11 de fevereiro de 2015

A Bíblia é filha da Igreja?


Imagine que você está debatendo com um muçulmano sobre o Corão, e cita-lhe esta passagem que diz o seguinte a respeito dos judeus e cristãos:

“Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio (...) E combatei-os até terminar a perseguição e prevalecer a religião de Deus” (Alcorão 2:191,193)

O muçulmano, revoltado, se defende dizendo:

Muçulmano – Você está errado! Você não pode interpretar o Corão! Os únicos que podem legitimamente ler e interpretar o Corão são os seguidores do Profeta! Vocês, cristãos, não tem este direito! Submetam-se à interpretação de Meca!

Cristão – Que triste. Então qual é a “forma correta” de se “interpretar” estes versos, que dizem claramente para matar judeus e cristãos, como as facções terroristas islâmicas fazem hoje?

Muçulmano – Nunca mais diga que esses versos mandam matar! Você não tem autoridade para interpretar o Corão! Estes versos, interpretados legitimamente por aqueles que detêm o Livro Sagrado, significam simplesmente que devemos amar os cristãos e judeus, e não matá-los!

Cristão – Mas como assim? Onde você viu nestes textos a palavra “amor”? Você não percebe que eles estão claramente falando em matar, e não em amar?

Muçulmano – Não interessa o que você acha. Somente os seguidores do Profeta podem interpretar o Livro. Você não pode nada. Se eles interpretaram assim, é assim e pronto. Não existe livre-exame e muito menos livre interpretação para os não-muçulmanos! Deixe de distorcer e deturpar as palavras do Corão!!!

Depois de receber essa “aula” de interpretação e lógica, você se afasta e vai conversar com um católico, citando este texto bíblico, que claramente fala que os bispos poderiam ter uma esposa:

“É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar” (1ª Timóteo 3:2)

O católico, revoltado, se defende dizendo:

Católico – Você está errado! Você não pode interpretar a Bíblia! Os únicos que podem legitimamente ler e interpretar a Bíblia são os seguidores dos apóstolos! Vocês, protestantes, não tem este direito! Submetam-se à interpretação de Roma!

Cristão – Que triste. Então qual é a “forma correta” de se “interpretar” este verso, que diz claramente que o bispo poderia ter uma esposa, contrariando o celibato obrigatório do clero, como ocorre no catolicismo romano hoje?

Católico – Nunca mais diga que esse verso permite que o bispo tenha uma esposa! Você não tem autoridade para interpretar a Bíblia! Este verso, interpretado legitimamente por aqueles que detêm o Livro Sagrado, significa simplesmente que os bispos não podem ter uma esposa, e não que eles podem!

Cristão – Mas como assim? Onde você viu neste texto que o bispo não pode ter uma esposa? Você não percebe que eles estão claramente falando que eles podem ter no máximo uma esposa, e não que eles não podem ter uma esposa?

Católico – Não interessa o que você acha. Somente os seguidores dos apóstolos podem interpretar o Livro. Você não pode nada. Se o papa interpretou assim, é assim e pronto. Não existe livre-exame e muito menos livre interpretação para os não-católicos! Deixe de distorcer e deturpar as palavras da Bíblia!!!

***

É assim que os católicos tentam, em todos os debates, fugir das acusações de idolatria, heresia, contra-senso, heterodoxia, blasfêmia e tolice. Seja lá qual texto bíblico que o protestante cite, ele se resguarda na falácia de que “a Bíblia é filha da Igreja”, e que, portanto, todas as argumentações evangélicas devem estar erradas a priori, sendo descartadas de antemão em qualquer debate. Para eles, somente eles podem ler e interpretar a Bíblia, porque, afinal, eles são os “donos do livro”.

Lastimavelmente, quando a situação se inverte e eles têm que debater com muçulmanos, por exemplo, eles jogam essa lógica pro ar e usam textos do Corão – que supostamente só os muçulmanos têm o “direito” de interpretar – para provar que o islamismo é falso. O falecido prof. Orlando Fedeli, da extinta Associação Cultural Montfort, que costumava entrar em guerra contra o também extinto Veritatis Splendor mais do que Israel entra em guerra com o Hamas, costumava sempre citar textos do Corão contra os muçulmanos. Neste artigo, por exemplo, ele escreve:

Hoje, não tenho tempo para lhe explicar algo mais sobre o maometismo, mas cito-lhe alguns versículos do Corão que mostram o que de fato ocorreu com Maomé.

"Maomé, quando tiveres dúvida sobre o que fizemos descer [o que revelamos] interroga aqueles que leram o livro antes do que tu" [os sábios de Israel] (Surata X, 94).

Portanto, o Corão manda Maomé ler a Bíblia e consultar os rabinos judeus: Logo, Maomé não recebeu nenhuma revelação particular.

"Certamente, demos a Boa Direção [o Corão] a Moisés e demos o Livro em herança aos filhos de Israel" (Surata XL, 52-53). "Nós demos o Livro a Moisés. (Não tenhas dúvida em encontrá-lo) pois o colocamos como boa direção para os Filhos de Israel" (Surata XXXII, 23).

Eu poderia dar-lhe muitas outras citações, mostrando que Deus não deu o Livro a Maomé, e sim a Moisés. O Maometismo é uma mera seita judaica, por isso ele é contra a Divindade de Nosso Senhor Cristo.

Eu não estou dizendo que a interpretação de Fedeli sobre essas passagens do Corão está errada. Estou apenas mostrando a incongruência e enorme autocontradição de alguém que afirma que os evangélicos não podem interpretar o livro “deles” (dos católicos), mas que ele, como católico, tem todo o direito do mundo de fazer interpretação do livro “deles” (dos muçulmanos)! Fedeli perde toda a moral quando tenta fazer isso. Um evangélico poderia interpretar tranquilamente, mas um católico, se quisesse ser coerente com suas próprias falácias, deveria simplesmente se limitar a calar a boca quando se mete a discutir sobre os “livros dos outros”.

Partindo desta mesma premissa, e veja só que ironia, os católicos não teriam o direito de interpretar o que eu escrevo nos meus livros, nem o que eu escrevo nos meus artigos, somente eu que teria este direito! Assim, se por exemplo um dia eu disser em algum site para que o pessoal vote no PT (Deus me livre!, mas tome isso como somente um exemplo hipotético!), os católicos não teriam nenhum direito para dizer que eu mandei votarem no PT, porque quem interpreta meus textos sou eu, e eu poderia me safar com qualquer interpretação cabulosa, do mesmo estilo das interpretações caquéticas que eles dão aos textos bíblicos – poderia até dizer que, na verdade, a “correta interpretação” é que eu mandei votar no PSDB!

Se por um lado a razão e o bom senso estão do nosso lado, por outro lado cabe observar que eles têm outros “argumentos” na manga que chegam a ser mais ridículos ainda – assustadoras tentativas desesperadas em tentar “provar” a mesma coisa. i.e, que os não-católicos não podem ler e/ou interpretar as Escrituras, porque eles são os “donos do Livro”. Eles se parecem com aquelas crianças marrentas que, possuindo a bola do jogo, não suportam perder a partida de futebol em seu próprio quintal, então pegam a bola, a seguram nos braços e dizem que “não tem mais jogo”.

Basicamente, o argumento mais comum empregado por eles é o de que os concílios de Hipona (393) e de Cartago (397) decidiram quais livros estariam na Bíblia, e, portanto, a Bíblia está na “posse” de quem tinha autoridade sobre esses concílios – no caso, eles mesmos (segundo eles próprios, é claro). O “raciocínio” é mais ou menos o seguinte:

a) Os concílios de Hipona e Cartago decidiram os livros que seriam considerados “Bíblia”.

b) Estes concílios eram concílios da Igreja Católica Romana.

c) Portanto, a Bíblia e a sua interpretação estão confinadas unicamente a essa igreja. Se você não é desta igreja, cale a boca e escute o que o papa tem a dizer.

Há mais brechas em cada um destes pontos do que em um queijo suíço. Vou enumerar aqui pelo menos três graves erros neste silogismo falacioso, embora existam bem mais.


Erro 1 – Qual Igreja?

Sim, qual?

Os católicos romanos vão responder: “A nossa, é claro!”, mas se esquece de que os católicos ortodoxos vão responder a mesma coisa, mas em relação à igreja deles, logicamente! Até poucos dias atrás eu estava debatendo por e-mail com um católico ortodoxo, com uma distinta erudição e um notável conhecimento, mas que falhava exatamente neste mesmo aspecto em que os católicos romanos falham. Ele também usava isso como argumento. Ele também dizia que devemos “seguir a interpretação da Igreja” porque “a Bíblia é filha da Igreja”. A diferença é que em momento nenhum ele estava falando da Igreja Romana, a qual ele também admitia que é uma igreja desviada da verdade. Ele estava falando da igreja dele. Da Igreja Católica Ortodoxa.

E da mesma forma que ele não conseguiu provar que estes argumentos levam irremediavelmente à Igreja Católica Ortodoxa, um católico romano não consegue provar que estes mesmos argumentos levam irremediavelmente à Igreja Católica Romana. Ambos são destruídos pela mesma falácia lógica, que é tomar o termo “Igreja” como a Igreja dele, a priori. O católico romano presume que essa “Igreja” que é a “dona” da Bíblia é a Igreja Romana, e o católico ortodoxo também presume que essa “Igreja” que é a “dona” da Bíblia é a Igreja Ortodoxa. Ambos são muito “presumidos”, mas nenhum deles consegue provar o seu ponto, porque é impossível.

O católico então poderia argumentar: “Siga a tradição que você chegará à Igreja!”. Mas qual tradição? A tradição ortodoxa que diz que o purgatório não existe, ou a tradição romana que diz que ele existe? A tradição que diz que devemos aceitar 21 concílios ou a que diz que devemos aceitar apenas sete? A tradição que diz que o bispo romano é “infalível” ou a que nega isso? A tradição que ensinou por séculos a existência do “limbo” (antes do papa Francisco exterminar com ele) ou a que sempre negou isso? A tradição que diz que o batismo é por aspersão ou a que diz que é por imersão? A tradição que diz que a comunhão deve ser feita com ambos os elementos ou aquela que diz que é somente com a hóstia? A tradição que diz que somente 1ª e 2ª Macabeus são canônicos ou aquela que diz que 3ª e 4ª Macabeus também são? A que diz que existe um juízo ou a que diz que existem dois? A que diz que o padre não pode se casar ou a que diz que pode? A que permite imagens de escultura ou a que só admite ícones? A que diz que devemos comemorar a Páscoa no Domingo ou a que diz que é em 14 de Nisã? E a cláusula filioque? E a autoria da carta de Hebreus?

Nem o católico romano nem o católico ortodoxo estão realmente interessados em responder a todas estas questões usando a “tradição”, porque eles sabem que o apelo à tradição não resolve nada, apenas aumenta os problemas pela frente. Não há como uma mesma “tradição incorruptível” dizer coisas tão diferentes. A “tradição” claramente foi corrompida com o passar do tempo. Isso é fato, não é teoria. É por essa razão que tanto os romanos quanto os ortodoxos apenas querem empurrar a sua tradição como “verdadeira” a priori, sem se preocupar em provar que essa tradição em questão é a tradição certa. Mesmo se eu quisesse seguir toda a “tradição” amanhã, não faria a mínima ideia de qual delas deveria seguir, se a romana, se a ortodoxa, se uma mescla das duas ou se nenhuma das duas!

Os católicos romanos costumam apelar também ao fato de os bispos romanos serem “sucessores de Pedro”, o que lhes garantiria ser os “donos” da bola. Mas este raciocínio é um completo nonsense, por duas razões. A primeira já era apontada por Calvino há quinhentos anos, que já destruía o primado romano com um parágrafo:

“Agora lhes farei outra concessão, a qual jamais obterão dos homens de mente sã – isto é, que a primazia da Igreja foi fixada em Pedro, com vista a permanecer para sempre por sucessão perpétua. Contudo, como convencerão que sua sé foi colocada em Roma, que quem quer que fosse bispo dessa cidade presidiria ao mundo inteiro? Com que direito vinculam a um lugar esta dignidade que foi dada sem menção de lugar? Dizem que Pedro viveu em Roma e aí morreu. Que dizer do próprio Cristo? Porventura não exerceu em Jerusalém o episcopado, enquanto lá viveu, e ao morrer aí não consumou o ofício de seu sacerdócio? O Príncipe dos pastores, o Bispo Supremo, a Cabeça da Igreja não pôde adquirir essa honra para um lugar; Pedro, muito inferior a ele, o adquiriu? Porventura tais sandices não são mais que pueris? Cristo conferiu a Pedro a honra do primado; Pedro sediou-se em Roma; logo, aí estabeleceu a sede do primado. Seguramente, com este arrazoado, os israelitas de outrora devem constituir a sede do primado no deserto, onde Moisés, mestre supremo e príncipe dos profetas, exercera seu ministério e morreu [Dt 34.5]” (Calvino, Institutas, 4.6.11)

Xeque-mate!

