12 de agosto de 2015

Refutando astronauta católico (VI): Taciano cria na imortalidade da alma?


Chegamos agora à sexta parte da nossa refutação ao astronauta católico, desta vez no que tange a Taciano, o Sírio (120-180 d.C). Se você chegou aqui sem ter lido as outras partes da refutação, recomendo que as leia antes de prosseguir a leitura deste artigo:


Taciano é tão claramente um pregador da mortalidade da alma no século II d.C que o próprio astronauta católico foi obrigado a reconhecer isso em seu artigo (ainda que parcialmente) e a desacreditá-lo e menosprezá-lo de todas as formas, inclusive chamando Taciano de “herege”. O nível de amadorismo na “refutação” do astronauta católico mostra o desespero desta gente em lidar com os escritos dele, que combatem tão clara e consistentemente a doutrina da imortalidade incondicional da alma. Aqui vai um print do desespero do astronauta católico em tentar depreciar Taciano para abaixar o peso da evidência contra ele:

(Clique na imagem para ampliar)

O que o católico charlatão se esquece de dizer neste texto ridículo é que Taciano não escreveu o “Discurso contra os Gregos” depois de se tornar “herege”, mas enquanto ainda era cristão. Taciano só deixou a Igreja em sua velhice, como atesta Le Roy Edwin Froom em sua obra The Conditionalist faith of Our fathers[1]. John H. Roller, em sua obra sobre “A doutrina da imortalidade da alma na Igreja primitiva”[2], acrescenta ainda que a seita ascética criada por Taciano só foi declarada “herética” muito depois da morte do próprio Taciano, que se deu em 180 d.C. Ou seja, o apologista católico desonesto tenta desmerecer Taciano por uma coisa que ele só fez depois de ter escrito o “Discurso contra os Gregos”, e que mesmo assim só foi considerada “herética” bem depois da sua morte.

Paradoxalmente, no mesmo lixão de site do astronauta católico há um monte de citações de Tertuliano supostamente pró-catolicismo, sendo que Tertuliano também apostatou depois de escrever aquelas coisas. Mas com Tertuliano pode, só não pode com Taciano, porque Taciano explode o capacete do astronauta, e Tertuliano nem tanto. Na cabeça do astronauta embusteiro, “Taciano não pode ser usado para provar nenhuma doutrina cristã” (porque mais tarde ele se tornou “herege”), mas ele usa Tertuliano para “provar doutrinas cristãs” (mesmo ele também tendo se tornado “herege” mais tarde). É assim que funciona o mundo de ilusão e demência dos fanáticos católicos, como Rafael Rodrigues.

O néscio diz ainda que “não nos importa muito o testemunho de Taciano” (é claro que não importa, já que Taciano é um hadouken muito bem dado no estômago deles), ignorando a vasta formação intelectual e prestígio que Taciano tinha na época em que escreveu o “Discurso contra os Gregos”, antes de apostatar. Taciano era um refinado intelectual que dominava a cultura clássica grego-romana e que em seus escritos citou 93 autores clássicos, fazendo uso de seu vasto conhecimento. Convertido ao Cristianismo, ele se tornou discípulo do grande Justino Mártir, seus escritos foram altamente consideradas pela igreja da Síria por duzentos anos, e seu Diatessaron foi usado pela igreja siríaca até o quinto século. Nada disso o astronauta católico fala, na tentativa de depreciar Taciano a todo e qualquer custo, distorcendo a verdade em favor de sua causa nefasta.


Taciano cria no estado intermediário?

Não precisamos perder muito tempo argumentando neste ponto porque o próprio astronauta católico, por mais desonesto que tenha demonstrado ser até hoje, pelo menos acerta uma, admitindo que Taciano tinha a mesma crença da “seita árabe” que cria na morte da alma com a morte do corpo. O astronauta diz:


Isso que ele chama de “seita árabe”, nas palavras de Eusébio, “asseverava que a alma humana neste mundo, no momento final provisoriamente morre com o corpo, e com ele se corrompe, mas no futuro, por ocasião da ressurreição, com ele reviverá”[3].

Se Taciano cria igual a essa “seita árabe” (como o astronauta admite), então ele não cria que as almas dos mortos já estão conscientes em algum outro mundo, o que joga por terra a mentira estúpida de que a morte da alma tenha sido uma “invenção de Arnóbio” no século III d.C.

