14 de novembro de 2012

Pedro era superior aos demais? - Parte 1



Se Pedro era mesmo papa, então a primeira pessoa que devia saber disso era ele. Porém, ao olharmos na Escritura  especialmente nos escritos de Pedro  não encontramos qualquer afirmação (direta ou indireta) que qualifique Pedro como um apóstolo em nível superior aos demais ou como um presbítero em nível superior aos outros. O que realmente vemos é Pedro se identificando como um simples presbítero, na mesma condição dos demais presbíteros:

"Portanto, apelo para os presbíteros que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho” (1 Pedro 5:1-3)

Na epístola de Pedro, ele em momento algum se identifica por qualquer um dos termos designados a ele pela Igreja Romana. Vamos relembrar alguns deles:

1º Papa.
2º Príncipe dos Apóstolos.
3º Vigário de Cristo.
4º Sumo Pontífice.

Temos aqui quatro termos que Pedro poderia perfeitamente ter tomado para si mesmo, em total conformidade com as teses católicas. Porém, o que vemos é uma história diferente, uma história não contada pelos nossos amigos católicos. Pedro, ao invés de identificar a si mesmo com qualquer destes termos que a Igreja Católica atribui a ele, chama a si mesmo de:

1º Apóstolo:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1 Pedro 1:1)

2º Servo:

“Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:1)

3º Presbítero:

“Portanto, apelo para os presbíteros que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada” (1 Pedro 5:1)

É digo de nota que em momento nenhum Pedro se identifica por qualquer um dos quatro termos mostrados acima e que poderiam ter sido perfeitamente aplicados a ele, caso ele realmente detivesse tais cargos ou qualidades na Igreja. Não somente Pedro não se chama assim, como também em lugar nenhum da Bíblia vemos qualquer apóstolo – ou mesmo o Nosso Senhor Jesus Cristo – chamando Pedro desta maneira. Um católico poderia tentar contra-argumentar, alegando que não seria necessário Pedro ter escrito os títulos que ele detinha – talvez ele tivesse se esquecido, mas lembrasse em outra oportunidade. Essa “refutação” falha em inúmeros aspectos fundamentais que iremos analisar a partir de agora.


 Porque Pedro se identifica de outras formas

O argumento de que Pedro poderia deter todos aqueles títulos sem ter se reconhecido como tal, somente porque preferiu abrir mão de relatar as suas “credenciais”, falha primeiramente no fato óbvio de que Pedro realmente apresentou as suas “credenciais”! Note que Pedro chama a si mesmo de “apóstolo”(1Pe 1:1), de “servo” (2Pe 1:1) e de “presbítero” (1Pe 5:1).  Ainda que a designação de “servo” não seja um cargo eclesiástico (pois todos nós devemos ser servos de Cristo), temos pelo menos duas funções de Pedro expressamente declaradas por ele acerca dele mesmo: a de apóstolo e presbítero. Em resumo, se Pedro quisesse enconder ou omitir as suas “credenciais” (e por isso que não se define como “papa” ou “sumo pontífice”), então ele não teria se identificado da forma que claramente fez duas vezes, nas duas cartas.

Se Pedro quisesse esconder seus títulos ou não tivesse a intenção de mostrá-los naquela oportunidade, ele não teria se mencionado como apóstolo e presbítero (que são cargos na Igreja) – ele simplesmente não teria dito nada! Mas, uma vez sendo que Pedro quis apresentar as suas funções na Igreja, é inócuo e sem sentido crermos que ele omitiu bem exatamente aquilo que seria o mais importante e mais fundamental – e certamente o mais ressaltado pelos católicos – que seria a sua função de “Sumo Pontífice” (papa), como o “Príncipe dos Apóstolos”.

Teria Pedro se esquecido do mais importante e se lembrado exatamente das suas funções menores? É claro que não. Simplesmente não faz sentido. Vamos dar um exemplo prático que pode elucidar tal situação. O homem mais rico do mundo, o norte-americano Bill Gates, é reconhecido mundialmente por ser o Presidente da Microsoft. Mas o que poucos sabem é que ele também atua como chairman da Microsoft e como conselheiro no desenvolvimento de projetos-chave da empresa.  Imagine, então, Bill Gates descrevendo a si mesmo em suas cartas, e em absolutamente nenhuma delas ele se identifica como sendo o Presidente da Microsoft, mas somente como sendo o chairman e um conselheiro da empresa. Quando alguém pergunta o que ele tem a ver com a Microsoft, ao invés dele responder que é o presidente da empresa, ele responde: “Sou um conselheiro”.

