14 de agosto de 2015

Os Pais da Igreja contra a imortalidade da alma - Refutação da Refutação (Texto na Íntegra)



Nota

Nas últimas semanas fui postando aqui parte por parte da refutação, na medida em que eu ia terminando de escrever. Esta é a versão completa, que reúne todas as refutações das últimas semanas. Embora o artigo vise rebater as acusações de um astronauta católico chamado Rafael Rodrigues, também serve para refutar o tal do Itard (o mesmo que foi desmascarado neste artigo), que também colocou no blog dele uma dúzia de textos isolados que ele nunca leu em lugar nenhum da patrística, mas como este elemento é completamente irrelevante apologeticamente eu preferi direcionar a refutação mais especificamente ao Rafael.


Introdução

Alguns de vocês já conhecem o Astronauta Católico (se não conhecem, não perderam nada). Depois de apanhar em quatro debates seguidos (aqui, aqui, aqui e aqui) e de propor um debate pessoal comigo que depois de aceito ele próprio desmarcou (e mesmo assim ainda mantém o “desafio” no “site” dele, para enganar seus leitores burros), o astronauta católico volta em mais uma de suas viagens astrais, dessa vez tentando pateticamente refutar meu artigo sobre "Os Pais da Igreja e a Imortalidade da Alma", com um aglomerado de distorções, textos isolados e deturpações nunca antes vistas pelo homem. Para se ter uma ideia do quão ruim que é, o artigo dele é quase pior do que o do Itard (não, não chegou a tanto ainda). O amadorismo do sujeito é tão flagrante que basta uma citação patrística das palavras “fogo eterno” que o indivíduo já sai proclamando vitoriosamente que tal Pai da Igreja cria no “tormento eterno”. É por causa de “apologistas” amadores como Rafael que entendo perfeitamente bem Lutero quando disse que “papista e burro é a mesma coisa”[1].


Refutando a Introdução


O texto amador inicia dizendo que “esta [a imortalidade da alma] é uma das doutrinas mais básicas para qualquer cristão”. Perdoarei este deslize porque sei que o astronauta católico não sabe o que é Cristianismo. Os credos e confissões de fé mais antigos rechaçam totalmente a ideia de que a imortalidade da alma era um “ponto fundamental para qualquer cristão”. O famoso Credo Apostólico (origem antiga) prega a ressurreição dos mortos, mas não nos diz nada sobre imortalidade da alma:

“Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra. Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja de Cristo; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne; na vida eterna”

“Creio na imortalidade da alma” nunca foi e nunca será um ponto de fé. O Didaquê (Doutrina dos Doze Apóstolos), também de origem antiga, que alguns estudiosos afirmam ser do final do primeiro século, também nada fala de “imortalidade da alma”, nem como ponto de fé, nem como sugestão teológica. Mais uma vez, é a doutrina da ressurreição, e não a “imortalidade da alma”, que entra em cena no cenário escatológico e toma a primazia:

“Então aparecerão os sinais da verdade. Primeiro, o sinal da abertura no céu; depois, o sinal do toque da trombeta e, em terceiro lugar, a ressurreição dos mortos. Ressurreição sim, mas não de todos, conforme foi dito: ‘O Senhor virá, e todos os santos estarão com ele’. Então o mundo verá o Senhor vindo sobre as nuvens do céu”[2]

Note ainda que a Didaquê, além de pregar a ressurreição sem fazer nenhuma referência direta ou indireta à imortalidade da alma, ainda é claramente pré-milenista (posição contrária ao amilenismo adotado pela Igreja Católica), pois afirma que na volta de Jesus somente os justos ressuscitarão, o que está em conformidade com a crença cristã pré-milenista de que os ímpios só ressuscitarão mil anos depois (ao final do milênio).

Quem também confirma que a Igreja primitiva adotava a ressurreição como crença principal, também sem fazer nenhuma alusão à imortalidade da alma e também demonstrando ter uma clara escatologia pré-milenista em contraste com a escatologia romana é Papias de Hierápolis (60-155 d.C), que nasceu ainda na era apostólica e chegou a conviver com alguns apóstolos e com seguidores diretos dos apóstolos. Eusébio de Cesareia (265-339), que viveu séculos mais tarde, na época em que a Igreja já tinha tido sua escatologia corrompida, reconheceu isso, dizendo:

“Entre essas coisas, ele [Papias] diz que haverá mil anos após a ressurreição dos mortos e que então o reino de Cristo se estabelecerá fisicamente nesta nossa terra”[3]

Justino (do qual ainda teremos muito a falar) também concorda com o milênio literal na terra (pré-milenismo) e assegura que aqueles que não creem na ressurreição não são cristãos, mas nunca disse que a imortalidade da alma fosse critério para alguém ser considerado cristão ou não:

“Se vós vos deparais com supostos Cristãos que não façam esta confissão, mas ousem também vituperar o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, e neguem a ressurreição dos mortos, sustentando antes, que no ato de morrer, as suas almas são elevadas ao céu, não os considereis cristãos. Mas eu e os outros, que somos cristãos de bem em todos os pontos, estamos convictos de que haverá uma ressurreição dos mortos, e mil anos em Jerusalém, que será construída, adornada e alargada, como os profetas Ezequiel e Isaías e outros declaram"[4]

Nem mesmo a Igreja dos séculos seguintes, numa época que já cria majoritariamente numa alma imortal, tinha a imortalidade da alma como um ponto fundamental de fé ou necessário para a salvação. O Credo Niceno-Constantinoplano, por exemplo, afirma:

“Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos. Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; Ele que falou pelos profetas. Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para a remissão dos pecados, e espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém”

Mais uma vez, a imortalidade da alma é esquecida e deixada totalmente de fora dos pontos de fé principais do cristão – e isso numa época em que a Igreja como um todo já cria que a alma era imortal!

Este padrão nem de longe foi mudado com a Reforma. Embora as igrejas reformadas adotassem a imortalidade da alma como ponto de fé, ela nunca foi considerada um “ponto fundamental”, daqueles que se precisa crer para a salvação, e nem mesmo um dos pontos mais importantes. Os famosos 39 artigos da Igreja Anglicana não falam em “imortalidade da alma” em lugar nenhum (esta, aliás, é uma das razões pelas quais ainda hoje há muitos anglicanos mortalistas), mas coloca a ressurreição como crença fundamental. Os 25 artigos de fé da Igreja Metodista também não falam nada de imortalidade da alma. A Confissão de Augsburgo, adotada pela Igreja Luterana e central no processo da Reforma, embora seja bem extensa, ignora completamente a doutrina da imortalidade da alma em seu escopo.

O próprio Martinho Lutero chegou a rechaçar a doutrina da imortalidade da alma com estas palavras:

“Contudo, eu permito ao papa estabelecer artigos de fé para si mesmo e para seus próprios fiéis – tais como: que o pão e o vinho são transubstanciados no sacramento; que a essência de Deus não gera nem é gerada; que a alma é a forma substancial do corpo humano; que ele [o papa] é o imperador do mundo e rei dos céus, e deus terreno; que a alma é imortal; e todas estas monstruosidades sem fim no monte de estrume dos decretos romanos – para que tal qual sua fé é, tal seja seu evangelho, e tal a sua igreja, e que os lábios tenham alface apropriada e a tampa possa ser digna da panela"[5]

Nas Escrituras, que nunca ensinaram imortalidade da alma, também fica claro que ela nunca foi “doutrina fundamental” (e nem pode ser “doutrina fundamental” aquilo que não é nem “doutrina”). Quando o autor de Hebreus elencou as doutrinas fundamentais, ele colocou essas:

“Portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade, sem lançar novamente o fundamento do arrependimento de atos que conduzem à morte, da fé em Deus, da instrução a respeito de batismos, da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno” (Hebreus 6:1-2)

Para variar, a ressurreição aparece de novo, e essa tal imortalidade da alma... nada. Não apenas o termo “imortalidade da alma” sequer existe na Bíblia, mas as próprias palavras aionios (eterno) ou athanatos (imortal) nunca aparecem nas Escrituras em associação à palavra psiquê (alma). E de todas as vezes que o apóstolo Paulo usou a palavra “esperança” em relação ao porvir, em nenhuma delas está associado a uma alma imortal, mas sempre à ressurreição (cf. At.23:6; 24:15; 26:6-8; Rm.8:23-24). Em minha opinião, estes são péssimos hábitos para quem crê que a imortalidade da alma é uma “doutrina fundamental”!

Em síntese, a imortalidade da alma nunca foi considerada uma “doutrina fundamental”, nem na igreja primitiva, nem no contexto da Reforma – nem por aqueles que criam na imortalidade da alma, e muito menos por aqueles que a rejeitavam. A sandice de que a imortalidade da alma é uma “crença básica para qualquer cristão” faz parte do “monte de estrume dos decretos romanos”, que precisa colocar a imortalidade da alma no patamar de “crença fundamental” para sustentar suas abominações como adoração às imagens, culto aos defuntos, purgatório, limbo, intercessão dos “santos” e todo o resto de doutrinas satânicas que tem como única finalidade desviar o cristão para longe de Cristo, e para mais perto dos mortos. É claro que para sustentar tantas aberrações e heresias é necessário um fundamento – é daí que surge a ideia de que a imortalidade da alma é uma “doutrina fundamental”, pois é ela que sustenta todas as demais. Mas que fique claro: imortalidade da alma é doutrina fundamental para o romanismo, não para o Cristianismo.

Seguindo com seu amadorismo típico, o astronauta esbraveja com o argumento manjado:

“Partindo do princípio da argumentação deles, poderíamos dizer que a ‘mortalidade da alma’ ou ‘aniquilacionismo’ também foi adotada do paganismo grego, já que Aristóteles, Epicureus e Estóicos também acreditavam que a alma morria e deixava de existir após a morte corporal. Dois pesos, duas medidas”

Antes disso eu já havia respondido a um certo “pastor” Jamierson em qual sentido que a imortalidade da alma é uma “doutrina pagã”. Para que fique claro também ao astronauta católico, uma doutrina pagã não é uma doutrina que um dia já tenha sido ensinada por algum pagão (se fosse assim, até a existência de Deus seria “paganismo”), mas sim uma doutrina que, na contramão do que ensina a Bíblia, passou a entrar no povo de Deus através do contato (sincretismo) com povos pagãos.

Os judeus só passaram a crer na imortalidade da alma após serem influenciados pelo platonismo, e por esta razão é uma crença “pagã”. Ou seja: não é por existir filósofos pagãos ensinando “x”, e sim porque a doutrina “x” veio de filósofos pagãos, e caiu na teologia deles. Entre uma coisa e outra há uma diferença monumental. A evidência histórica unânime é a de que os judeus eram holistas (posição que defende que a alma é o ser humano como um todo, que perece na morte), e só passaram a crer no dualismo a partir da diáspora, quando foram dispersos pelo mundo e influenciados pelo helenismo.

A grandemente respeitada Enciclopédia Judaica, em seu artigo referente à “Imortalidade da Alma”, declara explicitamente:

"A crença de que a alma continua existindo após a decomposição do corpo é uma especulação... que não é ensinada expressamente na Sagrada Escritura... A crença na imortalidade da alma chegou aos judeus quando eles tiveram contato com o pensamento grego e principalmente através da filosofia de Platão (427 - 347 a.C.), seu principal expoente, que chegou a esse entendimento por meio dos mistérios órficos e eleusianos, que na Babilônia e no Egito se encontravam estranhamente misturados"[6]

Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional também revela que os israelitas não criam na imortalidade da alma antes de serem tardiamente influenciados por Platão:

"Quase sempre somos mais ou menos influenciados pela ideia grega platônica, que diz que o corpo morre, mas a alma é imortal. Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita e não é encontrada em nenhum lugar do Antigo Testamento"[7]

O Dr. Samuelle Bacchiocchi, PhD pela Pontifícia Universidade Gregoriana (católica) e autor do estudo mais aprofundado sobre a constituição da natureza humana já escrito até hoje, acrescenta:

“Durante esse período inter-testamentário, o povo judeu esteve exposto, tanto em seu lar, na Palestina, quanto na diáspora (dispersão), à cultura e filosofias helenísticas (gregas) de grande influência. O impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas, inclusive na adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaicas produzidas nessa época”[8]

Como sabemos, essa época da diáspora judaica se deu exatamente no período helenístico, onde os gregos impunham sua cultura aos povos conquistados:

“Designa-se por período helenístico (do grego, hellenizein – ‘falar grego’, ‘viver como os gregos’) o período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre a morte de Alexandre o Grande em 323 a.C e a anexação da península grega e ilhas por Roma em 146 a.C. Caracterizou-se pela difusão da civilização grega numa vasta área que se estendia do mar Mediterrâneo oriental à Ásia central. De modo geral, o helenismo foi a concretização de um ideal de Alexandre: o de levar e difundir a cultura grega aos territórios que conquistava”[9]

Durante o período helenista foram fundadas várias cidades de cultura grega, e dentre elas destaca-se Alexandria, que era uma espécie de “centro do helenismo”, com forte concentração da cultura grega. Muitos judeus foram dispersos para essa cidade. Um dos judeus helenizados que começaram a propagar fortemente a imortalidade da alma foi Fílon, sobre quem a Enciclopédia Judaica afirma:

“Não há referências diretas na Bíblia para a origem da alma, sua natureza e sua relação com o corpo, e essas perguntas deram espaço para as especulações da escola judaica de Alexandria, especialmente de Filon, o judeu, que procurou na interpretação alegórica de textos bíblicos a confirmação de seu sistema psicológico. Nos três termos (‘ruach’, ‘nephesh’ e ‘neshamah’) Filon viu a corroboração da visão platônica de que a alma humana é tripartite (τριμεής), tendo uma parte racional, uma segunda mais espiritual, e uma terceira como sendo a sede dos desejos”[10]

O prof. David S. Dockery (Ph.D.) também afirmou:

“O propósito de Fílon era apologético no sentido de unir o judaísmo e a filosofia grega. Para ele, o judaísmo, se propriamente entendido, pouco diferia dos insights mais elevados da revelação grega. Deus revelou-se ao povo de Israel, a nação escolhida por Deus, mas essa revelação não era radicalmente diferente de sua revelação aos gregos”[11]

Essa crença grega foi originalmente rejeitada pelos judeus da palestina, como atesta a Enciclopédia Judaica citando o Talmude:

“Essa crença foi rejeitada pelos estudiosos do Talmude, que ensinaram que o corpo está em um estado de perfeita pureza (Ber. 10a;. Mek 43b), e está destinado herdar sua morada celestial (...) Os rabinos afirmaram que o corpo não é a prisão da alma, mas, ao contrário, o seu meio de desenvolvimento e aperfeiçoamento”[12]

Por isso mesmo, nada é dito na Enciclopédia Judaica sobre os judeus crerem que a alma é um elemento imaterial e imortal antes dessa helenização com as teses gregas. Ao contrário, ela diz claramente:

“Uma vez que a alma é concebida como sendo apenas a respiração (‘nephesh’, ‘neshamah’, comp. ‘anima’), e inseparavelmente ligada, senão identificada, com o sangue da vida (Gn 9:4; 4:11; Lv 17:11), nenhuma substância real pode ser atribuída a ela. Assim, quando o espírito ou sopro de Deus (‘Nishmat’ ou ‘Ruach Hayyim’), que é o que se acredita que mantém corpo e alma juntos, tanto dos homens como dos animais (Gn 2:7; 6:17; 7:22; Jó 27:3), é retirado (Sl 146:4) ou retorna a Deus (Ec 12:7; Jó 34:14), a alma desce ao Sheol ou Hades, para lá ter uma sombria existência, sem vida e consciência (Jó 14:21; Sl 6:5; 115:7; Is 38:19; Ec 9:5; 9:10). A crença em uma vida contínua da alma, que é a base da primitiva adoração aos antepassados e dos ritos de necromancia, praticados também pelo antigo Israel (1Sm 28:13; Is 8:19), foi desencorajada e suprimida pelo profeta como antagônica à crença em YHWH, o Deus da vida, o Governador do Céu e da Terra”[13]

E sobre o significado original de “espírito” entre os judeus da época do Antigo Testamento, ela declara:

“O relato mosaico da criação do homem fala de um espírito ou fôlego com que foi dotado por seu Criador (Gn 2:7), mas esse espírito é concebido como sendo inseparavelmente ligado, senão totalmente identificado, com o sangue da vida (Gn 9:4; 4:11; Lv 17:11). Somente através do contato dos judeus com o pensamento persa e grego surgiu a ideia de uma alma desencarnada, tendo sua própria individualidade[14]

Portanto, ao dizermos que a imortalidade é “uma doutrina pagã”, estamos meramente salientando que foi através da filosofia platônica (pagã) que os judeus passaram a adotar a visão dualista, e que essa visão predominou no mundo todo por meio do helenismo na época da transição do Antigo para o Novo Testamento. Bem ou mal, a filosofia de Aristóteles e de Epicuro sobre a alma não predominou. O que predominou foi a filosofia de Platão, o famoso filósofo grego que espalhou ao mundo todo seus conceitos dualistas, onde o corpo era essa carcaça física e a alma era um elemento imaterial e imortal que habitava dentro dele.

As ideias de Platão rapidamente ganharam uma enorme notoriedade e exerceram uma influência gigantesca sobre os demais povos, porque na época o império que dominava a maior parte do mundo era a Grécia, e os gregos eram muito eficientes em espalhar e divulgar seus conceitos filosóficos sobre o mundo. Foi assim que todos os povos foram, cada um a seu próprio grau, influenciados por esta doutrina estranha à Bíblia, que contrasta corpo e alma e concede imortalidade somente a esta última.

Se o astronauta católico tivesse o costume de estudar, também saberia que a filosofia mortalista de Epicuro e Aristóteles não tinha nada a ver com holismo crido pelos mortalistas bíblicos. Os mortalistas cristãos são holistas, o que significa dizer que cremos que a alma em sentido primário nada mais é senão o ser humano como um todo (segundo a descrição de Gênesis 2:7). Epicuro e Aristóteles jamais definiram “alma” deste jeito. Eles eram muito mais próximos dos dualistas, com a diferença de que achavam que a alma dentro do corpo morre, ao invés de sobreviver e ir para algum outro mundo, vagando por aí. Mas o mais importante é o fato de que a imortalidade da alma é “pagã” em função de ela não ter surgido na Bíblia (entre os hebreus), mas foi uma ideia comprada do paganismo muitos e muitos séculos mais tarde.

Assim sendo, a não ser que o astronauta católico prove com documentos históricos que os judeus eram desde sempre dualistas e que foi a filosofia de Epicuro ou de Aristóteles que tardiamente tornou as pessoas mortalistas, ele não tem qualquer justificativa em dizer que a mortalidade da alma é “pagã”, assim como a imortalidade da alma claramente é.

Continuando o show de desinformação e ignorância, o astronauta católico afirma ainda:

“Dentro do Cristianismo a heresia da ‘mortalidade da alma’ teve suas raízes em Arnóbio de Sica no final do século IV”

Nos próximos artigos eu provarei que os Pais apostólicos e apologistas em suma maioria eram condicionalistas, refutando a baboseira de que Arnóbio de Sica foi o “precursor”, mas como o astronauta católico admite que Arnóbio era mesmo um mortalista, então usemos o testemunho do próprio Arnóbio:

"Não há motivo, portanto, que nos engane, não há motivo que nos faça conceber esperanças infundadas aquele que se diz por alguns pensadores recentes e fanáticos pela excessiva estima de si mesmos que, as almas são imortais”[15]

Será que o astronauta católico não se deu conta de que Arnóbio não estava dando apenas uma “opinião pessoal” sobre o tema, mas sim afirmando enfaticamente que a doutrina da imortalidade da alma era uma heresia de “pregadores recentes”? Se a imortalidade incondicional era uma falsa doutrina que havia “recentemente” entrado na Igreja, então é óbvio que Arnóbio jamais foi o “precursor” dela. Se Arnóbio estivesse sozinho contra todo mundo da época, ele jamais teria dito que a imortalidade da alma era uma heresia recente, porque ela supostamente teria raízes históricas e era crida por toda a Igreja. O fato é que Arnóbio reconhecia que a doutrina nefasta da imortalidade incondicional da alma havia entrado recentemente na Igreja, através de “pregadores fanáticos” (tais como o astronauta católico), e isso é mais do que uma evidência de que os Pais da Igreja e demais cristãos de época mais anterior de fato não criam nessa asneira.

A outra possibilidade é que Arnóbio estivesse mentindo em seu testemunho de que a imortalidade natural da alma era uma doutrina que havia entrado recentemente na Igreja da época, mas isso seria completamente inútil naquela circunstância, uma vez que Arnóbio seria facilmente desmascarado por qualquer outro cristão se estivesse mentindo tão descaradamente. Seria como se alguém de hoje dissesse que a terra em forma de globo é uma invenção de “cientistas recentes e fanáticos”. Quem daria crédito a alguém que mentisse de forma tão grosseira? Ninguém. Arnóbio não ganharia nada com essa mentira, e não estava em tal condição. Somos instigados naturalmente a confiar em seu testemunho histórico, de que é a imortalidade natural da alma, e não a mortalidade, uma doutrina que entrou tardiamente na Igreja, no sentido contrário ao que era ensinado originalmente.

Mas espere, porque a coisa ainda vai piorar. O sujeito solta a pérola:

“Passando-se mais de um milênio de condenação, no século XIX, foi ressuscitada pelo protestantismo na figura de Edward White, e foi mais desenvolvida por Adventistas e Testemunhas de Jeová”

Este trecho, onde o astronauta católico cita alguém chamado Edward White (que ele nem sequer sabe quem foi), foi descaradamente plagiado deste artigo do blog do Itard (de data mais antiga). Para alguém copiar uma informação vinda de um embusteiro de primeira classe sem nenhuma capacidade teológica, você já deve ter uma ideia do nível. Apenas um verdadeiro poço de ignorância histórica poderia chegar ao cúmulo de sugerir a aberração de que “ninguém por mais de um milênio creu na mortalidade”. Quantos livros este rapaz já leu? Na cabeça (ou melhor, no capacete) do astronauta católico, Calvino devia estar refutando o vento quando escreveu seu tratado contra os aniquilacionistas (enquanto as pessoas com cérebro sabem que ele estava refutando os anabatistas). Mas se Calvino estava refutando os anabatistas, então os anabatistas criam na mortalidade da alma. E se eles criam na mortalidade da alma, lá se vai a tese esdrúxula de que Edward White “ressuscitou” essa doutrina. Para o lixo este argumento.

O próprio Martinho Lutero, que como vimos repudiou pelo menos por algum tempo a doutrina da imortalidade da alma, se correspondeu com um mortalista chamado Nicholas von Amsdorf, que cria no sono da alma. Isso não apenas demonstra a existência de não-imortalistas no século XVI, como também que eles eram relevantes, pois Lutero dizia que não tinha argumentos para refutá-los e que estava inclinado a concordar com a opinião deles sobre a alma:

"A respeito de suas ‘almas’, eu não tenho conhecimento suficiente para te responder. Eu estou inclinado a concordar com sua opinião que as almas simplesmente dormem e que elas não sabem onde estão até o dia do Julgamento. Sou levado a esta opinião pela palavra das Escrituras: ‘Eles dormem com seus pais’. Os mortos que foram levantados por Cristo e pelos apóstolos testificam este fato, já que é como se eles estivessem acabado de ser acordados do sono e não sabem onde eles estiveram. A isto pode ser adicionado as experiências extáticas de muitos santos. Eu não tenho nada com o qual eu poderia derrubar esta opinião (...) Quem sabe como Deus lida com as almas que partem? Não poderia [Deus] da mesma forma simplesmente fazê-las dormir e acordar (ou enquanto ele deseja [que elas durmam]), assim como ele submete ao sono aqueles que vivem na carne?"[16]

Alguns estudiosos que já leram todos os escritos de Lutero chegaram à conclusão de que em seus escritos há mais de 300 alusões à psicopaniquia, em que ele rejeita o conceito tradicional de “imortalidade da alma”. Entre outras coisas, ele disse:

“Os mortos estão completamente adormecidos e não sentem absolutamente nada... eles jazem lá sem contar os dias ou anos; mas quando eles forem levantados, parecer-lhes-á que só dormiram por um momento”[17]

E também:

“Salomão conclui que os mortos estão dormindo, e nada sentem, em absoluto. Pois os mortos ali jazem, sem contar os dias nem os anos, mas quando forem despertados, terão a impressão de ter dormido apenas um minuto”[18]

Ele disse isso trezentos anos antes de qualquer pessoa ouvir falar em um “Edward White”.