O segundo grande problema com esta teoria é que os bispos ortodoxos também são sucessores de Pedro, porque a história conta que Pedro tornou-se primeiramente bispo de Antioquia, território da Igreja Ortodoxa. Há até uma lista de sucessão apostólica que vai desde Pedro até o atual patriarca Ignatius Zakka I Iwas, que você pode conferir clicando aqui. Portanto, este argumento papista também não muda nada. Não prova que a igreja deles que é a “dona” da Bíblia e que a tradição deles que está correta.

Para piorar ainda mais as coisas, os dois concílios mencionados por eles, em Hipona e em Cartago, eram concílios administrados no território hoje pertencente à Igreja Ortodoxa, e não da Igreja Romana! A sucessão apostólica de Hipona e Cartago remete às igrejas ortodoxas e não à romana. Se alguém tem o “direito” de reivindicar algo aqui, são os ortodoxos e não os romanos! Por comparação, imagine se o concílio que decidisse o cânon bíblico fosse um concílio romano. Quem teria mais direito de reivindicar algo? Pena que não é.


Erro 2 – Igreja é superior à Bíblia porque definiu o cânon da Bíblia?

O segundo grande erro na argumentação católica-romana é um non sequitur: para eles, se a Igreja (que eles não podem dizer qual é, apenas afirmam e o tomam como verdade a priori) definiu o cânon da Bíblia, então a Igreja é superior à Bíblia. Mas isso é um completo non sequitur, i.e, uma conclusão que não segue as premissas. Deixe-me ilustrar isso com alguns exemplos, a começar com o próprio papa. Se eu perguntar a um romanista: quem é maior – o papa ou os cardeais? É óbvio que ele vai responder que é o papa. O papa, na hierarquia católica, tem mais autoridade que um cardeal. Contudo, o papa é definido pelos cardeais, que elegem o papa.

Se os cardeais podem definir em conjunto quem será o papa, e mesmo assim o papa tem autoridade maior que os cardeais, por que uma igreja não poderia definir um cânon bíblico que seria superior a ela mesma?

Ainda neste raciocínio, se eu perguntar novamente: quem é maior – a Presidente da República ou nós, simples eleitores brasileiros? É lógico que a presidente tem mais autoridade do que eu e você. A presidente tem poder e autoridade para fazer um milhão de coisas que eu e você não temos. Eu não assaltaria a Petrobras, por exemplo. Ela pode. E faz. Então ela tem mais autoridade sobre o destino do Brasil do que os eleitores, os brasileiros comuns. No entanto, somos nós quem a elegemos e a colocamos lá!

Se nós, brasileiros comuns, podemos decidir em conjunto quem será o presidente do nosso país, e mesmo assim este presidente tem mais poder do que os brasileiros comuns, por que os bispos de Hipona e Cartago não poderiam decidir em conjunto quais livros eram canônicos, e mesmo assim estes livros canônicos terem mais autoridade e poder do que eles?

O argumento católico, portanto, trata-se de um non sequitur. Ele presume que, se alguma igreja definiu o cânon bíblico, então essa igreja tem mais autoridade do que a própria Bíblia, de forma que a Bíblia seja apenas uma “filha” desta igreja. Isso é uma falácia total. Eles não são capazes nem de provar qual é essa igreja, e mesmo assim querem colocar essa igreja acima das Escrituras, que já existia muito antes dela!


Erro 3 – A Igreja determinou ou reconheceu o cânon da Bíblia?

O terceiro grande equívoco papista toca no ponto nevrálgico disso tudo: a Igreja não determinouquais livros seriam canônicos (inspirados), mas somente reconheceu quais livros já eram canônicos. Isso é algo que eu abordo com mais profundidade em meu livro "Em Defesa da Sola Scriptura", o qual eu recomendo que todos leiam (há opção de download do e-book completo e gratuito). O próprio Agostinho já dizia:

“Na questão das Escrituras canônicas, ele deve seguir a autoridade do maior número de igrejas católicas, entre as quais estão aquelas que merecem ocupar assentos apostólicos e receber epístolas. Ele observará essa regra a respeito das Escrituras canônicas: preferirá aqueles pontos aceitos por todas as igrejas católicas, e não as que alguns não aceitam; entre aqueles que não são aceitos por todos, ele deve preferir aqueles que são aceitos pelo maior número de igrejas importantes, em vez de apoiados por poucas igrejas pequenas de autoridade inferior. Se ele descobrir que alguns são mantidos pela maioria das igrejas, outros pelas igrejas de autoridade com maior peso, ainda que esta condição não seja plausível, deve manter para que haja igual valor”[1]

Note que Agostinho, ao escrever sobre o cânon (quais livros eram considerados canônicos e quais não eram), em momento nenhum diz que é a Igreja de Roma que define a questão, ou que há um magistério infalível romano que determina quais livros são inspirados e quais não são, ou que há um papa universal na Igreja que define a questão em ex cathedra fazendo uso das chaves do Reino dos céus. Não. O que ele diz vai contra tudo isso, pois ele simplesmente fala para o povo seguir o maior consenso nas igrejas locais.

Como o Dr. Robert Godfrey observa, “essa confirmação mostra que Agostinho não dependia de papas e concílios para a solução da questão do cânon. Ele reconhecia a variedade entre as igrejas, e a conveniência de uma pluralidade delas. Incentivava todos os estudantes da Escritura a examinarem a questão e observava o consenso espontâneo entre o povo de Deus”[2].

Em outras palavras, ao invés de Agostinho dizer que o cânon bíblico é definido por uma declaração oficial da Igreja Romana ou por um papa infalível, ele pede para que as pessoas sigam um consenso geral entre os cristãos da época, preferindo aceitar como canônicos os livros que a maioria considera canônicos. Ele seguia claramente o princípio reformado de que o cânon bíblico é auto-autenticável, ou seja, que a Igreja (cristãos) não determinaum cânon, mas reconhece um cânon, pois os livros realmente inspirados dão testemunho interior pelo Espírito Santo de que são inspirados.

Assim sendo, enquanto para os papistas a Igreja define quais livros são inspirados e quais não são, para os cristãos evangélicos a Igreja apenas reconhece aqueles livros que já eram inspirados muito antes de ela reconhecer isso. Não cabe à Igreja determinar nada, mas apenas reconhecer o que foi previamente determinado pelo Espírito Santo na inspiração de cada livro. Como o Espírito Santo habita nos cristãos, deve haver um consenso geral entre os cristãos acerca dos livros inspirados, o que nos leva a reconhecer tais livros como canônicos. Era assim que Agostinho (e os reformados) cria.

Os evangélicos creem que o Evangelho de Lucas já era inspirado e canônico desde o primeiro momento em que Lucas o escreveu. Ele não se tornou inspirado ou canônico somente quando algum concílio definiu isso. A inspiração, inerrância, canonicidade e infalibilidade de cada livro sagrado da Bíblia são garantidas à par de qualquer concílio ou decisão particular. Cabe à Igreja apenas reconhecer essa inspiração. Quando a maioria entra em um consenso sobre a inspiração dos livros, é porque o Espírito Santo os direcionou a este fim.

Os católicos romanos, ao contrário, creem que foram os concílios e a autoridade da Igreja Romana e do papa que decidiram quais livros seriam inspirados e quais não seriam. Assim sendo, se a Igreja de Roma não dissesse que o Evangelho de Lucas é inspirado, ele não seria. Como disse, então é. Eles invertem a lógica e fazem a Bíblia submissa a uma instituição particular. E, logicamente, eles fazem com que essa instituição particular seja a Romana.

Para citarmos um exemplo de como funciona o paradigma que separa evangélicos de romanistas neste ponto, pense na gravidade. A Lei de Gravitação Universal é atribuída a Isaac Newton, mas ninguém seria insano de dizer que foi Newton que criou a gravidade ou que definiu que a gravidade existiria ou não. Newton apenas reconheceu a existência da gravidade, e sua teoria foi confirmada pelos outros cientistas desde então.

Ou então pegue o caso de Cristóvão Colombo e sua descoberta da América em 1492. Podemos dizer que a partir de então os europeus reconheceram a existência das Américas, mas seria leviano se alguém dissesse que Colombo decretou a existência das Américas ou que a existência das Américas depende da descoberta de Cristóvão Colombo.

É a mesma coisa que ocorre na questão do cânon. Da mesma forma que Newton não decretou a existência da lei gravitacional e que Colombo não definiu a existência do continente americano, a Igreja não definiu a existência do cânon, mas apenas reconheceu quais livros eram inspirados. Isso explica facilmente o porquê que nenhum apóstolo ou Pai da Igreja esperou até o final do século IV para surgir um concílio que definiria o cânon da Bíblia para só depois dizer quais livros eram de fato Escritura. Eles já os reconheciam desde sempre.

Pedro chamou os escritos de Paulo de Escritura, junto ao Antigo Testamento:

“Suas cartas contêm algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, como também o fazem com as demais Escrituras, para a própria destruição deles” (2ª Pedro 3:16)

E Paulo citou um trecho do Evangelho de Lucas como sendo Escritura também:

“Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: ‘Não amordaces o boi, quando pisa o trigo’. E ainda: ‘O trabalhador é digno do seu salário’” (1ª Timóteo .5:18)

Nenhum deles pensou: “eu vou esperar até que a Igreja faça um concílio e defina a extensão do cânon para saber quais livros são Escritura e quais não são, porque a Bíblia é filha da Igreja”. Pelo contrário. Eles muito antes do Concílio de Hipona (393) e de Cartago (397) já diziam que os escritos apostólicos eram Sagrada Escritura. Para eles, a sacralidade, inspiração e canonicidade da Bíblia não dependem de concílios, senão nenhum deles teria chamado aqueles livros neotestamentários de “Escritura” há mais de trezentos anos antes de qualquer concílio que tratasse a questão.

Policarpo, o discípulo do apóstolo João, também já reconhecia desde os fins do século I que os escritos de Paulo eram considerados Escritura, pois disse:

“Creio que sois bem versados nas Sagradas Letras e que não ignorais nada; o que, porém, não me foi concedido. Nessas Escrituras está dito: ‘Encolerizai-vos e não pequeis, e que o sol não se ponha sobre vossa cólera’. Feliz quem se lembrar disso. Acredito que é assim convosco’[3]

O texto citado por Policarpo não se encontra em outro lugar da Bíblia a não ser em Efésios 4:26, considerado por Policarpo como “Sagradas Letras” e “Escrituras”, a despeito de qualquer definição papal ou de qualquer concílio sobre o cânon. Orígenes inclusive disse:

“O Espírito Santo, porém, não cuidou apenas das Escrituras compostas até ao advento de Cristo; mas sendo um e o mesmo Espírito, e procedendo de um mesmo Deus, procedeu de igual modo com os evangelistas e apóstolos”[4]

Jerônimo, também antes dos concílios de Hipona e Cartago, citou uma lista com todos os livros do Novo Testamento como sendo Escritura:

Tratarei brevemente do Novo Testamento. Mateus, Marcos, Lucas e João são a equipa quádrupla do Senhor, os verdadeiros querubins ou depósito de conhecimento (...) O Apóstolo Paulo escreve a sete igrejas (pois a oitava epístola, aos Hebreus, não é geralmente contada com as outras). Instrui Timóteo e Tito; intercede ante Filemom pelo seu escravo fugitivo (...) Os Atos dos Apóstolos parece relatar uma história sem adorno e descrever a infância da igreja recém-nascida, mas uma vez que nos damos conta que o seu autor é Lucas, o médico cujo louvor está no evangelho, veremos que todas as suas palavras são remédios para a alma doente. Os apóstolos Tiago, Pedro, João e Judas produziram sete epístolas, ao mesmo tempo espirituais e concisas. O Apocalipse de João tem tantos mistérios como palavras. Ao dizer isto, disse menos do que o livro merece”[5]

A mesma coisa fez Atanásio, ao citar em meados do século IV uma lista de livros neotestamentários considerados Escritura, também décadas antes de Hipona e Cartago:

“Não é tedioso repetir os [livros] do Novo Testamento. São os quatro Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Em seguida, o Atos dos Apóstolos e as sete Epístolas [chamadas ‘católicas’], ou seja: de Tiago, uma; de Pedro, duas; de João, três; de Judas, uma. Em adição, vêm as 14 Cartas de Paulo, escritas nessa ordem: a primeira, aos Romanos, as duas aos Coríntios, uma aos Gálatas, uma aos Efésios, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, uma aos Hebreus, duas a Timóteo, uma a Tito e, por último, uma a Filemom. Além disso, o Livro da Revelação de João”[6]

Em vista de tantas declarações categóricas da canonicidade dos livros bíblicos muito antes de qualquer definição em concílio ou de qualquer papa se manifestar sobre a questão nos mostra que o sistema reformado está anos-luz à frente na análise da questão do cânon do que o ultrapassado sofisma papista, que inverte a questão para seu próprio benefício, tornando a Bíblia menor que uma instituição religiosa.


