguns sentimentos humanos, como seus irmãos, quando disseram: ‘Mostre-se para o mundo que deseja obter crédito a partir de Seus milagres’. E a isso ele respondeu veementemente, dizendo: ‘Mulher, que tenho eu a ver contigo? Minha hora ainda não chegou’”[11]

Comentando sobre a mariologia de Crisóstomo, o erudito católico Richard P. McBrien observou:

“Em Caná, Maria disse a Jesus que não havia mais vinho só porque ‘ela queria fazer um favor para os outros, e se tornar mais ilustre através de seu filho’. Mesmo na anunciação ela estava em falta. O anjo teve que acalmá-la para que ela não se matasse em desespero com a notícia de que ela iria ter um filho”[12]

Há amplo apoio acadêmico para o fato de que muitos escritores da igreja primitiva ensinaram que Maria tivesse pecado. O mundialmente renomado historiador e estudioso da doutrina cristã primitiva, J. N. D. Kelly, observou:

“Em contraste com a crença mais tardia, em sua perfeição moral e espiritual, nenhum destes teólogos tinha o menor escrúpulo em atribuir culpas para Maria. Irineu e Tertuliano recordaram ocasiões em que, ao lerem as histórias do evangelho, ela foi repreendida pelo Filho, e Orígenes insistiu que, como todos os seres humanos, ela precisava da redenção de seus pecados; em particular, ele interpretou a profecia de Simeão (Lc.2:35), de que uma espada transpassaria a sua alma, como sendo a confirmação de que ela tinha sido tomada por dúvidas quando viu seu Filho crucificado”[13]

Em relação aos comentários de Orígenes, Kelly cita suas Homílias sobre São Lucas, 17. O estudioso romanista Ludwig Ott admitiu algo importante quando disse:

“Padres gregos individuais (Orígenes, São Basílio, São João Crisóstomo, São Cirilo de Alexandria) ensinaram que Maria sofria de faltas veniais pessoais, como ambição e vaidade, a dúvida sobre a mensagem do Anjo e a falta de fé sob a cruz”[14]

Além disso, o historiador eclesiástico Philip Schaff destacou que Irineu “não tinha nenhuma noção da impecabilidade de Maria, e expressamente declara que a resposta de Cristo em João 2:4 era uma repreensão de sua pressa prematura”[15]. Ele também comentou: “Da mesma forma, Tertuliano, Orígenes, Basílio Magno e até mesmo Crisóstomo, mesmo com toda a sua alta estima em relação à mãe de nosso Senhor, atribuem a ela em uma ou duas ocasiões (Jo.2:3; Mt.13:47) vaidade materna, além de dúvida e ansiedade, e fazem disso a espada (Lc.2:35) que, sob a cruz, passou por sua alma”[16].

O estudioso patrístico católico-romano Luigi Gambero admite que João Crisóstomo “não hesita em atribuir defeitos a imperfeições a Maria... ele interpreta certas passagens do Evangelho de tal forma que permitia atribuir defeitos à virgem Maria tais como a incredulidade e a vaidade”[17]. Estes são pecados e todos os pecados são incompatíveis com a doutrina da imaculada conceição de Maria. Gambero também admite que Basílio de Cesareia “considera-se certo em afirmar que a santidade da Virgem não era totalmente indiscutível. Ele se refere à dúvida que ela sofreu no momento da paixão de seu filho, que Simeão havia predito, usando a metáfora da espada”[18].

É pertinente ressaltar aqui a observação de Philip Schaff, que “Jerônimo ensinou a pecaminosidade universal, sem qualquer exceção, Adv. Pelag. ii, 4”[19].