O erudito Bryan W. Ball, em um estudo aprofundado sobre o mortalismo e suas variantes na história cristã, afirmou:

“Em meados da década de 1520, a psicopaniquia era defendida na Áustria, Suíça, França e Holanda, bem como na Alemanha. Em 1527, o líder anabatista suíço Michael Sattler foi queimado na fogueira, condenado sob várias acusações de heresia, incluindo negar a eficácia da intercessão da Virgem Maria e dos santos que já morreram (visto que, como todos os fiéis, eles estavam dormindo, aguardando a ressurreição e o juízo final). Na Holanda, Anthony Pocquet, ex-padre e doutor em direito canônico, proclamou que a obra redentora de Cristo culminaria na ressurreição dos justos. Os crentes que morreram em antecipação da ressurreição estavam dormindo na sepultura”[19]

Além disso, G. H. Williams demonstrou que a maioria dos líderes da chamada “Reforma Radical” eram mortalistas. Por razões do destino, os reformistas radicais não tiveram voz maior porque não prevaleceram nos lugares onde se instalaram (a Reforma tradicional acabou predominando).

Outro reformador que defendeu enfaticamente o mortalismo bíblico e cristão foi o célebre William Tyndale (1484-1536), o tradutor das Escrituras que foi queimado pela Igreja papal, e, enquanto as chamas devoravam seu corpo, dizia: “Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra”. A posição de Tyndale sobre a alma era a seguinte:

“E vós, colocando-as [as almas que partiram] no céu, no inferno ou no purgatório, destruís os argumentos mediante os quais Cristo e Paulo provam a ressurreição (...) E mais, se as almas estão no céu, dizei-me por que não estão em tão boas condições como os anjos? E então, que motivo existe para a ressurreição?”[20]

O astronauta católico também se esqueceu de Tyndale, porque Tyndale não é citado no texto do embusteiro Itard, de onde ele copiou a informação.

Bryan W. Ball menciona ainda a existência histórica de dezenas de milhares de mortalistas na Inglaterra, por volta dos séculos XVII e XVIII:

“Embora não se possa estabelecer quantos mortalistas havia em toda a Inglaterra na época, esta quantidade deve ter sido considerável. Uma Confissão de Fé Batista, publicada em 1660, com dois mortalistas proeminentes como signatários, afirmava representar 20 mil seguidores só em Kent, Sussex e Londres, e um panfleto publicado em 1701 acusou um dos signatários de propagar heresia em toda a região. Um antigo documento, descoberto apenas em 2007, fornece evidências de que o mortalismo ainda era forte entre os Batistas Gerais em Kent e Sussex em 1745. Parece além de dúvida que a crença mortalista prevaleceu entre os batistas no sudeste da Inglaterra por pelo menos 200 anos”[21]

Estamos falando de vinte mil pessoas em um só lugar, em uma época em que o astronauta católico jura de pés juntos que não existia um só mortalista em todo o planeta, até chegar o tal do Edward White, o “ressuscitador” da doutrina mortalista no século XIX. Que piada.

Há inúmeros outros nomes de destaque entre os séculos XVI e XIX que adotaram alguma vertente do mortalismo bíblico, rejeitando a imortalidade incondicional da alma e sua consciência pós-morte. Entre eles está John Milton (1608-1674), um dos maiores poetas sacros, que era secretário de Cromwell. Ele disse:

“Visto, pois, que o homem todo, como se diz, consiste uniformemente do corpo e alma (quaisquer que sejam os distintos campos atribuídos a essas divisões), mostrarei que, na morte, primeiro, o homem todo, e depois, cada parte componente sofre a privação da vida (...) A sepultura é a comum custódia de todos, até o dia do juízo”[22]

O astronauta católico conhece John Milton? Não, porque John Milton também não é citado no texto de Itard.

Para não perder muito tempo aqui citando outras dezenas de famosos mortalistas cristãos antes de Edward White, passarei aqui apenas a lista fornecida por Bryan W. Ball em seu estudo histórico supracitado:

• Jeremy Taylor (1613-1667), bispo anglicano e autor e capelão para o rei Charles I.

• John Locke (1632-1704), o filósofo empirista cujas ideias influenciaram o pensamento na Inglaterra nos dois séculos seguintes. Seus escritos ainda são leitura obrigatória para os estudantes de filosofia.

• Henry Layton (1622-1705), advogado, defensor mais prolífico do mortalismo, que produziu 1.500 páginas no total, a maior parte em réplica a defensores do conceito tradicional [isto é, a imortalidade da alma].

• William Coward (1657-1725), médico e membro do Colégio de Cirurgiões, que argumentou que a ideia de a substância imaterial ter existência é autocontraditória e contrária à razão, dizendo: “Eu posso conceber uma brancura negra tão logo elabore esse tipo de ideia em minha mente”.

• Edmund Law (1703-1787), bispo de Carlisle e professor de filosofia moral na Universidade de Cambridge, onde ele defendeu sua tese de doutorado sobre tanatopsiquismo [i.e, aniquilacionismo] em 1749.

• Peter Peckard (1718-1797), vice-reitor da Universidade de Cambridge e deão de Peterborough, um dos mais articulados apologistas do mortalismo.

• Francis Blackburne (1782-1867), outro graduado de Cambridge, discípulo de Locke, amigo de Law, e o primeiro historiador do pensamento mortalista inglês, tendo traçado as origens então conhecidas do mortalismo remontando ao século XV.

• Joseph Priestley (1733-1804), o cientista conhecido por sua “descoberta” do oxigênio, mas imerecidamente não tão conhecido como um erudito bíblico competente, que chegou a conclusões mortalistas por meio de seu próprio estudo do texto.

Quando um astronauta católico embusteiro confia e copia a informação de um pseudo-apologista protestante igualmente embusteiro e fraudulento, só podia dar nisso: um verdadeiro festival de desconhecimento e ignorância histórica, capaz de deixar de queixo caído qualquer principiante na arte da investigação histórica. É de dar nojo ver tanta mentira e desinformação a serviço de uma mentira comprada do paganismo. O astronauta católico poderia pelo menos se dar ao trabalho de buscar ler um livro de história para não se prestar a um papel tão baixo como esse, mas nem isso é capaz. Que lástima.

Calma, porque isso é só a introdução do texto dele. O que vem depois disso é mais um festival ainda mais pitoresco de distorções, manipulações, malabarismos para negar o óbvio e muitas, muitas outras pérolas. Se isso é só o começo, vocês devem imaginar o que vem depois.


Introdução a Inácio


Agora chegou a vez de refutarmos as distorções e manipulações do astronauta em cima de Inácio de Antioquia (35-107), que por sua antiguidade e aproximação com os apóstolos é fundamentalmente importante neste estudo.


Inácio de Antioquia era imortalista?

Para “provar” que Inácio era imortalista, o astronauta faz uso de uma passagem (dentre sete cartas inteiras escritas por ele!), que na cabeça dele “prova” que Inácio cria num suposto estado intermediário inventado pelos imortalistas:

“Meu espírito por vós se empenha, não apenas agora, também quando com Deus me encontrar”[23]

Na imaginação fértil da mente papista, este momento em que Inácio fala que se encontraria com Deus e se empenharia pelos tralianos era no tal do estado intermediário, como uma alma penada voando com os anjinhos no Céu. Quais evidências ele usa para fortalecer essa posição? Nada.

Qualquer um que estude os escritos de Inácio como um todo, ao invés de copiar um trecho minúsculo isolado de uma única carta, percebe o fato óbvio de que Inácio esperava encontrar com Deus e com seus irmãos na fé quando ressuscitasse, e não antes disso (no “estado intermediário”). Vemos isso por toda parte nos escritos de Inácio. Por exemplo, quando ele escreve a seu companheiro Policarpo (80-155) sobre o momento em que se encontraria novamente com ele (usando a mesma palavra “encontrar” que ele usa na carta aos tralianos), ele diz claramente que este encontro ocorreria na ressurreição dos mortos, e não no estado intermediário:

”Uma vez que a Igreja de Antioquia da Síria está em paz, como fui informado, graças à vossa oração, fiquei mais confiante na serenidade de Deus, se com o sofrimento eu o alcançar, para ser encontrado na ressurreição como vosso discípulo”[24]

Este texto o astronauta católico ignorou e fingiu que não leu, é claro.

Inácio, que já estava próximo da morte, escreve ao seu velho amigo Policarpo e mostra a sua esperança de que seria considerado como “vosso discípulo” na ressurreição, porque é lógico que é na ressurreição que ambos se veriam novamente. Isso é o mesmo pensamento que Paulo expressa aos tessalonicenses:

“Pois quem é a nossa esperança, alegria ou coroa em que nos gloriamos perante o Senhor Jesus na sua vinda? Não são vocês?” (1ª Tessalonicenses 2:19)

E também aos coríntios:

“Porque sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus dentre os mortos, também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará com vocês (2ª Coríntios 4:14)

Por que o momento em que Paulo se alegraria do trabalho realizado em favor dos tessalonicenses somente na vinda de Jesus? Porque é na volta de Jesus que os mortos são ressuscitados e apresentados diante do Senhor (1Ts.4:13-18). Por que Paulo disse que seria apresentado aos coríntios somente na ressurreição? Porque é na ressurreição que todos voltam à existência e são apresentados uns aos outros. O pensamento bíblico é claro: os mortos permanecem mortos até que Jesus os ressuscite na Sua vinda, e então nos veremos novamente. Era nisso que Inácio cria, e isso que ele expressou a Policarpo. Isso também foi o mesmo que ele disse aos efésios:

”Fora dele [Jesus], nada tenha valor para vós. Eu carrego as correntes por causa dele. São as pérolas espirituais com as quais eu gostaria que me fosse dado ressuscitar, graças à vossa oração. Desta desejo sempre participar para me encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, que estão sempre unidos aos apóstolos pela força de Jesus Cristo”[25]

Mais uma vez, a linguagem é clara, e o desejo manifesto é de ressuscitar para que então se encontre na herança com os cristãos de Éfeso. Inácio não esperava se encontrar com os efésios em um estado intermediário antes da ressurreição, mas somente na ressurreição.

Diante de tudo isso, como devemos interpretar o verso em que Inácio diz que se empenhava pelos tralianos não somente “agora”, mas também “quando encontrar a Deus”? Como sendo uma referência a um estado intermediário onde Inácio já estaria na sua herança com Deus antes mesmo da ressurreição? É claro que não. Diante das evidências, este encontro com Deus se daria obviamente na ressurreição, e é este o momento em que Inácio se encontraria novamente com os tralianos, demonstrando o mesmo empenho e fervor por eles que demonstrou enquanto vivo. O texto usado pelo astronauta católico itardiano é a mais clara prova de que “texto fora de contexto vira pretexto para heresia”.


Inácio de Antioquia cria no tormento eterno?

Mas o astronauta ainda tem uma carta na manga: o texto em que Inácio fala sobre “fogo inextinguível”. Vejamos:

“Não vos iludais, meus irmãos, os corruptores da família não herdarão o Reino de Deus. Pois, se pereceram os que praticavam tais coisas segundo a carne, quanto mais os que perverterem a fé em Deus, ensinando doutrina má, fé pela qual Jesus Cristo foi crucificado? Um tal, tornando-se impuro, marchará para o fogo inextinguível, como também marchará aquele que o escuta. Por isso, recebeu o Senhor unção sobre a cabeça para exalar em favor da Igreja o perfume da incorrupção. Não vos deixeis ungir pelo mau odor da doutrina do príncipe deste mundo, de forma que vos leve cativos para longe da vida que vos espera. Por que não nos tornamos prudentes, aceitando o conhecimento de Deus, isto é, Jesus Cristo? Por que morrermos tolamente, desconhecendo o dom que o Senhor nos enviou de verdade?”[26]

Na cabeça do astronauta católico, a expressão “fogo inextinguível” é, por si só, suficiente para provar que Inácio cria no “tormento eterno”. O amadorismo aqui é tão gritante que o cidadão ainda não sabe que nos círculos mortalistas também se usa as expressões “fogo eterno”, “fogo inextinguível” ou “que não se apaga”, sem absolutamente nenhuma conotação de “tormento eterno”. A razão pela qual isso é perfeitamente possível é porque a Bíblia está cheia de exemplos onde a mesma linguagem referente a um “fogo eterno” ou “inextinguível” diz respeito aos efeitos causados pelo fogo, e não ao processo de duração do fogo em si. Por exemplo, em Isaías 34:9-10, nós lemos:

“Os ribeiros de Edom se transformarão em piche, e o seu pó, em enxofre; a sua terra se tornará em piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada, e para todo o sempre ninguém passará por ela” (Isaías 34:9-10)

Onde é que estão os edomitas? Já desapareceram há muitíssimo tempo e na sua terra o fumo não está subindo nem queimando e muito menos o piche está ardendo até hoje. Mas seria de se esperar que víssemos um fogo literalmente queimando até os dias de hoje como em um processo sem fim na terra de Edom, no caso da linguagem de “fogo eterno” (“nem de noite nem de dia se apagará... subirá para sempre a sua fumaça... de geração em geração será assolada”) implicasse naquilo que os imortalistas afirmam que implica.

Semelhantemente, em Jeremias 17:27 nós lemos:

“Mas, se não me ouvirdes, e, por isso, não santificardes o dia de sábado, e carregardes alguma carga, quando entrardes pelas portas de Jerusalém no dia de sábado, então, acenderei fogo nas suas portas, o qual consumirá os palácios de Jerusalém e não se apagará (Jeremias 17:27)

Aqui vemos que Deus disse que se o povo israelita deixasse de guardar o sábado, ele iria acender fogo nas portas da cidade que “não se apagará”. Lemos em 2ª Crônicas 36:19-21 que esta profecia se cumpriu. A cidade está queimando até hoje? É claro que não! O fogo já se apagou e os palácios antigos da cidade nem existem mais, muito menos estão queimando até hoje.

Deus também disse sobre a floresta do Neguebe:

“Diga à floresta do Neguebe: Ouça palavra do Senhor. Assim diz o Soberano, o Senhor: Estou a ponto de incendiá-la, consumindo assim todas as suas árvores, tanto as verdes quanto as secas. A chama abrasadora não será apagada, e todos os rostos, do Neguebe até o norte, serão ressecados por ela. Todos verão que eu, o Senhor, acendi, e não será apagada (Ezequiel 20:47-48)

Cadê o fogo queimando a floresta do Neguebe até hoje? Não existe. O fogo apagou? Sim.

O caso mais interessante se encontra em Judas 7, que diz:

“De modo semelhante a estes, Sodoma e Gomorra e as cidades ao redor se entregaram a imoralidade e a relações sexuais antinaturais, foram postas como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno (Judas 7)

Judas relembra o episódio em que as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas pelo fogo divino enviado dos céus, e diz que estas cidades sofreram a pena do “fogo eterno”. Desnecessário seria dizer que o fogo que caiu nestas cidades não está lá até hoje (na região atualmente encontra-se o mar morto!).

Em todos estes casos, embora o fogo ou a fumaça “não se apagaria”, seria “eterno” ou “inextinguível”, houve obviamente um fim temporal à duração do fogo. Mesmo assim ele é chamado de “eterno” ou “inextinguível”. Por quê? Erro bíblico? Não, mas porque o fogo é “eterno” pelos efeitos irreversíveis causados por ele. Em outras palavras, o fogo que caiu consumiu tudo (destruição total), e essa destruição é para sempre. É neste sentido que o fogo é “eterno”.

Ao invés de ser uma evidência de tormento eterno em meio ao fogo, é uma evidência de aniquilacionismo completo, com efeitos eternos (irreversíveis). Essa é a razão pela qual os círculos mortalistas ainda hoje não têm qualquer problema em usar a expressão “fogo eterno/inextinguível”, e muito menos os primeiros Pais da Igreja, que viviam numa época em que cristão nenhum da face da terra usava a expressão “fogo eterno” no sentido de “tormento eterno”. Inácio não era uma exceção à regra, pois ele também não fala de tormento eterno em absolutamente lugar nenhum de suas epístolas. No lugar disso, o que vemos são vários indícios de aniquilacionismo, por exemplo:

• Inácio dizia que Jesus “soprará a imortalidade”[27] sobre a Igreja (os não-salvos, por conseguinte, não terão esse “sopro” para serem “imortais” por toda a eternidade).

• Inácio dizia que a eucaristia era “remédio da imortalidade”[28] para “viver para sempre” (consequentemente, aqueles que não participavam da Ceia não possuiriam a imortalidade).

• Inácio dizia claramente que se Deus nos recompensasse de acordo com nossas obras nosso fim seria de deixar de existir[29] (ouketi esmen), e os ímpios serão recompensados segundo as suas obras (Rm.2:6), isto é, sem os méritos de Cristo imputado a eles. Logo, ouketi esmen.

• Inácio dizia que o fim dos ímpios será uma “morte instantânea”[30].

• Inácio também disse milhares e milhares de vezes que o fim dos ímpios é a “morte”, a “destruição” e “perecer” (em contraste a zero citações em que ele afirma o “tormento eterno”).

Diante de tudo isso, é razoável dizer que Inácio cria no tormento eterno? Mil vezes não!


Introdução a Justino


Chegamos agora à terceira parte da nossa refutação ao astronauta católico, desta vez para refutar os devaneios e delírios do mesmo em torno de Justino Mártir (100-165). Antes de iniciarmos a contra-argumentação em si, é necessário explicarmos brevemente quem foi Justino. Para quem não sabe, Justino não nasceu cristão, nem de família cristã. Ele não foi doutrinado desde a infância por professores cristãos. Em vez disso, ele era um filósofo platônico (admirador e seguidor da filosofia grega de Platão), que, como todo mundo sabe, foi a mais forte propulsora da doutrina da imortalidade da alma no mundo antigo, pois a “alma imortal” era o motor por detrás de toda a filosofia de Platão.

Em outras palavras, Justino era um ferrenho defensor da doutrina da imortalidade da alma antes de se converter, e é essa a razão pela qual ainda vemos alguns vestígios desta doutrina em seu primeiro trabalho como cristão (a 1ª Apologia), quando ele ainda não tinha toda a maturidade e conhecimento de todas as doutrinas cristãs, mas ainda conservava alguns dos seus conceitos platônicos que tinha antes. Depois da 1ª Apologia, Justino mostrou uma evolução e compreensão muito maior da doutrina cristã, e dali em diante ele não apenas não ensinou imortalidade da alma em lugar nenhum, como também passou a combatê-la em todas as suas obras. A 2ª Apologia e o Diálogo com Trifão, em especial, estão cheios de citações sobre a dissolução da alma entre a morte e a ressurreição, sobre a vida eterna ser apenas após a ressurreição e sobre o aniquilacionismo final dos ímpios, e é com estas obras que trabalharemos aqui.


Justino cria no tormento eterno?

Assim como fez com Inácio, o astronauta católico copiou e colou uma série de trechos onde Justino usa a terminologia de “fogo eterno”, como se isso por si mesmo já fosse o bastante para sugerir que Justino cria em um “tormento eterno”. Não perderei nem tempo com essa baboseira, porque tal insânia já foi refutada no ponto anterior sobre Inácio. Como vimos anteriormente, mortalistas também usam naturalmente a linguagem de “fogo eterno” sem absolutamente conotação nenhuma de “tormento eterno”, e a Bíblia está repleta de citações onde um fogo “eterno” ou “inextinguível” não existe para sempre, mas é somente uma figura de aniquilacionismo com efeitos eternos (irreversíveis). Em outras palavras, significa apenas que o fogo consome a pessoa de uma vez para sempre – uma morte eterna, sem volta.

Há ainda várias evidências nos escritos de Justino de que ele não interpretava o “fogo eterno” da maneira com a qual os imortalistas o interpretam. Em seu Diálogo com Trifão, por exemplo, ele escreveu:

“Mas Deus poderosamente as tirará de nós, quando ressuscitar a todos, tornando uns incorruptíveis, imortais, isentos de dor e colocando-os em seu reino eterno e indestrutível, e enviando outros para o suplício do fogo eterno”[31]

Note que Justine disse que os ímpios irão pelo fogo eterno, entretanto:

(a) Isso só ocorrerá depois da ressurreição!

(b) Eles não serão imortais, pois “imortais” Justino diz que somente os justos serão!

Portanto, a visão de Justino do “fogo eterno” não era a visão imortalista, onde os ímpios já estão agora mesmo (antes da ressurreição) queimando no fogo, e onde eles ficarão ali para sempre sem morrer (sendo imortais). Ao contrário: Justino cria que os ímpios seriam lançados no fogo somente depois que ressuscitarem, e esse tormento no fogo não poderia ser eterno, pois tanto a incorruptibilidade quanto a isenção de dor e a imortalidade eram atributos exclusivos dos salvos. É claro que o astronauta católico não observa nada disso, porque na infantilidade e amadorismo dele basta a expressão “fogo eterno” para sair alardeando por aí que Justino era um “imortalista”. Puro amadorismo.

Em sua 2ª Apologia, Justino mostra o mesmo parecer de que os ímpios não estão atualmente no fogo eterno, mas ainda serão (no futuro) lançados nele. Por exemplo, ele diz que o fogo eterno está “preparado” para os ímpios:

“Todavia, logo que conheceu os ensinamentos de Cristo, não só se tornou casta, como procurava também persuadir seu marido à castidade, referindo-lhe os mesmos ensinamentos e anunciando-lhe o castigo do fogo eterno, preparado para os que não vivem castamente e conforme a reta razão”[32]

É óbvio: se o fogo eterno está “preparado” para o momento em que os ímpios serão lançados ali, é porque eles não “estão” ali agora. Qualquer principiante com meia dúzia de aulas de português sabe disso. A punição é algo que os ímpios “devem sofrer”, não algo que eles “estão sofrendo”:

“E não se oponham a que costumam dizer os que se têm por filósofos, que não são mais que apenas ruído e espantalhos o que afirmamos sobre a punição que os ímpios devem sofrer no fogo eterno”[33]

Há apenas um lugar em que Justino fala do “fogo eterno” como algo presente, e mesmo assim o sentido é tão claramente figurado que para ele até os demônios estão neste “fogo eterno”!

“No princípio, Deus criou livres tanto os anjos como o gênero humano e, por isso, receberam com justiça o castigo de seus pecados no fogo eterno”[34]

Veja que Justino diz “receberam”, no plural, referindo-se tanto aos homens maus quanto também aos anjos maus. Mas até o mais néscio dos cristãos sabe que os demônios não estão queimando agora em algum “fogo eterno”, mas estão soltos, “nos ares” (Ef.6:12), “bramando como um leão, procurando a quem possa tragar” (1Pe.5:8). A citação de Justino pode significar que eles já receberam o castigo divino do fogo eterno no sentido do fogo eterno já ter sido preparado por Deus para eles (ou seja, que Deus já decidiu e definiu a condenação deles). É assim que Justino alude um pouco adiante, ao falar novamente do destino do diabo:

“Eles [os demônios] receberam merecido tormento e castigo, aprisionados no fogo eterno. Se eles agora são vencidos pelos homens em nome de Jesus Cristo, isso é aviso do futuro castigo no fogo eterno que os espera, juntamente com aqueles que os servem. Todos os profetas anunciaram isso de antemão e isso também nos ensinou o nosso mestre Jesus”[35]

Perceba que Justino inicia o verso dizendo que os demônios “receberam” o “merecido tormento” e que já estão no “fogo eterno”, mas logo depois diz que isso é apenas um “aviso do futuro”, do “fogo eterno” que ainda os espera. Será que ele estava se contradizendo tão gritantemente dentro de tão poucas linhas? É claro que não. Na primeira parte, estar no “fogo eterno” sendo “castigado” para Justino era uma alegoria para o fato de que os demônios “são agora vencidos pelos homens em nome de Jesus Cristo”, e o castigo de fato, em sentido literal, ocorreria no futuro, quando os demônios e os homens serão lançados no “fogo eterno”. O astronauta católico, como era de se esperar, também não observou nada disso, porque o desespero dele era somente em correr para catar o máximo de citações possíveis onde o termo “fogo eterno” aparece em Justino, sem nem sequer ler os textos que cita. Amadorismo total.