Conclusão

A Bíblia não é “filha” de igreja nenhuma, e nenhuma igreja pode ter a audácia e a soberba de se autoproclamar a “dona” da Bíblia e a única que tem autoridade para lê-la ou interpretá-la. Colocar as Santas Escrituras abaixo de uma instituição religiosa em particular e dizer que os livros da Bíblia só seriam inspirados se uma instituição em particular decidisse que eles são inspirados é uma blasfêmia contra o Espírito Santo que a inspirou, blasfêmia contra os autores sacros que a escreveram, e, acima de tudo, blasfêmia contra as próprias Escrituras Sagradas, o que só poderia vir daquele mesmo grupo que sempre perseguiu, caçou, queimou e exterminou quem a traduzia para a língua do povo para que este tivesse acesso ao conhecimento e à verdade, nestes termos:

“Proibimos os leigos de possuírem o Velho e o Novo Testamento... Proibimos ainda mais severamente que estes livros sejam possuídos no vernáculo popular. As casas, os mais humildes lugares de esconderijo, e mesmo os retiros subterrâneos de homens condenados por possuírem as Escrituras devem ser inteiramente destruídos. Tais homens devem ser perseguidos e caçados nas florestas e cavernas, e qualquer que os abrigar será severamente punido” (Concílio de Tolosa, Papa Gregório IX, Ano 1229, Cânone 14:2)

Louvado seja o Senhor Jesus Cristo pelo fato da Bíblia Sagrada não ser uma “posse” desta mesma igreja que determinou isso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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[1] On Christian Doctrine, Livro 2, seção VIII (Nova York: Liberal Arts Press, 1958), p. 41.

[2]GODFREY, Robert. Sola Scriptura: Numa época sem fundamentos, o resgate do alicerce bíblico. Editora Cultura Cristã: 2000,  p. 30.

[3]Policarpo aos Filipenses, 12:1.

[4]De Principii, 4:16.

[5]Carta LIII. Em Philip Schaff e Henry Wace, Editors: A Select Library of Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, Second Series [1892]. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, Reimpresión, 1991; 6:101-102.

[6]Epístola 39, 5.

41 comentários:

  1. Católicos usam bastante (2ª Pedro 3:16) para falar do livre-exame e dizer que só a Igreja deles tem autoridade de compreender e interpretar corretamente sem dar condenação.

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    1. Vejamos:

      “Assim, temos ainda mais firme a palavra dos profetas, e vocês farão bem se a ela prestarem atenção, como a uma candeia que brilha em lugar escuro, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça no coração de vocês. Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (2ª Pedro 1:19-21)

      No contexto da passagem vemos que Pedro não estava falando nada contra o livre-exame, mas sim que nenhuma profecia teve origem na vontade humana do próprio profeta, mas proveio de Deus. Os contextos anterior e posterior confirmam essa posição. Nos versos 16-19, o assunto em questão é a origem da mensagem profética. Teve origem nas imaginações e invenções humanas ou proveio de Deus?

      No verso 21, o assunto também são as origens. Nenhuma profecia bíblica proveio de interpretação meramente humana das coisas. Esse modo de entender o verso 20 é apoiado, ainda, pelo “pois” explicativo que inicia o verso 21. O verso 21 explica o verso 20 reafirmando o seu conteúdo, para, em seguida, declarar que Deus é a origem da profecia.

      Portanto, o que Pedro estava dizendo aí não é que “só eu, o papa, e meu magistério aqui de Roma podemos interpretar as coisas, e vocês estão sujeitos a nós”; mas sim que a profecia dos profetas do Antigo Testamento não era invenção humana, não proveio deles mesmos, mas da vontade e designo de Deus.

      Eu escrevi sobre o livre-exame na Bíblia neste artigo:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2012/08/o-livre-exame-apoiado-pela-biblia.html

      E sobre o "livre-exame" católico neste:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2014/04/o-livre-exame-catolico.html

      Abraços.

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  2. As vezes me questiono: Os bispos negaram a fé por causa do mundo ou foi o mundo que entrou no meio da igreja de forma sorrateira? Enquanto a igreja estava sendo desprezada pelo mundo ela mantinha a fidelidade e o Somente a Escritura. Quando Constantino se "converteu" percebemos uma queda doutrinária brusca. Alguém percebeu que Constantino não foi convertido por nenhuma pregação? Ele diz ter tido uma visão, na qual Jesus Cristo disse que com o sinal da visão ele venceria uma batalha. Ou seja, o Príncipe da Paz teria incentivado um homem a ir para guerra e aniquilar pessoas... Por quê os Bispos não perceberam isso? Afinal, os cristão perseguidos eram assassinados sem fazer mal a ninguém! Não podemos confundir essa conversão de Constantino com a de Paulo. Lá Jesus Cristo o converteu e cessou a perseguição que esse homem fazia aos irmãos. Mas, Constantino foi instado a guerrear e vencer!
    Está claro que não foi Jesus Cristo quem fez Constantino ter aquela visão. Se é que Constantino realmente teve! E, se teve, talvez tenho uma pista do verdadeiro autor da visão de Constantino:
    Isso me lembra:
    E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz.
    2 Coríntios 11:14
    Mas ainda que nós ou um anjo do céu pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!
    Gálatas 1:8
    O mundo entrou na igreja por causa deste protótipo de anticristo. Os bispos que tinham zelo pela Escritura, passaram a ter zelo por uma falsa tradição e fascinação em impor o que pensavam. Criaram algo novo: Escritura, Tradição e Magistério. Sendo os dois últimos superior às Escrituras Sagradas. Parece até que queriam uma espécie de trindade! Só tem um problema: Essa trindade não entra em acordo! A tradição não concorda com boa parte das Escrituras, e da mesma maneira o Magistério. Então a igreja caiu em Apostasia.

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    1. Isso sem falar que Constantino mandou matar o seu filho, sufocou a sua mulher, estrangulou o marido da sua irmã e chicoteou até à morte o filho de sua irmã:

      http://arqueo.org/romano/imperador-constantino.html

      Que belo "cristão" ele era!

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  3. olá Lucas!
    você poderia comentar sobre este artigo?
    http://www.ofielcatolico.com.br/2005/10/sociedade-biblica-do-brasil-publica.html

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    1. Há poucos dias atrás levantaram a mesma questão, e eu republico aqui a resposta:

      kkkkkkkkkkkkk eu fui lá no site do cara pra ver esse tal artigo aí, e vi que era O MESMO que o Fernando Nascimento publicou no blog dele (http://fimdafarsa.blogspot.com.br/2012/03/sbb-publica-septuaginta-e-acaba-mentira.html), inclusive com o mesmo título, e com os mesmos argumentos. O malandro apenas trocou algumas palavras e acrescentou alguns argumentos clichês inúteis que todo católico usa e colocou o nome dele no final. Plágio descarado!

      Na época outra pessoa tinha vindo falar comigo sobre esse artigo, e eu repasso aqui o que eu havia respondido:

      Todo o argumento do pimpolho está baseado no suposto fato de que a Septuaginta atribui "canonicidade" aos livros apócrifos. PURA MENTIRA!

      Existem três manuscritos famosos da Septuaginta, sendo eles: (a) Códice Alexandrino; (b) Códice Vaticano; (c) Códice Sinaítico. Sabe quantos deles colocam na Septuaginta TODOS os livros apócrifos católicos sem exceção, sem adicionar nenhum outro livro não-canônico para os católicos?

      A resposta é: ZERO!

      Isso o Fakenando não diz, seja por desonestidade ou por pura ignorância mesmo.

      O Códice Alexandrino possui os livros de 1 Esdras, 3 e 4 Macabeus, 1 e 2 Clemente e Salmos de Salomão, que a Igreja Romana não considera parte da Sagrada Escritura. O Códice Vaticano possui o livro de 1 Esdras, também apócrifo, que não faz parte do cânon icariano. E o Códice Sinaítico possui os livros de 4 Macabeus, Epístola de Barnabé e O Pastor de Hermas, que também não são considerados inspirados pela ICAR.

      Além disso, o Códice Vaticano EXCLUI os dois livros dos Macabeus, deixando-os de fora, e o Códice Sinaítico não tem os apócrifos de Baruque e 2ª Macabeus.

      Ou seja: para o lixo este argumento fajuto. Septuaginta nunca foi um "cânon" próprio, mas apenas a tradução de livros que aqueles judeus alexandrinos consideravam históricos ou religiosos, que serviam para a edificação, ainda que não necessariamente canônicos. Se fossem canônicos, então a própria Igreja Católica teria que MUDAR TOTALMENTE o cânon dela, o que ela não vai fazer, obviamente.

      E pra acabar de uma vez, o fake pimpolho ainda solta essa pérola aqui:

      "Os mesmos protestantes que retiraram os sete livros da bíblia acima, agora malandramente, na Casa da bíblia, estão vendendo a Septuaginta, que contém os sete livros que tiraram, por: R$ 122,40 no endereço: http://www.casadabibliaonline.com/p/biblia-septuaginta.html Ora, informamos aos protestantes ludibriados pela SBB, que no endereço católico: http://www.livrariaaparecida.com.br/biblias/biblia-media-ave-maria/3200/ qualquer cristão adquire uma bíblia completa como sempre foi, por apenas R$ 18,90."

      Essa é pra morrer de rir. Será que o cidadão ainda não percebeu que a Septuaginta "protestante" é mais cara PORQUE ESTÁ EM GREGO, igual os originais, e não em português???

      Meu Deus, é muito amadorismo. Esse cara é uma piada.

      Se você quiser ler mais sobre isso, confira este artigo:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/10/a-lenda-do-canon-alexandrino.html

      Abs.

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  4. obrigado pela explicação Lucas fique com DEUS!!

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  5. Permita-me rebater seu comentário.
    Compreendo que é difícil imaginar a Igreja sem a Bíblia, confesso que pra mim que cresci em uma igreja evangélica também era assim, mas vamos pontuar algumas questões, pois percebo que o artigo tem alguns conceitos pré-definidos, fora de uma investigação imparcial.

    O primeiro ponto é que é fato que a Igreja que se reunía no tempo dos apóstolos não era similar a nenhuma encontrada hoje, pois o grupo dos apóstolos eram tidos como dissidentes do judaísmo. Porém, com o tempo essa "seita judaica" foi crescendo, ganhando terreno e tomando forma.
    A tese das comunidades autônomas cai por terra pelo simples fato de vermos, por exemplo, São Paulo dando conselhos a alguns grupos de algumas cidades, logo, se ele tinha levado o evangelho para aquele lugar ele era a autoridade sobre o que havia ensinando. Essa autoridade referencial, foi tomando forma com o tempo. Já no século II vemos São Clemente, Bispo de Roma, do mesmo modo dando conselhos. Enfim, a Igreja foi encorpando e tomando forma de uma religião organizada. No século IV com o Édito de paz à fé cristã, o Estado se associou ao comando da Igreja, e a partir de então a organização da Igreja passou a ser mais consistente, apesar de que isto já existia;
    Havia um entendimento mútuo em que o Bispo de Roma, em simultaneidade com outros 4 Bispos, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, estavam em comum acordo e que teriam que se consultar mutuamente para definir a administração canônica da Igreja.
    Contudo, questões políticas influenciaram a ruptura total em 1054.
    Mas meu caro, perceba que dizer que existe divergências entre as quatro sedes Ortodoxas e Roma é totalmente absurdo. Houve uma discordância, motivada por questões políticas, já desfeitas no Concílio Vaticano II, infelizmente quase 1.000 anos depois, e as diferenças de costumes que aparentam divisão entre as Igrejas Romanas e Ortodoxas, são questões culturais. Os dogmas, a doutrina e os ensinos de modo geral, subscrevem a Tradição já existente desde o tempo dos Apóstolos.

