Os instrumentos de tortura da Inquisição

Peça do Museu

Os instrumentos de tortura foram largamente utilizados pela Inquisição, e sua existência é hoje fato histórico notável e indiscutível. Estes instrumentos passaram a existir desde a publicação da famosa bula Ad extirpanda (1252), em meados do século XIII, e foram ganhando com o tempo cada vez mais sofisticação. Primeiramente, a vítima era conduzida a um sótão onde ocorriam as torturas, a fim de que não se ouvissem os gritos terríveis e clamores extremos lá de fora[1]. Então a tortura começava.

Eymerich diz que “se depois de ter sido convenientemente torturado, não confessar, vão lhe mostrar os instrumentos de um outro tipo de tortura, dizendo-lhe que vai passar por todos eles, se não confessar”[2] – o que indica que os instrumentos de tortura eram muitos já na época de Eymerich (séc. XIV), e só iriam aumentar nos séculos seguintes. A Inquisição espanhola recorria a cinco tipos principais de tormento, como explica Francisco Peña:

Na nossa perspectiva, existem cinco tipos de torturas, constituindo-se em cinco graus diferentes. Não vou descrevê-los porque são conhecidos por todo mundo e porque toda a descrição minuciosa se encontra nas obras de Paul Grilland (Traité la torture, q. 4, n. 11), Jules Clair (Pratique criminelle, sub fin., q. 64) e ainda outros. A lei não diz que tipo de tortura deve-se aplicar. Portanto, a escolha é deixada ao arbítrio do juiz, que escolherá umas ou outras, de acordo com a posição social do réu, o tipo de indícios, e outras coisas mais.[3]

Note ainda o preconceito social da Igreja expresso no fato de que a tortura variava dependendo da «posição social do réu», isto é, os mais pobres sofriam torturas mais pesadas pelo simples fato de serem mais pobres. Peña não vê necessidade em descrever os métodos de tortura porque todo mundo já sabia (pelo menos todos os inquisidores, para os quais ele escrevia), mas indica as obras onde eles eram descritos. O editor do manual informa que consistia em cinco graus: “pau, cordas, cavalete, polé, brasas. Bem depois, a tortura da água, dos borzeguins... e é dar asas à imaginação”[4].

Uma delas Peña faz questão de fazer menção: a tortura das cordas. Ele diz que “atualmente a tortura através de cordas é aplicada, com muita frequência, em toda parte, não sendo preciso abandoná-la”[5]. Nataniel Jomtob, em seu trabalho “A Inquisição sem Máscara”, explica como este tipo de tortura funcionava:

Para o suplício da garrucha, ou roldana, pendurava-se no teto justamente uma roldana, passando por ela uma corda grossa de cânhamo ou esparto. Tomavam do réu e deixando-o em trajes menores, punham-lhe grilhões, atavam-lhe nos tornozelos cem libras (cinquenta quilos) de ferro e, amarrando-lhe os braços às costas com cordel, prendiam-no à corda pelos pulsos. Mantendo-o nessa posição, punham-no ereto, enquanto os juízes o admoestavam secamente para que dissesse a verdade. De acordo com a gravidade do delito, davam-lhe até doze arrancões, deixando-o cair de chofre, mas de tal modo que nem os pés nem os pesos tocassem o solo, para que o corpo recebesse maior sacudida.[6]

Outro tipo de tortura utilizado pela Inquisição que usava as cordas era o chamado “cavalo de estiramento”, um pedaço de madeira triangular com a ponta virada para cima. Sobre ele, Malucelli escreve:

O corpo da torturada era deitado e amarrado apertado à ponta, que lhe penetrava na carne, do pescoço aos glúteos. Então em suas mãos e pernas eram amarrados pesos cada vez mais pesados; ou cordas ligadas a uma roda que girava com a ajuda de uma manivela. Puxando as cordas, todo o corpo era esticado, e os membros, após algumas horas, soltavam-se do corpo.[7]

O outro tipo de tortura mais frequentemente usado pela Inquisição espanhola era o do cavalete, que Natanael explica como funcionava:

Na tortura do cavalete, também chamado de água e cordéis, ficando o réu despido da forma já mencionada, estendiam-no de rosto para cima sobre um cavalete ou banco de madeira, onde lhe prendiam os pés, as mãos e a cabeça, a fim de que se não pudesse mover. Em seguida, forçavam-no a beber alguns litros de água, deitando-a aos poucos por uma cinta que lhe introduziam na boca a fim de que, atingindo a água a garganta, lhe provocasse ânsias e desespero de um afogado.[8]