O destino futuro dos ímpios, para Justino, era claramente a cessação da existência, a destruição completa. Ele primeiro diz que os demônios serão destruídos:

“Sim, com efeito, como já dissemos, o Verbo se fez homem por desígnio de Deus Pai e nasceu para a salvação dos que crêem e destruição dos demônios[36]

Essa destruição é também equiparada à morte:

“Por meio de quem [Cristo] Deus destrói tanto a serpente quanto os anjos e homens que estão com ela, mas liberta da morte aqueles que se arrependem de suas iniquidades e creem nEle”[37]

Depois, Justino é ainda mais claro e enfático ao dizer que Deus porá um “fim” nos ímpios, e para deixar claro que este “fim” é a destruição total e não o tormento eterno, ele complementa dizendo que é “do mesmo modo como não deixou ninguém vivo antes do dilúvio”:

“Assim, Deus também adia pôr um fim à confusão e destruição do universo, por causa da semente dos cristãos, recém-espalhada pelo mundo, que ele sabe ser a causa da conservação da natureza. De fato, se assim não fosse, vós não teríeis poder para fazer nada daquilo que faz eis conosco, nem seríeis manejados pelos demônios, como instrumentos de sua ação; mas descendo o fogo de julgamento, já teria separado tudo sem exceção, do mesmo modo como não deixou vivo ninguém antes do dilúvio, a não ser aquele que nós chamamos Noé, juntamente com os seus, e que vós chamais Deucalião, do qual nasceu de novo numerosa multidão de homens, uns maus, outros bons”[38]

A lógica de Justino era precisa: Deus vai destruir os ímpios dando um fim à existência deles, e só não fez isso ainda por misericórdia dos cristãos. Pedro disse que “Deus não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe.3:9). Em outras palavras, o momento da destruição final dos ímpios só não chegou ainda porque Deus quer estender o tempo de oportunidade de arrependimento para cada cristão, dando oportunidade para que o máximo número de pessoas se salve. Então chegará a “destruição do universo” que Justino afirma em conformidade com Hebreus 1:10-12, quando Deus fará “novos céus e nova terra” (Ap.21:1), recomeçando tudo de novo, somente com os salvos.

Que Justino não cria que este “fim” e “destruição” fossem meros símbolos para um “tormento eterno” do qual ele jamais disse, isso fica claro pela comparação que ele faz com o dilúvio: no dilúvio, apenas Noé e sua família se salvaram, e todos os ímpios deixaram de existir. Em outras palavras, quando Deus criar “novas todas as coisas” (Ap.21:5), o destino dos ímpios não será uma existência eterna, mas uma destruição total e cessação de existência, assim como os ímpios que foram completamente destruídos pelo dilúvio e deixaram de viver.  

No Diálogo com Trifão, o velho cristão afirma:

“As almas que se manifestaram dignas de Deus não morrem; as outras são castigadas enquanto Deus quiser que existam e sejam castigadas”[39]

Perceba que é só as almas dos justos que “não morrem”. Se apenas as almas dos justos é que não morrem, então é óbvio que as almas dos ímpios morrem. É por isso que o texto prossegue dizendo que as outras almas [as dos ímpios] são castigadas pelo tempo que Deus quiser que elas existam e sejam castigadas (uma declaração explícita do castigo temporário e proporcional, que os mortalistas sempre afirmaram), ao invés de dizer que elas existirão “para sempre”. Le Roy Edwin Froom comenta que “Justino afirma, por antítese, que os ímpios finalmente deixarão de existir após o castigo, quando Deus determinar”[40].

E para acabar de uma vez com todo e qualquer resquício de probabilidade de Justino ser um imortalista, ele diz com todas as letras que os demônios e os anjos devem deixar de existir:

“Deus atrasou a confusão e destruição de todo o mundo, pelo qual os anjos maus e os demônios e os homens devem deixar de existir[41]

Se existe alguma forma mais clara e evidente de pregar o aniquilacionismo do que a expressão “deixar de existir”, sinceramente, eu não sei qual é. Vou deixar que o astronauta católico me indique. Se nem o termo “deixar de existir” implica em “deixar de existir” (mas sim em um “tormento eterno”), então acho que eu também sou imortalista (risos).

As evidências de que Justino era aniquilacionista são tão esmagadoras que hoje em dia qualquer estudioso patrístico honesto admite isso. Teólogos das mais diferentes religiões têm reconhecido que Justino foi um típico mortalista. Le Roy Edwin Froom, em seu excepcional trabalho intitulado “The Conditionalist faith of Our fathers”, que para quem não sabe são dois volumes gigantes que totalizam 2.500 páginas apenas para provar a mortalidade da alma nos escritos dos primeiros Pais (seria bom que o astronauta os lesse para deixar de ser tão ignorante), cita vários teólogos imortalistas que reconhecem que Justino era aniquilacionista. Entre eles:

• Kitto: “Justino cria que as punições iriam cessar em algum momento”[42].

• Richard Rothe: “Justino Mártir pensava que Deus aniquilaria o perdido”[43].

• K. R. Hagenbach: “Justino afirmou que a alma era mortal, parecida com o corpo, e que a imortalidade era como uma recompensa que teria que ser adquirida”[44].

• Hosea Ballou: “Justino defendia que os ímpios serão, eventualmente, aniquilados”[45].

• Beecher: “Justino mantinha e ensinava o aniquilacionismo final dos ímpios, como a maioria dos eminentes estudiosos admite”[46].

• John C. L. Gieseler: “Justino dizia que as almas dos ímpios seriam, em algum momento, totalmente aniquiladas”[47].

• Alger: “Justino não acreditava em tormento sem fim, mas no aniquilacionismo final dos ímpios”[48].

• Constable: “Justino cria na destruição total da existência no inferno”[49].

Mas embora todos os estudiosos de respeito sejam suficientemente honestos para admitir o óbvio (que Justino era aniquilacionista), o astronauta católico vai continuar ensinando aos seus leitores burros e desinformados que Justino era “um imortalista”, primeiro porque ele não é estudioso de nada, e segundo porque não tem honestidade suficiente para admitir o óbvio, quando esse óbvio é contrário a uma doutrina pagã da igreja pagã a que ele serve.


Justino cria no estado intermediário?

Já vimos que Justino não cria no fantasioso e monstruoso “tormento eterno” da Igreja Católica, mas será que ele cria no tal do “estado intermediário”? É lógico que não. Justino cria que a vida eterna seria herdada somente após a ressurreição, e não antes dela:

“Ele [Josué] não apenas teve o seu nome alterado, como também foi sucessor de Moisés, sendo o único de seus contemporâneos que saiu do Egito, ele levou os sobreviventes para a Terra Santa e foi ele, e não Moisés, que conduziu as pessoas para a Terra Santa, e assim como ela foi distribuída por sorteio para os que entraram junto com ele, assim também Jesus Cristo virá novamente e distribuirá a boa terra para cada um, embora não da mesma maneira. Pois o primeiro [Josué] deu-lhes uma herança temporária, visto que ele não era nem Cristo, que é Deus, nem o Filho de Deus; mas este último [Jesus], após a santa ressurreição, nos dará a posse eterna[50]

Os homens de todas as épocas que creram em Cristo e que viveram de acordo com a Palavra de Deus “estarão” {futuro} naquela terra, e “herdarão” {futuro} o eterno e incorruptível bem:

“E, portanto, todos os homens em todos os lugares, quer escravos ou livres, que creem em Cristo, e reconheceram a verdade em suas próprias palavras e dos Seus profetas, sabemos que eles estarão com ele naquela terra, e herdarão o eterno e incorruptível bem[51]

Se Justino cresse que herdamos a vida eterna antes da ressurreição (no momento em que a alma “voa” para o Céu após a morte), então ele teria dito que os que já morreram já estão naquela terra prometida por Deus, e que já herdaram o eterno e incorruptível bem. O fato de ele colocar tudo no tempo futuro nos mostra mais uma vez que ele não cria que os que morreram já estão no Céu. A posse da vida eterna era vista como um acontecimento depois da ressurreição dos mortos, e não antes:

“E a Palavra, sendo o Seu Filho, veio até nós, tendo sido manifestado em carne, revelando tanto si mesmo como também o Pai, dando-nos a ressurreição dos mortos e, depois, a vida eterna[52]

O Dr. Dustin Smith concluiu que “Justino diz muitas coisas para mostrar que ele não acredita que a alma seja imortal. Ele cita também trechos da Bíblia que mostram que as almas podem morrer e que a verdadeira esperança dum crente está no futuro cumprimento do Reino de Deus”[53].

Nada disso o astronauta católico refutou em seu artigo medíocre. Em vez disso, ele só esboçou uma “refutação” à minha abordagem sobre o diálogo entre Justino e o homem velho. Para o nosso amigo astronauta católico, Justino não contradizia a imortalidade da alma “cristã”, mas apenas a imortalidade da alma “platônica” (como se houvesse muita diferença). Segundo ele, Justino era um imortalista convencional que apenas não cria na pré-existência das almas (ensinada por Platão), ou seja, Justino cria que Deus criou a alma naturalmente imortal, e não que a alma é imortal por si mesma (sem Deus).

Contudo, qualquer principiante que leia o Diálogo com Trifão percebe que Justino não estava contrapondo apenas a imortalidade da alma platônica, pois para ele essa era a única forma lógica da alma ser “imortal” (na concepção de Justino, se alma fosse gerada, então ela não podia ser imortal). Em outras palavras, Justino segue a linha filosófica de que se a alma não é gerada então ela é imortal, e se a alma é gerada então ela não é imortal (não existia “meio termo” para ele!). Essa ideia de alma “gerada e ao mesmo tempo imortal” simplesmente não existia no mundo antigo, nem tampouco nos primeiros Pais da Igreja.

O astronauta católico, com sua desonestidade típica, cita como “prova” que Justino era imortalista a primeira parte da sua conversa com o velho cristão, onde Justino responde:

Velho cristão – Qual é a nossa semelhança com Deus? Será que a alma é divina e imortal, uma partícula daquela soberana inteligência, e como aquela vê a Deus, também é possível para a nossa compreender a divindade e gozar a felicidade que dela provém?

Justino – Sem dúvida nenhuma.

O astronauta tira então do contexto essa primeira parte, para enganar seus leitores néscios e fazê-los pensar que Justino enquanto cristão era um imortalista. O que o malandro esqueceu de mencionar por razões óbvias é que este é um relato de Justino sobre a sua conversão, ou seja, ele ainda era pagão quando começou a conversar com o homem velho. Foi o homem velho quem o convenceu por meio dos argumentos de que Justino estava errado, e no decorrer da conversa isso vai ficando cada vez mais claro, pois o velho vai convencendo Justino de que a alma não é imortal coisa nenhuma. Aí o astronauta espertalhão tira do contexto essa parte inicial em que Justino como pagão respondia que a alma era imortal e tenta aplicar isso para quando Justino já era cristão! A quem esse malandro pensa que engana?

Vamos continuar o relato da conversa de Justino com o velho cristão que o converteu, para vermos se Justino manteve essa posição ou não:

Velho cristão – E todas as almas dos seres vivos têm a mesma capacidade? Ou a alma dos homens é diferente da alma de um cavalo ou de um jumento?

Justino – Não há nenhuma diferença. Elas são as mesmas em todos.

Velho cristão – Logo, os cavalos e os asnos também vêem a Deus ou já o terão visto!

Justino – Não. Nem mesmo muitos homens o vêem. Para isso, é preciso que se viva com retidão, depois de se purificar com a justiça e todas as outras virtudes.

Velho cristão – Então o homem não vê a Deus por causa de sua semelhança com ele, nem porque tem inteligência, mas porque é sensato e justo.

Justino – Exatamente. E porque tem capacidade para entender a Deus.

Velho cristão – Muito bem. Será que as cabras e ovelhas cometem injustiça contra alguém?

Justino – De modo nenhum.

Velho cristão – Então, segundo o teu raciocínio, também esses animais verão a Deus.

Justino – Não. Porque o corpo deles, segundo a sua natureza, os impede.

Velho cristão – Se esses animais recebessem voz, talvez com muito maior razão prorromperiam em injúrias contra o nosso corpo. Todavia, deixemos esse assunto e aceitemos o que dizes. Dize-me apenas uma coisa: a alma vê a Deus enquanto está no corpo ou quando está separada dele?

Justino – É possível para ela, mesmo estando na forma humana, chegar a isso por meio da inteligência. Contudo, desligada do corpo e tornada ela mesma, é aí então que ela alcança tudo aquilo que almejou durante todo o tempo.

Até aqui o velho começa a pressionar Justino. Veja que depois de Justino dizer que a alma era imortal (conforme ele cria até então no platonismo), ele começa a pressioná-lo com perguntas difíceis, como as que vimos (se os animais também tem alma, etc). Justino vai levando o debate até este ponto (ele ainda não abriu mão de suas premissas platônicas), mas o velho o continua encurralando, colocando ele contra a parede:

Velho cristão – E ela se lembra disso quando volta outra vez ao homem?

Justino – Penso que não.

Veja que aqui Justino já começa a fraquejar. Ele já não responde com a mesma convicção do início, mas apenas “acha” que não. Mas o velho continua:

Velho cristão – Então, que proveito ela tira de vê-lo, ou que vantagem tem aquele que viu sobre aquele que não viu, uma vez que disso não permanece nenhuma lembrança?

Justino – Não se o que te responder.

Agora o velho consegue colocar Justino em xeque. Justino já não sabe mais o que responder. Tudo o que ele aprendeu do platonismo (imortalidade da alma) está sendo destruído. E o velho continua:

Velho cristão – E que castigo sofrem aquelas julgadas indignas dessa visão?

Justino – Vivem acorrentadas no corpo de feras, e esse é o castigo delas.

Velho cristão – E elas sabem que vivem nesses corpos por essa causa, como castigo de algum pecado?

Justino – Penso que não.

Velho cristão – Portanto, nem essas tiram proveito algum de seu castigo. E eu diria ainda que nem castigo sofrem, uma vez que não têm consciência do castigo.

Justino – Sim, de fato.

Velho cristão – Portanto, nem essas tiram proveito algum de seu castigo. E eu diria ainda que nem castigo sofrem, uma vez que não têm consciência do castigo.

Justino – Sim, de fato.

Velho cristão – Portanto, nem as almas veem a Deus, nem transmigram para outros corpos, pois dessa forma elas saberiam que esse é o seu castigo e temeriam cometer o mais leve pecado no corpo sucessivo. Contudo, também concordo que elas sejam capazes de entender que Deus existe e que a justiça e a piedade são um bem.

Justino – Falaste corretamente.

Note que nos trechos acima o velho ataca e derruba a outra tese platônica de Justino, a transmigração das almas. Ele vai colocando Justino contra a parede até ele admitir que estava errado, e dissesse: “falaste corretamente”. Então o velho dispara pesado:

Velho cristão – Portanto, esses filósofos nada sabem sobre essas questões, pois não são capazes de dizer sequer o que é a alma.

Justino – Parece que não sabem.

Aqui Justino já começa a abrir mão do seu platonismo. Depois de ser encurralado pelo velho e de ter que admitir que ele estava certo, o velho conclui que esses filósofos platônicos não sabem do que estão falando, e Justino concorda. Pela primeira vez, Justino está deixando de lado a sua filosofia platônica e dando ouvidos para o que aquele velho cristão estava dizendo. E o velho prossegue:

Velho cristão – Tampouco, se pode dizer que ela seja imortal, porque, se é imortal, é claro que deva ser incriada.

Justino – De fato alguns, chamados platônicos, a consideram incriada e imortal.

Velho cristão – Tu também consideras o mundo incriado?

Justino – Alguns dizem isso, mas eu não tenho a mesma opinião.

Esta é a parte em que o velho ataca a doutrina da imortalidade da alma em cheio. Você lembra que quando o diálogo começou, era exatamente este o ponto em que o velho queria chegar. Ele perguntou se Justino cria na imortalidade da alma, e Justino, como filósofo platônico, obviamente respondeu que “sim, sem dúvida nenhuma” (como qualquer filósofo platônico faria). Mas depois que o velho destruiu a filosofia platônica de Justino, ele voltou a fazer a mesma pergunta, e Justino admitiu que embora os platônicos dissessem que a alma era imortal, ele agora já não tinha a mesma opinião!

Velho cristão – Fazes muito bem. Com efeito, por qual motivo um corpo tão sólido, resistente, composto e variável e que a cada dia morre e nasce, procederia de algum princípio? Todavia, se o mundo é criado, forçosamente as almas também o serão e haverá um momento em que elas não existirão. De fato, foram feitas por causa dos homens e dos outros seres vivos, ainda que digas que elas foram criadas completamente separadas e não junto com seus próprios corpos.

Justino – Parece que é exatamente assim.

Velho cristão – Então são imortais?

Justino – Não, uma vez que o mundo se manifesta como criado.

Xeque-mate! O velho cristão o colocou numa cilada: ou o mundo é incriado e as almas são imortais, ou o mundo é criado e as almas são mortais. Justino concorda com a premissa e é obrigado a aceitar a conclusão lógica que se segue: a alma é mortal!

Então vem a parte que o astronauta católico tira do contexto, que é quando o velho diz:

Velho cristão – Contudo, eu não afirmo que todas as almas morram. Isso seria uma verdadeira sorte para os maus. Digo, então, que as almas dos justos permanecem num lugar melhor e as injustas e más ficam em outro lugar, esperando o tempo do julgamento. Desse modo, as que se manifestaram dignas de Deus não morrem; as outras são castigadas enquanto Deus quiser que existam e sejam castigadas.

O velho não estava se contradizendo com o que ele próprio havia dito sobre a alma ser mortal, e nem com aquilo que ele disse um pouco adiante, quando afirmou que a alma deixa de existir quando ocorre a morte corporal. Se ela deixa de existir, então é óbvio que ele não estava falando do estado intermediário aqui, mas do estado final (i.e, depois da ressurreição). A palavra aqui traduzida por “julgamento” no grego é krima, que é a mesma palavra grega usada para “condenação”[54]. Em outras palavras, o velho não estava dizendo que as almas dos bons ficam em um estado intermediário “do bem” e as almas dos maus ficam em um estado intermediário “do mau”, mas sim que depois da ressurreição (que é quando a alma volta à existência) as almas dos justos estarão em um lugar bom e não morrerão, enquanto as almas dos ímpios estarão em um lugar ruim (castigo no geena) e então morrerão (que é a condenação em questão). Isso é exatamente o que os mortalistas afirmam desde sempre.

O velho não estava refutando nada do mortalismo bíblico, mas sim da filosofia estóica, que cria que a morte é a cessação total de existência para sempre (ou seja, que não existe vida após a morte). É claro que os cristãos não creem nisso. Nós cremos que existe vida após a morte (através da ressurreição) e também cremos que haverá castigo para os maus no geena (se não houvesse castigo, seria “uma verdadeira sorte para os maus”). Dito em termos simples, o velho já havia detonado com a imortalidade da alma, mas agora ele faz um adendo, para mostrar a Justino que ele não ia para o outro extremo dos epicureus (que criam que “morreu acabou”), mas que ele cria em vida eterna para os bons e castigo temporário para os maus (antes da morte deles).

É assim também que Paul Vicent Spade, o tradutor para o inglês do texto em grego do Diálogo com Trifão, entende esta passagem. Ele comentou nas notas de rodapé do texto:

“A teoria, então, é que apesar de todas as almas serem naturalmente propensas a serem destruídas, as boas almas são preservadas por Deus, enquanto as más almas são punidas por um tempo, e depois são destruídas”[55]

Portanto, diferente do que o astronauta católico alega, o velho não cria em estado intermediário porcaria nenhuma. Mas continuemos com o Diálogo:

Justino – Por acaso, estás dizendo o mesmo que Platão sugere no Timeu a respeito do mundo, isto é, que em si mesmo, enquanto foi criado, ele também é corruptível, mas não se dissolverá, nem terá parte na morte por vontade de Deus? Pensas o mesmo também a respeito da alma e, em geral, a respeito de todo o resto?

Velho cristão – Com efeito, além de Deus, tudo o que existe ou há de existir possui natureza corruptível e sujeita a desaparecer e deixar de existir. Apenas Deus é incriado e incorruptível e, por isso, ele é Deus; mas, além dele, todo o resto é criado e corruptível. Por esse motivo, as almas morrem e são castigadas. De fato, se fossem incriadas, elas não pecariam, nem estariam cheias de insensatez, nem seriam covardes ou temerárias, nem passariam voluntariamente para os corpos de porcos, serpentes ou cães, nem seria lícito obrigá-las a isso, caso fossem incriadas. De fato, o incriado é semelhante ao incriado e não apenas semelhante, mas igual e idêntico, sem que seja possível um ultrapassar o outro em poder ou em honra. Daí se conclui que não é possível existir dois seres incriados. De fato, se neles houvesse alguma diferença, jamais poderíamos encontrar a causa dela, por mais que a procurássemos; pelo contrário, remontando com o pensamento até o infinito, teríamos que parar, vencidos, num só incriado, e dizer que ele é a causa de todo o mais.

O astronauta católico tira do contexto apenas a parte que diz que “está sujeita a desaparecer e deixar de existir”, mas o espertalhão embusteiro ignora propositalmente a continuação que diz que por esse motivo, as almas morrem e são castigadas”. Em outras palavras, para o velho cristão as almas não apenas podem morrer, mas elas morrem efetivamente. O fato de a alma estar “sujeita” à morte era somente uma premissa necessária para o fato de ela morrer efetivamente, que era a crença do velho cristão.

E então vem a parte em que o astronauta embusteiro comete a maior pérola de todo o seu lixo de artigo:

Justino – Por acaso, tudo isso passou distraído a Platão e Pitágoras, homens sábios, que se tornaram para nós como a muralha e fortaleza da filosofia?

Velho cristão – Não me importo com Platão ou Pitágoras ou qualquer outra pessoa que tenha sustentado essas opiniões. De fato, a verdade é esta e podes compreendê-la com o seguinte raciocínio: a alma ou é vida ou tem vida. Se ela é vida, terá que fazer viver outra coisa e não a si mesma, da mesma forma que o movimento move outra coisa mais do que a si mesmo. Ninguém poderá contradizer o fato de que a alma viva. Portanto, se ela vive, ela não vive por ser vida, mas porque participa da vida. Uma coisa é aquilo que participa e outra aquilo do qual participa. Se a alma participa da vida é porque Deus quer que ela viva. Portanto, da mesma forma, um dia ela deixará de participar, quando Deus quiser que ela não viva. De fato, o viver não é próprio dela como o é de Deus. Como o homem não subsiste sempre e a alma não está sempre unida ao corpo, mas quando chega o momento de se desfazer essa harmonia, a alma abandona o corpo e o homem deixa de existir. De modo semelhante, chegando o momento em que a alma tenha que deixar de existir, o espírito vivificante se afasta dela e a alma deixa de existir, voltando novamente para o lugar de onde tinha sido tomada.

Aqui o velho diz explicitamente, com todas as letras, sem mais nem menos, que a alma deixa de existir. Como foi que o astronauta bobão respondeu a isso? Morram de rir com este print:

 (Clique na imagem para ampliar)

Sim, na cabeça do embusteiro desonesto, a frase é de Trifão!

Depois dessa, eu fecharia aquele site de astronautas e pediria perdão ao público por tanta desonestidade e enganação. A mentira é tão descarada que basta ir ao “New Advent” (site católico que reproduz os escritos dos Pais) para ver de quem é a frase em questão:

                                                (Clique na imagem para ampliar) 

Sim, a frase era do Velho Cristão, e não de Trifão, que nem sequer estava conversando com Justino naquele momento! Justino só volta a falar com Trifão no capítulo 8!