    O segundo ponto, é que em momento algum Deus desceu dos céus e disse quais eram os livros que deveriam conter o livro sagrado do Cristianismo. O Espirito Santo guiou os primeiros cristãos para definir o Cânon. Contudo esse Cãnon só foi oficializado no Século IV, e é inegável que outros livros eram lidos antes disso de acordo com o costume e a região. Senão, deveríamos também considerar "O Pastor de Hermas", por exemplo que era grandemente difundido antes da definição do cânon. Assim o grupo de cristãos que definiu o Cânon é a Igreja de hoje, Romana e Ortodoxa.

    O terceiro ponto é que a Igreja determinou o Cânon porque ele não era uniforme, havia uma infinidade de evangelhos e livros que eram lidos em diversas cidades de modo diverso. A unificação do Cãnon fez parte desta solidificação daquilo que era uma seita judaica para uma religião mundial organizada.

    Entendo suas boas intenções com este artigo, mas é inegável que a Igreja "criou" a bíblia e não a bíblia quem criou a Igreja, pois o Cristianismo não vem de uma religião revelada, vêm de uma fé testemunhada. Os Apóstolos viram e falaram com Nosso Senhor Jesus Cristo então seus relatos passado de pessoa em pessoa é que embasaram a nosso fé. Da forma como você fala, fica parecendo que o Cristianismo está baseado em um livro apenas, e isto poderia fazer da nossa fé uma fantasia, porque um livro por si só não é prova de fatos.

    Um abraço e vamos correr atrás de muita informação. A fé protestante faz o mundo parecer 1+1=2, só que se você estudar história, verá que a Igreja Romana, ou a Ortodoxa são como são hoje por uma série de acontecimentos, e não por um único fato isolado num único dia. Só fazendo paralelos com outras religiões, por exemplo o judaísmo, é que você vai entender o que estou falando.

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    1. Seu texto possui um erro central e imperdoável, que deita por terra todo o argumento: a suposição de que não existe divergência doutrinária entre a Igreja Romana e a Ortodoxa, sugerindo que as duas são uma. Quando sim, elas existem, e existem em grande parte. Primeiro vamos ao que você disse:

      “Perceba que dizer que existe divergências entre as quatro sedes Ortodoxas e Roma é totalmente absurdo. Houve uma discordância, motivada por questões políticas, já desfeitas no Concílio Vaticano II, infelizmente quase 1.000 anos depois, e as diferenças de costumes que aparentam divisão entre as Igrejas Romanas e Ortodoxas, são questões culturais. Os dogmas, a doutrina e os ensinos de modo geral, subscrevem a Tradição já existente desde o tempo dos Apóstolos”

      Agora vamos à realidade:

      • A Igreja Ortodoxa só admite sete Concílios, enquanto a Romana adota vinte.

      • A Igreja Ortodoxa discorda da procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho; unicamente do Pai é que admite.

      • A Sagrada Escritura e a Santa Tradição representam o mesmo valor como fonte de Revelação, segundo a Igreja Ortodoxa. A Romana, no entanto, considera a Tradição mais importante que a Sagrada Escritura.

      • A consagração do pão e do vinho, durante a missa, no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, efetua-se pelo Prefácio, Palavra do Senhor e Epíclese, e não pelas expressões proferidas por Cristo na Última Ceia, como ensina a Igreja Romana.

      • Em nenhuma circunstância, a Igreja Ortodoxa admite a infalibilidade do Bispo de Roma. Considera a infalibilidade uma prerrogativa de toda a Igreja e não de uma só pessoa.

      • A Igreja Ortodoxa entende que as decisões de um Concílio Ecumênico são superiores às decisões do Papa de Roma ou de quaisquer hierarcas eclesiásticos.

      • A Igreja Ortodoxa não concorda com a supremacia universal do direito do Bispo de Roma sobre toda a Igreja Cristã, pois considera todos os bispos iguais. Somente reconhece uma primazia de honra ou uma supremacia de fato (primus inter pares).

      • A Virgem Maria, igual às demais criaturas, foi concebida em estado de pecado original. A Igreja Romana, por definição do papa Pio IX, no ano de 1854, proclamou como "dogma" de fé a Imaculada Concepção.

      • A Igreja Ortodoxa repele a agregação do "Filioque", aprovado pela Igreja de Roma, no Símbolo Niceno-Constantinopolitano.

      • A Igreja Ortodoxa nega a existência do limbo e do purgatório.

      • A Igreja Ortodoxa não admite a existência de um Juízo Particular para apreciar o destino das almas, imediatamente, logo após a morte, senão um só Juízo Universal.

      • O Sacramento da Santa Unção pode ser ministrado várias vezes aos fiéis em caso de enfermidade corporal ou espiritual, e não somente nos momentos de agonia ou perigo de morte, como é praticado na Igreja Romana.

      • Na Igreja Ortodoxa, o ministro comum do Sacramento do Crisma é o Padre; na Igreja Romana, o Bispo, extraordinariamente, o Padre.

      • A Igreja Ortodoxa não admite a existência de indulgências.

      • No Sacramento do Matrimônio, o Ministro é o Padre e não os contraentes.

      • Em casos excepcionais, ou por graves razões, a Igreja Ortodoxa acolhe a solução do divórcio.

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    2. • São distintas as concepções teológicas sobre religião, Igreja, Encarnação, Graça, imagens, escatologia, Sacramentos, culto dos Santos, infalibilidade, Estado religioso.

      • Na Igreja Ortodoxa, só se permitem ícones [imagens] nos templos.

      • Os sacerdotes ortodoxos podem optar livremente entre o celibato e o matrimônio.

      • O batismo é por imersão.

      • No Sacrifício Eucarístico, na Igreja Ortodoxa, usa-se pão com levedura; na Romana, sem levedura.

      • Os calendários ortodoxo e romano são diferentes, especialmente, quanto à Páscoa da Ressurreição.

      • A comunhão dos fiéis é efetuada com as espécies, pão e vinho; na Romana, somente com pão.

      • Na Igreja Ortodoxa, não existem as devoções ao Sagrado Coração de Jesus, Corpus Christi, Via Crucis, Rosário, Cristo-Rei, Imaculado Coração de Maria e outras comemorações análogas.

      • O processo da canonização de um santo é diferente na Igreja Ortodoxa; nele, a maior parte do povo atua no reconhecimento de seu estado de santidade.

      • Existem somente três ordens menores na Igreja Ortodoxa: leitor, acólito e sub-diácono; na Romana, quatro: ostiário, leitor, exorcista e acólito.

      • O Santo Mirão e a Comunhão na Igreja Ortodoxa se efetuam imediatamente após o Batismo.

      • Na fórmula da absolvição dos pecados no Sacramento da Confissão, o sacerdote ortodoxo absolve não em seu próprio nome, mas em nome de Deus—"Deus te absolve de teus pecados"; na Romana, o sacerdote absolve em seu próprio nome, como representante de Deus—"Ego absolvo a peccatis tuis...”

      • A Ortodoxia não admite o poder temporal da Igreja; na Romana, é um dogma de fé tal doutrina.

      • Os Dez Mandamentos: A Santa Igreja Católica Apostólica Ortodoxa conservou os dez mandamentos da Lei de Deus em sua forma original, sem a menor alteração. O mesmo não sucedeu com o texto adotado pela Igreja Católica Apostólica Romana, no qual os dez mandamentos foram arbitrariamente alterados, ficando totalmente eliminado o segundo mandamento e o último dividido em duas partes, formando dois mandamentos distintos. Esta alteração da Verdade constitui um dos maiores erros teológicos desde que a Igreja Romana cindiu a união da Santa Igreja Ortodoxa no século XI.

      • Fonte ortodoxa:
      http://p035454545.planetaclix.pt/bartholomeo.html

      •Fonte romana:
      http://www.tradicaoemfococomroma.com/2012/10/a-igreja-ortodoxa-e-o-culto-seus-santos.html

      Além disso, acrescento que os ortodoxos estão sob o anátema dos romanos, pois o Terceiro Catecismo Católico chama de “hereges” aqueles que não creem na imaculada conceição de Maria, e o Concílio de Trento lança um “anátema” (maldição) sobre aqueles que não aceitam o celibato obrigatório do clero. Portanto, embora haja diferenças menos substanciais, há diferenças doutrinárias profundas sim, como a negação aos dogmas da infalibilidade papal, do purgatório e da imaculada conceição de Maria, dentre outros. Não são a mesma igreja e nem tem um mesmo corpo doutrinário.

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    3. Você fala como se fizesse parte da Igreja Católica antiga (de antes do Cisma), mas essa Igreja Católica NÃO EXISTE mais. Ninguém hoje em dia faz mais parte desta igreja. Ou é da Igreja Romana, ou é da Igreja Ortodoxa, ou é Protestante. Uma vez que a Igreja Católica antiga já foi “rachada” ao meio, não tem mais sentido falar de uma forma com que pareça que ela ainda existe intactamente. A Igreja que RECONHECEU (não “determinou”) o cânon é a Igreja Católica antiga, não foi a Romana e nem a Ortodoxa, nem você nem eu fazemos parte desta igreja, por isso não faz sentido recorrer ao cânon para se provar uma ou outra.

      Além disso, Deus quando quer pode usar até uma jumenta pra falar com Balaão, e um rei pagão (Ciro) para libertar Seu povo. Ora, se ele pode usar uma jumenta e um rei pagão para os seus propósitos, sem fazer deles objeto de “autoridade final”, por que não poderia usar os cristãos do século IV também? Isso de modo nenhum contradiz o conceito de que a Bíblia é a autoridade máxima de fé. Como eu mostrei nas mais de 400 páginas do meu livro “Em Defesa da Sola Scriptura”, ESTES MESMOS Pais que reconheceram o cânon no século IV também adotavam a Sola Scriptura, ou seja, eles sabiam que uma coisa não invalida a outra.

      No mais, qualquer um sabe que o que é transmitido apenas oralmente tem o potencial de se corromper com a passagem do tempo. É por isso que as pessoas ESCREVEM, para fixar algo a fim de que a mensagem não se perca, não passando nem por acréscimos nem por subtrações. Até mesmo o que comprar no Supermercado a gente escreve num papelzinho para não se esquecer de nada, você acha mesmo que TODA A DOUTRINA APOSTÓLICA seria guardada incorruptível por séculos e mais séculos em todas as igrejas do Oriente e do Ocidente sem nenhuma alteração, se nada fosse passado por escrito? Se você ainda acha que sim, leia estes artigos onde eu mostro que não:

      http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/telefone-sem-fio-tradicao-oral

      http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/tradicao-apostolica

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/10/a-tradicao-oral-de-papias.html

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/11/o-milenarismo-dos-primeiros-pais-da.html

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/11/como-funciona-sola-scriptura-de-forma.html

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/10/a-tradicao-oral-de-abraao-e-sola.html