Para que não reste nenhuma sombra de dúvida a este respeito, reiteremos mais uma vez algumas das passagens que mostram claramente que Taciano não cria mesmo em nenhum estado atual consciente dos mortos, e sim na inexistência entre a morte e a ressurreição. Ele diz:

“Com efeito, do mesmo modo como, não existindo antes de nascer, eu ignorava quem eu era e só subsistia na substância da matéria carnal – mas uma vez nascido, eu, que antes não existia, acreditei em meu ser pelo nascimento – assim também eu, que existi e que pela morte deixarei de ser e outra vez desaparecerei da vista de todos, novamente voltarei a ser como não tendo antes existido e portanto nasci. Mesmo que o fogo destrua a minha carne, o universo recebe a matéria evaporada; se me consumo nos rios ou no mar, ou sou despedaçado pelas feras, permaneço depositado nos tesouros de um senhor rico. O pobre ateu desconhece esses depósitos, mas Deus, que é rei, quando quiser, restabelecerá em seu ser primeiro a minha substância, que é visível apenas para ele”[4]

Aqui Taciano deixa mais do que claro a crença dos cristãos primitivos sobre a morte ser um estado de não-existência, ao invés de ser um estado de existência em outro mundo. Da mesma forma como nós não existíamos antes de nascer, nós deixaremos de existir outra vez quando morrermos, mas Deus um dia nos ressuscitará, fazendo com que existamos outra vez. Assim como antes de nascer você estava em um estado de não-existência, você ressuscitará de um estado de não-existência, e então passará novamente a um estado de existência. A existência só existe em dois períodos: nesta vida (em corpo corruptível) e na vida futura pós-ressurreição (em corpo incorruptível). Essa é a visão bíblica sobre a morte (veja aqui) e era também a concepção dos primeiros cristãos, pelo menos até Taciano.

Taciano também descreve como o homem se tornou naturalmente mortal após ter desobedecido a Deus (no Jardim):

“Todavia, como a virtude do Verbo tem em si a presciência do futuro, não por fatalidade do destino, mas por livre determinação dos que escolhem, predisse os acontecimentos futuros, freou a maldade por suas proibições e louvou os que perseveram no bem. Aconteceu, porém, que os homens e os anjos seguiram e proclamaram Deus àquele que, por ser criatura primogênita, superava os demais em inteligência, justamente ele que se havia revelado contra a lei de Deus. Então a virtude do Verbo negou a sua convivência não só ao que se tornara cabeça desse louco orgulho, mas também a quantos o haviam seguido. E o homem, que tinha sido criado à imagem de Deus, apartando-se dele o espírito mais poderoso, tornou-se mortal e aquele que fora primogênito, por sua transgressão e insensatez, foi declarado demônio, e os que imitaram suas fantasias se transformaram no exército dos demônios que, por razão de seu livre-arbítrio, foram entregues à própria perversidade”[5]

“Nós não fomos criados para a morte, mas morremos por nossa própria culpa. A liberdade nos deixou; nós que éramos livres, nos tornamos escravos; fomos vendidos pelo pecado. Deus não fez nada mau; fomos nós que produzimos a maldade; nós que a produzimos, porém somos também capazes de recusá-la”[6]

“Conforme o seu livre-arbítrio, os demônios deram aos homens leis de morte; mas os homens, depois de perderem a imortalidade, com sua morte pela fé, venceram a morte e, por meio da penitência, foi-lhes outorgado o dom de uma nova vocação, conforme a palavra que diz: ‘Pois por um pouco de tempo foram tornados inferiores aos anjos’. De fato, é possível para todo aquele que foi vencido vencer por sua vez, contanto que rejeite a constituição da morte, e qual seja esta é fácil de ver para aqueles que desejam a imortalidade”[7]

A visão de Taciano era totalmente bíblica e bastante simples: Deus não nos criou naturalmente mortais, mas nós nos tornamos naturalmente mortais ao desobedecer a Deus e escolher pelo pecado (esta é exatamente a mesma visão de seu contemporâneo Teófilo, como vimos no artigo anterior). A única solução para isso é a ressurreição dos mortos, mediante a qual poderemos viver para sempre depois de termos morrido como consequencia do pecado. Para Taciano, era impossível a alma “se manifestar sem o corpo” (eliminando por completo a possibilidade das almas estarem vivas desincorporadas no Céu neste momento), e na ressurreição a carne não ressuscita “sem a alma”:

“A alma dos homens compõe-se de muitas partes, e não de uma só; ela é composta, de modo que se manifesta por meio do corpo. Com efeito, nem a alma poderia por si mesma jamais se manifestar sem o corpo, e nem a carne ressuscita sem a alma[8]

A lógica de Taciano era certeira: se a alma só pode ser manifesta por meio do corpo, então não existe vida “somente no corpo” ou “somente na alma”. Consequentemente, na morte não há vida em estado incorpóreo (na alma), e na ressurreição não há vida somente para o corpo, mas para o corpo e a alma. Ou os dois estão juntos e há vida, ou os dois não estão juntos e há não-vida (morte). Não existe vida somente como “alma” ou somente como “corpo”. Isso é exatamente o que a Bíblia diz sobre o estado dos mortos, que vocês podem ler clicando aqui.

Para Taciano, a alma não é imortal (neste presente momento), mas precisa ser imortalizada pelo Verbo (Jesus) na ressurreição, no mesmo momento em que o corpo também recebe a imortalidade:

”Mas nem a nós ficam ocultas as coisas do mundo nem a vós será difícil compreender as divinas, contanto que chegue até vós a potência do Verbo que imortaliza a alma[9]

“Vocês afirmam que só a alma receberá a imortalidade; eu, que juntamente com ela também a carne[10]

“Nós, porém, aprendemos dos profetas o que ignorávamos; estes, persuadidos de que o espírito celeste, vestidura de nossa imortalidade, juntamente com a alma, um dia possuirá a imortalidade, predisseram o que as outras almas não sabiam”[11]

Se a alma “um dia possuirá a imortalidade”, é óbvio que ela não possui a imortalidade agora.

A parte mais patética e ao mesmo tempo hilária do texto do astronauta católico é quando ele, depois de já ter concedido que Taciano cria na morte da alma depois da morte do corpo, cita um texto que supostamente “prova” que Taciano cria que  alma era “imortal” e que “se separa do corpo”. Eu vou mostrar mais um print direto do artigo dele, antes que ele edite o artigo para apagar essa pérola. Ele diz:

(Clique na imagem para ampliar)

O cara é tão ridículo e abestado que nem percebeu que Taciano estava justamente ridicularizando a crença dos gregos, de que a alma era imortal. Ele estava sendo irônico e sarcástico, zombando da crença dos gregos, e o astronauta vai lá e copia o texto sem ler, pensando que Taciano estava sendo literal e contradizendo tudo aquilo que ele já havia escrito em toda a obra!

Vejamos a citação de Taciano dentro de seu devido contexto:

“Os demônios que dominam os homens não são as almas dos mortos. Com efeito, como podem ser capazes de agir depois de mortos? A não ser que creiamos que, enquanto vive, um homem é ignorante e impotente e, depois que morre, recebe daí para a frente um poder mais eficaz. Isso, porém, não é assim, como já demonstramos em outro lugar, nem é fácil compreender como a alma imortal, impedida pelos membros do corpo, se torne mais inteligente quando se separa dele. Não. São os demônios aqueles que, por sua maldade, se enfurecem contra os homens e, com variadas e enganosas representações, desviam os pensamentos dos homens, já por si inclinados para baixo, a fim de torná-los incapazes de empreender a sua marcha de ascensão para os céus”[12]

Veja que Taciano estava refutando a crença de algumas pessoas que pensavam que os demônios eram na verdade “as almas dos mortos”. Taciano refuta essa bobagem dizendo que isso era impossível, uma vez que os mortos não são capazes de “agir”. Se os mortos estão em estado de inexistência, como é que eles podem ser os demônios? Não tem como. Era este o ponto de Taciano. Então ele faz uma concessão hipotética:

“...a não ser que creiamos que, enquanto vive, um homem é ignorante e impotente e, depois que morre, recebe daí para a frente um poder mais eficaz”

Ou seja, para Taciano, se a alma continuava viva após a morte, então o homem deveria receber um “poder mais eficaz” depois que morre, ou seja, que ele estaria em um estado melhor depois de morto do que estava enquanto vivo. É exatamente nisso que os apologistas católicos ridículos como o Rafael Rodrigues creem. Mas Taciano refuta essa mentira logo em seguida, dizendo:

“...isso, porém, não é assim, como já demonstramos em outro lugar”