A safadeza do cidadão é tão gigante que até mesmo a tradução ao português feita pela Editora Paulus (católica), que ele usa, diz que foi o velho que falou (veja aqui). Então não é por ignorância, é por desonestidade mesmo. Ele pensa que seus leitores católicos tridentinos são tão burros que não vão se dar ao trabalho de conferir na obra (e são mesmo). E para piorar ainda mais as coisas, Trifão não era mortalista (como ele disse), ele era um judeu do grupo dos fariseus, que naquela época criam na imortalidade da alma (veja Josefo, História dos Hebreus, Livro X, c. 2). Não tem escapatória: quem disse que a alma morre foi o velho cristão, que estava convertendo e doutrinando Justino.

Será que esse astronauta embusteiro vai finalmente admitir que só copia bobagens e mente, ou será que vai manter aquele artigo ridículo e mentiroso no site dele? É o que veremos...


Introdução a Policarpo


Continuando a sessão de refutações ao astronauta embusteiro, chegamos agora a Policarpo (80-155), o bispo de Esmirna. Não temos muita a coisa a refutar sobre Policarpo porque o astronauta passou apenas três textos, sendo dois deles ligados à linguagem de “fogo eterno”, a qual eu já expliquei anteriormente na parte referente a Inácio. Resta-nos então o terceiro texto, que é o que diz:

“Portanto, eu vos exorto a todos, para que obedeçais à palavra da justiça e sejais constantes em toda a perseverança, que vistes com os próprios olhos, não só nos bem-aventurados Inácio, Zózimo e Rufo, mas ainda em outros que são do vosso meio, no próprio Paulo e nos demais apóstolos. Estejam persuadidos de que nenhum desses correu em vão, mas na fé e na justiça, e que eles estão no lugar que lhes é devido junto ao Senhor, com o qual sofreram. Eles não amaram este mundo, mas aquele que morreu por nós e que Deus ressuscitou para nós”[56]

No entanto, mesmo considerando que este texto seja legítimo e não uma inserção posterior feita por copista (o que não era nada raro), ainda assim não há nada nele que prove de forma definitiva que Policarpo cria na consciência pós-morte em um estado intermediário antes da ressurreição. Ele poderia perfeitamente ser um psicopaniquista, que é uma vertente do mortalismo que ensina os mortos já estão na presença Deus, mas em um estado inconsciente, levando a linguagem bíblica do “dormir” mais literalmente do que os mortalistas clássicos (tal é o caso, por exemplo, do erudito luterano Oscar Cullmann). Poderia também ser algo semelhante à linguagem de Paulo, quando disse que os crentes que morreram “dormem em Cristo” (1Co.15:18), em contraste com os outros mortos (sem Cristo), que somente “dormem”. Estar com Cristo neste sentido não implica em qualquer “imortalidade da alma”.

Há ainda a possibilidade de que ele estivesse falando na perspectiva do tempo kairós e não do chronos, ou seja, que eles estão com Deus na perspectiva de Deus, embora no tempo chronos da nossa perspectiva temporal tal fato só se concretize na ressurreição dos mortos. É sempre importante ressaltar que a ressurreição ocorre em um piscar de olhos na perspectiva de quem já morreu, uma vez que não existe “tempo” entre a morte e a ressurreição, pois o tempo só faz sentido se for aplicado a alguém que está vivo (conceito este que eu explano melhor no “Apêndice 1” deste artigo). De uma forma ou de outra, o texto pode ser entendido sob uma perspectiva mortalista, mesmo que não seja uma inserção de copista feita numa época em que a Igreja já cria em imortalidade da alma.

Há várias evidências que nos mostram que isso não é apenas uma possibilidade (leitura alternativa ao texto), mas de fato algo seguro, ou, no mínimo, bastante provável. Isso porque em todas as correspondências de Policarpo fica muitíssimo claro que ele esperava entrar no Reino e desfrutá-lo de fato apenas depois da ressurreição. A carta de Inácio a Policarpo é uma das maiores evidências disso. Como já vimos, Inácio esperava se encontrar com Policarpo não em um estado intermediário, mas depois da ressurreição:

”Uma vez que a Igreja de Antioquia da Síria está em paz, como fui informado, graças à vossa oração, fiquei mais confiante na serenidade de Deus, se com o sofrimento eu o alcançar, para ser encontrado na ressurreição como vosso discípulo[57]

Na mesma carta, há uma descrição bastante interessante, onde ocorre uma sequencia lógica na qual a posse do Reino só é vinda depois do “despertar” (ressurreição):

“Atendei ao bispo, para que Deus vos atenda. Ofereço minha vida para os que se submetem ao bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, com eles, ter parte em Deus. Trabalhai uns com os outros e, unidos, combatei, lutai, sofrei, dormi [na morte], despertai [na ressurreição], como administradores, assessores e servidores de Deus[58]

Note que Inácio não estava citando eventos aleatoriamente, e sim seguindo uma ordem lógica, na qual cita primeiro os eventos terrenos (combate, luta e sofrimento na fé), depois a morte apenas com o eufemismo do “dormir” (sem nenhuma conotação maior que isso), depois o despertar da ressurreição e, só então, é que estaremos como “administradores, assessores e servidores de Deus” (na presença dEle). Este texto é mortal para os imortalistas porque mostra que Inácio não cria que na morte (antes da ressurreição) já estaremos na presença de Deus, mas somente depois de “despertar” (um eufemismo bíblico para a ressurreição). A morte é encarada meramente como um estado de “sono”, e a atividade e consciência é somente depois que despertarmos deste sono (i.e, quando ressuscitarmos dos mortos).

Se a correspondência entre Inácio e Policarpo indica que a consciência no pós-morte só se dava através da ressurreição, a própria epístola de Policarpo aos filipenses não fica por menos. Policarpo demonstra uma escatologia claramente pré-milenista (contrária à que é ensinada hoje pela maioria esmagadora dos católicos) ao dizer que apenas os justos ressuscitam quando Jesus voltar:

“Por isso, cingi vossos rins e servi a Deus no temor e na verdade, abandonando as palavras vãs e o erro de muitos, crendo naquele que ressuscitou nosso Senhor Jesus Cristo dos mortos e lhe deu a glória e o trono à sua direita. Tudo o que existe no céu ou na terra lhe está submisso; tudo o que respira o celebra, a ele que vem como juiz dos vivos e dos mortos, e de cujo sangue Deus pedirá contas àqueles que não confiam nele. Aquele que o ressuscitou dos mortos também nos ressuscitará, se fizermos a sua vontade, se caminharmos em seus mandamentos, e se amarmos o que ele amou, abstendo-nos de toda injustiça, ambição, amor ao dinheiro, maledicência, falso testemunho, não retribuindo o mal com o mal, injúria com injúria, golpe com golpe, maldição com maldição”[59]

Note que Policarpo diz que Deus nos ressuscitará na volta de Jesus, se fizermos a vontade dele. Isso mostra que ele não cria que todos os mortos (justos e ímpios) ressuscitarão na volta de Jesus (como ensina a Igreja Romana), mas sim que na volta de Jesus somente os justos ressuscitarão (os demais ressuscitam apenas depois do milênio). Isso refuta a escatologia amilenista que coloca os “santos” no Céu durante o “milênio” que supostamente já estaria acontecendo.

Policarpo diz também que Deus nos dará em troca o “tempo futuro” como retribuição pela nossa perseverança nesta vida. Qualquer católico prosseguiria o texto dizendo que isso ocorre imediatamente após a morte e antes mesmo da ressurreição, mas Policarpo prossegue o texto dizendo que isso acontece na ressurreição dos mortos:

“De igual forma, que os diáconos sejam irrepreensíveis diante da justiça dele. São servidores de Deus e de Cristo, e não dos homens. Que não caluniem, nem sejam dúplices nem amantes do dinheiro. Sejam castos em todas as coisas, misericordiosos, zelosos, andando segundo a verdade do Senhor, que se tornou servidor de todos. Se o aguardarmos neste mundo, ele nos dará em troca o tempo futuro, pois ele nos prometeu ressuscitar-nos dentre os mortos, e, se a nossa conduta for digna dele, também reinaremos com ele, se tivermos fé”[60]

Perceba que a posse deste “tempo futuro” está diretamente relacionada com a ressurreição dos mortos, e não com a suposta separação da alma após a morte. Policarpo não diz que “Deus nos dará em troca o tempo futuro, pois nossa alma se separará do corpo e assim reinaremos com Ele”, mas sim que Deus nos dará o tempo futuro quando ele nos ressuscitar, e então reinaremos com Deus. Mais uma vez, Policarpo segue a ordem lógica e sequencial dos fatos que deixa totalmente de fora qualquer possibilidade teológica da alma ser imortal e habitar conscientemente com Deus antes da ressurreição.

Essa sequencia também é apresentada no seguinte texto da mesma carta:

“Quem não confessa que Jesus Cristo veio na carne, é anticristo; aquele que não confessa o testemunho da cruz, é do diabo; aquele que distorce as palavras do Senhor segundo seus próprios desejos, e diz que não há ressurreição, nem julgamento, esse é primogênito de satanás”[61]

Observe que mais uma vez o julgamento ocorre após a ressurreição na sucessão de eventos (se a alma fosse imortal este julgamento já teria acontecido, no momento em que ela se separa do corpo). Ao lermos os escritos de Policarpo, uma coisa fica bem clara, e esta coisa é a sequencia lógica de eventos que envolvem: (a) vida terrena; (b) morte; (c) ressurreição; (d) julgamento; (e) posse do Reino.         

A obra “O Martírio de Policarpo” (que não foi escrita por ele, mas décadas mais tarde, fazendo menção ao que foi dito por ele instantes antes da morte) preserva a seguinte citação de Policarpo quando este já estava a apenas um passo da morte no estádio:

“Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo”[62]

Quatro coisas saltam aos olhos nesta menção. Primeiro, Policarpo cria na ressurreição da alma e do corpo, e não meramente na ressurreição do corpo. Segundo, a “incorruptibilidade” que ele diz (e que no grego é aphthrsia, que também significa “imortalidade”[63]) só viria depois desta ressurreição “da alma e do corpo”, pois é mencionada depois desta. Terceiro, ele esperava que a posse da vida eterna fosse posterior à ressurreição, pela mesma razão.

Por último, mesmo estando a poucos instantes da morte, Policarpo não nos traz qualquer expectativa de que sua alma saísse do corpo, mas faz menção apenas à ressurreição como o meio pelo qual ele chegaria a Cristo. Fica claro que toda a esperança de Policarpo quanto à realidade da vida futura se dava não em um estado incorpóreo desencarnado, mas na promessa de Jesus relacionada à ressurreição dos mortos no último dia. Ele morria vislumbrando este dia futuro da ressurreição, ainda que bem mais próximo e iminente do que parece, uma vez que não há sensação de passagem de tempo para quem morreu, e assim a ressurreição se dá instantaneamente em seguida na perspectiva do ressuscitado.

Davis Park corretamente assinala:

“De acordo com a oração de Policarpo, ele sabia que iria ser ressuscitado para a vida eterna, e isso significa que, embora ele fosse morrer naquele dia pelo fogo, seu corpo e alma seriam trazidos juntos de volta no retorno de Jesus, e tornados imortais pelo poder do Espírito Santo. Com esta compreensão e conhecimento da derrota da morte como a sua vitória com base na morte de Jesus, ele poderia enfrentar a ameaça de bestas e ser queimado vivo com coragem. Ele seria, assim, coroado com a imortalidade, como uma fiel testemunha de Cristo. Ele sabia que a morte seria apenas temporária”[64]

E, assim, não vemos nenhuma base para fundamentarmos uma doutrina antibíblica em cima de um único verso que, se interpretado isoladamente à maneira imortalista, contraria toda a evidência extraída de Policarpo, que era claramente condicionalista.


Refutando mentiras sobre Teófilo


A refutação do astronauta católico nesta parte é tão podre que em todo o seu texto ele só cita uma passagem como a “prova” de que Teófilo cria no “tormento eterno”, que é uma em que ele fala sobre a linguagem do “fogo eterno” (a qual já expliquei exaustivamente na parte correspondente a Inácio, provando que a terminologia de “fogo eterno” não é, nunca foi e nunca será sinônimo de “tormento eterno”).

Se o astronauta católico não fosse apenas papagaio copiador de textos de internet e tivesse realmente lido uma vez na vida os escritos de Teófilo, teria notado que este bispo de Antioquia cria na mesma conflagração do mundo que alguns poetas pagãos também criam. Em seu segundo livro a Autólico, ele disse que esta parte da filosofia dos poetas pagãos estava em conformidade com o ensino dos profetas:

“Que Deus examinará todo juramento injusto e qualquer outro pecado, os poetas quase o disseram, assim como falaram, querendo ou sem querer, coisas concordes com os profetas sobre a conflagração do mundo, apesar de serem muito posteriores a estes e de terem tirado tudo isso da lei e dos profetas”[65]

O problema no colo do astronauta católico é que essa conflagração universal que Teófilo dizia que os poetas gregos afirmavam em conformidade com os profetas nunca teve nada a ver com um “tormento eterno”, mas sim com a destruição total do planeta pelo fogo, ocasião na qual as almas morreriam. Essa conflagração universal era crida naquela época pelos estóicos. Eles criam que depois da morte a alma ainda permanecia viva por algum tempo, embora não para sempre. Diógenes Laércio (200-250 d.C), historiador e biógrafo dos antigos filósofos gregos, afirmou:

“A alma... permanece [viva] depois da morte, e é, todavia, corruptível [mortal]”[66]

O famoso filósofo romano Cícero (106-43 a.C) declarou também:

“Os estóicos dizem que as almas durarão por muito tempo, mas não para sempre”[67]

Esses filósofos estóicos criam que o momento em que a alma seria aniquilada depois da morte é na conflagração universal, como disse o filósofo estóico Cleanto (331-232 a.C):

“As almas dos que morreram continuam a viver até a [próxima] conflagração”[68]

Em síntese, esta conflagração universal (momento em que o mundo seria destruído pelo fogo causando aniquilamento) era um ponto em comum entre Teófilo e os poetas pagãos (embora ele tivesse muito mais discordâncias do que concordâncias em geral). Teófilo obviamente não cria que os ímpios seriam atormentados conscientemente para todo o sempre (o que além de irracional e ilógico é também monstruoso), mas sim que eles passariam pela conflagração universal, momento este em que seriam abrasados pelo poder do fogo e deixarão de existir. Este abrasamento e consequente destruição é o que ele se referia no texto que o astronauta católico tirou grosseiramente do contexto (Livro I, c. 14), tentando dizer que ele cria no tormento eterno.

Na continuação do texto do Livro II (c. 37), Teófilo explica com mais detalhes o que é essa conflagração, citando dois textos clássicos do aniquilacionismo:

“Não importa se foram anteriores ou posteriores. O importante é que falaram de acordo com os profetas. Sobre a conflagração, por exemplo, o profeta Malaquias predisse: ‘Eis que chega o dia do Senhor como fornalha ardente e abrasará todos os ímpios’. E Isaías: ‘A ira do Senhor virá como granizo que cai com violência e como água no vale que arrasta tudo’”[69]

Primeiro ele diz que aqueles filósofos estóicos (que criam no aniquilacionismo na conflagração) falaram de acordo com os profetas, e logo em seguida confirma isso citando textos clássicos do aniquilacionismo bíblico, inclusive o de Malaquias, que diz:

“Pois certamente vem o dia, ardente como uma fornalha. Todos os arrogantes e todos os malfeitores serão como palha, e aquele dia, que está chegando, ateará fogo neles, diz o Senhor dos Exércitos. Nem raiz nem ramo algum sobrará (...) Depois esmagarão os ímpios, que serão como pó sob as solas dos seus pés no dia em que eu agir, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 4:1,3)

Alguém está vendo algum sinal de “tormento eterno” ali? Eu não! O que eu vejo é toda uma linguagem de aniquilacionismo: os ímpios sendo reduzidos a “palha”, o fogo que os consumiria totalmente até que não lhes sobrasse “nem raiz nem ramo”, até que eles virassem (cessação total de existência). Que belo “imortalista” era esse Teófilo!

Acabando com a mentira de que Teófilo cria no tormento eterno, o astronauta católico que jamais leu os livros de Teófilo ainda cita um último texto em seu favor, que é um em que Teófilo diz que a alma é “chamada” de “imortal”. O que o malandro esconde é a sequencia da obra, que deixa bem claro que essa “imortalidade” é uma imortalidade condicional (exatamente igual aquela aceita pelos mortalistas), e não uma imortalidade incondicional (conforme crida pelos imortalistas). Teófilo mostrou isso dezenas e dezenas de vezes, como nesse texto aqui:

“Ó homem, se compreenderes isso, e viveres de maneira pura, piedosa e justa, poderás ver a Deus. Antes de tudo, porém, entrem em teu coração a fé e o temor de Deus, e então compreenderás isso. Quando depuseres a mortalidade e te revestires da incorruptibilidade, verás a Deus de maneira digna. Com efeito, Deus ressuscitará a tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o imortal, contanto que agora tenhas fé nele. Então reconhecerás que falaste injustamente contra ele”[70]

Este é o texto que mais claramente fala da vida póstuma se dar apenas na ressurreição, e não antes. Teófilo diz a Autólico que se ele começar a viver justamente ele poderá ver a Deus. Então ele explica quando que isso ocorreria. Na cabeça de astronautas católicos como Rafael Rodrigues, isso ocorreria logo após a morte, quando a tal alma imortal sairia do corpo em direção ao Céu. Mas antes mesmo que Autólico pudesse pensar nisso, Teófilo o desarma totalmente, dizendo que isso somente ocorreria quando ele se dispusesse da mortalidade e se revestisse da imortalidade. Quando é esse momento em que ele se tornaria imortal para poder ver a Deus? É o que ele responde em seguida:

“...Deus ressuscitará a tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o imortal”

Primeiro: Deus não ressuscitaria apenas a carne, mas a alma também. Segundo: o homem não possui a imortalidade no presente momento (na forma de uma “alma imortal” presa dentro do corpo), mas será tornado imortal quando ressuscitar dos mortos. E terceiro: é só então, quando ressuscitarmos, que veremos o imortal (Deus)! Este texto de Teófilo simplesmente fulmina e destrói com todo o amontoado de falácias imortalistas, cuja doutrina faz com que o homem veja a Deus antes mesmo de ressuscitar. Para Teófilo, é somente depois de ressuscitarmos que veremos a Deus (logo, como podemos estar com Ele antes?).

Teófilo também afirma enfaticamente que o homem se tornou naturalmente mortal quando decidiu desobedecer a Deus:

“Como dissemos acima, Deus colocou o homem no jardim, para que o cultivasse e o guardasse, e mandou que ele comesse de todos os frutos, portanto também da árvore da vida, e mandou que só não experimentasse da árvore da ciência. E Deus o transportou da terra da qual fora criado para o jardim, dando-lhe ocasião de progresso, para que crescendo e chegando a ser perfeito e até declarado deus, subisse então até o céu, possuindo a imortalidade, pois o homem foi criado como ser intermédio, nem completamente mortal nem absolutamente imortal, mas capaz de uma e outra coisa, assim como seu lugar, o jardim, se considerarmos a sua beleza, é lugar intermédio entre o mundo e o céu. Quando a Escritura diz ‘trabalhar’, não dá a entender outro trabalho, mas a observância do mandamento de Deus, a fim de que o homem, violando-o, não se perca, como efetivamente aconteceu quando se perdeu pelo pecado[71]

Note que para Teófilo Deus não fez o homem naturalmente imortal, mas lhe deu a chance de ser imortal caso ele obedecesse a Deus. Se Adão não tivesse pecado, ele poderia “subir até o céu e possuir a imortalidade” (nas palavras de Teófilo), que é exatamente o que os imortalistas afirmam que nós somos hoje (i.e, que possuímos a imortalidade em nosso ser através da “alma imortal” e que iremos ao céu imediatamente após a morte). Mas tem um probleminha: o homem desobedeceu a Deus, ao invés de obedecê-lo!

Para Teófilo, Deus não fez o homem nem “completamente mortal” e nem “absolutamente imortal”, mas capaz de uma coisa e de outra. Em outras palavras, se o homem decidisse obedecer a Deus, ele seria “absolutamente imortal”, mas se o desobedecesse, ele seria “completamente mortal”. Qual foi a decisão do homem? Desobedecer. Como resultado da escolha do homem, qual foi a consequencia? Se tornar “completamente mortal”, como diz Teófilo. Essa é exatamente a mortalidade natural afirmada por nós mortalistas. O homem se tornou naturalmente mortal ao pecar, ao invés de possuir a imortalidade (que é o que ocorreria caso ele tivesse sido fiel a Deus).

Os imortalistas seguem a mentira da serpente, que disse que, mesmo se o homem pecasse, “certamente não morrereis” (Gn.3:4). Nós seguimos a Bíblia, que condiciona a imortalidade à obediência a Deus, do qual o homem se apartou. Embusteiros como Rafael Rodrigues permanecem no engano da serpente até hoje, pensando que, mesmo depois da decisão de Adão e do pecado vir a existir, ainda assim possuímos a imortalidade. Mais adiante, Teófilo volta a repetir o mesmo pensamento:

“Poder-se-á dizer: ‘O homem não foi criado mortal por natureza?’ De jeito nenhum. ‘Então foi criado imortal?’ Também não dizemos isso. ‘Então não foi nada?’ Também não dizemos isso. O que afirmamos é que por natureza não foi feito nem mortal, nem imortal. Porque se, desde o princípio, o tivesse criado imortal, o teria feito deus; por outro lado, se o tivesse criado mortal, pareceria que Deus é a causa da morte. Portanto, não o fez mortal, nem imortal, mas, como dissemos antes, capaz de uma coisa e de outra. Assim, se o homem se inclinasse para a imortalidade, guardando o mandamento de Deus, receberia de Deus o galardão da imortalidade e chegaria a ser deus; mas se se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, seria a causa da morte para si mesmo, porque Deus fez o homem livre e senhor de seus atos. O que o homem atraiu sobre si mesmo por sua negligência e desobediência, agora Deus o presenteou com isso, através de sua benevolência e misericórdia, contanto que o homem lhe obedeça. Do mesmo modo como o homem, desobedecendo, atraiu sobre si a morte, assim também, obedecendo à vontade de Deus que quer, pode adquirir para si a vida eterna. De fato, Deus nos deu lei e mandamentos santos, e todo aquele que os cumpre pode salvar-se e, tendo alcançado a ressurreição, herdar a imortalidade[72]

Mais uma vez, Teófilo reitera a Autólico (que, como pagão que era, cria na imortalidade natural, como creem os imortalistas) que Deus originalmente não fez o homem nem mortal nem imortal, mas capaz de uma coisa ou de outra. Assim, se o homem optasse pela obediência, eu estaria aqui ensinando a imortalidade natural, mas como Adão desobedeceu, estou ensinando a mortalidade natural, que foi a decisão que a humanidade tomou desde Adão. Mas Teófilo nos dá uma esperança: ele diz que nós ainda podemos adquirir para si a vida eterna. De que modo que isso se daria? Isso ele responde logo em seguida:

“...tendo alcançado a ressurreição, herdar a imortalidade”

Preciso dizer mais alguma coisa?

A crença de Teófilo era clara:

• O homem não foi criado naturalmente imortal nem mortal, mas podendo se tornar “completamente mortal” ou “absolutamente imortal”, dependendo de sua obediência a Deus.

• Mas o homem decidiu desobedecer a Deus, atraindo a “morte para si mesmo” (i.e, ele se tornou “completamente mortal”).

• Felizmente, ainda há uma chance de adquirirmos uma vida eterna, que é crendo em Jesus.

• Esta vida eterna nós desfrutaremos quando Jesus – que é a ressurreição e a vida (Jo.11:25) – nos ressuscitar no último dia, e assim herdaremos a imortalidade.