Toby Green também descreve este tormento:

Era comum o uso da água. O preso era colocado no cavalete, com a cabeça mais baixa do que o corpo, a garganta e a testa presas por alças de metal. Os membros eram amarrados ao cavalete com cordas que entravam na pele, enquanto outras cordas eram estiradas em volta dos membros como torniquetes. Então lhe abriam a boca à força e despejavam água garganta abaixo. Incapaz de respirar por causa da água e com o ventre terrivelmente inchado, a vítima arfava enquanto o inquisidor, pacientemente, a estimulava a dizer a “verdade”.[9]

Mas o cavalete passou por aprimoramentos para acentuar o sofrimento da vítima. Sobre isso, Green escreve:

Com o tempo, os métodos de tortura evoluíram. No começo do século XVII, o cavalete recebeu um complemento refinado, conhecido como cepo, no qual as pernas do prisioneiro pendiam por um buraco na tábua à qual estava amarrado; outra barra de madeira com as bordas afiladas era colocada sob o buraco, e as pernas eram esticadas através dessa abertura reduzida por meio de uma corda amarrada nos tornozelos e nos dedos. Cada vez que a corda dava uma volta nos tornozelos, o prisioneiro descia mais pela abertura. Cinco voltas eram consideradas uma tortura severa, mas na América Latina davam-se sete ou oito voltas, e alguns mouros foram submetidos a dez ou mais.[10]

Outro tipo de tortura utilizado amplamente pelos inquisidores e citado nos livros indicados por Peña é a polé. Sobre ela, Assis escreve:

Na polé, o prisioneiro era içado até certa altura por uma corda através de uma roldana, com as mãos amarradas para trás e um peso atado aos pés, sendo a corda solta em seguida, mas evitando que o torturado tocasse o chão, gerando o solavanco, numa ação que poderia ocorrer repetidas vezes, causando o deslocamento dos membros.[11]

Nazario afirma que a polé suspendia a vítima, com pesos nos pés, deixando-a cair bruscamente sem tocar no chão; ela no mínimo acabava com os ossos quebrados”[12]. Green acrescenta que “se as respostas ‘corretas’ não fossem dadas, acrescentavam pesos a seu corpo para intensificar a dor nas articulações e agravar as queimaduras provocadas pelas cordas amarradas aos pulsos”[13].

Além destas torturas mais tradicionais, havia ainda outras que eram rotineiramente empregadas. Nataniel faz menção ao suplício do fogo, que ele descreve:

Para o suplício do fogo, punham o réu de pés nus no tronco e, untando-lhe as plantas com banha de porco, aproximavam delas um braseiro ardente. Quando se queixava demasiadamente de dor, interpunham entre os pés e o braseiro uma tábua, ordenando-lhe que confessasse. Reputava-se esta tortura a mais cruel de todas.[14]

Outro instrumento tradicional era o potro, sobre o qual Gorenstein afirma:

Foram submetidas ao potro, onde eram deitadas em uma mesa (na terminologia dos inquisidores, “lançada”) e seus membros eram amarrados com correias – que eram puxadas, esticando mãos, braços, pés e pernas – por uma volta, duas voltas, até onde achassem necessário – ou até que as rés delatassem seus parentes.[15]

Era esse o tormento favorito dos inquisidores brasileiros do Rio de Janeiro. Os prisioneiros tinham que sofrer este tipo de tortura totalmente nus, incluindo as mulheres[16]. Quem também nos conta mais sobre a tortura do potro é Assis, que escreve:

O potro tratava-se de uma espécie de mesa de madeira em que o réu era preso pelos pulsos e calcanhares, apertados cada vez com mais força de acordo com a sua insistência em não confessar as culpas, impedindo a circulação sanguínea e, em casos extremos, cortando-lhe a pele e as carnes, chegando mesmo ao esmagamento dos ossos.[17]

Nazario escreve que “o potro era uma mesa de ripas onde o paciente, depois de amarrado nas pernas e braços, tinha as carnes cortadas pela pressão das cordas arrochadas”[18]. Baigent alega que no potro “a vítima era amarrada num ecúleo com cordas apertadas, que podiam ser apertadas mais ainda pelo torturador”[19]. Lea afirma que o ecúleo era um “aparelho onde a vítima era amarrada com cordas que eram progressivamente apertadas até entrarem nos ossos”[20]. Baigent ainda faz menção a outro instrumento de tortura usado pelos inquisidores: a garrucha, também conhecida como strappado ou polia:

Nesse procedimento, amarravam-se as mãos da vítima às costas e depois a penduravam pelos pulsos numa polia no teto, com pesos amarrados nos pés. Levantavam-na muito devagar, para maximizar a dor, depois baixavam-na alguns pés, com uma brusquidão e violência que deslocavam os membros. Não surpreende que muitas vítimas ficassem permanentemente aleijadas, ou com a saúde cronicamente prejudicada. Não era raro, claro, que viesse a morte. Se vinha, julgava-se que fora incidental, mais uma infeliz concomitante ou subproduto da tortura que uma consequência direta dela.[21]

Ricardo Palma faz uma assustadora revelação sobre como eram as câmaras de tortura na Inquisição de Lima:

No centro da câmara de torturas havia uma mesa de dois metros e meio de comprimento. Num de seus extremos via-se um colar de ferro que se abria no centro para receber o pescoço da vítima, e fortes correias para prender-lhe braços e pernas, dispostas de tal modo que, estendida a pessoa sobre a mesa e feito um movimento no torno, era puxada violentamente a um só tempo em dois sentidos diferentes, deslocando-se-lhe as juntas. Havia ainda uma coluna ou pilori vertical, colocado contra a parede, com um buraco grande e dois pequenos. A vítima, pescoço e punhos presos nos buracos, isto é, com a cabeça e as mãos enterradas na parede, não podia ver o rosto dos leigos dominicanos que a açoitavam. Havia ciclícios de cordas e de ferro de vários tipos, manchados de sangue, e camisetas de crinas que usavam para cobrir as costas dos réus depois de flagelados. Havia anéis para os dedos que, aplicados numa pessoa, permitiam suspendê-la por eles à altura de sessenta a noventa centímetros do chão.[22]

A Igreja podia torturar das piores formas possíveis e acentuar ao máximo a dor e o sofrimento humano para extrair uma “confissão”, mas tinha horror a derramamento de sangue. Baigent escreve que “a maioria das formas de tortura – instrumentos preferidos como o ecúleo, o saca-unhas, o strappado e a tortura da água – evitavam o deliberado derramamento de sangue. Aparelhos desse tipo parece terem sido idealizados para causar o máximo de dor e o mínimo de sujeira”[23]. Ele escreve ainda:

O tradicional escrúpulo eclesiástico sobre derramamento de sangue permaneceu em vigor. Em consequência, instrumentos de ponta e de lâmina continuaram a ser evitados em favor do ecúleo, saca-unhas e outros aparelhos que só faziam correr sangue, por assim dizer, incidentalmente. As tenazes e outros brinquedos como estes eram sombrios. Rasgar a carne com tenazes era bastante sangrento. Se estivessem em brasa, porém, o metal aquecido cauterizava imediatamente o ferimento e estancava o fluxo de sangue. Sofismas desse tipo eram aplicados à duração e frequência da tortura.[24]

Não havia limites para a criatividade dos inquisidores em se tratando de torturas. Lea afirma que “tudo o que as depravadas imaginações dos inquisidores idealizavam acabava sendo sancionado”[25]. O Regulamento de 1561 prescrevia que “diante da diferença em força corporal e mental entre os homens, não se podem estabelecer regras certas, mas deixar ao critério dos juízes, governados pela lei, razão e consciência”[26]. Ou seja, os inquisidores poderiam inventar novos instrumentos, máquinas e métodos de tortura ao seu bel prazer.

Dentre os instrumentos de tortura criados pela imaginação sempre fértil dos inquisidores, podemos mencionar o cavalo-de-pau[27], o garrotilho nos dedos[28], os apetrechos de mutilação[29], a “tortura da cegonha”[30], o chicote de correntes[31], a “cócega” espanhola[32], o destroçador de seios[33], o esmagador de joelho[34], a forquilha[35], as “garras de gato”[36], o garrote[37], os instrumentos de contenção[38], os pesos[39] e muitos outros. Descrevê-los todos exigiria bastante trabalho e ultrapassaria os limites de escopo deste livro. Por isso, descrevi só os mais utilizados.