Isso faz sentido pra você? É óbvio que Bill Gates identificaria a si mesmo pelo cargo mais importante que ocpua – o de Presidente da Microsoft – podendo talvez até lembrar dos outros cargos de menor importância, ainda que não necessariamente.  Dito em termos simples, o cargo de maior importância – o de presidente – é necessariamente citado, enquanto que os cargos de menor importância – como o de conselheiro – é lembrado apenas se ele quiser, mas não necessariamente.  Porém, se Bill Gates não fosse o Presidente da Microsoft, mas somente um conselheiro, então deveríamos presumir que ele realmente se identificaria desta forma: como um conselheiro!

É a mesma ilustração que ocorre no caso de Pedro. Se ele fosse o Sumo Pontífice dos cristãos, ele iria se identificar necessariamente como tal, por ser o cargo máximo (e, portanto, o mais importante a ser ressaltado) que ele ocupava.  Mas se ele não fosse “papa”, ele iria então se identificar pelas funções eclesiásticas que ele ocupa (como apóstolo e presbítero, por exemplo). E é isso mesmo o que ocorre. Pedro era apóstolo? Sim, e se identifica como tal. Pedro era presbítero? Sim, e se identifica como tal. Pedro era o Sumo Pontífice? Não, e nem sequer faz menção de tal função, embora fosse a mais importante e, portanto, a mais evidenciável a ser mencionada por ele, caso ele realmente ocupasse esse cargo.

O fato é que, se Pedro quis se identificar como apóstolo e presbítero, então ele não quis esconder as suas funções na Igreja. E, se ele não quis esconder as suas funções na Igreja, então muito menos iria omitir a que seria certamente a mais importante de todas as funções: aquela onde a Igreja Católica o coloca, como papa ou sumo pontífice dos cristãos. A Igreja Católica atribui a Pedro funções que ele jamais sonhou em ocupar e quer forçá-lo a se tornar algo que ele nunca disse que era!


2º Porque os cargos de Pedro são partilhados por outras pessoas da Igreja

Esta segunda linha de raciocínio também é muito importante, pois é aqui que vemos melhor que Pedro não ocupava um cargo superior aos demais líderes cristãos de sua época, mas sim um cargo deigualdade com eles. Isso fica nítido a partir do fato de que tais funções relatadas por Pedro são partilhadas por muitas outras pessoas. O cargo de apóstolo, por exemplo, era partilhado pelos onze demais apóstolos (contando Matias no lugar de Judas Iscariotes), por Paulo (Cl 1:1), por Tiago (o irmão do Senhor – Gl 1:19), por Andrônico e Júnias (Rm 16:7) e por Barnabé (At 14:14). Pedro não estava numa condição de apostolado superior aos demais, mas em igualdade com eles. Ele não se classifica de “supremo apóstolo”, de “sumo pontífice” ou de “príncipe dos apóstolos”.

Ao contrário, ele se identificou tão somente e unicamente como “apóstolo”, e fez isso em suas duas epístolas (1Pe 1:1; 2Pe 1:1). Em momento algum ele se identificou como um apóstolo “sumo” (i.e,superior) aos demais. Algum católico poderia objetar dizendo que Pedro poderia ser apóstolo superior mesmo sem ter se classificado como tal. Talvez Pedro não tivesse o costume de aplicar o “sumo” para as autoridades maiores da Igreja.  Porém, essa tentativa de refutação falha à luz de 1ª Pedro 5:4, onde Pedro aponta Cristo como sendo o “Sumo Pastor” (1Pe 5:4), ou seja, um Pastor superior aos demais. A versão “João Ferreira de Almeida Corrigida, Revisada e Fiel” traduz o verso por “Sumo Pastor”, enquanto que a versão católica “Ave Maria” traduz o mesmo verso por “Supremo Pastor”.