Cirilo de Alexandria (376-444) também ensinou que Maria pecou de forma grave, em oposição a uma concepção imaculada:

“Pois, sem dúvida, tal linha de pensamento como esta passou por sua mente: ‘Eu lhe concebi que se deixa escarnecer na cruz. Ele disse que, de fato, ele era o verdadeiro Filho do Deus Todo-Poderoso, mas pode ser que ele tenha sido enganado; Ele pode ter cometido um erro quando disse: eu sou a vida. Como é que ele pôde ter sido crucificado e como é que ele pôde ter caído nos laços de seus assassinos? Como foi que Ele não prevaleceu sobre a conspiração dos seus perseguidores? E por que ele não desceu da cruz, embora ele tenha ordenado a Lázaro voltar à vida, e alcançou toda a Judeia com seus milagres?’ A mulher, como é provável, sem entender exatamente o mistério, vagou perdida em tal linha de pensamento[20]

A visão (2) foi defendida por figuras notáveis como Cirilo de Jerusalém (313-386). Ele afirmou: “Este é o Espírito Santo, que desceu sobre a Virgem Santa Maria; porque desde que Aquele que foi concebido era Cristo, o Unigênito, o poder do Altíssimo fez sombra sobre ela, e o Espírito Santo veio sobre ela, e a santificou, para que ela pudesse ser capaz de recebê-lo[21]. Só se Maria tinha pecado ela precisaria ser santificada antes do nascimento de Cristo pelo Espírito. E o pecado é, naturalmente, incompatível com uma preservação no momento da concepção.

Da mesma forma, Gregório Nazianzeno afirmou que, pouco antes do nascimento de Cristo, Maria tinha sido “purificada pelo Espírito na alma e no corpo”[22]. Comentando este texto, o estudioso romano Luigi Gambero confirma que Nazianzeno acreditava na “purificação de Maria antes da concepção de Cristo”[23]. Isso não é uma concepção imaculada.

A visão (3) foi defendida pelo influente Agostinho. Ele afirmou que Maria não tinha pecado, mas que ela foi santificada após a concepção, enquanto no útero, e não na primeira instância da concepção. Agostinho afirmava que só Cristo nasceu sem a mancha do pecado original. Ele citou com aprovação Ambrósio contra Pelágio, afirmando:

“Pois dentre os nascidos de mulher, Jesus é o único que é santo em todas as coisas. Ele foi o único que não experimentou os contágios de corrupção terrena pela novidade de seu nascimento imaculado, em função de Sua majestade celestial”[24]

Note que Agostinho e Ambrósio concordavam que Cristo sozinho é exclusivamente imaculado, sem ter contraído o pecado original. Este nascimento é descrito como uma “novidade”, o que não seria caso Maria tivesse sido abençoada com o mesmo tipo. É relevante notar que o erudito católico Bonifácio Ramsey admite:

“Nós ainda não encontramos as doutrinas da imaculada conceição de Maria e sua assunção em Ambrósio”[25]

O anglicano J. N. D. Kelly, especialista em patrística, observa que em relação à ausência de pecado:

“Agostinho negou a possibilidade de todos os outros homens, mas concordou que Maria era a única exceção; ela havia sido mantida sem pecado, no entanto, não pelo esforço de sua própria vontade, mas como resultado da graça dada a ela em vista da encarnação. Por outro lado, ele não defende (como por vezes tem sido alegado) que ela nasceu isenta de toda mancha de pecado original (a doutrina posterior da imaculada conceição)”[26]

Kelly nota que Agostinho acreditava que “Maria de fato tinha nascido sujeita ao pecado original assim como todos os outros seres humanos; mas tinha sido entregue a partir de seus efeitos ‘pela graça do renascimento’”[27]. Nesta mesma linha, o historiador reformado Philip Schaff observa que:

“Em uma observação incidental contra Pelágio, ele concordou com ele excetuando Maria, do real (mas não do original) pecado (...) Ele ensinou que Maria nasceu e viveu sem pecado, mas não ensinou sua imaculada conceição (...) Ela foi santificada por uma operação especial do Espírito Santo antes de seu nascimento”[28]

Luigi Gambero admite que as evidências apontam para a conclusão de Kelly e Schaff, e observa:

“Sem dúvida, ele exclui qualquer pecado pessoal de Maria. É possível supor que Agostinho também pretende excluir o pecado original? Para nós parece mais seguro adotar a posição contrária, que é defendida por muitos especialistas e parece estar mais de acordo com os numerosos textos agostinianos”[29]

Outro estudioso católico-romano que concorda com isso é Peter M. Fehlner, que admite:

“A sua [de Agostinho] resposta ao ponto específico não diz que Maria é inoxidável na concepção; ao contrário, ele deixa a porta aberta para uma santificação libertadora no útero. Ele escreveu: ‘Nós não entregamos Maria ao diabo pela condição de seu nascimento; por esta razão, sua própria condição encontra uma solução na graça do renascimento’”[30]

Afirmando o mesmo, o estudioso católico-romano Peter M. Stravinskas disse:

“Agostinho acreditava que Maria estava no domínio do pecado original”[31]

Embora existam diversas testemunhas com muitas opiniões diferentes no período patrístico, o que não vemos é uma afirmação real da suposta concepção imaculada de Maria, além do herege Pelágio que negou o pecado original por completo e usou Maria como exemplo de alguém que supostamente não herdou uma natureza pecaminosa. No entanto, Agostinho refutou o herege negando suas ideias, como mostrado anteriormente.

Como o papa Pio IX poderia, em sua bula Ineffabilis Deus, falsamente afirmar que “a imaculada conceição da Virgem Mãe de Deus foi discernida pelos Padres e registrada nas Divinas Escrituras”? Isso demonstra a sua vontade de enganar o povo romano como um todo. Nenhum Pai da Igreja ensinou esta doutrina, e muito menos a exegese dos textos bíblicos que a Roma moderna faz num sentido pró-concepção imaculada. Se eles nem sequer afirmam a doutrina, como eles poderiam interpretar à maneira romana os versos bíblicos que ensinam a doutrina? Nenhum Pai interpretou Gênesis 3:15 como significando que Maria foi preservada do pecado original no momento da concepção.

Nem eles ensinavam que Lucas 1:28 significa que Maria foi agraciada em uma concepção imaculada. Nada desta natureza existe no enorme registro da igreja primitiva, e estudiosos católicos admitem isso (nota: Pais afirmando que Maria era sem pecado ou discutindo certos textos não é o mesmo que um Pai afirmando a concepção imaculada ou discutindo-a em certos textos). Assim, o “pastor infalível” da igreja, Pio IX, mentiu em suas palavras ao povo romano no mesmo documento em que ele definiu este dogma mariano. Muitos estudiosos, incluindo os católicos, expõem esta realidade, a qual Pio IX e muitos papistas não estão dispostos a admitir. Ou seja: que nenhum Pai da igreja primitiva ensinou essa doutrina.

Por exemplo, o estudioso papista Paul Haffner concede que, enquanto alguns Pais afirmaram a impecabilidade de Maria, não abraçaram a imaculada conceição:

“Seguindo Agostinho, no ocidente, muitos Pais e Doutores acreditavam na perfeita santidade de Maria e na ausência de qualquer pecado pessoal em função de sua dignidade como a Mãe do Senhor. No entanto, eles não conseguiram entender como a afirmação de uma concepção imaculada poderia ser conciliada com a doutrina da universalidade do pecado original e da necessidade de redenção para todos os descendentes de Adão”[32]

Até mesmo o estudioso e apologista romano Robert Fastiggi admite que os primeiros apologistas do período patrístico não afirmam a imaculada conceição, e que só mais tarde é que certas pessoas começaram a afirmar a impecabilidade de Maria:

“Embora estes Padres da Igreja antiga [Irineu e Justino Mártir] não afirmem explicitamente a imaculada conceição de Maria, o paralelismo entre Eva e Maria levou mais tarde Pais da Igreja a afirmar que Maria era uma alma pura e sem pecado”[33]

Observe que Fastiggi admite que o paralelismo antigo entre Eva e Maria presente nos apologistas não levou os Pais posteriores a afirmarem uma concepção imaculada, mas apenas sua impecabilidade. Maria, como alma pura ou sem pecado, não estabelece uma concepção imaculada, pois aqueles títulos não falam sobre quando Maria foi santificada (i.e, em primeira instância, na concepção, no útero ou no momento do nascimento de Cristo). Não se pode simplesmente assumir que quando um escritor patrístico comenta sobre a pureza de Maria, como os papistas modernos afirmam, remete à primeira instância da concepção.