Quem quiser conferir uma descrição (com foto) de cada um dos referidos instrumentos de tortura da Inquisição, basta acessar o “Museu da Inquisição”, disponível nas notas de rodapé sobre cada um dos instrumentos citados. O museu, localizado em Belo Horizonte/MG, é uma idealização da Dra. Anita Novinsky, a maior pesquisadora do mundo sobre a Inquisição no Brasil, e conta com um excelente website bastante informativo e rico de conteúdo[40]. O museu tem uma réplica de cada um dos instrumentos de tortura usados pela Inquisição, o que é apenas um pequeno resquício do terror que assolou o mundo até poucos séculos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

- Extraído do meu livro: "A Lenda Branca da Inquisição".

Por Cristo e por Seu Reino,

-Meus livros:

- Veja uma lista de livros meus clicando aqui.

- Confira minha página no facebook clicando aqui.

- Acesse meu canal no YouTube clicando aqui.


-Não deixe de acessar meus outros blogs:

LucasBanzoli.Com (Um compêndio de todos os artigos já escritos por mim)
Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
O Cristianismo em Foco (Artigos devocionais e estudos bíblicos)
Desvendando a Lenda (Refutando a imortalidade da alma)
Ateísmo Refutado (Evidências da existência de Deus e veracidade da Bíblia)
Fim da Fraude (Refutando as mentiras dos apologistas católicos)




[1] PALMA, Ricardo. Anais da Inquisição de Lima. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Giordano, 1992, p. 46.
[2] EYMERICH, Nicolau; PEÑA, Francisco. Manual dos Inquisidores. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993, p. 155.
[3] ibid, p. 210.
[4] ibid. Nota do editor.
[5] ibid.
[6] JOMTOB, Natanael. A Inquisição sem Máscara. Citado em: PALMA, Ricardo. Anais da Inquisição de Lima. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Giordano, 1992, p. 46.
[7] MALUCELLI, Laura; FO, Jacopo; TOMAT Sergio. O livro negro do cristianismo: dois mil anos de crimes em nome de Deus. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
[8] JOMTOB, Natanael. A Inquisição sem Máscara. Citado em: PALMA, Ricardo. Anais da Inquisição de Lima. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Giordano, 1992, p. 46.
[9] GREEN, Toby. Inquisição: O Reinado do Medo. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda, 2007.
[10] ibid.
[11] ASSIS, Angelo Adriano Faria de. Intolerância em nome da Fé. São Paulo: 2006, p. 21-22.
[12] NAZARIO, Luiz. Autos-de-fé como espetáculos de massa. São Paulo: Associação Editorial Humanitas: Fapesp, 2005, p. 80.
[13] GREEN, Toby. Inquisição: O Reinado do Medo. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda, 2007.
[14] PALMA, Ricardo. Anais da Inquisição de Lima. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Giordano, 1992, p. 46-47.
[15] GORENSTEIN, Lina. A Inquisição contra as mulheres: Rio de Janeiro, séculos XVII e XVIII. São Paulo: Associação Editorial Humanitas: Fapesp, 2005, p. 149.
[16] GORENSTEIN, Lina; CALAÇA, Carlos Eduardo. Na Cidade e Nos Estaus: Cristãos-novos do Rio de Janeiro (Séculos XVII-XVIII). In: Ensaios sobre a intolerância: inquisição, marranismo e anti-semitismo (ed. GORENSTEIN, Lina; CARNEIRO, Maria Luiza Tucci), 2ª ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005, p. 124.
[17] ASSIS, Angelo Adriano Faria de. Intolerância em nome da Fé. São Paulo: 2006, p. 21-22.
[18] NAZARIO, Luiz. Autos-de-fé como espetáculos de massa. São Paulo: Associação Editorial Humanitas: Fapesp, 2005, p. 80.
[19] BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, p. 90.
[20] Lea, A History of the Inquisition of the Middle Ages, III, p. 22
[21] BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, p. 90-91.
[22] ibid, p. 114-115.
[23] BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, p. 45.
[24] ibid, p. 52.
[25] Lea, A History of the Inquisition of the Middle Ages, III, p. 22.
[26] Apud BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, p. 91.
[27] PALMA, Ricardo. Anais da Inquisição de Lima. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Giordano, 1992, p. 38.
[28] ibid.

Comentários

  1. Lucas a igreja presbiteriana difere da igreja batista em relação a ceia. A batista acredita que a ceia é um memorial. A presbiteriana diz que Jesus se faz presente espiritualmente na ceia. Qual das duas está certa?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Neste caso eu creio da maneira presbiteriana.