Esse “em outro lugar” se refere a todas as várias partes de sua obra que já conferimos até aqui, que mostram claramente que Taciano cria na mortalidade da alma. E é aí que ele ridiculariza a crença estúpida daqueles que pensavam o contrário dele, dizendo que essa crença “não é fácil de se compreender”:

“...nem é fácil compreender como a alma imortal, impedida pelos membros do corpo, se torne mais inteligente quando se separa dele. Não

Taciano não estava dizendo que ele próprio crê que existe uma “alma imortal impedida pelos membros do corpo”, mas sim ridicularizando a crença daqueles gregos contra os quais ele escrevia, que criam que a alma era imortal e ficava dentro dos membros do corpo, e se tornava mais inteligente quando se separa dele (o que Taciano já havia refutado). O astronauta católico, de tão bôbo e desonesto que é, não grifou em seu artigo a palavra seguinte à frase que ele colocou em negrito, que é quando Taciano diz um “NÃO”, logo após dizer aquilo que os gregos criam, mostrando que o próprio Taciano não cria que a alma era “imortal”, que ficasse “dentro dos membros” do corpo ou que se tornasse “mais inteligente quando se separa dele”. Desonesto para um cidadão desses é um termo leve!

Essa não foi a única vez em que Taciano zombou e ridicularizou a doutrina da imortalidade da alma. Em outra parte de seu Discurso contra os Gregos, ele faz chacota com a crença daqueles que criam em intercessão dos santos falecidos:

“De fato, como é possível que, não tendo eu sido absolutamente mau enquanto vivi, os meus restos, depois de morto, sem eu fazer nada, os meus restos, que já não se movem nem sentem, realizem alguma coisa sensível? Como aquele que morreu com a mais desastrosa morte poderá ajudar alguém a se vingar? Com efeito, se fosse capaz, muito melhor vingaria a si mesmo contra o seu próprio inimigo, pois aquele que pode ajudar a outros, com muita maior razão poderá fazer justiça a si mesmo”[13]

Infelizmente temos que compreender que o astronauta católico jamais leu coisa alguma de Taciano, ele apenas correu desesperado para copiar e colar textos isolados citados em outros sites católicos e itardianos, sem sequer ler os textos que ele mesmo copia em seu próprio site, de tão deplorável que é. É por isso que ele comete tantas gafes e pérolas em seu texto de nível medíocre.


Taciano cria no tormento eterno?

Agora chegamos ao ponto que o astronauta católico assegura que Taciano cria da mesma forma que ele: no tormento eterno dos ímpios. E isso, na cabeça dele, é a “prova” de que Taciano não deve ser usado pelos mortalistas. O astronauta católico afirma:

(Clique na imagem para ampliar)

Mas de que raios que o astronauta católico tirou a ideia de que Taciano falou de “sofrer eternamente”? Deve ser do mesmo lugar em que o Paulo Porcão costuma formular seus “argumentos”: do focinho. Taciano não emprega a linguagem de “sofrer eternamente” em absolutamente lugar nenhum da sua obra. Tudo o que Taciano fala é sobre os ímpios terem “morte na imortalidade”, o que em si mesmo parece ser autocontraditório e não ter muito sentido, mas faz todo o sentido se entendermos que Taciano estava familiarizado com o platonismo, onde a alma ser “eterna” implicava não apenas em não ter fim, mas também em não ter início.

Por isso, ao invés de ele usar o termo “morte eterna” (que é o termo usado na Bíblia), ele preferia usar o termo “morte na imortalidade”, pois “imortal” não é aquilo que “não tem começo nem fim”, mas somente aquilo que “não tem fim” (sem necessariamente não ter tido um começo), ou seja, uma “morte sem fim”. Essa era uma forma mais adequada para falar aos gregos (para os quais ele dirigia seu Discurso), mas significa essencialmente a mesma coisa do termo bíblico “morte eterna”. A “morte na imortalidade” (=morte sem fim) é um estado perpétuo e permanente de morte, o que significa que o indivíduo que morreu nunca mais voltará à existência.