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    4. Bem como mencionei, são 2.000 anos de existência, então é claro que as Igrejas Romanas e Ortodoxas que existem não são a mesma. Houve uma série de adaptações culturais e sociais.
      Não podemos nos esquecer que Atenágoras I Patriarca de Constantinopla e o Santo Papa Paulo VI, em 1964, proclamaram a anulação da excomunhão mútua de 1054, sendo assim, apesar de traçar algumas brechas no catecismo e em outros documentos da Igreja, volto a dizer, as separações que existem já não são levadas em conta tal qual no passado, pois sobre ambas as Igrejas subsiste a Sucessão Apostólica, e antes que você me liste as outras comunhões ortodoxas, ressalto que o sucessor do mesmo Patriarca que proclamou excomunhão a Roma, é o mesmo que voltou atrás. Portanto, selando a paz, entre ambas: "...Não se pode fazer que estes acontecimentos não tenham sido o que foram neste período particularmente agitado da história. Mas hoje, quando se emitiu sobre eles um juizo mais sereno e justo, é importante reconhecer os excessos com que foram escurecidos e que deram lugar ulteriormente a conseqüências que, na medida em que nos é possível julgar disso, superaram as intenções e previsões de seus autores, cujas censuras se referiam às pessoas em questão e não às Igrejas e não pretendiam quebrar a comunhão eclesiástica entre as sedes de Roma e Constantinopla...o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I e seu Sínodo, seguros de expressar o desejo comum de justiça e o sentimento unânime de caridade de seus fiéis e recordando o preceito do Senhor: "Quando apresentes a sua oferenda no altar e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma queixa contra ti, deixa tua oferta ante o altar e vê primeiro a te reconciliar com teu irmão" (MT. 5, 23-24), declaram de comum acordo:
      a) Lamentar as palavras ofensivas, as recriminações sem fundamento e os gestos imperdoáveis que de uma e outra parte caracterizaram a acompanharam os tristes acontecimentos daquela época; b) Lamentar igualmente e apagar da memória e da Igreja as sentenças de excomunhão que lhes seguiram e cuja lembrança atua até nossos dias como um obstáculo à aproximação na caridade as relegando ao esquecimento; c) Deplorar, finalmente, os lamentáveis precedentes e os acontecimentos ulteriores que, sob a influência de diferentes fatores, entre os quais contaram a incompreensão e a desconfiança mútua, levaram finalmente à ruptura efetiva da comunhão eclesiástica."
      Mas a nossa discussão era sobre dizer que a bíblia tem a palavra final sobre a Igreja, a meu ver leia-se Romana e Orotodoxa.
      Quanto a isto meu caro, volto a repetir, a versões e traduções eram muitas difusas e distintas, variavam conforme o local e a cultura. Quem disse que os evangelhos seriam apenas os 4, contantes hoje, foi a Igreja no início de sua institucionalização. O que portanto, mostra, pela história e não por fé, fatos e não especulações, que a Igreja nos deu a Bíblia e não o contrário. Independente da minha ou da sua opnião, isto é o que aconteceu, cronologicamente.
      Se você usar a citação da lista de livros reconhecidos dos Bispos que prevaleceram na formação de uma Igreja mais robusta, vai parecer, errôneamente, que já havia um consenso sobre a bíblia, mas lembre-se o mundo não era globalizado, não tínhamos imprensa, e os meios de comunicação eram demorados e escassos. Portanto, um livro unificado, faz parte do projeto de uniformidade do cristianismo, e, sabe, não tem como duvidar que estes escritos, são dos Bipos de Roma e daqueles que estavam mais afinados com Roma, você deve saber que foram encontrados uma infinidade de Evangelhos e escritos que não estão na Bíblia, o que é a prova da falta de consenso na Igreja que só passou a existir a partir da Bíblia, ou seja, antes do século IV a Igreja existia, a bíblia não. É um contrasenso dizer o contrário.
      Abraços.

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    5. Eu não neguei que eles retiraram a excomunhão, o que eu disse é que são IGREJAS DIFERENTES, e que portanto não há como tratar as duas como se fossem uma coisa só. Se for assim, então até os luteranos compartilhariam da mesma “Igreja” dos católicos romanos, já que assinam tratados ecumênicos em comum acordo sobre justificação pela fé, e já que o catecismo católico atual afirma que os protestantes NÃO estão sob “pecado de divisão”, e ainda estão “incorporados em Cristo”, são “irmãos no Senhor” e “a justo título que se honram com o nome de cristãos”:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/12/catecismo-catolico-refuta-apologetica.html

      Isso faz com que protestantes e católicos romanos sejam o mesmo? É claro que não. Da mesma forma que a Igreja Romana não é a mesma Igreja que a Ortodoxa. São igrejas que se toleram, que dialogam, mas tem doutrinas, dogmas e governos distintos. Só haverá sentido em falar das duas como se fossem uma coisa só, no dia em que os ortodoxos aceitarem a infalibilidade papal e a jurisdição universal do bispo romano, estando submissos ao seu governo. Ou então no dia em que a Igreja Romana voltar atrás em todas as doutrinas e dogmas que acrescentou sem o consentimento da Igreja do Oriente. Essas duas coisas, obviamente, estão muito longe de se concretizarem.

      Sobre o argumento de que a Igreja criou a Bíblia porque reconheceu um cânon, eu volto a dizer o que já afirmei anteriormente e que não foi refutado por você em seu novo comentário:

      “A Igreja que RECONHECEU (não ‘determinou’) o cânon é a Igreja Católica antiga, não foi a Romana e nem a Ortodoxa, nem você nem eu fazemos parte desta igreja, por isso não faz sentido recorrer ao cânon para se provar uma ou outra. Além disso, Deus quando quer pode usar até uma jumenta pra falar com Balaão, e um rei pagão (Ciro) para libertar Seu povo. Ora, se ele pode usar uma jumenta e um rei pagão para os seus propósitos, sem fazer deles objeto de ‘autoridade final’, por que não poderia usar os cristãos do século IV também? Isso de modo nenhum contradiz o conceito de que a Bíblia é a autoridade máxima de fé”

      Além disso, seu argumento baseado nos evangelhos carece inteiramente de evidências. A Igreja NUNCA reconheceu “centenas de evangelhos” como sendo legítimos até o século IV. Pelo contrário, Irineu e Justino Mártir ainda no século II já falavam de APENAS quatro evangelhos, não mais e nem menos. Esses pseudos-evangelhos que você se refere eram, em sua esmagadora maioria, fraudes criadas pelos gnósticos para tentar competir com a Escritura já reconhecida pelos cristãos. A Igreja jamais chegou a sequer cogitar incluí-los em um “cânon”.

      Seu argumento baseado na autoridade do bispo de Roma, novamente, é falso. O bispo de Roma não teve qualquer papel da decisão do cânon no século IV. Os dois concílios que os católicos dizem que “definiu o cânon” (embora ele já estivesse definido naquela altura) foram dois concílios no norte da África, um em Hipona e outro em Cartago. Nenhum dos dois era da jurisdição do bispo romano, e nenhum deles teve a presidência ou sequer a participação do bispo romano ou mesmo de um legado papal. Nada de nada de nada. É só estudar a história. Na única vez em que um bispo romano tentou tratar da questão do cânon, em 382 d.C, o papa Dâmaso deixou de fora o livro de 2ª Coríntios no Concílio de Roma, e no entanto este cânon foi rechaçado e nem mesmo os católicos atuais o consideram, visto que validam 2ª Coríntios.

      Em suma, se apoiar no reconhecimento do cânon para validar uma igreja em particular como a Igreja Romana é absolutamente sofismável. O bispo de Roma não teve qualquer papel na “definição” do cânon, e, mesmo se tivesse, ele seria apenas um instrumento usado por Deus para este reconhecimento, e não uma “autoridade final e infalível” que estivesse acima da própria Bíblia. Já existia algo que era chamado de “Escritura” desde os tempos de Moisés, e, mesmo assim, você não acha que a autoridade final recai sobre os judeus, sobre o judaísmo ou sobre os rabinos atuais, acha?

      Abs.

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    6. Mas é isso que estou tentando dizer.
      Os escritos do AT foram validados por sábios judeus, ao longo dos tempos, mas o fato é: Alguém validou.
      Os concílio que você mencionou cita livros deuterocanônicos do AT, você também os aceita?
      Independente de quem falou o quê, alguém disse que seria assim e ponto.
      Antes de dizer a bíblia diz isso ou aquilo é preciso saber quem autentica a própria Bíblia. Não existe nenhum relato de Deus a tenha autenticado, o que leva-nos, portanto, a deduzir que os homens definiram. E quem são esses homens? Homens ligados a Igreja que o hoje está divida em dois Ramos Romano e Ortodoxo. Se a heresia dos protestante se iniciou em um padre cheio de si, Lutero, como podem ser considerados parte desta mesma igreja, se ele foi excomungado, o Luteranismo é um ramo solto do cristianismo, não está diretamente ligado.
      O ponto, caríssimo, é que existe sucessão apostólica em ambas as igrejas e só. São, portanto, as únicas herdeiras das primeiras igrejas, algo historicamente incontestável, ou senão, onde estavam os tais "verdadeiros" cristãos, quando do susposto início católico, alegado pelos protestantes, a partir de Constantino? Claro que em lugar nenhum, porque quando o Estado assumiu a Igreja foi com a concordância de todos os cristãos, ou boa parte deles.
      Se a Igreja de Roma e as Ortodoxas, não são a continuidade das primeiras comunidades, onde elas foram parar?
      Alguém criou a bíblia, a Igreja que hoje se divide em Romana e Ortodoxa.
      A bíblia é filha da Igreja e não o contrário.

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    7. Está sendo difícil entender sua “lógica”, já que você enfeita e muda o seu discurso a cada meio segundo, logo quando é refutado em algum ponto. Agora já conseguiu mudar o foco da discussão para a sucessão apostólica, logo após fracassar em provar que as igrejas Romana e Ortodoxa são uma coisa só...

      A sua própria lógica que o derruba. Você admite que os judeus que “validaram” o cânon do AT, mas, mesmo assim, você não é um judeu, nem crê que devemos buscar os sábios rabinos do século XXI como fonte de interpretação infalível do AT. A não ser que você além de ser “romano” e “ortodoxo” também seja “judeu”, e neste caso seria um Romano-Ortodoxo-Judeu... a coisa já está ficando engraçada.

      Pois bem: se os judeus reconheceram o cânon do AT e mesmo assim você crê que eles caíram em apostasia, por que você não admite a hipótese de uma igreja que supostamente reconheceu o cânon do NT tenha caído em apostasia também? Ah, já sei, isso só pode acontecer com os judeus, sua igreja “Romana+Ortodoxa” (que só existe na sua imaginação) é perfeita...

      Se nós não temos que buscar a interpretação dos rabinos judaicos quanto ao AT, por que temos que buscar a interpretação do papa romano ou do patriarca ortodoxo quanto ao NT? E mais: quem é que detém o título de autoridade infalível para interpretação bíblica? É o papa romano ou o patriarca grego? Sua pseudo-Igreja “Romana+Ortodoxa”, que você inventou em cinco minutos, é governada pelo papa ou pelo patriarca? Como você decide quem tem a interpretação certa, quando os dois entram em contradição? Afinal: o papa tem jurisdição universal ou não? O purgatório existe ou não? O dogma da imaculada conceição é verdadeiro ou falso? A quem eu tenho que recorrer nessas questões? Ao papa, ao patriarca ou a você, que inventou uma igreja metade romana e metade ortodoxa em pleno século XXI?

      Sua “lógica” é realmente lastimável. Lutero rompeu com o catolicismo romano, então não pode ser de Deus, mas o catolicismo romano rompeu com o catolicismo oriental, mas é de Deus assim mesmo. Quer dizer: rachas na Igreja só são válidos se for a TUA igreja que os causar. Senão não vale, é coisa do capeta...

      Sucessão apostólica? Quem foi que disse que este é um critério infalível para se chegar à verdade? Se sucessão apostólica garantisse a APOSTOLICIDADE DA DOUTRINA, então não haveria divergência entre as tais “sedes apostólicas”. E, no entanto, elas tem divergências tanto em questões de dogmas, como também em doutrinas e no próprio cânon. Será que os apóstolos pregavam doutrinas diferentes e contraditórias entre si? Ou será que sucessão apostólica não garante a apostolicidade (preservação) da doutrina, e que isso é algo tão óbvio que você não quer admitir por não ter nenhum argumento mais decente?

      E você pode me passar o nome do apóstolo que fundou a Igreja de Constantinopla, por favor? Essa era considerada uma das principais igrejas no século V, e no entanto não foi fundada por apóstolo nenhum, ela nem existia na época em que os apóstolos estavam vivos. E mesmo assim, nenhum Pai da Igreja foi insano em dizer que a Igreja de Constantinopla não era válida pelo simples fato de não ter sido fundada por um apóstolo e não ter, portanto, a tal linha sucessória...

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    8. O seu argumento sobre o cânon já foi refutado três vezes, mas você repete as mesmas falácias sem refutar nossa contra-argumentação. O papa não teve NENHUM papel no reconhecimento do cânon, e na única vez que ele se manifestou sobre o tema na igreja do século IV foi para ERRAR na lista do Concílio de Roma (382 d.C). E se seu argumento fosse minimamente decente, então a Bíblia seria filha dos JUDEUS, muito mais do que seria filha da “Igreja”. ¾ da Bíblia é AT, e apenas ¼ é NT. Se o seu argumento fosse válido, você não teria moral nenhuma pra vir aqui dizer que a Bíblia é filha da Igreja. Deveria dizer que ela é em suma maioria filha dos judeus, e se converter ao judaísmo em função disso. Como é que você não percebe que seus argumentos não tem lógica alguma?