      Excluir
  2. Lucas vc poderia mostrar aqui mesmo ou fazer uma lista de citações de pais da igreja,colocando o texto e sua obras,que oravam apenas a Deus e descria na oração aos mortos pedindo a sua intercessão.Obrigada
    Amanda Teles

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os primeiros Pais da Igreja (Clemente, Inácio, Hermas, Justino, Didaquê, Taciano, Teófilo, Policarpo, Polícrates, etc) eram mortalistas, ou seja, eles não criam que a alma de alguém já tivesse subido ao céu, por isso evidentemente ninguém achará neles qualquer citação de oração aos mortos. Todas as citações sobre isso já estão no meu livro "Os Pais da Igreja contra a imortalidade da alma", que você pode baixar aqui:

      https://mega.nz/#!flZjxRZI!LcNs95Mourqdnl6TrKrmFDDFYOR9mkCVIDZx0MqjWJc

      Os Pais dos séculos seguintes, mesmo sendo imortalistas, permaneceram sem crer em oração pelos mortos nem tampouco pediam a intercessão deles. Como você pediu, segue abaixo algumas citações:

      “NEM ELA [A IGREJA] REALIZA QUALQUER COISA POR MEIO DE INVOCAÇÕES ANGELICAIS, ou por encantamentos, ou por qualquer outra arte curiosa perversa, MAS DIRIGE SUAS ORAÇÕES AO SENHOR, que fez todas as coisas, em um puro, sincero e íntegro espírito, e invocando o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ela está acostumada a fazer obras milagrosas para o benefício do gênero humano, e não para levá-los ao erro (...) O altar, então, é no céu (para esse lugar são as nossas orações e ofertas dirigidas)” (Irineu, Contra as Heresias 2:32:5 e 4:18:6)

      “Paraíso, o lugar da bem-aventurança celestial designado para receber os espíritos dos santos, CORTADOS DO CONHECIMENTO DESTE MUNDO” (Tertuliano, Apologia 47)

      “Invocar os anjos sem ter obtido um conhecimento de sua natureza superior que não é possuída por homens, SERIA CONTRÁRIO À RAZÃO. Mas, conforme nossa hipótese, que este conhecimento deles, que é algo maravilhoso e misterioso, pode ser obtido. Então esse conhecimento, dando-nos saber sua natureza, e os cargos para os quais são solidariamente designados, NÃO IRÁ NOS PERMITIR ORAR COM CONFIANÇA PARA QUALQUER OUTRO QUE NÃO SEJA O DEUS SUPREMO, que é suficiente para todas as coisas, e que através de nosso Salvador o Filho de Deus, que é a Palavra, a sabedoria e a Verdade, e tudo o mais que os escritos dos profetas de Deus e os apóstolos intitulam Jesus” (Orígenes, Contra Celso 5:5)

      “Porque todo aquele que de sua alma serve ao Ser Divino de nenhuma outra maneira, que não leve sempre em conta o Criador de tudo, PARA DIRECIONAR SUAS ORAÇÕES A ELE SOMENTE, e fazer todas as coisas como se aos olhos de Deus, que nos vê completamente, até mesmo os nossos pensamentos” (Orígenes, Contra Celso 7:51)

      “É evidente que AQUELES QUE FAZEM ORAÇÕES AOS MORTOS, ou veneram a terra, ou oferecem suas almas aos espíritos imundos, não agem como se tornando homens, eles VÃO SOFRER PUNIÇÃO POR SUA IMPIEDADE E CULPA, que, rebelando-se contra Deus, o Pai da raça humana, se comprometeram com ritos inexpiáveis, e violaram toda a lei sagrada” (Lactâncio, As Institutas Divinas 2:18)

      “Não fazes oração aos homens, mas a Deus” (João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 19:3)

      Abs!

      Excluir
  3. Lucas,

    a objeção contrária mais comum em relação a esse tema é que só se usa "fontes anti-católicas", e que o esquerdismo maculou a imagem da Igreja...só que a maioria dos exegetas romanistas é que incorrem neste erro, pois na maioria das "defesas" a favor da Igreja em relação a inquisição, são usadas historiadores e estudiosos católicos...enfim.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É um absurdo sem tamanho usar historiadores católicos para defender a Inquisição. Isso é o mesmo que usar historiadores neonazistas para defender o holocausto judeu. É óbvio que tais historiadores serão altamente tendenciosos e revisionistas. Se os católicos estivessem certos em sua ridícula defesa da Inquisição, no mínimo os historiadores sérios do mundo toda a defenderia, por que será que é só católico fanático que a defende? O romanista é tão cego e imbecilizado que prefere pensar que todos os historiadores não-católicos do planeta estão envolvidos em uma enorme conspiração contra a Igreja Romana do que que os historiadores católicos são puros revisionistas tendenciosos e parciais.