Como foi que o astronauta bobão que nunca leu Teófilo na vida rebateu estes argumentos? Da forma mais ridícula, risível, medíocre e patética que eu já vi alguém “refutar” algum texto em meu até hoje:

(Clique na imagem para ampliar) 

Sim, acredite, não há mais nenhuma “refutação” ali presente além disso que ele escreveu (a não ser que ele decida editar o artigo e acrescentar mais sandices). Só há essa “refutação” decadente:

“Nenhum destas passagens mostra que ele cria que a alma morria ou era aniquilada, o que ele fala como ‘morrer’ da alma, deve ser entendido em conformidade com o que ele ensina sobre o inferno. Para ele a ‘morte da alma’ era como a eterna de condenação, o apartamento total da vida glóriosa com Deus e não uma aniquilação da alma como presumem os ‘desavisados’ que passam ao largo de seu ensinamento sobre o inferno eterno”

Ou seja: além de não refutar absolutamente nada dos textos e de não rebater absolutamente nenhuma das afirmações, o analfabeto ainda escreve “glóriosa” (isso mesmo, com acento no “o”, talvez para acentuar seu sotaque nordestino), corta as citações pela metade e ainda cita as referências totalmente erradas. Onde ele coloca como sendo “Livro III, capítulo 25” (referente à segunda citação) é na verdade “Livro II, capítulo 24”. Isso prova que o astronauta bobão sequer lê os textos que cita, ele copia sem ler as asneiras que escreve, não sabe nem em que livro ou em que capítulo se encontra o que ele está copiando. É difícil achar um apologista católico que seja tão vergonhoso e medíocre quanto esse Rafael Rodrigues.

Para piorar ainda mais a situação, o cidadão ainda adultera de forma grosseira os textos onde Teófilo fala explicitamente na mortalidade natural e não explica nenhum dos textos que dizem que nós só veremos a Deus e alcançaremos a vida eterna depois da ressurreição. Pelo contrário, ele “refuta” o que sequer foi argumentado, e ainda distorce de forma criminosa “o que Teófilo ensina sobre o inferno”, que, como vimos, em nada tinha a ver com um tormento eterno e consciente, mas com aniquilacionismo dos ímpios na conflagração universal, ponto este em que Teófilo estava de acordo com os filósofos estóicos, como o próprio Teófilo assevera.

O que o astronauta católico quer que seus leitores néscios engulam é que quando Teófilo diz que Deus não fez o homem nem “completamente mortal” e nem “absolutamente imortal”, mas capaz de uma coisa ou de outra, o que ele estava querendo dizer é isso:

“Deus não fez o homem completamente para ser atormentado para sempre em um lago de fogo do inferno, nem absolutamente imortal, mas capaz de uma coisa ou de outra”

Sério, quem ainda dá crédito a esse embusteiro?

Para piorar ainda mais as coisas, Teófilo ainda diz:

“Assim, foi a desobediência que acarretou ao primeiro homem ser expulso do jardim do Éden; não porque a árvore da ciência tivesse alguma coisa de mau, mas foi por causa de sua desobediência que o homem atraiu trabalho, dor, tristeza e caiu finalmente sob o poder da morte. Também foi um grande beneficio feito por Deus ao homem que este não permanecesse sempre em pecado, mas, de certo modo, como se tratasse de um desterro, o expulsou do paraíso, para que pagasse por tempo determinado a pena de seu pecado e, assim educado, fosse novamente chamado. Tendo sido o homem formado neste mundo, misteriosamente se escreve no Gênesis como se ele tivesse sido colocado duas vezes no jardim. A primeira vez se realizou quando foi aí colocado; a outra se realizaria depois da ressurreição e do julgamento. Podemos ainda dizer mais. Do mesmo modo como um vaso que depois de fabricado tem algum defeito, é novamente fundido e modelado para que fique novo e inteiro, assim acontece com o homem através da morte: de certo modo se quebra, para que na ressurreição surja sadio, isto é, sem mancha, justo e imortal[73]

Teófilo diz que o homem é chamado duas vezes ao Paraíso: a primeira foi com Adão e Eva (no relato do Gênesis), e a segunda será depois da ressurreição! Mesmo Teófilo sendo assim tão claro, o astronauta embusteiro ainda insiste que as almas estão no Paraíso entre a morte e a ressurreição! Se de longe um apologista católico ser obrigado a distorcer tão criminosamente os textos soa como decadência, de perto parece de longe.

Mas não termina por aqui. Teófilo compara ainda a situação do homem na morte com a situação de um vaso que se quebra e que é consertado. Aqui na terra somos um “vaso com defeito”, na morte somos um “vaso quebrado”, e na ressurreição seremos um “vaso modelado”, se tornando “novo e inteiro”. Deixo que o leitor decida se isso se parece com a descrição de uma alma imortal e incorruptível que habita dentro de nós e que na morte já está no Paraíso com Deus em perfeitas condições, ou se parece mais com a inexistência na morte e volta à vida na ressurreição.

Para terminar, Teófilo diz ainda:

“Portanto, a Sibila, os outros profetas, e até os filósofos e poetas falaram claramente sobre a justiça, sobre o julgamento e o castigo. Falaram também sobre a providência, que Deus cuida de nós não apenas enquanto vivemos, mas também depois de mortos, embora o dissessem contra a vontade, convencidos que foram pela própria verdade. Entre os profetas, Salomão disse sobre os mortos: ‘A carne será curada e os ossos serão cuidados’. E o próprio Davi: ‘Meus ossos humilhados se regozijarão’. De acordo com eles, disse Tímocles: ‘Para os mortos, a misericórdia é o Deus benigno’”[74]

Teófilo diz que Deus cuida de nós mesmo depois de mortos, mas, então, curiosamente não faz absolutamente referência nenhuma sobre isso consistir em estar sob os cuidados de Deus no Céu em forma de alma penada incorpórea e imortal. Ao contrário: ele se refere apenas à carne que será “curada”, aos ossos que serão “cuidados” e, novamente, aos ossos que “se regozijarão”, ou seja, todas elas figuras de linguagem para falar da ressurreição da carne. Para Teófilo, Deus cuidar de nós depois da morte não tinha nada a ver com nossa alma já estar com Deus no Paraíso, mas sim com o fato de Ele providenciar a nós uma ressurreição física dentre os mortos, para que estejamos na presença dEle.

Há muito mais coisas interessantes que eu poderia acrescentar ainda sobre Teófilo, mas um astronauta néscio e incauto como esse não merece mais aulas. Em vez disso, estou planejando um livro sobre o tema da imortalidade da alma nos Pais da Igreja, que deverá sair nas próximas semanas. Se o astronauta quer deixar de ser tão ignorante e mentiroso, que vá ler de fato um livro, se é capaz de fazer isso. Assim obterá conhecimento suficiente para admitir o óbvio: que os primeiros Pais da Igreja desconheciam completamente qualquer doutrina de imortalidade incondicional da alma. Se bem que para alguém tão desonesto não adianta: mesmo que eu cite caminhões de textos históricos e refute cada vírgula de argumentação leviana e néscia, ainda assim o charlatão preferirá continuar enganando a si mesmo e aos seus leitores burros do que reconhecer a verdade, porque “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2Co.4:4).


Introdução a Taciano, o Sírio


Chegamos agora à sexta parte da nossa refutação ao astronauta católico, desta vez no que tange a Taciano, o Sírio (120-180 d.C). Taciano é tão claramente um pregador da mortalidade da alma no século II d.C que o próprio astronauta católico foi obrigado a reconhecer isso em seu artigo (ainda que parcialmente) e a desacreditá-lo e menosprezá-lo de todas as formas, inclusive chamando Taciano de “herege”. O nível de amadorismo na “refutação” do astronauta católico mostra o desespero desta gente em lidar com os escritos dele, que combatem tão clara e consistentemente a doutrina da imortalidade incondicional da alma. Aqui vai um print do desespero do astronauta católico em tentar depreciar Taciano para abaixar o peso da evidência contra ele:

 (Clique na imagem para ampliar)

O que o católico charlatão se esquece de dizer neste texto ridículo é que Taciano não escreveu o “Discurso contra os Gregos” depois de se tornar “herege”, mas enquanto ainda era cristão. Taciano só deixou a Igreja em sua velhice, como atesta Le Roy Edwin Froom em sua obra The Conditionalist faith of Our fathers[75]. John H. Roller, em sua obra sobre “A doutrina da imortalidade da alma na Igreja primitiva”[76], acrescenta ainda que a seita ascética criada por Taciano só foi declarada “herética” muito depois da morte do próprio Taciano, que se deu em 180 d.C. Ou seja, o apologista católico desonesto tenta desmerecer Taciano por uma coisa que ele só fez depois de ter escrito o “Discurso contra os Gregos”, e que mesmo assim só foi considerada “herética” bem depois da sua morte.

Paradoxalmente, no mesmo lixão de site do astronauta católico há um monte de citações de Tertuliano supostamente pró-catolicismo, sendo que Tertuliano também apostatou depois de escrever aquelas coisas. Mas com Tertuliano pode, só não pode com Taciano, porque Taciano explode o capacete do astronauta, e Tertuliano nem tanto. Na cabeça do astronauta embusteiro, “Taciano não pode ser usado para provar nenhuma doutrina cristã” (porque mais tarde ele se tornou “herege”), mas ele usa Tertuliano para “provar doutrinas cristãs” (mesmo ele também tendo se tornado “herege” mais tarde). É assim que funciona o mundo de ilusão e demência dos fanáticos católicos, como Rafael Rodrigues.

O néscio diz ainda que “não nos importa muito o testemunho de Taciano” (é claro que não importa, já que Taciano é um hadouken muito bem dado no estômago deles), ignorando a vasta formação intelectual e prestígio que Taciano tinha na época em que escreveu o “Discurso contra os Gregos”, antes de apostatar. Taciano era um refinado intelectual que dominava a cultura clássica grego-romana e que em seus escritos citou 93 autores clássicos, fazendo uso de seu vasto conhecimento. Convertido ao Cristianismo, ele se tornou discípulo do grande Justino Mártir, seus escritos foram altamente consideradas pela igreja da Síria por duzentos anos, e seu Diatessaron foi usado pela igreja siríaca até o quinto século. Nada disso o astronauta católico fala, na tentativa de depreciar Taciano a todo e qualquer custo, distorcendo a verdade em favor de sua causa nefasta.


Taciano cria no estado intermediário?

Não precisamos perder muito tempo argumentando neste ponto porque o próprio astronauta católico, por mais desonesto que tenha demonstrado ser até hoje, pelo menos acerta uma, admitindo que Taciano tinha a mesma crença da “seita árabe” que cria na morte da alma com a morte do corpo. O astronauta diz:


Isso que ele chama de “seita árabe”, nas palavras de Eusébio, “asseverava que a alma humana neste mundo, no momento final provisoriamente morre com o corpo, e com ele se corrompe, mas no futuro, por ocasião da ressurreição, com ele reviverá”[77].

Se Taciano cria igual a essa “seita árabe” (como o astronauta admite), então ele não cria que as almas dos mortos já estão conscientes em algum outro mundo, o que joga por terra a mentira estúpida de que a morte da alma tenha sido uma “invenção de Arnóbio” no século III d.C.

Para que não reste nenhuma sombra de dúvida a este respeito, reiteremos mais uma vez algumas das passagens que mostram claramente que Taciano não cria mesmo em nenhum estado atual consciente dos mortos, e sim na inexistência entre a morte e a ressurreição. Ele diz:

“Com efeito, do mesmo modo como, não existindo antes de nascer, eu ignorava quem eu era e só subsistia na substância da matéria carnal – mas uma vez nascido, eu, que antes não existia, acreditei em meu ser pelo nascimento – assim também eu, que existi e que pela morte deixarei de ser e outra vez desaparecerei da vista de todos, novamente voltarei a ser como não tendo antes existido e portanto nasci. Mesmo que o fogo destrua a minha carne, o universo recebe a matéria evaporada; se me consumo nos rios ou no mar, ou sou despedaçado pelas feras, permaneço depositado nos tesouros de um senhor rico. O pobre ateu desconhece esses depósitos, mas Deus, que é rei, quando quiser, restabelecerá em seu ser primeiro a minha substância, que é visível apenas para ele”[78]

Aqui Taciano deixa mais do que claro a crença dos cristãos primitivos sobre a morte ser um estado de não-existência, ao invés de ser um estado de existência em outro mundo. Da mesma forma como nós não existíamos antes de nascer, nós deixaremos de existir outra vez quando morrermos, mas Deus um dia nos ressuscitará, fazendo com que existamos outra vez. Assim como antes de nascer você estava em um estado de não-existência, você ressuscitará de um estado de não-existência, e então passará novamente a um estado de existência. A existência só existe em dois períodos: nesta vida (em corpo corruptível) e na vida futura pós-ressurreição (em corpo incorruptível). Essa é a visão bíblica sobre a morte (veja aqui) e era também a concepção dos primeiros cristãos, pelo menos até Taciano.

Taciano também descreve como o homem se tornou naturalmente mortal após ter desobedecido a Deus (no Jardim):

“Todavia, como a virtude do Verbo tem em si a presciência do futuro, não por fatalidade do destino, mas por livre determinação dos que escolhem, predisse os acontecimentos futuros, freou a maldade por suas proibições e louvou os que perseveram no bem. Aconteceu, porém, que os homens e os anjos seguiram e proclamaram Deus àquele que, por ser criatura primogênita, superava os demais em inteligência, justamente ele que se havia revelado contra a lei de Deus. Então a virtude do Verbo negou a sua convivência não só ao que se tornara cabeça desse louco orgulho, mas também a quantos o haviam seguido. E o homem, que tinha sido criado à imagem de Deus, apartando-se dele o espírito mais poderoso, tornou-se mortal e aquele que fora primogênito, por sua transgressão e insensatez, foi declarado demônio, e os que imitaram suas fantasias se transformaram no exército dos demônios que, por razão de seu livre-arbítrio, foram entregues à própria perversidade”[79]

“Nós não fomos criados para a morte, mas morremos por nossa própria culpa. A liberdade nos deixou; nós que éramos livres, nos tornamos escravos; fomos vendidos pelo pecado. Deus não fez nada mau; fomos nós que produzimos a maldade; nós que a produzimos, porém somos também capazes de recusá-la”[80]

“Conforme o seu livre-arbítrio, os demônios deram aos homens leis de morte; mas os homens, depois de perderem a imortalidade, com sua morte pela fé, venceram a morte e, por meio da penitência, foi-lhes outorgado o dom de uma nova vocação, conforme a palavra que diz: ‘Pois por um pouco de tempo foram tornados inferiores aos anjos’. De fato, é possível para todo aquele que foi vencido vencer por sua vez, contanto que rejeite a constituição da morte, e qual seja esta é fácil de ver para aqueles que desejam a imortalidade”[81]

A visão de Taciano era totalmente bíblica e bastante simples: Deus não nos criou naturalmente mortais, mas nós nos tornamos naturalmente mortais ao desobedecer a Deus e escolher pelo pecado (esta é exatamente a mesma visão de seu contemporâneo Teófilo, como vimos no artigo anterior). A única solução para isso é a ressurreição dos mortos, mediante a qual poderemos viver para sempre depois de termos morrido como consequencia do pecado. Para Taciano, era impossível a alma “se manifestar sem o corpo” (eliminando por completo a possibilidade das almas estarem vivas desincorporadas no Céu neste momento), e na ressurreição a carne não ressuscita “sem a alma”:

“A alma dos homens compõe-se de muitas partes, e não de uma só; ela é composta, de modo que se manifesta por meio do corpo. Com efeito, nem a alma poderia por si mesma jamais se manifestar sem o corpo, e nem a carne ressuscita sem a alma[82]

A lógica de Taciano era certeira: se a alma só pode ser manifesta por meio do corpo, então não existe vida “somente no corpo” ou “somente na alma”. Consequentemente, na morte não há vida em estado incorpóreo (na alma), e na ressurreição não há vida somente para o corpo, mas para o corpo e a alma. Ou os dois estão juntos e há vida, ou os dois não estão juntos e há não-vida (morte). Não existe vida somente como “alma” ou somente como “corpo”. Isso é exatamente o que a Bíblia diz sobre o estado dos mortos, que vocês podem ler clicando aqui.

Para Taciano, a alma não é imortal (neste presente momento), mas precisa ser imortalizada pelo Verbo (Jesus) na ressurreição, no mesmo momento em que o corpo também recebe a imortalidade:

”Mas nem a nós ficam ocultas as coisas do mundo nem a vós será difícil compreender as divinas, contanto que chegue até vós a potência do Verbo que imortaliza a alma[83]

“Vocês afirmam que só a alma receberá a imortalidade; eu, que juntamente com ela também a carne[84]

“Nós, porém, aprendemos dos profetas o que ignorávamos; estes, persuadidos de que o espírito celeste, vestidura de nossa imortalidade, juntamente com a alma, um dia possuirá a imortalidade, predisseram o que as outras almas não sabiam”[85]

Se a alma “um dia possuirá a imortalidade”, é óbvio que ela não possui a imortalidade agora.

A parte mais patética e ao mesmo tempo hilária do texto do astronauta católico é quando ele, depois de já ter concedido que Taciano cria na morte da alma depois da morte do corpo, cita um texto que supostamente “prova” que Taciano cria que  alma era “imortal” e que “se separa do corpo”. Eu vou mostrar mais um print direto do artigo dele, antes que ele edite o artigo para apagar essa pérola. Ele diz:

 (Clique na imagem para ampliar)

O cara é tão ridículo e abestado que nem percebeu que Taciano estava justamente ridicularizando a crença dos gregos, de que a alma era imortal. Ele estava sendo irônico e sarcástico, zombando da crença dos gregos, e o astronauta vai lá e copia o texto sem ler, pensando que Taciano estava sendo literal e contradizendo tudo aquilo que ele já havia escrito em toda a obra!

Vejamos a citação de Taciano dentro de seu devido contexto:

“Os demônios que dominam os homens não são as almas dos mortos. Com efeito, como podem ser capazes de agir depois de mortos? A não ser que creiamos que, enquanto vive, um homem é ignorante e impotente e, depois que morre, recebe daí para a frente um poder mais eficaz. Isso, porém, não é assim, como já demonstramos em outro lugar, nem é fácil compreender como a alma imortal, impedida pelos membros do corpo, se torne mais inteligente quando se separa dele. Não. São os demônios aqueles que, por sua maldade, se enfurecem contra os homens e, com variadas e enganosas representações, desviam os pensamentos dos homens, já por si inclinados para baixo, a fim de torná-los incapazes de empreender a sua marcha de ascensão para os céus”[86]

Veja que Taciano estava refutando a crença de algumas pessoas que pensavam que os demônios eram na verdade “as almas dos mortos”. Taciano refuta essa bobagem dizendo que isso era impossível, uma vez que os mortos não são capazes de “agir”. Se os mortos estão em estado de inexistência, como é que eles podem ser os demônios? Não tem como. Era este o ponto de Taciano. Então ele faz uma concessão hipotética:

“...a não ser que creiamos que, enquanto vive, um homem é ignorante e impotente e, depois que morre, recebe daí para a frente um poder mais eficaz”

Ou seja, para Taciano, se a alma continuava viva após a morte, então o homem deveria receber um “poder mais eficaz” depois que morre, ou seja, que ele estaria em um estado melhor depois de morto do que estava enquanto vivo. É exatamente nisso que os apologistas católicos ridículos como o Rafael Rodrigues creem. Mas Taciano refuta essa mentira logo em seguida, dizendo:

“...isso, porém, não é assim, como já demonstramos em outro lugar”

Esse “em outro lugar” se refere a todas as várias partes de sua obra que já conferimos até aqui, que mostram claramente que Taciano cria na mortalidade da alma. E é aí que ele ridiculariza a crença estúpida daqueles que pensavam o contrário dele, dizendo que essa crença “não é fácil de se compreender”:

“...nem é fácil compreender como a alma imortal, impedida pelos membros do corpo, se torne mais inteligente quando se separa dele. Não

Taciano não estava dizendo que ele próprio crê que existe uma “alma imortal impedida pelos membros do corpo”, mas sim ridicularizando a crença daqueles gregos contra os quais ele escrevia, que criam que a alma era imortal e ficava dentro dos membros do corpo, e se tornava mais inteligente quando se separa dele (o que Taciano já havia refutado). O astronauta católico, de tão bôbo e desonesto que é, não grifou em seu artigo a palavra seguinte à frase que ele colocou em negrito, que é quando Taciano diz um “NÃO”, logo após dizer aquilo que os gregos criam, mostrando que o próprio Taciano não cria que a alma era “imortal”, que ficasse “dentro dos membros” do corpo ou que se tornasse “mais inteligente quando se separa dele”. Desonesto para um cidadão desses é um termo leve!

Essa não foi a única vez em que Taciano zombou e ridicularizou a doutrina da imortalidade da alma. Em outra parte de seu Discurso contra os Gregos, ele faz chacota com a crença daqueles que criam em intercessão dos santos falecidos:

“De fato, como é possível que, não tendo eu sido absolutamente mau enquanto vivi, os meus restos, depois de morto, sem eu fazer nada, os meus restos, que já não se movem nem sentem, realizem alguma coisa sensível? Como aquele que morreu com a mais desastrosa morte poderá ajudar alguém a se vingar? Com efeito, se fosse capaz, muito melhor vingaria a si mesmo contra o seu próprio inimigo, pois aquele que pode ajudar a outros, com muita maior razão poderá fazer justiça a si mesmo”[87]

Infelizmente temos que compreender que o astronauta católico jamais leu coisa alguma de Taciano, ele apenas correu desesperado para copiar e colar textos isolados citados em outros sites católicos e itardianos, sem sequer ler os textos que ele mesmo copia em seu próprio site, de tão deplorável que é. É por isso que ele comete tantas gafes e pérolas em seu texto de nível medíocre.


Taciano cria no tormento eterno?

Agora chegamos ao ponto que o astronauta católico assegura que Taciano cria da mesma forma que ele: no tormento eterno dos ímpios. E isso, na cabeça dele, é a “prova” de que Taciano não deve ser usado pelos mortalistas. O astronauta católico afirma:

 (Clique na imagem para ampliar)

Mas de que raios que o astronauta católico tirou a ideia de que Taciano falou de “sofrer eternamente”? Deve ser do mesmo lugar em que o Paulo Porcão costuma formular seus “argumentos”: do focinho. Taciano não emprega a linguagem de “sofrer eternamente” em absolutamente lugar nenhum da sua obra. Tudo o que Taciano fala é sobre os ímpios terem “morte na imortalidade”, o que em si mesmo parece ser autocontraditório e não ter muito sentido, mas faz todo o sentido se entendermos que Taciano estava familiarizado com o platonismo, onde a alma ser “eterna” implicava não apenas em não ter fim, mas também em não ter início.

Por isso, ao invés de ele usar o termo “morte eterna” (que é o termo usado na Bíblia), ele preferia usar o termo “morte na imortalidade”, pois “imortal” não é aquilo que “não tem começo nem fim”, mas somente aquilo que “não tem fim” (sem necessariamente não ter tido um começo), ou seja, uma “morte sem fim”. Essa era uma forma mais adequada para falar aos gregos (para os quais ele dirigia seu Discurso), mas significa essencialmente a mesma coisa do termo bíblico “morte eterna”. A “morte na imortalidade” (=morte sem fim) é um estado perpétuo e permanente de morte, o que significa que o indivíduo que morreu nunca mais voltará à existência.

Isso era importante para diferenciar a crença dele em relação à crença dos estóicos e de outros gregos que acreditavam que na conflagração universal o indivíduo era aniquilado, mas que depois de um tempo ele voltava à existência e recomeçava tudo de novo outra vez. Para Taciano, a morte não era uma morte passageira, mas uma “morte na imortalidade”, ou seja, uma morte “imortalizada”, sem fim, sem volta, sem recomeços, sem novas chances. É o mesmo que a Bíblia chama de “morte eterna”, mas em uma linguagem mais adequada e apropriada para falar aos gregos, que entendiam o “eterno” como sendo aquilo que necessariamente não tem começo, o que poderia sugerir a eterna pré-existência das almas, que era um ponto que Taciano definitivamente não defendia.