Isso era importante para diferenciar a crença dele em relação à crença dos estóicos e de outros gregos que acreditavam que na conflagração universal o indivíduo era aniquilado, mas que depois de um tempo ele voltava à existência e recomeçava tudo de novo outra vez. Para Taciano, a morte não era uma morte passageira, mas uma “morte na imortalidade”, ou seja, uma morte “imortalizada”, sem fim, sem volta, sem recomeços, sem novas chances. É o mesmo que a Bíblia chama de “morte eterna”, mas em uma linguagem mais adequada e apropriada para falar aos gregos, que entendiam o “eterno” como sendo aquilo que necessariamente não tem começo, o que poderia sugerir a eterna pré-existência das almas, que era um ponto que Taciano definitivamente não defendia.

A citação completa de Taciano em seu contexto é essa:

“Gregos, a nossa alma não é imortal por si mesma, mas mortal; ela, porém, é também capaz de não morrer. Com efeito, ela morre e se dissolve com o corpo se não conhece a verdade; ressuscita, porém, novamente com o corpo na consumação do tempo, para receber, como castigo, a morte na imortalidade. Por outro lado, não morre, por mais que se dissolva com o corpo, se adquiriu conhecimento de Deus. Porque, de si, a alma é treva e nada de luminoso há nela, e é isso o que sem dúvida significam as palavras: ‘As trevas não apreenderam a luz’. Não é a alma que salva o espírito, mas é salva por ele, e a luz apreendeu as trevas, no sentido que o Verbo é a luz de Deus e a alma ignorante é treva. Por isso, quando vive só, inclina-se para a matéria, morrendo juntamente com a carne[14]

Primeiro ele diz que a alma não é imortal por natureza, e sim mortal. Depois, para que ele não fosse associado a um epicurista (que cria que as almas de todos morrem para sempre e não há recompensa e nem vida eterna para ninguém), ele faz o adendo de que “ela também é capaz de não morrer”, ou seja, que ela não será aniquilada como as almas dos ímpios serão, pois somente os ímpios irão para a morte eterna. Então, as almas dos ímpios se dissolvem com o corpo na morte e depois ressuscitam para a morte eterna (“morte na imortalidade”), enquanto as almas dos justos também se dissolvem com o corpo após a morte, mas não morrem, ou seja, não passarão pela morte eterna que as almas dos ímpios passarão.

O final do parágrafo é ainda mais esclarecedor, pois diz que as almas dos ímpios morrerão juntamente com a carne, o que mostra de forma indiscutível que esta “morte” que Taciano se referia ao falar do destino final dos ímpios não tinha nada a ver com “sofrer eternamente” (como o astronauta católico assevera), mas sim no mesmo tipo de morte que a carne sofre, ou seja, uma morte física, real, passando do estado de existência para o de inexistência.

Vamos agora para a outra citação de Taciano, onde ele diz:

“Também vós sois assim, gregos, elegantes no falar mas loucos no pensar, pois chegastes a preferir a soberania de muitos deuses em vez da monarquia de um só Deus, como se acreditásseis estar seguindo demônios poderosos. Com efeito, assim como os salteadores, por sua desumanidade, costumam audaciosamente dominar os seus seme­lhantes, também os demônios, depois de fazer as vossas almas abandonadas se desviarem no lodaçal da maldade, as enganaram por meio de ignorâncias e fantasias. É fato que eles não morrem facilmente, pois não têm carne; mas, vivendo, praticam ações de morte, e também eles morrem tantas vezes quantas ensinam a pecar aqueles que os seguem. Portanto, a vantagem que agora têm sobre os homens, isto é, não morrer de modo semelhante a eles, esse mesmo fato lhes será mais amargo quando chegar a hora do castigo, pois não terão parte na vida eterna participando dela, em lugar da morte na imortalidade. E como nós, para quem morrer é agora um acidente tão fácil, receberemos depois a imortalidade junto com o gozo, ou a pena junto com a imortalidade, também os demônios que abusam da vida presente para pecar a todo momento, e que durante a vida estão morrendo, terão depois a mesma imortalidade que os homens que deliberadamente realizaram tudo o que eles lhes impuseram como lei durante o tempo em que viveram. Não digamos nada sobre o fato de que, entre os homens que os seguem, aconteceu menos espécies de pecados por não viverem longo tempo, enquanto nos citados demônios o pecado se prolonga muito mais, em razão do tempo indefinido da sua vida[15]

Já expliquei há pouco o significado do termo “morte na imortalidade” (que Taciano aqui usa para o destino final dos demônios e diz em seguida que será o mesmo destino final dos homens iníquos). Ela não significa uma existência eterna e contínua de vida em algum lugar, mas sim uma morte real que não terá fim (em contraste com os gregos que pensavam que os ímpios serão aniquilados somente por algum tempo, e depois voltariam à existência no futuro). Taciano não diz que os demônios “não morrem”, mas sim que eles “não morrem facilmente”, nos levando a crer que eles um dia morrerão, embora com dificuldade (ou seja, que demorarão mais tempo para morrer do que os homens).