Autor: Keith Thompson (Reformed Apologetics)
Tradução: Lucas Banzoli (Apologia Cristã)


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[1] The Catechism of the Catholic Church, 2nd Ed., pp. 137-138 par. 490-492.
[2] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 27
[3] D. A. Carson, The God Who Is There, The: Finding Your Place in God's Story, [Baker Books, 2010], p. 178.
[4] Everett Ferguson, Backgrounds of early Christianity, [Wm. B. Eerdmans Publishing, 2003], p. 298.
[5] Panayotis Coutsoumpos, Paul And the Lord's Supper: A Socio-historical Investigation, [Peter Lang, 2005], p. 36.
[6] Epístola à Igreja de Filadélfia, 1:1.
[7] Tertullian, On the Flesh of Christ, Ch. 7.
[8] Tertullian, Against Marcion, Book 4, Ch. 19.
[9] Irenaeus, Against Heresies, 3. 16. 7.
[10] Basil of Caesarea, Letter, 260, 9.
[11] John Chrysostom, Homilies on the Gospel of John, homily 21.
[12] Richard P. McBrien, Catholicism: Completely Revised and Updated, [HarperCollins, 1994], p. 1084.
[13] J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines, [HarperOne, 1978], p. 493.
[14] Ludwig Ott, Fundamentals of Catholic Dogma, [Tan Books and Publishers, 1960], p. 203.
[15] Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 3, [Hendrickson, 2011], p. 415.
[16] Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 3, [Hendrickson, 2011], pp. 415-416.
[17] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 172.
[18] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 148.
[19] Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 3, [Hendrickson, 2011], p. 418 n. 2.
[20] Cyril of Alexandria, Commentary on John, Book 12.
[21] Cyril of Jerusalem, Catechetical Lectures, Lecture, 17, 6
[22] Gregory Nazianzen, Sermon 38, 13.
[23] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 163.
[24] Augustine, Against Julian, Book I, 10.
[25] Boniface Ramsey, Ambrose, [Routledge, 1997], p. 51.
[26] J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrine, [HarperOne, 1978], p. 497.
[27] J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines, [HarperOne, 1978], p. 497.
[28] Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 3, [Hendrickson, 2011], pp. 418, 419.
[29] Luigi Gambero, Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought, [Ignatius Press, 1999], p. 226.
[30] (Peter M. Fehlner, The Virgin Mother’s Predestination and Immaculate Conception, ed. Mark I. Miravalle, Mariology: A Guide for Priests, Deacons, Seminarians, and Consecrated Persons, [Mark I. Miravalle, S.T.D., 2007], p. 248.
[31] Peter M. Stravinskas, The Catholic Answer Book of Mary, [Our Sunday Visitor Publishing, 2000 ], p. 50.
[32] Paul Haffner, The Mystery of Mary, [Gracewing Publishing, 2004], p. 81.
[33] Robert Fastiggi, The Immaculate Conception: Historical and Ecumenical Perspectives, eds. Robert L. Fastiggi, Judith Marie Gentle, De Maria Numquam Satis: The Significance of the Catholic Doctrines on the Blessed Virgin Mary for All People,[ University Press of America, 2009], p. 2.

18 comentários:

  1. Não entendi? O pais da igreja acreditavam que Maria era sem pecado? Seria nesse sentido:
    Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. 1º João 2.1
    Bom, de qualquer forma, creio que nossa irmã Maria não tenha sido impecável depois do nascimento ou da concepção.