A citação completa de Taciano em seu contexto é essa:

“Gregos, a nossa alma não é imortal por si mesma, mas mortal; ela, porém, é também capaz de não morrer. Com efeito, ela morre e se dissolve com o corpo se não conhece a verdade; ressuscita, porém, novamente com o corpo na consumação do tempo, para receber, como castigo, a morte na imortalidade. Por outro lado, não morre, por mais que se dissolva com o corpo, se adquiriu conhecimento de Deus. Porque, de si, a alma é treva e nada de luminoso há nela, e é isso o que sem dúvida significam as palavras: ‘As trevas não apreenderam a luz’. Não é a alma que salva o espírito, mas é salva por ele, e a luz apreendeu as trevas, no sentido que o Verbo é a luz de Deus e a alma ignorante é treva. Por isso, quando vive só, inclina-se para a matéria, morrendo juntamente com a carne[88]

Primeiro ele diz que a alma não é imortal por natureza, e sim mortal. Depois, para que ele não fosse associado a um epicurista (que cria que as almas de todos morrem para sempre e não há recompensa e nem vida eterna para ninguém), ele faz o adendo de que “ela também é capaz de não morrer”, ou seja, que ela não será aniquilada como as almas dos ímpios serão, pois somente os ímpios irão para a morte eterna. Então, as almas dos ímpios se dissolvem com o corpo na morte e depois ressuscitam para a morte eterna (“morte na imortalidade”), enquanto as almas dos justos também se dissolvem com o corpo após a morte, mas não morrem, ou seja, não passarão pela morte eterna que as almas dos ímpios passarão.

O final do parágrafo é ainda mais esclarecedor, pois diz que as almas dos ímpios morrerão juntamente com a carne, o que mostra de forma indiscutível que esta “morte” que Taciano se referia ao falar do destino final dos ímpios não tinha nada a ver com “sofrer eternamente” (como o astronauta católico assevera), mas sim no mesmo tipo de morte que a carne sofre, ou seja, uma morte física, real, passando do estado de existência para o de inexistência.

Vamos agora para a outra citação de Taciano, onde ele diz:

“Também vós sois assim, gregos, elegantes no falar mas loucos no pensar, pois chegastes a preferir a soberania de muitos deuses em vez da monarquia de um só Deus, como se acreditásseis estar seguindo demônios poderosos. Com efeito, assim como os salteadores, por sua desumanidade, costumam audaciosamente dominar os seus seme­lhantes, também os demônios, depois de fazer as vossas almas abandonadas se desviarem no lodaçal da maldade, as enganaram por meio de ignorâncias e fantasias. É fato que eles não morrem facilmente, pois não têm carne; mas, vivendo, praticam ações de morte, e também eles morrem tantas vezes quantas ensinam a pecar aqueles que os seguem. Portanto, a vantagem que agora têm sobre os homens, isto é, não morrer de modo semelhante a eles, esse mesmo fato lhes será mais amargo quando chegar a hora do castigo, pois não terão parte na vida eterna participando dela, em lugar da morte na imortalidade. E como nós, para quem morrer é agora um acidente tão fácil, receberemos depois a imortalidade junto com o gozo, ou a pena junto com a imortalidade, também os demônios que abusam da vida presente para pecar a todo momento, e que durante a vida estão morrendo, terão depois a mesma imortalidade que os homens que deliberadamente realizaram tudo o que eles lhes impuseram como lei durante o tempo em que viveram. Não digamos nada sobre o fato de que, entre os homens que os seguem, aconteceu menos espécies de pecados por não viverem longo tempo, enquanto nos citados demônios o pecado se prolonga muito mais, em razão do tempo indefinido da sua vida[89]

Já expliquei há pouco o significado do termo “morte na imortalidade” (que Taciano aqui usa para o destino final dos demônios e diz em seguida que será o mesmo destino final dos homens iníquos). Ela não significa uma existência eterna e contínua de vida em algum lugar, mas sim uma morte real que não terá fim (em contraste com os gregos que pensavam que os ímpios serão aniquilados somente por algum tempo, e depois voltariam à existência no futuro). Taciano não diz que os demônios “não morrem”, mas sim que eles “não morrem facilmente”, nos levando a crer que eles um dia morrerão, embora com dificuldade (ou seja, que demorarão mais tempo para morrer do que os homens).

Aqui o termo “morte” não está em sentido espiritual ou figurado, porque o demônio já está neste estado de morte, como o próprio Taciano acentua na sequencia. “Não morrer facilmente por não ter carne” se refere obviamente à morte final (aniquilacionismo), não a uma mera morte espiritual. Mais uma vez, é a parte final do capítulo que lança mais luz ao que ele havia acabado de dizer. Taciano explica o porquê que os demônios demoram mais para morrer (“não morrem facilmente”) do que os humanos que também são ímpios. Ele diz que é porque os pecados dos homens são menores, uma vez que “não vivem longo tempo”, enquanto os pecados dos demônios “se prolongam muito mais”, em função do “tempo indefinido” de sua vida.

Note que Taciano não diz que os demônios são seres “imortais” ou que vivem “infinitamente”, mas sim que vivem um tempo indefinido, o que é bem diferente. O tempo é “indefinido” porque ninguém sabe exatamente em qual momento que o diabo foi criado, mas não é “infinito”, porque um dia ele será morto assim como os homens que o seguiram. O texto presume que Taciano cria na mesma coisa que os aniquilacionistas creem hoje: que os demônios serão castigados por um tempo muito maior do que os homens que foram enganados por ele (em função de terem cometido mais pecados), e que no final tanto um como o outro irão para a “morte eterna”, um estado de morte que não tem volta.

Essa era a principal diferença entre Taciano e os gregos na questão do aniquilacionismo: enquanto os gregos estóicos criam que as almas eram aniquiladas muitas vezes ao longo de várias conflagrações universais e recriações, Taciano e os demais cristãos criam em apenas uma única conflagração universal, e, consequentemente, em um único aniquilacionismo, o que impede que os ímpios voltem à existência em algum momento depois de já terem sido aniquilados. É por isso que Taciano afirma:

“Há quem diz que o Deus perfeito é corpo; eu, que é incorpóreo; que o mundo é indestrutível; eu, que é destrutível; que a conflagração universal acontece periodicamente; eu, que de uma só vez[90]

Por fim, Taciano deixa mais do que claro que somente participando da porção de Deus seremos imortais, o que lança por terra qualquer possibilidade de que os ímpios também herdem a imortalidade no futuro:

“O Verbo celeste, espírito que vem do Espírito e Verbo da potência racional, à imitação do Pai que o gerou, fez o homem imagem da imortalidade, a fim de que, como em Deus existe a imortalidade, assim o homem, participando da porção de Deus, possua o ser imortal[91]

Em síntese, Taciano não cria nem em estado intermediário, e nem em tormento eterno. Ele cria na dissolução e morte da alma de justos e ímpios com a morte do corpo, e em ressurreição para ambos, na qual os justos desfrutarão de vida eterna, e os ímpios serão castigados proporcionalmente aos seus pecados, sendo por fim lançados à “morte na imortalidade”, um estado perpétuo e sem volta de morte, que distinguia o aniquilacionismo cristão do aniquilacionismo grego. Temos aqui um mestre cristão – doutrinado pelo maior professor cristão da época – desafiando os gregos de seu tempo e destruindo o principal fundamento deles: a lenda da imortalidade da alma.


Pais imortalistas


Esta parte final não será mais um de refutação, pois não há mais nada a ser refutado. Eu refutei nestes dias todas as deturpações dele em cima dos Pais que foram citados por mim na defesa da mortalidade da alma (ou imortalidade condicional) em meu artigo, e não tenho nenhuma razão para refutar algo a mais que eu não tenha argumentado em meu artigo. O cidadão encheu o artigo dele com um monte de citação dos Pais da Igreja de data posterior, ou seja, daqueles mesmos que eu próprio havia dito em meu artigo que introduziram a crença em uma alma imortal na Igreja da época. Portanto, esta outra parte do artigo dele apenas confirma aquilo que eu havia escrito no meu artigo. Obrigado, Rafael!

Por mais que não haja mais qualquer necessidade de uma nova refutação, tendo em vista que esses outros escritores cristãos são aqueles que eu mesmo já havia dito que introduziram a crença na imortalidade da alma na Igreja, penso que será proveitoso tecer alguns comentários sobre cada um deles, em parte porque alguns deles eram condicionalistas (criam no estado intermediário, mas não no tormento eterno), em parte porque alguns deles eram universalistas (criam em salvação universal no fim dos tempos), e em parte porque alguns deles eram descaradamente filósofos platônicos que tentaram sincretizar imortalidade da alma com ressurreição dos mortos. Tecerei então alguns breves comentários sobre eles.


Atenágoras

Atenágoras (133-190) é reconhecidamente o primeiro imortalista na história da Igreja, e um dos responsáveis pela introdução da crença numa alma imortal nos moldes atuais (embora ele não estivesse sozinho). Sua primeira obra escrita é datada de 177 d.C, o que mostra quão tardiamente que a imortalidade da alma começou a ser pregada por um cristão, quase 150 anos depois da morte de Jesus!

Há muitas coisas que precisam ser ditas sobre Atenágoras. Primeiro, ele não era nem de longe um autor proeminente na Igreja da época, como os imortalistas tentam pintá-lo, para usá-lo como “autoridade”. Le Roy Edwin Froom afirmou que “seus argumentos não carregavam muito peso em seus próprios dias, e seu nome não foi bem conhecido em sua própria geração”[92]. Ele nem sequer é citado em parte alguma da “História Eclesiástica” de Eusébio de Cesareia (265-339), o maior historiador antigo da igreja primitiva, que escreveu nada a menos que dez livros onde reúne tudo o que aconteceu de importante na história da igreja do século I até sua época, no século IV. É como se Atenágoras nem existisse!

Atenágoras não era bispo de igreja nenhuma, não era presbítero, nem diácono era. Não era professor, não era teólogo, não era mestre, não era doutor. Tudo o que se sabe sobre ele é que era um filósofo platônico convertido ao Cristianismo, para o qual depois escreve uma Apologia em defesa dos cristãos. Não se sabe o quão profundamente ele conhecia (ou não) a nova fé, nem se ele se submetia plenamente à doutrina da Igreja, o que não parece ser o caso.

Diferentemente de Justino e Taciano, Atenágoras não foi um filósofo convertido que abandonou os conceitos antigos da filosofia grega, mas sim um filósofo convertido que trouxe consigo os conceitos da filosofia grega. Isso é o que diferencia Atenágoras de Justino e Taciano. Atenágoras tinha boa fé, mas ele nunca deixou a filosofia platônica por completo. Assim como o judeu alexandrino Fílon (20 a.C – 50 d.C) buscou unir o judaísmo com o platonismo, Atenágoras tentou unir o platonismo com o Cristianismo. O resultado foi uma mistura de imortalidade da alma com ressurreição dos mortos, que passou a ser a filosofia adotada majoritariamente mais tarde. Todos os historiadores que se prezem reconhecem que Atenágoras continuou sendo influenciado por Platão mesmo depois de sua adesão ao Cristianismo, a coisa é tão óbvia que até a página da Wikipedia diz:

 (Clique na imagem para ampliar)

Em segundo lugar, como é bastante importante observar, Atenágoras sustentava a imortalidade da alma não com argumentos doutrinários, teológicos ou bíblicos, mas com argumentos puramente filosóficos, trazidos da filosofia grega. O respeitado teólogo anglicano Henry Constable ressaltou que “Atenágoras nunca citou um texto da Escritura para fundamentar sua opinião”[93]. Isso explica muita coisa!

Em terceiro lugar, usar Atenágoras como prova de imortalidade da alma na igreja primitiva é um grande tiro no pé, pois só mostra o enorme e gigantesco contraste que havia entre ele e todos os demais escritores cristãos anteriores. Em uma única obra de Atenágoras, ele cita o termo “alma imortal” nada a menos que nove vezes(!), em contraste com zero vezes em que o termo aparece em Clemente; zero vezes em que o termo aparece em Inácio; zero vezes em que o termo aparece em Policarpo; zero vezes em que o termo aparece em Hermas; zero vezes em que o termo aparece em Justino; zero vezes em que o termo aparece na epístola de Barnabé; zero vezes em que o termo aparece em Papias; zero vezes em que o termo aparece na Didaquê; zero vezes em que o termo aparece em Aristides; zero vezes em que o termo aparece em Teófilo; zero vezes em que o termo aparece em Melito; zero vezes em que o termo aparece em Polícrates; e zero vezes em que o termo aparece em Taciano.

Os astronautas católicos devem achar que nós somos imbecis ou extremamente estúpidos e ingênuos para acreditarmos que Atenágoras não era um inovador, mas apenas alguém que pregava exatamente a mesma doutrina de imortalidade da alma que supostamente todos os demais cristãos da época ensinavam! O contraste é tão imenso e absurdo que só um insano seria capaz de concluir que Atenágoras não era mais imortalista do que todos os outros, ou que tivesse a mesma crença dos demais. O quadro abaixo resume isso:

Escritor cristão
Citações do termo “alma imortal”
Clemente de Roma (35-97)
Zero (0)
Policarpo de Esmirna (69-155)
Zero (0)
Inácio de Antioquia (35-107)
Zero (0)
Papias de Hierápolis (70-155)
Zero (0)
Didaquê (60-90)
Zero (0)
Hermas (70-155)
Zero (0)
Aristides de Atenas (75-134)
Zero (0)
Barnabé de Alexandria (80-150)
Zero (0)
Justino Mártir (100-155)
Zero (0)
Teófilo de Antioquia (120-186)
Zero (0)
Taciano, o Sírio (120-180)
Zero (0)
Melito de Sardes (120-180)
Zero (0)
Polícrates de Éfeso (125-196)
Zero (0)
Atenágoras (133-190)
Nove (9)
*Nota: Algumas destas datas são estimadas, e outras são aproximadas.

A coisa piora mais ainda quando vemos que o termo “alma imortal” só aparece duas vezes em outros autores, e em contextos onde eles estão claramente refutando a “alma imortal”, ao invés de afirmando-a! Uma é com Justino em seu Diálogo, quando ele conta a crença que ele tinha enquanto ainda era platônico, sendo que logo depois ele abre mão dessa crença e a refuta quando vê que o velho cristão tinha razão (clique aqui para ver), e a outra é quando Taciano zomba da crença dos gregos, que criam numa “alma imortal que está presa dentro dos membros do corpo” (clique aqui para ver).

Então temos treze autores e dezenas de livros, onde a “alma imortal” só aparece duas vezes e em contextos onde o autor está refutando a “alma imortal”, e ao chegarmos a Atenágoras temos de uma só vez nada a menos que nove citações em favor de uma “alma imortal”! Qualquer criatura que não seja tão ingênua e desprovida de inteligência e senso crítico logo concluirá que Atenágoras jamais esteve reafirmando qualquer doutrina cristã, mas introduzindo uma que era totalmente estranha à Igreja primitiva.

Em terceiro lugar, e para concluir sobre Atenágoras, o golpe de morte nos imortalistas que citam Atenágoras em seu favor é o fato de que, para Atenágoras, perecer era o mesmo que aniquilar! De fato, Atenágoras disse:

“Porque Deus não nos criou como rebanhos ou bestas de carga, de passagem, só para perecermos e sermos aniquilados[94]

Note que Atenágoras equivale “perecer” a ser “aniquilado”. Em outra passagem, ele critica aqueles que “julgam que com o corpo perece também a alma e esta como que se apaga”[95]. Em outras palavras, Atenágoras reconhecia que “perecer” era um termo que denotava aniquilamento. Isso cria enormes problemas para os imortalistas, pois esta mesmíssima palavra (“perecer”) é usada em toda a Bíblia como referência à sorte final dos ímpios, e também foi usada por todos aqueles Pais da Igreja que já vimos anteriormente. Logo, aqueles que se apoiam na visão de Atenágoras estão automaticamente se colocando contra a posição bíblica e contra a posição de todos os Pais da Igreja supracitados, e desta forma o contraste entre a teologia de Atenágoras e dos demais Pais da época torna-se ainda mais evidente (como se já não fosse óbvio).


Mathetes

Outro escritor eclesiástico do final do segundo século citado pelo astronauta católico em favor da imortalidade da alma é o autor da Carta a Diogneto, conhecido apenas como “Mathetes” (“discípulo”), que sequer é nome próprio. Mais uma vez, estamos lidando aqui com um escritor desconhecido, que era tão pouco considerado na Igreja que sequer sabemos seu nome, o qual também não exercia aparentemente nenhum cargo eclesiástico, pois também não aparece na lista de bispos de igreja nenhuma.

Eusébio também não o cita nenhuma vez em sua “História Eclesiástica”, o que mais uma vez demonstra que este autor tinha bem pouca importância na igreja primitiva. Embora o astronauta católico o tenha colocado descaradamente na lista de “Pais Apostólicos”, os estudiosos afirmam que todas as evidências apontam que a obra não foi escrita senão no final do século II, ou seja, depois do próprio Atenágoras. O que se sabe é que o “Diogneto” (destinatário da carta) foi procurador de Alexandria na virada do século II para o III, o que indica que a carta foi provavelmente escrita em fins do século II ou início do século III.

De qualquer forma, o que podemos ter certeza é que Mathetes não foi um “Pai Apostólico”, não chegou a ouvir a doutrina de um apóstolo e nem foi discipulado por um sucessor de um apóstolo, mas é um autor relativamente tardio do qual não sabemos praticamente nada, e pode ter sido mais um daqueles recém-convertidos do platonismo, que tentavam juntar ambas as doutrinas. Pelo menos, sabemos que tanto seu autor quanto seu destinatário eram gregos, o que não é de se surpreender. A “alma imortal” em um autor tão obscuro assim, do qual quase nada se sabe e de quem também não era famoso nem proeminente na Igreja, não é muita surpresa.

Em sua obra há uma citação bastante dualista, que parece ter sido tirada direto de um livro de Platão, e que em absolutamente nada condiz com a Bíblia ou com os autores cristãos primitivos:

“Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível. A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam”[96]

A quantidade de platonismo presente neste único capítulo supera a de todos os outros cristãos primitivos juntos, até mesmo incluindo Atenágoras! O tanto de asneiras tiradas da filosofia grega é realmente chocante, assustador. Além de dizer que a alma é um elemento invisível que está “espalhada por todas as partes do corpo”(?), ainda há um flagrante absurdo do dualismo platônico entre o corpo e a alma, onde o corpo é “mau”, e a alma é “boa”. Para Mathetes, “a carne combate a alma” e “a odeia”. Este dualismo ridículo jamais foi aceito na Bíblia, onde o contraste nunca era entre corpo e alma, mas sim entre carne e espírito (ou seja, entre nossos desejos naturais e nossos desejos espirituais), e em nada tinha a ver com a filosofia pagã de Platão, na qual Mathetes estava mergulhado.

Mas a coisa piora ainda mais quando Mathetes chama explicitamente o corpo de prisão(!) da alma, conceito este tão flagrantemente pagão, platônico e antibíblico que nem os próprios imortalistas nos dias de hoje admitem isso! O corpo biblicamente não é nenhuma “prisão”, mas o santuário do Espírito Santo (1Co.6:19). E para acabar com tudo de uma vez, o indivíduo diz que a alma se torna melhor quando é maltratada em comidas e bebidas(!), que é mais um conceito pagão, comprado dos filósofos antigos que pensavam que podemos “zoar” com o corpo o quanto quisermos (inclusive se envolvendo em bebedeiras e tudo mais que faz mal ao corpo), que a única coisa que importa é a “preservação da alma”. Paulo deu um hadouken nesse lixo de filosofia quando disse que os cristãos devem preservar incorruptível corpo, alma e espírito (1Ts.5:23), e não apenas a alma e o espírito. O corpo, para Paulo, tinha a mesma importância da alma – algo muito diferente do dualismo absurdo presente na Carta a Diogneto.

A única coisa que podemos concluir é que Mathetes estava muito longe de ser um legítimo “cristão ortodoxo”. Ele era descaradamente um filósofo platônico tentando introduzir no Cristianismo todo o dualismo grego sobre corpo e alma que foi severamente rejeitado até então. Seu platonismo era tão evidente e manifesto que nem os imortalistas atuais creem em todas as coisas que ele afirmava sobre a alma. Embora pudesse ser um cristão sincero, era claramente mais um amante da filosofia de Platão, buscando convergir a “filosofia cristã” com a filosofia grega, em uma coisa só.

Ironicamente, em Mathetes encontramos também um verso que parece contradizer a doutrina do tormento eterno, que é quando ele diz que o tormento dos ímpios terá um “fim”:

“Condenarás o engano e o erro do mundo, quando realmente conheceres a vida no céu, quando desprezares esta vida que aqui parece morte e temeres a morte verdadeira, reservada àqueles que estão condenados ao fogo eterno, que atormentará até o fim aqueles que lhe forem entregues”[97]

Ele não diz que o fogo do inferno atormentará os pecadores “para sempre”, mas sim “até o fim”. Se tem um fim, presume-se que não é infinito. Eu não me surpreenderia em nada se Mathetes fosse um imortalista típico (como os imortalistas atuais, só que mais “platônico” ainda), mas mesmo assim parece que, conquanto fosse fortemente dualista (o que é absolutamente incontestável), ele não cria na imortalidade inerente ou incondicional da alma (senão ele creria no tormento eterno também). Isso mostra que até mesmo nos primeiros introdutores da heresia da imortalidade da alma não havia um consenso como há nos dias de hoje. Defender o dualismo e o estado intermediário não implicava em crer no “tormento eterno”, como ainda hoje há muitas pessoas que creem na sobrevivência da alma mas não no inferno eterno. O desvio foi gradual, mas certamente Mathetes foi responsável por parte disso.


Tertuliano

Chegamos agora ao maior propulsor responsável pela divulgação da “alma imortal” na igreja primitiva: Tertuliano de Cartago (160-220). Diferentemente dos outros dois mencionados, que não eram conhecidos e que tinham os pés alicerçados na filosofia platônica, Tertuliano era muito famoso e não era um filósofo platônico, embora também não tenha nascido no Cristianismo. Na verdade, ele até chegava a se chocar com Platão em algumas ideias, como Le Roy Edwin Froom sublinha:

“Em sua obra De Anima, Tertuliano faz especulações sobre a origem, natureza e destino da alma humana. Ele mantém certa corporeidade da alma, sem apelar para, e em conflito com, a Escritura Sagrada, e às vezes chocando-se com Platão”[98]

Mas se Tertuliano não era um filósofo platônico que buscava unir o Cristianismo com a filosofia grega, então de que forma que ele chegou à imortalidade da alma em finais do século II e início do século III d.C?

Muitos estudiosos entendem que a resposta a esta questão está justamente no autoritarismo, rigor extremo e ultraconservadorismo de Tertuliano. Seu rigor ascético é muito conhecido, e ele foi disparado o mais autoritário de sua época. Marcos Granconato escreveu que “Tertuliano tinha uma natureza inclinada para a disciplina e o rigor ascético. Sendo casado, tratava sua esposa e as demais mulheres com severidade e rigor, o que evidencia sua preocupação com a continência. Foi esse impulso na direção de um rigorismo exacerbado que o levou, em 207, a romper com a igreja e abraçar a heresia de Montano”[99].