      Além disso, eu não precisaria usar nenhum historiador não-católico no meu livro, bastaria passar as citações do Manual dos Inquisidores (feito por inquisidores católicos no período inquisitorial) e deixar que as citações falassem por si mesmas. Eu só uso historiadores para agregar conteúdo e enriquecer o artigo, mas em questão de provar a monstruosidade da Inquisição bastaria mostrar as falas dos próprios inquisidores e mais nada.

      Excluir
  4. Meu nome é Batman4 de julho de 2016 20:33

    Lucas, são várias perguntas, vou listar, gostaria que você me ajudasse. :)
    1) Existe alguma diferença entre a Trindade católica e a Trindade protestante?
    2) Se alguém é batizado quando pequeno em uma igreja católica (ou em uma igreja luterana e presbiteriana - elas também batizam crianças), e quando é adulto percebe que o batismo infantil é incorreto, esta pessoa deve se batizar de novo?
    3) Fui batizado na igreja presbiteriana (não pequeno, já adulto), deixei de ser membro dessa igreja e fui para uma Assembléia de Deus. O pastor da Assembléia disse que eu tenho que me batizar de novo, pois o batismo presbiteriano (aspersão) é incorreto, portanto não é válido perante Deus. O que você acha?
    4) Por que doutrinas (que eu julgo importantes, como o batismo), Deus não trabalha de uma forma clara nas Escrituras? Temos que reconhecer que existem bons argumentos de ambos os lados, tanto de quem é pedobatista quanto de quem é credobatista, o que pode fazer com que uma pessoa comum, que não pretende ser teólogo mas se interessa por teologia, fique beeeem confusa, certo?
    5) A confissão de fé belga diz que nós podemos identificar uma falsa igreja, a partir dos seguintes itens:

    -Atribui mais poder à si mesma do que à Palavra de Deus
    -Não administra corretamente os sacramentos
    -Reconhece Jesus como o único cabeça

    Gostaria de saber se, a partir destes fatores, posso descobrir se QUALQUER IGREJA é verdadeira ou falsa.


    Não, não estou montando uma confissão de fé, calma :)

    Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vamos lá:

      1) Não.

      2) Sim.

      3) Não precisa, o batismo por aspersão é válido, embora a imersão seja o método-padrão do Novo Testamento.

      4) Respeito sua opinião, mas pra mim a Bíblia é suficientemente clara na questão do batismo de infantes. Ela não ensina isso em lugar nenhum, e todos os argumentos usados pelos pedobatistas - mesmo aqueles que parecem bons - são fracos e superficiais quando analisados mais detalhadamente.

      5) Não, ela escreveu aquilo para o contexto daquela época, mas há vários outros critérios que podem ajudar a identificar uma igreja verdadeira ou falsa. Se somente esses critérios fossem levados em consideração, até a seita do Agenor Duque poderia ser considerada "verdadeira". Se bem que eu não gosto dos termos "verdadeiro" e "falso", porque transmite uma ideia enganosa de que uma igreja ou é 100% correta em todas as doutrinas ou é 100% errada em tudo, e sabemos que as coisas não são assim. Não existe nenhuma igreja perfeita e dificilmente haverá uma totalmente errada em tudo (exceto a do Inri Cristo, talvez), o que há são igrejas que oscilam entre 30, 50, 70 porcento de pureza doutrinária, algumas mais, outras menos. As que tem mais pureza podem ser consideradas "verdadeiras", o que não significa que estão certas sobre tudo, e as que estão mais distantes da verdade podem ser consideradas "falsas", o que também não significa que tudo ali dentro seja errôneo.

      Abs!