      Eu nem vou perder tempo escrevendo mais coisas, porque o Bruno Lima já o refutou no comentário abaixo. Só quero destacar que se o seu próximo comentário for apenas a repetição exaustiva DOS MESMOS argumentos já refutados ao longo de todo este debate e que você os repete e repete e repete mesmo assim vez após vez, sem refutar nenhuma contra-argumentação e apenas querendo vencer na base da insistência e do cansaço, eu não terei nenhuma razão pra continuar discutindo aqui, visto que tenho coisas mais importantes pra fazer. Um debate presume uma contra-argumentação da outra parte, e não um repeteco de argumentos falidos que já foram anteriormente refutados.

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  6. https://www.youtube.com/watch?v=vaZAebXu4P8

    O que você acha, Lucas?

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    1. O mesmo que eu escrevi ao longo de todo este artigo e também no "debate" com o católico acima.

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  7. “o que é a prova da falta de consenso na Igreja que só passou a existir a partir da Bíblia, ou seja, antes do século IV a Igreja existia, a bíblia não. É um contrasenso dizer o contrário.”

    O Lucas já respondeu a maioria dos pontos, mas gostaria de adicionar outro. Este argumento de que a Bíblia só passou a existir a partir do século IV é uma falácia gritante.

    O argumento do nosso amigo católico é que o cânon somente foi determinado no séc. IV, portanto, antes disso, a Bíblia não existia.

    (1) O católico confunde a Bíblia com uma lista de conteúdo. Uma simples definição da Bíblia seria “conjunto de livros inspirados por Deus”. Os concílios do séc. IV não criaram este conjunto de livros, eles apenas reconheceram quais livros pertenciam a este conjunto. Todos os livros da Bíblia foram escritos até o fim do primeiro século, então, a Bíblia completa já existia muito antes do séc. IV. Se o católico romano levar a sério este argumento, teria que admitir a não existência da Bíblia até o séc. XVI, pois a definição dogmática a respeito do cânon só foi dada no Concílio de Trento.

    (2) Muitos antes dos Concílios de Hipona, Cartago e Trento, os Pais da Igreja já tinha produzido listas canônicas, com algumas divergências é verdade. Interessante notar que nenhum deles submeteu essas listas à sanção do bispo de Roma. Atanásio, antes dos concílios, já havia produzido uma lista idêntica de livros do Novo Testamento. Ele não foi o primeiro, antes dele, no séc. III, Orígenes nos deu a lista completa de livros:

    Assim também nosso Senhor Jesus Cristo (...) enviou seus apóstolos como sacerdotes, levando trombetas bem forjadas. Primeiro Mateus tocou a trombeta sacerdotal no seu Evangelho, Marcos também, e Lucas e João, cada um deu publicamente a força sobre suas trombetas sacerdotais. Pedro além disso soa com as duas trombetas de suas epístolas; Tiago também e Judas. Ainda assim, o número é incompleta, e João dá adiante o som da trombeta através de suas epístolas [e Apocalipse]; e Lucas ao escrever os atos dos apóstolos. Depois de todos, além desses, veio um que disse: "Eu acredito que Deus me fez como o último dos apóstolos" (1 Cor 4:9), e trovejando sobre as catorze trombetas de suas epístolas ele derrubou, mesmo para seus próprios fundamentos, o muro de Jericó, ou seja, todos os instrumentos de idolatria e os dogmas dos filósofos.

    (Hom. Josh. 7.1, as cited in Metzger, The New Testament Canon, 139)

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  8. (3) Por último, ainda que considerássemos que a Bíblia só passou a existir a partir da existência do cânon, não poderíamos afirmar que isso somente aconteceu no séc. IV. A Igreja não criou o cânon, apenas o reconheceu. O Criador do cânon é Deus e não o homem. Em sua infinita sabedoria, ele escolheu inspirar certos livros e não outros, a partir de então um cânon foi criado. Um escritor ao produzir um número x de livros automaticamente cria seu próprio cânon, ainda que ele não diga qual a lista de livros que escreveu. Caberá aos seus leitores apenas discernir quais livros são de sua autoria e assim chegar a lista canônica que já existia. Da mesma forma, a Igreja reconheceu o cânon criado por Deus. E isso o fez sem considerar-se uma autoridade superior às Escrituras. É uma falácia gritante afirmar que alguém que reconhece uma autoridade se torna uma autoridade igual ou maior do que a reconhecida. Se um ateu se converte ao cristianismo e entre as muitas Igrejas existentes reconhece que a autoridade reside na Igreja Romana, ele se tornaria então uma autoridade igual ou superior à Igreja Romana? Com certeza não. Por fim deixo as palavras do erudito F. F Bruce:

    "os livros do Novo Testamento não se tornaram escritos revestidos de autoridade para a Igreja porque foram formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário, a Igreja incluiu-os no cânon porque já os considerava divinamente inspirados, reconhecendo neles o valor inato e, em geral, a autoridade apostólica, direta ou indireta." Sobre os primeiros concílios canônicos, que se realizaram no Norte da África, em Hipona Régia (393 d.C.) e em Cartago (397 d.C.) (...) eles não objetivavam impor algo novo às comunidades cristãs, pelo contrário, o intuito era sistematizar o que já era uma prática comum."

    (Merece Confiança o Novo Testamento?, F. F. Bruce, Vida Nova, 2010, pg 36.)

    Fique na Paz!

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    1. Não adianta, a gente pode até desenhar, que mesmo assim eles vão voltar aqui repetindo o mesmo discurso falido e ultrapassado de sempre, porque é o jeito que programaram eles a responder...

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    2. O fato é que não tem jeito: Dizer que se crê na canonicidade da bíblia da parte de Deus, envolve fé e não fatos.
      E nisso, não vamos chegar a um acordo.
      Qual acontecimento nos mostra que Deus quem escolheu inspirar livro A ou B?
      Se o evento não for o reconhecimento da Igreja eu não sei qual mais pode ser.

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    3. Em momento nenhum eu neguei que a Igreja teve o trabalho de reconhecer o cânon. O que eu definitivamente nego, baseado em todos os argumentos já expostos aqui, nos meus livros e nos meus artigos, é:

      1) Que essa Igreja que reconheceu o cânon seja a Igreja Romana.

      2) Que o papa tenha tido qualquer papel na formação do cânon do século IV.

      3) Que esse reconhecimento seja o mesmo que determinar que um livro seria inspirado e o outro não. Os Pais da Igreja não decidiam quais livros seriam inspirados e quais deixariam de ser; eles apenas reconheciam aqueles que já eram inspirados (por Deus) e quais não eram. O Evangelho de Lucas não se tornou inspirado depois de um concílio no século IV, ele sempre foi inspirado e o Espírito Santo usou a Igreja para RECONHECER essa inspiração prévia e inata.

      4) Que o reconhecimento do cânon implique que estes que reconheceram são necessariamente infalíveis ou fazem parte de um sistema infalível que jamais pode cair na apostasia. Se fosse assim, os judeus que reconheceram o cânon do AT não iriam apostatar, e as igrejas de Cartago e Hipona (que reconheceram o cânon do NT) não iriam desaparecer após as invasões islâmicas, deixando de existir.

      Qualquer coisa que vá além disso é contradição explícita com os fatos históricos e os argumentos lógico-racionais.

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    4. Se a Igreja Católica Romana que existe hoje não é a remanescente desta Igreja que via concílio definiu o Cânon eu não sei qual é então.
      Garanto que nenhum dos grupos surgidos após o fim da Idade Média pode reivindicar isso para si, não depois de mais de 1.000 anos.
      Portanto, não sei de qual realidade nós estamos falando se a dos fatos históricos ou da suposição, o que cai novamente em fé e não fatos.
      Sabe, eu cresci em igreja evangélica pentecostal e sempre ouvi barbaridades sobre a Santa Igreja, inclusive, que os cristãos verdadeiros continuaram seus cultos escondidos da Igreja, em tumbas, subterrâneos e um monte de outras histórias que NÃO são comprovadas pela HISTÓRIA, e assim não se tratam de fatos, mas hipóteses. Espero que esta não seja a sua justificativa para não reconhecer na atual Igreja de Roma, a mesma de Roma fundada pelos Apóstolos São Paulo e São Pedro.

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    5. Você repete, repete e repete as mesmas coisas que já foram refutadas, mesmo depois que eu disse que só era pra voltar aqui com REFUTAÇÕES, em vez de REPETIÇÕES. A impressão que passa é que você não quer deixar de ter a “palavra final”, e por isso se vê obrigado a escrever qualquer coisa que seja, mesmo que seja algo que já foi explicado milhares e milhares de vezes...

      A Igreja de Roma de antes do cisma era apenas UMA COMUNIDADE LOCAL situada em Roma, NÃO era toda a Igreja, nem mesmo representava toda a igreja ocidental, e MUITO MENOS teve qualquer papel no reconhecimento do cânon no século IV. Eu já disse isso tantas vezes que fica até cansativo e desmotivador ter que repetir tudo outra vez. Por isso vou transcrever o que já escrevi no artigo recente:

      Quem “definiu” o cânon do Novo Testamento (que na verdade foi apenas um reconhecimento) no século IV foram dois concílios do norte da África, um em Hipona (393) e outro em Cartago (397). Estes concílios não eram ecumênicos (universais), mas regionais. Em outras palavras, eles valiam apenas para aquelas igrejas do norte da África. Usar estes concílios como uma “prova” da Igreja Romana é um anacronismo ridículo e totalmente sem fundamento, visto que a Igreja de Roma da época teve zero participação nas definições de Cartago e de Hipona.

      Tais concílios não foram convocados por um papa, não foram presididos por um papa, e, como se não bastasse, não tiveram sequer a presença do papa e nem mesmo de um legado papal! O único concílio convocado por um papa da época para tratar da questão do cânon foi o de Roma, em 382, só que este concílio deixou de fora o livro de 2ª Coríntios, como já escrevi neste artigo.:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/09/o-concilio-do-papa-damaso-e-o-tiro-no.html

      Em outras palavras, na única vez em que o papa da época se reuniu para tratar a questão do cânon, ele errou. Nem o Concílio de Trento (1546) seguiu a lista do concílio do papa Dâmaso, preferindo adotar a lista de Hipona e Cartago!

      Portanto, dizer que o papa ou que a Igreja de Roma teve alguma participação na questão do cânon é simplesmente desonestidade intelectual. Se o papa tivesse tido qualquer papel relevante, teríamos que jogar fora o livro de 2ª Coríntios. Do jeito que ficou, se alguma igreja (comunidade local da época) merece o crédito são as do norte da África supracitadas. Mas elas não estavam sob a jurisdição do bispo de Roma, e ainda atacavam com dureza toda e qualquer tentativa de um bispo de fora querer se impor sobre as decisões deles, como fica bastante evidente em seus concílios locais:

      “Igualmente decidimos que os presbíteros, diáconos e outros clérigos inferiores, nas causas que surgirem, se não quiserem se conformar com a sentença dos bispos locais, recorram aos bispos vizinhos, e com eles terminem qualquer questão (...) E que, se ainda não se julgarem satisfeitos e quiserem apelar, não apelem senão para os concílios africanos, ou para os primazes das próprias províncias; e que, se alguém apelar para a Sé Transmarina (de Roma) não seja mais recebido na comunhão” (Concílio de Cartago, ano 418)

      “Pois nenhum de nós coloca-se como um bispo de bispos, nem por terror tirânico alguém força seu colega à obediência obrigatória; visto que cada bispo, de acordo com a permissão de sua liberdade e poder, tem seu próprio direito de julgamento, e não pode ser julgado por outro mais do que ele mesmo pode julgar um outro. Mas esperemos todos o julgamento de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único que tem o poder de nos designar no governo de Sua Igreja, e de nos julgar em nossa conduta nela” (Sétimo Concílio de Cartago, ano 256)

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    6. O que fica claro ao consultar estes concílios de Cartago? Que os bispos dali tinham a consciência de que eram totalmente submissos ao infalível e todo-poderoso bispo de Roma, que supostamente detinha uma jurisdição universal sobre toda a Igreja, inclusive sobre Cartago? É óbvio que não. O que está evidente é que a Igreja do norte da África era independente, ou seja, fazia parte da Igreja universal (“católica”) assim como as demais igrejas ocidentais e orientais, mas tinha jurisdição própria e autonomia local, não sendo sujeita à igreja de Roma de forma alguma.

      Seguindo a lógica papista, devemos nos submeter à igreja que “definiu” o cânon. Essa igreja não foi a Igreja Romana (que surgiu depois do cisma) e nem a comunidade local de Roma já existente na época, mas as igrejas do norte da África, especialmente Cartago e Hipona. Mas elas foram totalmente destruídas pelos muçulmanos nas invasões árabes que tomaram a totalidade da África na Alta Idade Média. Para ser claro: essas igrejas não existem mais.