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    1. A impecabilidade de Maria é uma crença de alguns Pais posteriores (século IV em diante), mas isso ainda está longe de ser o mesmo de imaculada conceição (que é o dogma católico). Eu também penso em conformidade com a maioria dos Pais da Igreja, que criam que Maria pecou assim como os outros seres humanos. Escrevi sobre isso aqui:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/02/maria-pecou.html

      Abraços.

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  2. lucas vc escreve um artigo mas o veritatus apresenta outra provando o mesmo..vc poderia explicar tudo isso pra gente pois queremos aprender com quem sabe...obrigada

    http://www.veritatis.com.br/apologetica/maria-santissima/8040-os-padres-da-igreja-eram-contrarios-ao-dogma-da-imaculada-conceicao-

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    1. O artigo do Veritatis não é nenhuma refutação a este texto do Keith, na verdade é uma refutação a um texto de um farsante chamado Lauro alguma coisa, que fez um documentário onde inventava textos inexistentes nos escritos dos Pais da Igreja, que acabou sendo um prato cheio para os católicos. O Veritatis apenas mostrou o óbvio, que aqueles textos que ele usava não eram verdadeiros. No entanto, ainda que o Sr. Lauro tenha inventado textos, existem muitíssimos textos reais que refutam a imaculada conceição de Maria (entre os quais estão os textos patrísticos citados neste artigo).

      O Veritatis também não chegou a passar nenhum texto patrístico mostrando a imaculada conceição nos escritos dos Pais. O que ele fez foi citar dois textos, um de Ambrósio e outro de Agostinho, textos aliás que já foram inclusive citados neste próprio artigo, e que falam da impecabilidade de Maria e não de uma concepção imaculada (há vários textos onde Agostinho afirma que o único que teve uma concepção imaculada foi Jesus, e que Maria foi purificada mais tarde). No final do artigo deles, eles reconhecem que alguns Pais foram contra a imaculada conceição, e citou o exemplo de João Crisóstomo. Citou também Tomás de Aquino, que também rejeitava a imaculada conceição (o que prova que este dogma é realmente tardio), mas tentou passar a falsa noção de que este tema era uma "dúvida" entre os Pais, como se uns cressem na imaculada conceição e outros não cressem, quando na verdade não havia discussão sobre isso, pois TODOS foram contra a imaculada conceição. É por isso que o Veritatis não é capaz de mostrar dois ou três Pais que fossem a favor.

      Então a questão aqui não é de os dois lados terem textos a seu favor e textos contra o outro, mas sim de APENAS UM LADO (o nosso) ter textos, e o outro lado (o deles) ter uma crença adotada séculos e séculos depois do período patrístico, sem absolutamente nenhuma base consistente para a afirmação desta doutrina na igreja primitiva.

      Abraços.

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  3. Esta pergunta é off topic mas Lucas, qual sua opinião a respeito dos movimentos de convergencia como a Chicago call, onde pentecostais resgatam o estudo da patristica e as formas liturgicas das igrejas tradicionais? Esta atitude não levaria alguns a ver o catolicismo como atraente?

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    1. Desde que não haja sincretismo religioso (fusão de doutrinas), não vejo problemas em se adotar uma forma litúrgica antiga. Se isso vai tornar o catolicismo mais "atraente" ou não, é relativo. Há pessoas que se convertem ao catolicismo depois de estarem no extremo oposto (um pentecostalismo bem avivado, ou um neopentecostalismo), que não possuem similaridade nenhuma com a liturgia católica, então eu não vejo isso como uma regra. O que vai manter um crente firme na fé ou não, é em primeiro lugar o seu relacionamento pessoal com Deus e em segundo lugar a sua consistência doutrinária (estudos sobre a fé cristã evangélica). Se ele não tiver nenhuma dessas duas coisas, ele pode migrar para qualquer outra religião ou irreligião, seja para o catolicismo ou para outro lugar, independentemente da forma de liturgia.

      Abraços.

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  4. Olá Lucas, parabéns, excelente artigo.