      Excluir
  5. Lucas, você sabe livros bons para quem quer estudar patrística? E o que você acha da Bíblia de estudo Genebra? Qual a melhor Bíblia de estudo para você?
    Agradeço sua resposta, grande abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Para ler patrística o melhor é ler os próprios escritos dos Pais da Igreja em vez de ler livros que escreveram sobre os Pais. Isso porque todo mundo que escreve livro sobre patrística apresenta os fatos de acordo com a sua própria visão e pré-conceitos teológicos. Se você quer mesmo estudar patrística, vá direto aos escritos dos Pais. Para fazer isso você pode acessar aqui em português:

      http://arminianismo.com/index.php/categorias/obras/patristica

      Ou aqui em inglês:

      http://www.newadvent.org/fathers/

      Agora, se você quiser mesmo ler apenas um livro SOBRE patrística, e não um livro DE patrística, recomendo o livro "Os Pais da Igreja", de Hans von Campenhausen, e o livro "História da Teologia Cristã", de Roger Olson.

      A Bíblia de Genebra é calvinista, portanto eu não gosto. A Bíblia de Estudos que eu achei mais completa até agora é o "Comentário Bíblico Atos" (WALTON, John H; MATTHEWS, Victor H; CHAVALAS, Mark K), mas o da NVI também é bom.

      Abs!

      Excluir
  6. Caro Lucas, estava na página da Congregação Luterana da Reforma em que o dono da página fala sobre a deturpação que fazem de Santo Agostinho, o colocando como Reformado. Nos comentários você foi citado por supostamente ter deturpado o que Agostinho defendia veja: https://www.facebook.com/Congrega%c3%a7%c3%a3o-Luterana-da-Reforma-371432329683686/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É simples, eu dou um milhão de reais para quem provar que algum dia eu escrevi que Agostinho era reformado ou protestante. Eu nunca escrevi uma coisa dessas, ele vai ter que provar que eu disse isso, ou ele é um mentiroso. O que eu faço as vezes é mostrar que Agostinho contradizia certas doutrinas romanistas, e isso é óbvio, qualquer teólogo que não seja um jumento sabe disso. Mas isso não significa que Agostinho esteja do outro lado (ou seja, dos protestantes). Significa apenas que ele não era católico romano.

      O Hugo e o Bruno Lima (que também foram citados junto comigo) também nunca disseram que Agostinho era protestante. O que eles também fazem é mostrar que Agostinho descria em doutrinas romanistas tais como justificação pelas obras, tradição em pé de igualdade com as Escrituras, infalibilidade e primado do bispo romano, imaculada conceição, assunção de Maria, transubstanciação, etc. Isso já elimina a possibilidade de ser católico romano, pois um católico é obrigado a crer nestas doutrinas para ser considerado católico. Por outro lado ele também não era protestante, porque cria em intercessão dos santos, oração pelos mortos, uma semente do que mais tarde viria a ser o purgatório, etc. O problema desse cara é que ele pensa que qualquer um que afirma que Agostinho não era romanista está querendo dizer que ele era protestante. Pensam como se isso fosse um jogo de futebol e Agostinho tivesse que escolher um dos dois times...

      Excluir
  7. Lucas, Paz e Graça.

    Deixa eu te perguntar: quantas vezes você já leu a Bíblia Sagrada?

    Quantos livros teológicos já leu?

    Quantos livros seculares já leu?

    Se não quiser responder sem problemas mas é uma curiosidade minha. Deus continue te abençoando. Um forte abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O Novo Testamento eu li 60 vezes até 2012 e depois disso parei de contar. Hoje tento ler uma vez por semana, inteiro ou em grande parte. O Antigo Testamento eu li só quatro vezes, alguns livros eu li mais vezes.

      Não sei quantos livros eu já li, realmente não faço ideia. Quando eu estou procurando bibliografia para algum livro meu eu tento ler pelo menos um ou dois por semana. Mas quando eu estou escrevendo livro eu leio bem menos, porque então o meu foco é escrever e não ler.

      Abs!

      Excluir
    2. Um dia eu chego lá companheiro rsrsrsrs. Vamos focar em transmitir para as pessoas teologia com espiritualidade. Jonh Wesley mesmo dominava pelo menos 6 idiomas, o apóstolo Paulo e também Apolo eram homens cultos e cheios do Espírito Santo. Dá pra conciliar e fundir sabedoria espiritual e conhecimento humano com unção do Espírito e graça de Deus. Até mais Lucas...

      Excluir

Postar um comentário

Comente abaixo. Sua participação é importante e será publicada após passar pela moderação. Todos os tipos de comentários ou perguntas educadas são bem-vindas e serão respondidas cordialmente, mas ofensas, deboches, divulgação de páginas católicas (links), control c + control v e manifestações de fanatismo não serão aceitos.