      Colocá-las na conta da Igreja Romana é puro devaneio: ninguém sabe se por ocasião do cisma de 1054 elas decidiriam se aliar à Roma e fazer parte da Igreja Romana, ou se iriam se aliar à ortodoxia grega, ou se iriam permanecer independentes até hoje. O romanista que joga na base do achismo é simplesmente um desonesto intelectual. Querer usar o “argumento do cânon” para fundamentar uma Igreja Romana desenvolvida após um racha que ocorreu séculos depois dos concílios africanos é mais do que jogo sujo: é mau-caratismo mesmo.

      E realmente, essa história de que haviam grupos menores sendo perseguidos por uma Igreja Romana apóstata é barbaridade inventada pelos protestantes malvados, tanto é que o Concílio de Tolosa (1229) estava perseguindo O FANTASMINHA CAMARADA quando disse:

      “Proibimos os leigos de possuírem o Velho e o Novo Testamento... Proibimos ainda mais severamente que estes livros sejam possuídos no vernáculo popular. As casas, os mais humildes lugares de esconderijo, e mesmo os retiros subterrâneos de homens condenados por possuírem as Escrituras devem ser inteiramente destruídos. Tais homens devem ser perseguidos e caçados nas florestas e cavernas, e qualquer que os abrigar será severamente punido” (Concil. Tolosanum, Papa Gregório IX, Anno Chr. 1229, Canons 14:2)

      Realmente, você aprendeu muito sobre História depois de descobrir a “verdade” (risos...).

      Se o seu próximo texto for novamente REPETIÇÃO das mesmas lorotas, em vez de REFUTAÇÃO aos argumentos, eu não perderei tempo rebatendo tudo de novo outra vez, já que o comentário não será nem aprovado. Vou deixar que o Bruno responda a você no seu outro comentário dirigido a ele, afinal ele tem bem mais paciência do que eu para explicar que 1+1=2 a pessoas que não estão dispostas a aprender e que já cegaram a si mesmas para a verdade.

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  9. “O fato é que não tem jeito: Dizer que se crê na canonicidade da bíblia da parte de Deus, envolve fé e não fatos.”

    Exatamente. Por isso não aceitamos o Sola Ecclesia – que afirma que algo deve ser aceito apenas porque uma Igreja em particular diz que deve. As evidências a favor do cânon são muitas. Temos boas evidências externas e internas de que os 27 livros foram escritos por apóstolos ou companheiros dos apóstolos e que são escritos do primeiro século.

    “E nisso, não vamos chegar a um acordo.
    Qual acontecimento nos mostra que Deus quem escolheu inspirar livro A ou B?
    Se o evento não for o reconhecimento da Igreja eu não sei qual mais pode ser.”

    O testemunho dos Pais da Igreja é um bom conjunto de evidências, mas não dependemos apenas disso para estabelecer o cânon. Existem as evidências internas. A partir da linguagem utilizada, das informações fornecidas, sejam elas geográficas ou históricas, podemos estabelecer um caso cumulativo para a apostolicidade ou antiguidade do Escrito. Temos boas razões históricas para aceitar o cânon, o mesmo já não pode ser dito a respeito do papado. A respeito desse, temos boas razões históricas para rejeitá-lo. Em ultima instância, cremos na inspiração desses livros porque cremos em Jesus. Ele considerava as Escrituras hebraicas (A.T) a palavra inspirada de Deus e comissionou certos homens para difundirem o seu evangelho que foi escriturado (N.T).

    Além disso, temos as evidências internas relacionadas à inspiração. A Escritura contém várias profecias que se realizaram, possui uma unidade impressionante tendo em conta que foi produzida por homens diferentes, em épocas diferentes de lugares diferentes. Há na Escritura diversas pistas de que ela não pode ser uma produção meramente humana, mas obra de Deus.

    O erro do seu argumento e de quase todo católico que trata do cânon é acreditar que o fato de alguém reconhecer algo o torna igual ou maior do que a autoridade reconhecida. Se assim fosse, os Judeus seriam maiores do que as Escrituras hebraicas, atitude que Jesus jamais tomou. Pelo contrário, ele constantemente exortou os mestres judeus usando as Escrituras. Da mesma forma, alguém em dúvida sobre escolher a Igreja Ortodoxa ou Romana, ao reconhecer a Romana como a verdadeira, se tornaria uma autoridade maior ou igual a ela. O fato de alguém tomar uma decisão correta não o torna infalível.

    Por último, deixo o testemunho do Apóstolo Paulo:

    Paulo apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de qualquer ser humano, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos.
    Caros irmãos, quero que saibais que o Evangelho por mim ensinado não é de origem humana. Porquanto, não o recebi de pessoa alguma nem me foi doutrinado; ao contrário, eu o recebi diretamente de Jesus Cristo por revelação.
    (Gálatas 1: 1,11,12)

    Paulo se encontrou com os demais apóstolos em Jerusalém três anos depois de sua conversão. Neste período de tempo, ele pregou o evangelho sem buscar nenhuma autenticação dos demais líderes da Igreja, pois esse evangelho não veio da parte de homens ou de alguma instituição religiosa, muito menos sediada em Roma. Veio da parte de Deus. Portanto, dizer que a Escritura é filha da Igreja está errado. A Escritura é fruto de Deus e foi dado à Igreja para edifica-la. A palavra de Deus é superior a qualquer instituição que deseja arrogar para si um direito que nunca lhe foi dado.

    Fique na PAZ de Cristo!

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  10. "Se assim fosse, os Judeus seriam maiores do que as Escrituras hebraicas, atitude que Jesus jamais tomou. Pelo contrário, ele constantemente exortou os mestres judeus usando as Escrituras."
    Meu caro, não teve um dia que um grupo de sábios judeus compilou essa coleção de escritos? (frisando que eu sei todas as teorias que existem a respeito mas nenhuma comprovada historicamente) Pois é, confiar no AT como divinamente inspirado, remete antes de tudo em crer que Deus inspirou alguns homens para isto, o mesmo, podemos dizer: "Deus inspirou a Igreja Católica a definir, isto é, definitivamente, qual seria o cânon do AT e do NT", assim sendo, ao dizer que creio na bíblia como um documento divino e revelado, implicitamente eu digo: "Creio na Santa Igreja Católica", porque senão, de que outro modo chegariam os escritos até nós?
    Ah e disseste bem, Jesus autenticou o Cânon do AT, e Cânon do NT? Alguém autenticou, bem sabemos que os Apóstolos pregavam o que tinham vivido e não o que estava escrito; A fé cristã nasce de um seita saída do judaísmo, então muitos elementos foram considerados, inclusive as Escrituras;
    Numa religião não-organizada, não há consenso doutrinal; Um exemplo simples são as religiões de matrizes africanas. Se você estudá-las verá uma quantidade significativa de sincretismos, e uma certa falta de concordância entre práticas e rituais, não existe uma autoridade central. Daí eu pergunto, se a fé cristã era unânime nas suas decisões e comportamentos, principalmente após tornar-se uma religião de Estado, como a bíblia, exatamente como é hoje, poderia ter nascido antes, no meio de pessoas sem rumo nem norte de forma consensual? Isto é uma viagem!

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    1. “Meu caro, não teve um dia que um grupo de sábios judeus compilou essa coleção de escritos? (frisando que eu sei todas as teorias que existem a respeito mas nenhuma comprovada historicamente) Pois é, confiar no AT como divinamente inspirado, remete antes de tudo em crer que Deus inspirou alguns homens para isto, o mesmo, podemos dizer: "Deus inspirou a Igreja Católica a definir, isto é, definitivamente, qual seria o cânon do AT e do NT", assim sendo, ao dizer que creio na bíblia como um documento divino e revelado, implicitamente eu digo: "Creio na Santa Igreja Católica", porque senão, de que outro modo chegariam os escritos até nós? “

      O Lucas já respondeu por que o reconhecimento do cânon não estabelece a autoridade infalível da Igreja Romana, que é o que você quer dizer com “creio na santa Igreja Católica”. Pelo contrário, se fôssemos seguir o parecer dessa Igreja, teríamos um cânon errado hoje.
      Você reconhece premissas que nós também aceitamos, mas suas conclusões não são lógicas, sua argumentação comete a falácia do não segue. Você admite que os Judeus reconheceram o cânon do A.T, mas não aplica a eles a mesma conclusão que aplica à Igreja Católica – a autoridade infalível advinda desse fato. Como um Judeu que viveu 50 anos antes de Cristo poderia saber o cânon? ele não dispunha de nenhuma autoridade infalível para dizer isso. Ou seja, a premissa papista de que precisamos de uma autoridade infalível para saber o cânon falha ao analisarmos a história do povo de Deus. A nossa divergência é essa: o fato de os Judeus ou a Igreja terem reconhecido o cânon de forma correta não os torna infalíveis, apenas os torna correto nesse ponto. Como eu lhe perguntei em outras postagens e você ignorou – uma pessoa que reconhece que a Igreja Romana é a verdadeira se torna uma autoridade infalível por ter supostamente acertado em sua decisão? Creio que você concordaria que não.

      Por isso que seu argumento "Deus inspirou a Igreja Católica a definir, isto é, definitivamente, qual seria o cânon do AT e do NT", assim sendo, ao dizer que creio na bíblia como um documento divino e revelado, implicitamente eu digo: "Creio na Santa Igreja Católica", porque senão, de que outro modo chegariam os escritos até nós?“ é falacioso. Pessoas e instituições podem chegar à verdade num ponto sem estarem certas em todos os outros pontos. Ninguém precisa ser infalível para estar certo – o que de fato aconteceu com os Judeu no A.T.

      Há outro problema grave na sua argumentação. Você reconhece que os Judeus são a autoridade no reconhecimento do A.T, então porque você acredita numa cânon diferente deles? Eles nunca reconheceram o cânon católico romano como o verdadeiro.

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    2. (cont...)

      “Ah e disseste bem, Jesus autenticou o Cânon do AT, e Cânon do NT? Alguém autenticou, bem sabemos que os Apóstolos pregavam o que tinham vivido e não o que estava escrito; A fé cristã nasce de um seita saída do judaísmo, então muitos elementos foram considerados, inclusive as Escrituras; “

      Jesus autenticou o cânon que os Judeus mantinham. Em suas discussões com os líderes judaicos, o conteúdo exato das Escrituras nunca foi posto em dúvida. Eles partem do pressuposto comum que as Escrituras tinham um conteúdo exato, sendo a palavra de Deus. O cânon do N.T é autenticado pelos Apóstolos. Ao instituir a autoridade apostólica, Cristo nos deixou o critério pelo qual poderíamos discernir os escritos canônicos dos não canônicos – ter sido escrito ou reconhecido por um Apóstolo.

      Obviamente, os Apóstolos pregavam oralmente, mas eles tiveram o cuidado de registrar sua pregação por escrito, sendo hoje o único meio de confiável de saber o que eles ensinavam.

      “Numa religião não-organizada, não há consenso doutrinal; Um exemplo simples são as religiões de matrizes africanas. Se você estudá-las verá uma quantidade significativa de sincretismos, e uma certa falta de concordância entre práticas e rituais, não existe uma autoridade central. Daí eu pergunto, se a fé cristã era unânime nas suas decisões e comportamentos, principalmente após tornar-se uma religião de Estado, como a bíblia, exatamente como é hoje, poderia ter nascido antes, no meio de pessoas sem rumo nem norte de forma consensual? Isto é uma viagem!”

      Primeiro, quem afirmou que o cristianismo era uma religião não organizada? As Igrejas tinham líderes locais que mantinham comunhão com outros líderes locais. O protestantismo não afirma que a Igreja primitiva era um bando disperso. O que negamos é a existência dessa “autoridade central” que não encontra nenhum respaldo bíblico ou histórico. O fato de não haver uma autoridade central não implica que não haja organização. Você consideraria uma instituição com liderança colegiada (como eram as Igrejas locais no início) não organizada?