Aqui o termo “morte” não está em sentido espiritual ou figurado, porque o demônio já está neste estado de morte, como o próprio Taciano acentua na sequencia. “Não morrer facilmente por não ter carne” se refere obviamente à morte final (aniquilacionismo), não a uma mera morte espiritual. Mais uma vez, é a parte final do capítulo que lança mais luz ao que ele havia acabado de dizer. Taciano explica o porquê que os demônios demoram mais para morrer (“não morrem facilmente”) do que os humanos que também são ímpios. Ele diz que é porque os pecados dos homens são menores, uma vez que “não vivem longo tempo”, enquanto os pecados dos demônios “se prolongam muito mais”, em função do “tempo indefinido” de sua vida.

Note que Taciano não diz que os demônios são seres “imortais” ou que vivem “infinitamente”, mas sim que vivem um tempo indefinido, o que é bem diferente. O tempo é “indefinido” porque ninguém sabe exatamente em qual momento que o diabo foi criado, mas não é “infinito”, porque um dia ele será morto assim como os homens que o seguiram. O texto presume que Taciano cria na mesma coisa que os aniquilacionistas creem hoje: que os demônios serão castigados por um tempo muito maior do que os homens que foram enganados por ele (em função de terem cometido mais pecados), e que no final tanto um como o outro irão para a “morte eterna”, um estado de morte que não tem volta.

Essa era a principal diferença entre Taciano e os gregos na questão do aniquilacionismo: enquanto os gregos estóicos criam que as almas eram aniquiladas muitas vezes ao longo de várias conflagrações universais e recriações, Taciano e os demais cristãos criam em apenas uma única conflagração universal, e, consequentemente, em um único aniquilacionismo, o que impede que os ímpios voltem à existência em algum momento depois de já terem sido aniquilados. É por isso que Taciano afirma:

“Há quem diz que o Deus perfeito é corpo; eu, que é incorpóreo; que o mundo é indestrutível; eu, que é destrutível; que a conflagração universal acontece periodicamente; eu, que de uma só vez[16]

Por fim, Taciano deixa mais do que claro que somente participando da porção de Deus seremos imortais, o que lança por terra qualquer possibilidade de que os ímpios também herdem a imortalidade no futuro:

“O Verbo celeste, espírito que vem do Espírito e Verbo da potência racional, à imitação do Pai que o gerou, fez o homem imagem da imortalidade, a fim de que, como em Deus existe a imortalidade, assim o homem, participando da porção de Deus, possua o ser imortal[17]

Em síntese, Taciano não cria nem em estado intermediário, e nem em tormento eterno. Ele cria na dissolução e morte da alma de justos e ímpios com a morte do corpo, e em ressurreição para ambos, na qual os justos desfrutarão de vida eterna, e os ímpios serão castigados proporcionalmente aos seus pecados, sendo por fim lançados à “morte na imortalidade”, um estado perpétuo e sem volta de morte, que distinguia o aniquilacionismo cristão do aniquilacionismo grego. Temos aqui um mestre cristão – doutrinado pelo maior professor cristão da época – desafiando os gregos de seu tempo e destruindo o principal fundamento deles: a lenda da imortalidade da alma.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[1] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, Vol. 1, p. 835.
[3] História Eclesiástica, Livro III, 26:4.
[4] Discurso contra os Gregos, c. 6.
[5] Discurso contra os Gregos, c. 7.
[6] Discurso contra os Gregos, c. 11.
[7] Discurso contra os Gregos, c. 15.
[8] Discurso contra os Gregos, c. 15.
[9] Discurso contra os Gregos, c. 16.
[10] Discurso contra os Gregos, c. 25.
[11] Discurso contra os Gregos, c. 20.
[12] Discurso contra os Gregos, c. 16.
[13] Discurso contra os Gregos, c. 17.
[14] Discurso contra os Gregos, c. 13.
[15] Discurso contra os Gregos, c. 14.
[16] Discurso contra os Gregos, c. 25.
[17] Discurso contra os Gregos, c. 7.

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