Em um vídeo-aula sobre patrística, Granconato observa:

“Tertuliano era muito rigoroso, extremamente rigoroso com tudo. Tertuliano dizia até qual deveria ser o tamanho do véu que a mulher deveria usar, e qual era a posição que ela deveria colocar o véu em cima da cabeça, e como deveria ficar o véu na frente, e como deveria ficar o véu atrás. Ele era muito rigoroso. Obrigava as mulheres a passar o ‘batom do silêncio’ na boca. As mulheres não iriam gostar de Tertuliano. Ele era tão rigoroso que saiu da Igreja, porque achava que a Igreja era muito light. Então foi para o montanismo, ficou ali durante algum tempo, mas então viu que o montanismo era muito light também. Então ele montou sua própria igreja, os chamados ‘tertulianistas’”[100]

Será que esse espírito autoritário e rigoroso de Tertuliano tem algo a ver com sua invenção e adoção de um “tormento eterno”? Tudo indica que sim. Le Roy Edwin Froom comenta:

“Uma tempestade de perseguição violenta abateu a Igreja em meados do século II, e a intolerância religiosa irrompeu em chamas, com penas de prisão, tortura e morte. A igreja da África também participou desde batismo de sangue. Os cristãos eram lançados às feras e queimados como tochas humanas, e as igrejas eram privadas de seus lugares de adoração. Esta perseguição severa, no reinado de Septímio Severo, foi mais ativa no auge da carreira de Tertuliano (...) Os princípios do evangelho, é claro, proibiam a vingança aqui na terra por parte dos cristãos. Mas o espírito veemente de Tertuliano o levou a considerar a retribuição do inferno para eles, como infinito e absoluto no mundo vindouro. O inferno seria um campo de carnificina horrorosa, um ‘perpétuo abate’. Então, o feroz e vingativo espírito de Tertuliano encontrou consolo nas agonias eternas do perdido”[101]

Froom comenta ainda:

“Tertuliano declarou abertamente ter prazer na tortura dos ímpios. Para lidar com a punição futura, ele introduziu uma linguagem totalmente estranha à Escritura, a fim de se adaptar à sua nova doutrina. E para sustentá-la, ele confessadamente alterou o sentido da Escritura e o significado das palavras, de modo a interpretar ‘morte’ como miséria eterna, e ‘destruição’ e ‘consumir’ como ‘dor’ e ‘angústia’”[102]

Tertuliano achava que a doutrina do aniquilamento dos ímpios era “light” demais, e assim como fazia com a questão do véu e do “batom do silêncio”, preferiu criar suas próprias doutrinas rigorosas e autoritárias, levando para os extremos. E não há nada mais extremo e horripilante do que a doutrina de um tormento eterno e consciente em um lago de fogo literal. É claro que para fazer isso Tertuliano precisou reinterpretar e distorcer muita coisa da Bíblia. Sem ter conhecimento do hebraico, ele deturpou terrivelmente o texto de Gênesis 2:7, tentando fazer com que a expressão “o homem tornou-se uma alma vivente” denotasse “imortalidade natural” – uma alegação que qualquer mortalista de cinco anos consegue refutar.

Froom observa isso nas seguintes palavras:

“Tertuliano criou uma terminologia em total desacordo com as Escrituras. Ainda mais grave, em sua argumentação bíblica ele alterou o sentido das declarações explícitas da Escritura relativas à condenação dos perdidos, e às vezes revertia o significado. Isso abriu caminho para os estudiosos ao longo dos séculos acusarem Tertuliano de manipular a Escritura para sustentar sua teoria da imortalidade universal de todas as almas e o tormento sem fim dos eternamente condenados. Como consequencia, ele muitas vezes foi acusado de ter deliberadamente pervertido a intenção clara da Escritura relativa à vida, morte e destino, a fim de justificar sua noção filosófica”[103]

Tertuliano também violentou as Escrituras inventando analogias diametralmente opostas às da Bíblia. Henry Constable declarou:

“Tertuliano disse que os ímpios serão como montanhas que se queimam, mas não são consumidas; como um corpo atingido por um raio, cuja estrutura está ilesa e não é reduzida às cinzas”[104]

O problema com essas analogias imortalistas criadas pela mente fértil de Tertuliano é que nenhuma delas é bíblica, e que as analogias bíblicas de fato são justamente aquelas que refutam o tormento eterno! Pedro, por exemplo, diz categoricamente que os ímpios serão reduzidos às cinzas (2Pe.2:6), e a Bíblia está repleta de citações que dizem claramente que eles serão consumidos (Ap.20:9; Sl.21:9; Is.5:24; 47:14; Sf.1:18). Portanto, a ideia de um fogo que não consome e nem reduz às cinzas é uma criação de Tertuliano em oposição à Bíblia, e não uma ideia extraída das Escrituras. Como os exemplos bíblicos são notavelmente aniquilacionistas, Tertuliano precisou exportar exemplos de fora da Bíblia em contraposição às analogias bíblicas. Eis aí o surgimento da doutrina do “tormento eterno”.

A prova mais clara de que a doutrina da imortalidade da alma foi uma criação de Tertuliano em vez de uma reafirmação de alguma doutrina ortodoxa genuinamente cristã é o fato de que ele adotava o traducianismo materialista, que ensina que as almas são transfundidas aos filhos pelos genitores mediante a semente material. Ele declarou:

“De que modo pois foi concebido o ser vivo? Tendo-se formado simultaneamente a substância tanto do corpo como da alma ou formando-se primeiro uma destas duas? Nós afirmamos que ambas estas substâncias são concebidas, feitas e acabadas no mesmo momento, como no mesmo momento são também feitas nascer, e dizemos também que não há algum momento no ato da concepção em que venha estabelecida uma ordem de precedência (...) A alma inseminada no útero junto com a carne recebe junto com ela também o sexo”[105]

Tertuliano foi o primeiro a propor a ideia de traducianismo materialista para a origem da alma e ele não foi seguido de perto nem pelos Pais da Igreja de data posterior. Agostinho cria no traducianismo espiritualista, que se diferenciava do materialista de Tertuliano no sentido de que, para ele, a alma do filho era derivada da alma do pai. Ele disse que “como um facho acende um outro sem que a chama comunicante nada perca da sua luz, assim a alma se transmite do pai para o filho”[106]. Isso mostra que a Igreja não tinha nenhuma doutrina sobre “origem da alma” (sob o prisma imortalista), e por essa razão Tertuliano teve que inventar uma. Se a Igreja da época já ensinasse a imortalidade da alma, Tertuliano teria apenas reafirmado essa crença comum, ao invés de ter que inventar algo tão absurdo que nem os católicos e nem os protestantes imortalistas a aceitam nos dias de hoje.

Tertuliano era tão notoriamente confuso e contraditório sobre a questão da alma que até Voltaire destacou:

“Que importa que Tertuliano, contradizendo-se, decidisse que a alma é corporal, figurada e simples ao mesmo tempo? Teremos mil testemunhos de nossa ignorância, porém nem um só oferece vislumbre da verdade”[107]

Claramente Tertuliano não estava de modo algum reafirmando alguma doutrina que tivesse sido transmitida a ele por professores cristãos em conformidade com o ensino dos apóstolos, mas sim inventando uma doutrina tirada da própria cabeça, para satisfazer sua personalidade autoritária e rigorosa ao extremo. Ironicamente, os mesmos imortalistas que seguem Tertuliano na questão da imortalidade da alma e tormento eterno e pensam que ele estava afirmando uma doutrina “apostólica” são também os mesmos que rejeitam a tese do traducianismo, demonstrando por si mesmos que Tertuliano não era nada confiável nesta questão. Se ele estivesse apenas ensinando uma “doutrina apostólica”, ele jamais teria ensinado o traducianismo. E se ele inventou o traducianismo tirado apenas e tão somente da sua própria cabeça, por que o mesmo não se aplica à própria imortalidade da alma, igualmente ensinada por ele?


Irineu de Lyon

Irineu (130-202) é outro Pai da Igreja referido pelos imortalistas que tentam ganhá-lo para o seu lado do ringue na batalha. De certo, há citações onde ele parece claramente favorecer a visão de um estado intermediário, razão pela qual eu não citei Irineu na lista de “Pais mortalistas” em meu artigo de 2012. No entanto, duas coisas importantes devem ser observadas aqui. Primeiro, que dos cinco livros de Irineu contra as heresias, apenas o Livro I foi preservado no original grego. Os outros quatro livros se perderam, e sobrevivem hoje apenas em cópias em latim escritas muitos séculos mais tarde, numa época em que a Igreja já adotava a imortalidade da alma. Le Roy Edwin aborda isso em sua obra:

“Dos seus cinco livros contra as heresias, infelizmente, possuímos apenas o primeiro no original grego. Possuímos os outros quatro através de uma tradução rude para o latim, feita quando a Igreja já tinha adotado a teoria agostiniana”[108]

Henry Constable também diz:

“Lamentavelmente, apenas o primeiro livro foi preservado no original grego. O resto está na tradição latina que só foi feita quando a igreja como um todo já tinha aceitado a teoria agostiniana, e por um tradutor que a defendia”[109]

Levando em consideração a possibilidade de que esses livros tenham sido sutilmente corrompidos intencionalmente por um copista imortalista, temos apenas o primeiro livro como fonte 100% segura dos ensinamentos de Irineu, sem nenhuma possibilidade da mais leve alteração. Coincidência ou não, nenhum dos textos citados pelo astronauta católico nos escritos de Irineu remete ao Livro I (exceto um único texto que fala de “fogo eterno”, o que já foi explicado milhares de vezes, em especial na parte sobre Inácio). Das citações que provam direta ou indiretamente que Irineu cria em um estado intermediário, todas elas provêm da cópia em latim escrita séculos mais tarde por um copista imortalista. Isso não significa necessariamente que o copista tenha falsificado, significa somente que não podemos ter 100% de segurança de que não tenha sido.

Em segundo lugar, mesmo nos livros em latim, a teologia aniquilacionista de Irineu ainda era bastante evidente, muito mais que a sua crença em um estado intermediário. Na maioria das vezes, o aniquilacionismo de Irineu ficava evidente pelas entrelinhas, em textos que mesmo um copista mal intencionado poderia deixar passar, especialmente se não tivesse muita capacidade de seguir um raciocínio lógico-filosófico. As evidências de que Irineu cria em imortalidade no futuro somente para os justos são extremamente numerosas e eliminam por completo qualquer chance de que ele cresse que os ímpios também ressuscitarão em corpos incorruptíveis e imortais para sofrerem eternamente. Por exemplo, ele disse:

“E, novamente, Ele fala assim a respeito da salvação do homem: ‘Ele lhe deu longura de dias para sempre e sempre’, indicando que é o Pai de todos os que confere continuidade para todo o sempre sobre aqueles que são salvos. Pois a vida não surge de nós, nem de nossa própria natureza, mas é concedida de acordo com a graça de Deus. E, portanto, aquele que deve preservar a vida a deu, e damos graças a Ele por tê-la dado, e esses devem receber também longura de dias para sempre e sempre. Mas aquele que a rejeitar, e provar por si mesmo que é ingrato para com seu Criador na medida em que foi criado, e não O reconhecer como aquele que concedeu o dom da vida, este priva-se da continuidade para todo o sempre. E, por essa razão, o Senhor decretou a quem se mostrar ingrato para com Ele: se você não for fiel no que é pouco, ele vai lhe dar aquilo que é grande? Isso indica que aqueles que se mostraram ingratos para com Ele nesta breve vida temporal não irão receber o comprimento de dias para sempre e sempre[110]

Como Constable corretamente assinala, “Irineu define explicitamente a vida eterna como sendo ‘continuidade para sempre’ e ‘comprimento de dias para sempre’, e a posse de uma existência perpétua ele diz explicitamente que ninguém senão os redimidos de Cristo obterão”[111]. Este parágrafo deixa perfeitamente claro que a existência eterna era um dom ou privilégio concedido por Deus exclusivamente aos justos, que terão uma “longura de dias para sempre e sempre”, uma duração perpétua de existência. Já os ímpios, por outro lado, “privam-se da continuidade para todo o sempre”. O aniquilacionismo é a única via que se adequada à visão de Irineu sobre o destino final dos ímpios.

Ele assevera também:

“Quando Deus dá a vida, e, portanto, a duração perpétua, se trata de dizer que as almas que anteriormente não existiam devem passar a existir para sempre, uma vez que Deus deseja que elas devam existir, e devem continuar em existência”[112]

Aqui, a “duração perpétua” dada àqueles que devem “existir para sempre” é vista como um privilégio exclusivo daqueles a quem “Deus dá a vida”. Mas Irineu disse dezenas de vezes que Deus não dá a vida aos ímpios, o que significa dizer que eles não terão uma “duração perpétua” ou “existência para sempre”[113]. É por isso que Irineu chama a incorruptibilidade de “dom[114], uma linguagem bastante inapropriada caso ele cresse que todo mundo teria incorruptibilidade na vida futura, seja justo, seja ímpio. Em outro lugar, ele diz claramente que “os que estão fora do Reino de Deus são deserdados do dom da incorruptibilidade”[115].

É óbvio que ele cria que somente os justos ressuscitarão com corpos incorruptíveis! Essa é a razão por que ele diz:

“Mas, sendo ignorante acerca de Emmanuel, o filho da virgem, eles são privados de seu dom, que é a vida eterna, e não recebem a incorruptibilidade, mas permanecem na carne mortal, sendo devedores à morte, não obtendo o antídoto de vida”[116]

A visão de Irineu sobre o futuro era bastante clara. Enquanto os justos terão o dom da imortalidade e incorruptibilidade, os ímpios serão privados deste dom, o que faz com que eles não recebam a incorruptibilidade e, consequentemente, permaneçam na carne mortal, não obtendo “antídoto de vida” para que possam existir para sempre. É lógico que alguém que ressuscita em “carne mortal” não pode ser eternamente refratário ao fogo (para isso, seria necessário ter um corpo incorruptível, a fim de que não fosse consumido pelo fogo, mas continuasse existindo para sempre em meio a ele). Essa concepção de que os ímpios serão mortais na vida futura fica ainda mais clara quando Irineu diz:

“Por nenhum outro meio é possível atingir a incorruptibilidade e a imortalidade, a menos que se tenha unido a incorruptibilidade e a imortalidade. Mas como poderíamos ter unidos a incorruptibilidade e a imortalidade, a menos que, em primeiro lugar, a incorruptibilidade e a imortalidade tenham se tornado o que nós também somos, de modo que o corruptível seja absorvido pela incorruptibilidade, e o mortal pela imortalidade, para recebermos a adoção de filhos?”[117]

Para ele, apenas os que recebem a adoção de filhos é que terão a imortalidade e a incorruptibilidade. Em outro lugar, Irineu diz explicitamente que “os incrédulos deste mundo não herdarão na era futura a incorruptibilidade”[118]. Quando criticou os gnósticos, ele disse claramente que “eles não receberão a imortalidade”[119]. Quando falava dos salvos, dizia que “Deus concede aos que o seguem e o servem a vida e a incorruptibilidade”[120], que “os que crêem nele serão incorruptíveis”[121], e que Deus “tem poder de conferir-lhes duração eterna”[122]. Para não deixar dúvidas, disse ainda que “Deus doará gratuitamente a existência eterna”[123] para aqueles que estão em sujeição a Ele, os quais “permanecerão na imortalidade”[124], pois “a amizade com Deus confere a imortalidade a quem a abraça”[125].

Contra aqueles que pensavam que os ímpios também existiriam para sempre, Irineu diz:

“Novamente, como pode ser imortal, quem em sua natureza mortal não obedece ao seu Criador?”[126]

A imortalidade, para Irineu, era uma honra dada apenas aos justos:

“Deus sempre preservou a liberdade, e o poder de se autogovernar no homem, enquanto que ao mesmo tempo Ele emitiu suas próprias exortações, a fim de que os que não lhe obedecem sejam julgados com justiça (condenados) porque não lhe obedeceram; e os que obedeceram e creram nele sejam honrados com a imortalidade[127]

“Mas quando eles forem convertidos e chegarem ao arrependimento, e deixarem o mal, terão o poder de se tornarem filhos de Deus, e de receber a herança da imortalidade que é dada por Ele”[128]

Para o bispo de Lyon, somente aqueles que comem o “Pão da imortalidade” podem ter a imortalidade:

“Acostumados a comer e beber a Palavra de Deus, possamos nos tornar capazes de também conter em nós mesmos o Pão da imortalidade, que é o Espírito do Pai”[129]

Como John Roller comenta, “significa, claramente, que os que não são ‘nutridos’ dessa maneira (ou seja, os que não recebem a Cristo como Salvador) não são capazes de ‘conter’ em si mesmos o ‘Pão” da imortalidade’”[130].

O contraste entre Irineu e os imortalistas famosos dos primeiros séculos (como Tertuliano e Agostinho) era patentemente notório. Enquanto Tertuliano e Agostinho diziam abertamente que os ímpios ressuscitarão em corpos incorruptíveis para queimarem por todo o sempre, Irineu falava de uma forma totalmente oposta.

Discorrendo sobre essa antítese tão evidente, Constable comentou:

“Eles [Tertuliano e Agostinho] têm o cuidado de nos dizer que os ímpios no inferno não morrerão, que a morte nunca chegará a eles, e que eles estão todos em corpo e alma incorruptíveis, eternos e imortais. Se Irineu concordava com eles, não podemos deixar de supor que ele usaria frases semelhantes quando falasse sobre a punição futura. Mas, em vez de fazer isso, ele usa termos indicativos de uma crença oposta”[131]

Não é nem um pouco difícil encontrarmos estes “indicativos de uma crença oposta” em Irineu. Ele costumava frequentemente associar o destino final dos ímpios com analogias claramente aniquilacionistas. Certa vez, ele disse que “aqueles que se separam da unidade da Igreja devem receber de Deus a mesma punição que Jeroboão recebeu”[132]. Irineu se referia ao texto bíblico de 1º Reis 14:10, que declara:

“Por isso, trarei desgraça à família de Jeroboão. Matarei de Jeroboão até o último indivíduo do sexo masculino em Israel, seja escravo ou livre. Queimarei a família de Jeroboão até o fim como quem queima esterco” (1º Reis 14:10)

A família de Jeroboão seria queimada, não “para sempre”, mas “até o fim”. Irineu compara também a destruição final dos ímpios pelo fogo com o destino de Nadabe e Abiú:

“Os hereges que trazem fogo estranho ao altar de Deus, pregando doutrinas estranhas, serão queimados pelo fogo do céu, como foram Nadabe e Abiú [Lv.10:1-2]”[133]

Mas Nadabe e Abiú não queimaram para sempre, mas, em vez disso, foram completamente exterminados pelo fogo que caiu do céu, como diz o texto bíblico em questão:

“Nadabe e Abiú, filhos de Arão, pegaram cada um o seu incensário, nos quais acenderam fogo, acrescentaram incenso, e trouxeram fogo profano perante o Senhor, sem que tivessem sido autorizados. Então saiu fogo da presença do Senhor e os consumiu. Morreram perante o Senhor” (Levítico 10:1-2)

Ao invés de Irineu comparar a sorte final dos ímpios com um “monte que pega fogo mas não se consome” e com outras analogias tipicamente imortalistas propostas por Tertuliano e Agostinho, ele fazia questão de trabalhar com exemplos nos quais quem era atingido pelo fogo era literalmente consumido, devorado, exterminado. Para Irineu, chegará o dia em que Cristo acabará com todo o mal:

“Cristo virá para acabar com todo o mal e para reconciliar todas as coisas, a fim de colocar um fim a todos os males”[134]

Se o pecado, a blasfêmia e o sofrimento podem ser considerados “maus”, então presume-se que Deus terá que eliminar os pecadores para que o pecado acabe. Só assim o mal poderia ser definitivamente extinto do universo. Por tudo isso, Froom declara Irineu como o “campeão do condicionalismo”[135]. A crença de Irineu era, nitidamente, aniquilacionista.

Em suma, embora os quatro livros de tradução duvidosa possam dar alguma noção de um estado intermediário, nem mesmo eles podem ser devidamente usados como base por um imortalista honesto, visto que eles refutam toda e qualquer noção de imortalidade e incorruptibilidade futura aos não-salvos.


Orígenes e Clemente de Alexandria

Os últimos dois Pais da Igreja entre os séculos II e III d.C mencionados pelos imortalistas como base para a doutrina da imortalidade da alma são Orígenes (185-253) e Clemente (150-215), os dois mestres alexandrinos. Pelo fato de eles terem sido contemporâneos, de pregarem no mesmo lugar e de crerem nas mesmas coisas, tratarei dos dois em conjunto.

Qualquer um que já tenha lido qualquer livro de introdução básica à história da Igreja sabe que havia duas escolas principais de pensamento na igreja primitiva: a de Antioquia e a de Alexandria. As duas eram conflitantes entre si, pois enquanto a escola de Antioquia interpretava a Bíblia literalmente, a de Alexandria a interpretava alegoricamente, fazendo algumas interpretações alucinantes que seriam absolutamente ridicularizadas por qualquer teólogo sério nos dias de hoje.

A origem da interpretação alegórica em Alexandria remete pelo menos aos tempos de Fílon, o judeu alexandrino crente nas Escrituras e ao mesmo tempo encantado com a filosofia grega-platônica, que exercia grande influência em Alexandria, um dos maiores polos culturais helenistas da época. Mas havia um problema: as divergências entre a filosofia de Platão e as Escrituras não eram poucas. Em linhas gerais, pouca coisa podia ser aceita de ambas sem corromper nenhuma das duas. Fílon queria ficar livre deste conflito. Ele era um judeu leal, mas com uma mente grega. Na tentativa de unir ambos os sistemas, aceitando o platonismo sem romper seu compromisso com a Escritura, ele passou a interpretar esta alegoricamente, especialmente nos pontos em que entrava em conflito com o pensamento grego.

O Dr. David S. Dockery afirmou:

“O propósito de Fílon era apologético no sentido de unir o judaísmo e a filosofia grega. Para ele, o judaísmo, se propriamente entendido, pouco diferia dos insights mais elevados da revelação grega. Deus revelou-se ao povo de Israel, a nação escolhida por Deus, mas essa revelação não era radicalmente diferente de sua revelação aos gregos”[136]

Em sua obra “Helenização e Recriação de Sentidos”, Miguel Spinelli observa:

“Filon era de opinião de que o texto bíblico, de um modo geral, carecia de ser interpretado historicamente (no sentido da crítica das fontes, da origem do texto e de seu contexto). Dado que as palavras tinham um sentido escondido, mas admirável e profundo, era necessário adentrar-se nessa profundeza, a fim de trazer à tona, além do sentido magnífico, todo o seu valor”[137]

A interpretação alegórica de Fílon acabou ganhando força e predominando em Alexandria, e serviu de influência ao pensamento de Orígenes e de Clemente, entre o final do século II e início do III. Rejeitando a interpretação literal, Clemente dizia:

“Sabendo que o Salvador não ensina nada de uma maneira meramente humana, não devemos ouvir seus pronunciamentos de forma carnal; mas com a devida investigação e inteligência, devemos buscar e aprender o significado oculto deles”[138]

Esse método alegórico de Clemente o levava a negar muitas verdades claras da Escritura e também a inventar certas lendas que ninguém racional deveria levar a sério. Por exemplo, ele afirmou que os discípulos foram pregar o evangelho no Hades!