    Não tem testemunho melhor do que o da própria Maria, onde ela diz ser pecadora, quando chama Deus, de seu salvador. Ao examinar os dois primeiros capítulos de Lucas, podemos observar, que a expressão, "salvador", está dentro de um contexto de remissão de pecados, se não, vejamos:


    E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador;
    Lucas 1:47


    Bendito o Senhor Deus de Israel, Porque visitou e remiu o seu povo,
    E nos levantou uma salvação poderosa Na casa de Davi seu servo.
    Lucas 1:68,69


    Para dar ao seu povo conhecimento da salvação, Na remissão dos seus pecados;
    Lucas 1:77


    Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor.
    Lucas 2:11



    Observem, amigos e irmãos, enfaticamente, a expressão, salvador, está dentro de um contexto de remissão de pecados :

    Para dar ao seu povo conhecimento da salvação, Na remissão dos seus pecados;
    Lucas 1:77


    Só o capeta, para negar isso.

    Mais uma vez Lucas, excelente artigo.

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  5. Lucas, além da imaculada conceição de Maria, acredito que I Primitiva não acreditava mesmo em nada daquilo que os católicos atribuem a ela.

    O escritor de Hebreus devia ser protestante. Maria não aparece na galeria dos heróis da fé em Hebreus 11. Sara aparece; algumas outras Mulheres desconhecidas, também aparecem (Hb 11:35), e até Raabe uma meretriz foi lembrada por sua fé (v.31). E sobre Maria ... Nada!

    Uma matéria sobre isso seria um estrondo!

    Está nas suas mãos. Eu estou sem tempo.

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  6. Vou dar uma lida com mais calma no seu novo artigo sobre esta geração. Não tinha ideia sobre as datas que você calculou

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  7. Um versículo da Bíblia que destrói totalmente essa tese é Mateus 11:11, onde Jesus diz que João Batista é o maior entre todos os homens. Ora, se Maria era sem pecado, pela lógica, ela deveria ser maior do que João que era um pecador.

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  8. o dogma imaculada conceição entra em conflito com o próprio catecismo católico.
    veja bem:
    M.6.8 Fins dos mandamentos da Lei

    §578 Jesus, o Messias de Israel, portanto o maior no Reino dos Céus, tinha a obrigação de cumprir a Lei, executando-a em sua integridade até seus mínimos preceitos, segundo suas próprias palavras. Ele é o único que conseguiu cumpri-la com perfeição. Os judeus, conforme sua própria confissão, nunca conseguiram cumprir a Lei em sua integridade sem violar-lhe o mínimo preceito. Esta é a razão pela qual, em cada festa anual da Expiação, os filhos de Israel pedem a Deus perdão por suas transgressões da Lei. Com efeito, a Lei constitui um todo e, como recorda São Tiago, "aquele que guarda toda a Lei, mas desobedece a um só ponto, torna- se culpado da transgressão da Lei inteira" (Tg 2,10).

    O próprio catecismo fala que Jesus foi o único que cumpriu toda lei, ou seja, o único que não pecou.

    e agora em quem confiar?
    pois o catecismo diz uma coisa, a tradição e o magistério dizem outra.
    e agora quem poderá nos responder?
    o chap.....


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    1. Bem colocado. Também quero ver como eles se safam dessa...

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  9. Banzoli,

    Estou comentando o artigo um ano depois que foi publicado rs, mas não poderia deixar de elogiar esse e seus outros sites. Em apenas um artigo de maneira breve e resumida eu consegui entender esse emaranhado de falsos ensinos da igreja católica. Ainda tem muitos outros artigos explicando outros temas aqui no site pra ler e entender, porém pra mim e vejo que pra muitos outros irmãos a leitura é sempre agradável e edificante. Por isso penso que a quantidade de artigos expostos no site são apenas atrativos pra aqueles que querem aprender mais da Palavra e do Reino de Jesus.

    Deus te abençoe sempre!

    Abraço,
    Abraão.

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    1. Olá, Abraão, fico feliz por ter gostado dos artigos do blog. Qualquer coisa é só escrever.

      Abraços e que Deus lhe abençoe!

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