O sentido é precisamente o mesmo. Pedro estava identificando Jesus não como um pastor no mesmo nível dos demais pastores, mas sim como um pastor em nível superior – um sumo (ou “supremo”) Pastor. Se Pedro identificasse Cristo somente como “pastor”, ele poderia estar no mesmo nível dos demais pastores.  Porém, ao longo de toda a Escritura vemos Jesus sendo chamado de “Sumo Sacerdote” (Hb 5:10; 4:14; 8:1; 3:1; 5:1; 5:5; 10:21; 6:20; 4:15; 9:11; 2:17; 7:26) e de “Sumo Pastor” (1Pe 5:4). Só o autor de Hebreus fala doze vezes  que Jesus é Sumo Sacerdote, sempre fazendo questão de ressaltar o “sumo”, para frisar que Cristo é um sacerdote superior aos demais sacerdotes, assim como é um pastor superior aos demais pastores. O “sumo” sempre é apontado para alguém que detém uma posição superior – nunca é ignorado ou esquecido!

O sentido é sempre o mesmo: os autores bíblicos faziam questão de ressaltar o “sumo” antecedendo o cargo com relação a alguém que ocupava uma posição superior aos demais. Tal fato ocorre com Cristo – um Pastor e Sacerdote superior aos demais – mas absolutamente nunca ocorre com Pedro! Isso é muito importante, pois, tendo em vista o costume bíblico e do próprio Pedro em aplicar o “sumo” como um antecedente de autoridade superior em relação ao cargo normal exercido pelos demais, seria evidente que ele se referiria a si mesmo como sendo o “sumo apóstolo” ou “sumo pontífice”, e nãoapenas somente como “apóstolo”!

O fato de nem Pedro nem qualquer outro escritor da Bíblia aplicar o termo de autoridade superior (“sumo”) a Pedro, mas sempre colocá-lo no mesmo patamar dos demais, nos deixa claro e evidente que ele era, de fato, de autoridade igual aos demais apóstolos, e não de autoridade superior (“sumo”) em relação à eles.  Exatamente o mesmo pode ser dito com relação ao presbitério. Pedro não se coloca na posição de “sumo presbítero”, mas de um presbítero comum – em igualdade com os demais (1Pe 5:1). Quando eu aplico o “comum” a Pedro, não estou dizendo que ele era uma “pessoa qualquer”, de acordo com o significado vulgar e popular que essa palavra ganhou significado. Com isso eu estou apenas dizendo que Pedro, embora sendo um apóstolo de grande importância, não ocupava um patamar de superioridade em relação aos outros apóstolos e presbíteros.

Pedro não era um “Sumo Pontífice” enquanto que os demais eram apenas “pontífices normais”. Pedro não era um “papa” enquanto que os demais eram “simples apóstolos”. Todos os apóstolos tinham uma importância singular na obra de Deus e ocupavam cargos em igualdade, e não em inferioridade ou superioridade entre si mesmos. Os apóstolos eram todos apóstolos, e não “mini-apóstolos” ou “super-apóstolos”. Paulo, inclusive, repudiou a atitude de alguns em se considerarem assim, pois não existia um “super-apóstolo” na Igreja primitiva (2Co 11:5).

A Igreja Católica equivoca-se grandemente quando atribui tais títulos a Pedro, quando nem a Escritura, nem os demais apóstolos e nem o próprio Pedro se refere a ele desta maneira. Pedro era presbíterocomo os demais, e não acima dos demais. Aqui está a chave principal de toda a questão – “...o faço na qualidade de presbítero como eles” (1Pe 5:1). Este “como” não tem qualquer ligação comsuperioridade, mas com igualdade. Pedro está dizendo: “Eu vos estou admoestando, não como alguém superior a vocês que manda em todo mundo, mas sim como alguém que está na mesma qualidade que vocês estão, alguém assim como vocês”!

Continua nos próximos capítulos...

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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Um comentário:

  1. A de convir que o próprio Jesus disse aos discípulos: [...] "A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus." (Mateus 23: 9, ARA)

    Não fazia parte do projeto de Cristo nomear homens como um tipo de "pai na Fé" de toda a cristandade.

    Pedro foi um grande servo. Um grande apóstolo dedicado à pregação do Evangelho. Mas "Pai" na Fé só temos um!

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