      Segundo, de ontem você tirou que a fé cristã era “unânime em suas decisões e comportamentos”. Absolutamente nenhum historiador da Igreja endossaria sua afirmação. Os Pais da Igreja divergiam numa série de questões. Nesse blog você encontrará vários artigos que documentam isso. Embora a maior parte do cânon tenha sido reconhecida muito cedo por todos os Pais, alguns livros estavam sob suspeita como: 3 João, Apocalipse, 2 Pedro. Diferente do que você pretende demonstrar, o processo de reconhecimento do cânon pelos Pais da Igreja é uma prova da inexistência dessa “autoridade central” que alega. Absolutamente nenhum Pai da Igreja acreditava que o cânon só poderia ser discernido pela decisão de uma autoridade infalível. Irineu, Tertuliano, Orígenes, Atanásio e outros sustentavam uma lista de livros inspirados sem apelarem ao bispo de Roma. Como já demonstrou o Lucas, se o bispo de Roma se manifestou sobre a questão, ele errou.

      Terceiro, você também esquece que hoje, além do testemunho dos Pais, dispomos de outro conjunto de evidências a favor do cânon como as evidências internas dos próprios escritos e o testemunho de historiadores não cristão, como é o caso de Josefo a respeito do cânon hebreu.

      Fique na PAZ Sola Ecclesia!

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    3. Como você citou, gostaria de lembrá-lo que Santo Irineu de Lyon fez as mesmas afirmações que a Igreja faz hoje, dizendo que reportavam-se ao Bispo de Roma para definir a Ortodoxia.
      Independente do que eu acho ou você acha, não há nexo em dizer que todas as interpretações inferidas a partir de uma leitura têm a correta interpretação do que o autor quis dizer com o livro, alguns estarão, sem dúvida, errados. É loucura dizer que não deve haver uma única autoridade interpretativa, ou um só interpreta, ou ninguém falará a mesma língua, como ocorre hoje com as igrejas evangélicas.

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    4. “Como você citou, gostaria de lembrá-lo que Santo Irineu de Lyon fez as mesmas afirmações que a Igreja faz hoje, dizendo que reportavam-se ao Bispo de Roma para definir a Ortodoxia.”

      Acredito que nenhum historiador até mesmo católico diria nos dias de hoje que “Santo Irineu de Lyon fez as mesmas afirmações que a Igreja faz hoje”. Irineu desconhecia a doutrina do papado e qualquer noção de que o bispo de Roma detinha primazia jurisdicional sobre toda a Igreja. Eu lhe indico o texto do link abaixo, qualquer argumento meu seria mera repetição do que já está escrito nele:

      http://www.e-cristianismo.com.br/historia-do-cristianismo/pais-apologistas/irineu-e-a-igreja-em-roma.html

      Irineu cita a Igreja de Roma apenas como exemplo entre outras Igrejas que ele poderia citar. A preeminência que ele dá à Igreja romana não é uma primazia jurisdicional sobre as outras, mas apenas um exemplo de Igrejas que até aquele período havia guardado a doutrina apostólica. Longe de defender o papado, Irineu é uma testemunha contrária a essa doutrina. Ele cita a Igreja de Roma não porque ela tem o sucesso exclusivo de Pedro que detém a primazia sobre toda a Igreja, mas porque lá morrem os apóstolos Pedro e Paulo. Ele não diz que Pedro foi o primeiro bispo de Roma, mas sim Lino. Além disso, coloca os dois apóstolos em pé de igualdade, sem nenhuma primazia de Pedro sobre Paulo. Veja o que estudiosos católicos romanos dizem a respeito:

      O contexto do argumento de Irineu não afirma que a Igreja Romana é literalmente única, a única de sua classe; em vez disso, ele argumenta que a Igreja Romana é o exemplo notável de sua classe, a classe em questão sendo as sedes apostólicas. Enquanto escolheu falar principalmente de Roma por razões de brevidade, de fato, antes de terminar, também se refere a Éfeso e Esmirna.

      (Robert Eno, The Rise of the Papacy (Eugene: W & S, 1990), 39)

      Na verdade, é compreensível que esta passagem tenha confundido os estudiosos por séculos! Aqueles que estavam acostumados a encontrar nela uma verificação do primado romano foram capazes de interpretá-la dessa maneira. (...) a interpretação de Karl Baus [que Irineu não estava se referindo a um papado] parece ser a única que é mais fiel ao texto, não se presumindo ler nele um significado que pode não estar lá, pois não se exagera ou subestima a posição de Irineu. Para ele [Irineu], são as Igrejas da fundação apostólica que tem o maior crédito de ensino autêntico e doutrina. Entre essas estava Roma, com seus dois fundadores apostólicos, certamente ocupando um lugar importante. No entanto, todas as Igrejas apostólicas desfrutam da "autoridade preeminente" em questões doutrinárias.

      (William La Due, The Chair Of Saint Peter [Maryknoll, New York: Orbis Books, 1999], p. 28)

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    5. (cont..)

      Só no meio do terceiro século um bispo de Roma pelo nome de Estevão apelou à promessa de Pedro; ele fez isso em uma disputa com outras Igrejas a respeito de quem tinha a melhor tradição. No entanto, não foi mais bem sucedido do que foi bispo Vítor cinquenta anos antes. Vitor tentou impor de forma autoritária uma uniforme e romana data para a Páscoa, sem respeito pelo caráter e independência das outras igrejas, e foi colocado em seu lugar pelos bispos do Oriente e do Ocidente, especialmente pelo muito respeitado bispo e teólogo Irineu de Lyon. Naquela época, a regra de uma Igreja sobre as outras Igrejas foi rejeitada, mesmo no ocidente.

      (Hans Kung - The Catholic Church: A Short History, pp. 42-43)

      “Independente do que eu acho ou você acha, não há nexo em dizer que todas as interpretações inferidas a partir de uma leitura têm a correta interpretação do que o autor quis dizer com o livro, alguns estarão, sem dúvida, errados. É loucura dizer que não deve haver uma única autoridade interpretativa, ou um só interpreta, ou ninguém falará a mesma língua, como ocorre hoje com as igrejas evangélicas.”

      Ou seja, na sua opinião, a existência de um intérprete único é uma necessidade lógica. Primeiro, pessoas diferentes podem chegar a uma interpretação idêntica e correta de um mesmo texto. Como você acha que os concílios funcionavam? O bispo de Roma dizia “esta é a verdade”, ai todo mundo apenas concordava? Não mesmo. Nenhum dos sete primeiros concílios ecumênicos foi ou convocado ou presidido pelo bispo de Roma e eles expressavam a opinião de um colégio de bispos, que poderia ser de algumas centenas.

      Segundo, você considera a Igreja Católica antiga uma genuína Igreja Cristã? Pois ela não tinha esse único intérprete que você alega. O primeiro concílio ecumênico só foi acontecer no século IV.

      Terceiro, o fato de haver um único intérprete não causa o efeito que você alega “todos falarem a mesma língua”. Toda forma de comunicação exige interpretação por tarde do seu receptor. Da mesma forma que as pessoas podem interpretar de forma diferente as Escrituras, elas podem interpretar de forma diferente as palavras do intérprete da Escritura. É precisamente o que vemos no catolicismo romano – católicos interpretando de forma divergente os ensinos do magistério e sustentando conclusões conflitantes.
      Quarto, não sei bem qual o seu critério para dizer que as Igrejas evangélicas não falam a mesma língua. O paradigma protestante não diz que duas Igrejas devem ter rigorosamente as mesmas doutrinas e práticas para serem consideradas irmãs. Basta que haja convergência em doutrinas fundamentais. Se você entende que uma Igreja verdadeira deve guardar uniformidade total, a Igreja Romana não poderia ser verdadeira, pois nela encontramos divergência da mesma natureza que encontramos em Igrejas Protestantes:

      Evangélicos divergem na questão da predestinação – a Igreja Romana também (molinismo vs tomismo)
      Evangélicos divergem na questão da atualidade dos dons espirituais – a Igreja Romana também (tradicionalistas vs carismáticos)
      Evangélicos divergem na questão liturgia - a Igreja Romana também (tradicionalistas vs modernistas)

      Muitas outras divergências poderiam ser apontada no seio da Igreja Romana. Algumas delas são gravíssimas como o sedevacantismo. Os católicos não estão de acordo sequer se os atuais papas são legítimos.

      Fique na PAZ!

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  11. Lucas você já leu " o cristianismo através dos séculos '' ou " Redescobrindo os pais da igreja '' ? São excelentes livros que demostraram que a igreja Primitiva é diferente da igreja romana atual

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    1. Não apenas estes livros protestantes, na verdade qualquer livro decente admite isso. Basta ler livros como "A História do Cristianismo", do historiador CATÓLICO Paul Johnson, para perceber que a Igreja no início não tinha nada de católica-romana...

      Aliás, em breve será publicado aqui um artigo só com dezenas de historiadores e teólogos católicos que admitem que não havia primado do papa nos primeiros séculos da Igreja. Só os mais cegos e bitolados (ou seja, os blogueiros leigos que escrevem em fundo de quintal alguma quinquilharia de quinta categoria) é que ainda sustentam o mito de que a Igreja primitiva já tinha os traços católicos romanos de hoje. Os que estudam um mínimo de história da Igreja em vez de se deixar levar por "sábios" de facebook comprovam isso.

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  12. Lucas admiro muito o seu trabalho e comecei a ler seus artigos essa semana e estou gostando muito, mandaram-me isto refuta pra mim por favor:

    Policarpo é um BISPO da Igreja Católica e foi Discípulo de São João , ele é CONSIDERADO um Dos PAIS da Igreja , se vc ler A Patristica ( PAIS DA IGREJA ) ,encontrará as Cartas que ele Escreveu , (que cita o nome igreja católica)e perceberá que a Igreja Católica tem provas históricas escritas pelos Pais da Igreja desde os Primeiros Séculos,derrubando a Teoria dos hereges protestantes de afirmarem que a Igreja Católica não é a Igreja Primitiva.
    Se vc Estudar a História da Igreja ,vai perceber que o Surgimento do Protestantismo com Lutero é um absurdo,pois a Igreja Católica foi Fundada por Jesus ( Mateus 16,18) , e Jesus da a Pedro o primado dessa Igreja para apascentar seu Rebanho ( João 21,15-17) , e quanto a esse fundamento diz São paulo ninguém pode por outro do que já foi posto por Jesus ( I Corintios 3,11) . E Essa Igreja Jesus prometeu estar com ela todos os dias até a consumação dos Tempos ( Mateus 28,20) .

    espero sua resposta.

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    1. Olá, me desculpe pela demora em responder.

      Policarpo NÃO era católico romano, uma seita que nasceu no cisma do Oriente em 1054 d.C, ou seja, muitos séculos mais tarde. O termo "Igreja Católica", em data antiga, NÃO designava uma igreja em particular local como a romana, mas era apenas um termo grego que designava universalidade, nada a mais que isso. Sobre isso eu já expliquei neste artigo:

      http://heresiascatolicas.blogspot.in/2012/08/o-significado-de-catolica-nos-pais-da.html

      A Igreja que Jesus fundou diz respeito à comunidade de crentes que iniciaria a partir dali, a esta comunidade dá-se o nome de "Igreja invisível", e ela permaneceu existindo até Lutero e depois de Lutero até os dias de hoje. Sobre isso e a importante distinção com as IGREJAS VISÍVEIS, que são fundadas por homens em diferentes épocas (incluindo a romana e as protestantes), eu escrevi este artigo onde esclareço a questão:

      http://heresiascatolicas.blogspot.in/2015/02/a-igreja-invisivel-perfeita-e-igreja.html

      Sobre o mais, é apenas o velho repeteco católico de sempre, já refutado milhões e milhões de vezes até a exaustão. Sobre Mateus 16:18, confira:

      http://heresiascatolicas.blogspot.in/2014/01/estudo-exegetico-completo-sobre-mateus.html

      Sobre Pedro apascentar as ovelhas, confira:

      http://heresiascatolicas.blogspot.in/2013/10/pedro-pastoreie-as-minhas-ovelhas.html

      E o fundamento que Paulo se refere em 1 Coríntios 3:11 NÃO é Pedro, e sim Jesus:

      "Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo" (1 Coríntios 3:11)

      Abs!

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  13. O BLOG O HOMEMDOMEIO PREGA MUITO SOBRE TAIS ASSUNTOS http://homemdomeio.blogspot.com.br

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  14. Paz e Graça Lucas, tudo bom? Estou com a intenção de criar um blog de vendas e a formatação do seu blog é excelente. Qual o tipo da fonte da letra você usa para escrever os textos? Qual o tamanho delas? Você faz uso de mais algum recurso especial para formatação? Deus te abençoe. Abraços...

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    1. Olá, tudo bem? Eu uso Verdana tamanho 10, mas no painel do blogger não tem o tamanho da letra em número para você escolher, em vez disso basta escolher Verdana e no tamanho colocar "Normal". Abs

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