“Os apóstolos, seguindo o Senhor, evangelizaram também aqueles que se encontravam no Hades; evidentemente era necessário que os melhores discípulos se tornassem imitadores do Mestre também lá”[139]

Clemente afirmava ainda que Jesus não sentia fome e nem tinha sede enquanto esteve na terra, e que ele só comeu e bebeu para “demonstrar sua natureza humana”, e não por “necessidade” (ou seja, Jesus fazia de conta que tinha sede e fome!). Ele disse:

'O 'gnóstico' é tal que sujeita-se só às paixões que são em função do mantimento do corpo, como fome, sede e semelhantes. Quanto ao Salvador, pelo contrário, seria ridículo pensar que o corpo, enquanto corpo, exigisse os necessários serviços para o mantimento; não é que Ele comesse por causa do corpo, que era mantido vivo por um santo poder, mas para que em quem o frequentava não se insinuassem falsos pensamentos acerca dele, como com efeito alguns depois creram que Ele se tivesse manifestado apenas em aparência. Na realidade Ele era absolutamente imune a paixões; nenhum movimento de paixão penetrava a sua pessoa, nem prazer nem dor”[140]

Se dizer que Jesus não tinha sentimento nenhum – nem de paixão e nem de dor – já parece suficientemente ridículo e fruto de seu alegorismo exacerbado, Orígenes o superou largamente, ao ponto de ensinar a preexistência das almas, sendo por isso considerado o mais antigo precursor da doutrina herética da reencarnação no núcleo cristão. Ele dizia:

“As criaturas razoáveis existiam desde o começo destes séculos, que nos não vemos e que são eternos. Houve aí a descida de uma condição superior a uma condição inferior, não somente entre as almas que mereceram esta mudança por suas ações, mas também entre as que, para servirem o mundo, deixaram as altas esferas pela nossa. O Sol, a Lua, as estrelas e os anjos servem o mundo, servem as almas cujos defeitos mentais as condenaram a encarnar-se em corpos grosseiros, e é por interesse das almas que tem necessidade de corpos densos, que o mundo foi criado”[141]

Para Orígenes, Deus ter aceitado Jacó e rejeitado a Esaú antes do nascimento significava que em uma vida anterior eles tinham feito algo para merecer esse tratamento desigual:

“Então, depois de ter examinado mais a fundo as Escrituras a respeito de Jacó e Esaù, achamos que não depende da injustiça de Deus que antes de ter nascido e de ter feito algum bem ou mal - isto é nesta vida -, tenha sido dito que o maior serviria o menor; e achamos que não é injusto que no ventre da mãe Jacó tenha suplantado seu irmão... se crermos que pelos méritos da vida anterior com razão ele tenha sido amado por Deus por merecer ser preferido ao irmão”[142]

Para piorar tudo de uma vez e quebrar as pernas de qualquer astronauta embusteiro e desonesto que queira usar Orígenes e Clemente em seu favor como a “prova” de imortalidade da alma na igreja primitiva, eles ensinavam o universalismo, que é a crença de que, no fim dos tempos, os ímpios e os demônios não serão aniquilados e nem queimarão eternamente, mas serão salvos! O Dr. Augustus Nicodemus escreveu que “Clemente de Alexandria e seu famoso discípulo Orígenes defendiam explicitamente o universalismo”[143] (Orígenes inclusive foi condenado pelo II Concílio de Constantinopla em função disso)[144].

E essa crença influenciou outros bispos cristãos pelo menos até a época de Gregório de Nissa (330-395), que disse:

“A meu parecer o apóstolo divino, tendo presente na sua profunda sabedoria estas três condições que se notam nas almas, quis aludir ao acordo no bem que um dia se estabelecerá entre todas as naturezas racionais (...) Com estas suas palavras ele alude ao fato que, uma vez destruído o mal depois de um longuíssimo período de tempo, não ficará mais do que o bem. Também estas naturezas, de fato, reconhecerão o senhorio de Cristo”[145]

Alguém ainda tem qualquer dúvida de que as crenças de Clemente e Orígenes vinham da imaginação fértil deles por culpa do método alegórico típico dos alexandrinos, ao invés de vir de ensinamentos orais transmitidos pelos apóstolos ou por uma exegese séria das Escrituras? Se qualquer indivíduo ainda é suficientemente desonesto para pensar que a imortalidade da alma pregada por Orígenes e Clemente de Alexandria era um “conteúdo preservado da doutrina pregada oralmente pelos apóstolos”, no mínimo deveria defender o mesmo sobre a preexistência das almas, o universalismo e as outras mazelas inventadas por um método alegórico que corrompe de forma grosseira e aberrante tudo o que a Bíblia claramente ensina. Será que o astronauta católico é tão fajuto assim? É o que veremos...


Os efeitos da primeira mentira (Gn.3:4)

Embora a teologia de Tertuliano (no ocidente) e de Clemente e Orígenes (no oriente) sobre a vida após a morte tenha sido claramente tirada da cabeça deles e de modo nenhum corresponda com qualquer tipo de ensino oral transmitido pelos apóstolos, essa distorção sobre o destino pós-morte acabou prevalecendo nos séculos seguintes, e não é difícil entender por que. Tertuliano era, em disparado, o teólogo mais influente e proeminente na igreja latina, que deixou enormes marcas na teologia da Igreja ocidental nos séculos seguintes.

Do outro lado, a influência que Tertuliano tinha no ocidente era a influência que Orígenes tinha no oriente. Eusébio dedicou praticamente um livro inteiro só para falar da vida e obra de Orígenes (o Livro VI da “História Eclesiástica”), de tão importante e influente que ele era na Igreja da época (tamanho destaque não foi dado a nenhum outro Pai da Igreja). Assim, se Tertuliano foi o motor propulsor para a imortalidade da alma no ocidente, Orígenes (contando com o apoio de seu antecessor Clemente) foi a força motriz por detrás do estabelecimento da doutrina da imortalidade da alma no oriente. Depois que o grande Agostinho, “príncipe dos Pais”, consolidou esta doutrina nos séculos IV e V, não havia mais discussão.

Até a época de Agostinho, no entanto, o registro histórico é que o aniquilacionismo continuou a ser ensinado em larga escala na Igreja. Além de Arnóbio de Sica (m. 330), que ademais de ser um mortalista ainda testemunhava que a imortalidade da alma era uma introdução recente na Igreja[146], as provas que temos vem ironicamente dos próprios imortalistas proeminentes nesta época. Enquanto malandros e embusteiros como Rafael Rodrigues querem a todo custo distorcer e manipular a História a seu favor, tentando passar a ideia de que a imortalidade da alma já era um dogma indiscutível e consenso na Igreja desde os primeiros séculos com exceção única a Arnóbio(!), os imortalistas honestos daquela época admitiam que muitos cristãos da época ainda eram aniquilacionistas.

Basílio de Cesareia (330-379), por exemplo, afirmou:

Grande parte dos homens afirma que haverá um fim à punição daqueles que foram punidos”[147]

Até o próprio Agostinho reconheceu isso, quando disse:

“Existem muitíssimos que apesar de não negarem as Santas Escrituras não acreditam em tormentos eternos”[148]

Então, enquanto embusteiros mentirosos como Rafael Rodrigues dizem que apenas um único indivíduo na face da terra era aniquilacionista (uma ovelha negra chamada Arnóbio), para os imortalistas honestos e de respeito da época era grande a quantidade de cristãos que ainda rejeitavam a crença imortalista num tormento eterno. A palavra “muitíssimos”, empregada por Agostinho, não nos deixa a menor sombra de dúvida de que Arnóbio definitivamente não estava sozinho!

O gráfico abaixo resume a crença dos cristãos primitivos do século I ao II sobre a questão da vida após a morte. Na parte de “condicionalistas” estão aqueles que criam que a alma não é incondicionalmente imortal, ou seja, que ela pode morrer, seja na morte corporal, seja na morte eterna (ou em ambas). Já na parte de “imortalistas” estão aqueles que criam que a alma não morre em circunstância nenhuma (nem na morte física e nem na morte eterna):

Escritor cristão
Condicionalista
Imortalista
Clemente de Roma (35-97)
X

Inácio (35-107)
X

Didaquê (60-90)
X

Policarpo (69-155)
X

Papias (70-155)
X

Hermas (70-155)
X

Aristides (75-134)
X

Barnabé (80-150)
X

Justino (100-165)
X

Taciano (120-180)
X

Melito (120-180)
X

Teófilo (120-186)
X

Polícrates (125-196)
X

Irineu (130-202)
X

Atenágoras (133-190)

X
Mathetes (150-220)
X

Clemente Alexandrino (150-257)

X
Tertuliano (160-220)

X
Orígenes (185-253)

X
*Nota: Algumas destas datas são estimadas, e outras são aproximadas.

Três coisas merecem ser destacadas. Primeiro, que os Pais condicionalistas eram justamente os que viveram mais perto dos apóstolos, ou seja, os que receberam a doutrina direto deles, o que praticamente elimina as chances de terem inventado uma doutrina própria, ou distorcido uma. Em contraste, os primeiros Pais imortalistas são todos de data posterior.

Segundo, lamentavelmente, os mais famosos foram justamente os que ensinavam a imortalidade da alma (Tertuliano e Orígenes), e influenciaram os cristãos das gerações seguintes mais do que todos os outros da geração anterior.

Terceiro, e o mais importante de tudo: quando uma falsa doutrina entra na Igreja, ela deixa marcas. A imortalidade da alma é o caso mais óbvio. Se você procurar em qualquer site de apologética católica, verá que eles não possuem absolutamente referência nenhuma a intercessão dos santos falecidos nos Pais do século I até meados do século II. Eles vão citar apenas os Pais de data posterior, começando por (que rufem os tambores) Tertuliano e Orígenes (que surpresa). Sim, bem exatamente os mesmos que introduziram a lenda da imortalidade da alma no seio da Igreja cristã. Coincidência? Para os crédulos, sim. Muita.

Depois que a primeira mentira (Gn.3:4) foi introduzida na Igreja, Maria começou a ganhar um destaque cada vez maior. Os primeiros Pais praticamente a ignoravam, assim como as epístolas apostólicas, onde ela sequer é citada em parte alguma de Romanos ao Apocalipse. Inácio escreveu sete cartas. Em cinco, Maria nem sequer é mencionada. Ela é citada três vezes na carta aos efésios e uma vez na carta aos tralianos, mas somente de passagem, em contextos onde o foco estava em Jesus, e era apenas dito que ele nasceu de uma virgem chamada Maria. Nenhum dogma mariano é mencionado.

Dos outros Pais da Igreja, o resultado é esse:

• Aristides não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Policarpo não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Clemente de Roma não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Hermas não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Taciano não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Papias não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Teófilo não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Barnabé não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• A Didaquê não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Polícrates não cita Maria nominalmente nenhuma vez.

• Justino não cita Maria nominalmente nenhuma vez em sua 1ª Apologia, nenhuma vez em sua 2ª Apologia, nenhuma vez em seu Oratório aos Gregos, nenhuma vez em sua obra sobre o Governo de Deus, nenhuma vez em sua obra sobre a Ressurreição, nenhuma vez em seus fragmentos, nenhuma vez em seu Discurso aos Gregos, e nove vezes em seu Diálogo com Trifão, em contextos onde contava a Trifão a história do nascimento de Jesus ou onde dizia que Jesus nasceu de uma virgem, sem citar absolutamente nenhum dogma mariano papista.

Compare isso tudo com os pedantes católicos dos dias de hoje, que citam Maria até na introdução de uma simples carta (“Salve Maria”), independentemente do teor ou conteúdo da mesma!

Então a imortalidade da alma começa a ser ensinada por Tertuliano e Orígenes, e desde então temos:

• O imortalista Hipólito ensinando a virgindade perpétua de Maria.

• O imortalista Orígenes ensinando a virgindade perpétua de Maria.

• O imortalista Cirilo de Jerusalém ensinando a virgindade perpétua de Maria.

• O imortalista Basílio ensinando a virgindade perpétua de Maria.

• O imortalista Epifânio ensinando a virgindade perpétua de Maria.

• O imortalista João Damasceno ensinando a assunção de Maria.

• O imortalista Gregório de Tours ensinando a assunção de Maria.

• O imortalista Teodoreto ensinando a imaculada conceição de Maria.

• O imortalista Hipólito ensinando a imaculada conceição de Maria.

• O imortalista Agostinho ensinando a impecabilidade de Maria.

• O imortalista Ambrósio ensinando a impecabilidade de Maria.

• Vários Pais imortalistas ensinando a intercessão de Maria no Céu.

É preciso ser cego para não perceber que a introdução da imortalidade da alma resultou em especulações em torno de Maria, a qual, por sua vez, passou a ser elevada a um patamar que jamais é atribuído a ela nas Escrituras ou nos primeiros Pais. A partir do momento em que você crê que a alma humana é imortal, você passa a admitir que os santos já estão no Céu. A partir do momento em que você passa a admitir que os santos já estão no Céu, você é tentado a pensar que eles podem estar intercedendo pelos vivos neste momento. E a partir do momento em que você passa a pensar que há intercessão dos santos mortos, você passa a dar um destaque especial aos “santões”, aqueles mais de cima, que talvez possam fazer mais do que os outros.

Assim, você cria um panteão de santos classificados de A a Z, divididos em nível de poder e atribuições especiais, além de tudo mais que a imaginação fértil do homem seja capaz de criar. Esses “santões”, por sua vez, passam a ser alvo de muito mais atenção e foco do que eram antes, quando se pensava que eles estavam sem vida e que não poderiam fazer nada por nós. Com o tempo, a intercessão única de Cristo no Céu passa a ser dividida com um panteão de “santos” e “santas”. Com o tempo, a pessoa está pensando se vai decidir orar a Deus ou se vai rezar alguma coisa repetida mil vezes a uma estátua de gesso. Com o tempo, aquele evangelho essencialmente Cristocêntrico vai se transformando aos poucos em um “Cristianismo” mariocêntrico, mariólatra e idólatra. Com o tempo, estamos colocando o homem no lugar de Deus, e a criatura no lugar do Criador. Com o tempo, já não há mais diferença prática entre o seu “Cristianismo” e qualquer culto pagão.

Tudo começa de um ponto de partida, de uma essência, de um fundamento. O famoso historiador J. N. D. Kelly disse:

“Um fenômeno de grande significação no período patrístico foi o surgimento e gradual desenvolvimento da veneração aos santos, mais particularmente à bem-aventurada virgem Maria (...) Logo após vinha o culto aos mártires, os heróis da fé que os primeiros cristãos afirmavam já estarem na presença de Deus e gloriosos em sua visão. Em primeiro lugar tomou forma de uma preservação das relíquias e da celebração anual de seu nascimento. A partir daí foi um pequeno passo, pois já estavam participando com Cristo da glória celeste, para que se buscassem suas orações, e já no terceiro século se acumulam as evidências da crença no poder da intercessão dos santos”[149]

Tudo é um processo gradual, mas previsível. Primeiro há um “surgimento” de uma doutrina jamais ensinada por Cristo ou por um apóstolo. Depois desta introdução, há um “gradual desenvolvimento” desta doutrina, que, tal como um vírus, vai se espalhando até tomar dimensões maiores, se nada for feito a respeito. Então basta “um pequeno passo” para que se acumule “evidências” de uma doutrina herética e terrivelmente antibíblica. Para J. N. D. Kelly, isso se deu já no terceiro século. Coincidência ou não, exatamente no período em que a Igreja de forma geral já havia aceitado a introdução da doutrina da imortalidade da alma.

A partir da crença na existência de uma alma imortal, os teólogos alegóricos, com uma mente fértil e imaginação apurada, passam a inventar até mesmo que existem mais lugares que apenas o Céu e o inferno. Clemente de Alexandria (quem mais seria?) é o primeiro a estabelecer as bases daquilo que mais tarde seria conhecido como “purgatório”, cujas sementes foram lançadas quase que simultaneamente à época em que a imortalidade da alma começava a ser introduzida. Não demoraria muito para surgir um “limbo”, uma “reencarnação”, uma “consulta aos mortos” e tudo mais que é proveniente da mentira da serpente, de que “certamente não morrerás” (Gn.3:4).

Tudo tem uma base, uma estrutura, um fundamento, que, se derrubado, desmantela todas as colunas de uma vez. Idolatria, culto aos mortos, intercessão dos “santos”, reencarnação, consulta aos mortos, limbo, purgatório, evocação de espíritos, adoração a imagens, invocação de defuntos... tudo isso são colunas. Atacá-las é inútil. Podemos derrubar todas as colunas de uma só vez, que o fundamento continuará ali, e muitas outras colunas surgirão no lugar. Essas colunas são apenas sub-produtos, não são mais do que efeitos do vírus, que produz uma fé engessada. O que precisa ser atacado é o próprio produto, é o próprio vírus, é o próprio fundamento. Enquanto o fundamento permanecer firme, doutrinas estúpidas sempre irão surgir em cima dele.

A igreja primitiva era perfeitamente pura e Cristocêntrica antes de surgirem os primeiros teólogos imortalistas, e foi totalmente bagunçada e colocada em desordem depois disso. Tire a imortalidade da alma, e você não terá almas indo para o purgatório. Tire a imortalidade da alma, e você não terá espíritos para serem consultados. Tire a imortalidade da alma, e não haverá sentido em se prostrar diante de uma imagem de alguém que não pode fazer absolutamente nada por você. Tire a imortalidade da alma, e não haverá mais intercessão de “santos” ou invocação de mortos. Tire a imortalidade da alma, e não haverá fantasminhas para reencarnar em outros corpos. Tire a imortalidade da alma, e o que sobrará será um evangelho puro, Cristocêntrico, focado em Cristo, por Cristo e para Cristo, onde o foco não está naquele que morreu, mas Naquele que venceu a morte e vive para todo o sempre.


Considerações Finais


O leitor que teve paciência para acompanhar toda a série de refutações deve ter percebido que eu só refutei os que o astronauta católico havia tentado contra-argumentar em cima, ou seja, sobre Inácio, Policarpo, Justino, Teófilo, Taciano e Irineu, deixando de fora os outros Pais mortalistas que ele não argumentou em cima (e que por isso não precisei elaborar uma refutação). Pois bem. Estou escrevendo um livro onde irei colocar lá todas essas refutações, além de mais várias argumentações em torno dos Pais que não foram citados aqui. Neste livro terá um capítulo sobre Hermas, outro sobre Barnabé, outro sobre a Didaquê, e assim por diante. Os capítulos que tratam sobre os que já foram abordados nesta refutação serão aumentados, com mais textos e mais refutações. Essa ideia só foi possível graças ao astronauta católico ter me provocado e consequentemente me incentivado a reler todos aqueles Pais da Igreja outra vez, para lhe dar um belo tapa na cara.

Meu artigo original sobre os Pais da Igreja e a imortalidade da alma saiu em 2012, e a “refutação” do pobre astronauta saiu apenas três anos depois, o que me levou a escrever um livro inteiro sobre o tema, ampliando imensamente os argumentos do primeiro artigo. Torço muito para que o astronauta tente “refutar” novamente, mesmo que leve mais anos copiando citações de internet, para que assim eu possa escrever não mais um livro, mas uma Enciclopédia sobre o tema. Ao astronauta que me proporcionou esta oportunidade, só tenho a lhe agradecer. Te devo uma.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[1] Citado por Döllinger, La Réforme, III, 138.
[2] Didaquê, 16:6-8.
[3] Fragmentos de Papias, 12.
[4] Diálogo com Trifão, c. 80.
[5] Martinho Lutero, Assertio Omnium Articulorum M. Lutheri per Bullam Leonis X. Novissimam Damnatorum.
[6] Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, A Imortalidade da Alma, pp. 564, 566.
[7] Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional, 1960, vol. 2, Morte, p. 812.
[8] BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
[10] Enciclopédia Judaica, 1941, Alma.
[11] DOCKERY, David S. Hermenêutica Contemporânea à luz da igreja primitiva. Editora Vida: 2001, p. 76.
[12] ibid.
[13] Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, A Imortalidade da Alma, pp. 564, 566.
[14] Enciclopédia Judaica, 1941, Alma.
[15] Contra os Pagãos Livro II, 14-15.
[16] Lutero, em Carta a Nicholas von Amsdorf.
[17] Lutero, “Notes on Ecclesiastes” [“Notas sobre Eclesiastes”], em Luther’s Works [Obras de Lutero], traduzido e editado por J. Pelikan e editado por H. T. Lehmann (St. Louis, MO: Concórdia, 1972), 15:150.
[18] An Exposition of Solomon’s Book, Called Ecclesiastes or the Preacher, 1573, fl. 151 v.
[20] An Answer to Sir Thomas More’s Dialogue, liv. 4, cap. 4, págs. 180 e 181.
[22] Treatise of Christian Doctrine, vol. 1, cap. 13.
[23] Inácio aos Tralianos, XIII.
[24] Carta de Inácio a Policarpo, 7:1.
[25] Inácio aos Efésios, 11:2.
[26] Carta aos Efésios, 16-17.
[27] Inácio aos Efésios, 17:1.
[28] Inácio aos Efésios, 20:2.
[29] Inácio aos Magnésios, 10:1.
[30] Inácio aos Tralianos, 11:1.
[31] Diálogo Com Trifão, c. 117.
[32] 2ª Apologia 2:2.
[33] 2ª Apologia 9:1.
[34] 2ª Apologia 6:4.
[35] 2ª Apologia 7:4-5.
[36] 2ª Apologia 5:4.
[37] Diálogo com Trifão, c. 100.
[38] 2ª Apologia 6:1-2.
[39] Diálogo com Trifão, 5:2.
[40] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, vol. 1, p. 828.
[41] Other Fragments From Lost Writings of Justin, No. 11, in ANF, vol. 1, p. 301;
[42] Kitto, Cyclopedia of Biblical Literature, art., “Soul”.
[43] Richard Rothe, Dogmatik, vol. 3, p. 158.
[44] K. R. Hagenbach, Compendium of the History o f Doctrines, vol. 1, pp. 162-164, art. “Immortality”.
[45] Hosea Ballou, 2d, Ancient History of Universalism, p. 58.
[46] Beecher, op. cit., pp. 211, 212. C. F. Hudson (Debt and Grace, p. 315) lista Grotius, Huet, Rössler, Du Pin, Doederlein, Münscher, Munter, Daniel, Hase, Starck, Kern, Otto, Ritter, J. Pye Smith, Bloomfield e Gieseler confirmando o mesmo.
[47] John C. L. Gieseler, A Textbook of Church History, sec. 45.
[48] Alger, The Destiny of the Soul, p. 195.
[49] Constable, Duration and Nature of Future Punishment, p . 178.
[50] Diálogo com Trifão, c. 113.
[51] Diálogo com Trifão, c. 139.
[52] Tratado sobre a Ressurreição, 1.
[53] Dustin Smith, Justin Martyr, p. 9.
[54] De acordo com a Concordância de Strong, 2917.
[55] An Early Christian Philosopher: Justin Martyr’s Dialogue with Trypho, Chapters One to Nine, (“Philosophia patrum,” vol. 1); Leiden: E. J. Brill, 1971.
[56] Policarpo aos Filipenses, 9:1.
[57] Carta de Inácio a Policarpo, 7:1.
[58] Inácio a Policarpo, c. 6.
[59] Policarpo aos Filipenses, 2:1-3.
[60] Policarpo aos Filipenses, 5:2.
[61] Policarpo aos Filipenses, 7:1.
[62] O Martírio de Policarpo, 14:2.
[63] De acordo com o léxico da Concordância de Strong, 861.
[65] Teófilo a Autólico, Livro II, c. 37.
[66] Diógenes Laércio, VII, 156 (von Arnim, S.V.F., II, fr. 774).
[67] Cícero, Tusc. disp., I, 31, 77 (von Arnim, S.V.F., I, fr. 822).
[68] Diógenes Laércio, VII, 156 (von Arnim, S.V.F., I, fr. 522).
[69] Teófilo a Autólico, Livro II, c. 38.
[70] Teófilo a Autólico, Livro I, c. 7.
[71] Teófilo a Autólico, Livro II, c. 24.
[72] Teófilo a Autólico, Livro II, c. 27.
[73] Teófilo a Autólico, Livro II, c. 25-26.
[74] Teófilo a Autólico, Livro II, c. 38.
[75] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, Vol. 1, p. 835.
[77] História Eclesiástica, Livro III, 26:4.
[78] Discurso contra os Gregos, c. 6.
[79] Discurso contra os Gregos, c. 7.
[80] Discurso contra os Gregos, c. 11.
[81] Discurso contra os Gregos, c. 15.
[82] Discurso contra os Gregos, c. 15.
[83] Discurso contra os Gregos, c. 16.
[84] Discurso contra os Gregos, c. 25.
[85] Discurso contra os Gregos, c. 20.
[86] Discurso contra os Gregos, c. 16.
[87] Discurso contra os Gregos, c. 17.
[88] Discurso contra os Gregos, c. 13.
[89] Discurso contra os Gregos, c. 14.
[90] Discurso contra os Gregos, c. 25.
[91] Discurso contra os Gregos, c. 7.
[92] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, Vol. 1.
[93] Henry Constable, The Duration and Nature of Future Punishment. Disponível em: https://davidlarkin.files.wordpress.com/2012/05/henry-constable-1868-duration-and-nature-of-future-punishment.pdf
[94] Petição em Favor dos Cristãos, 31.
[95] Petição em Favor dos Cristãos, 36.
[96] Carta a Diogneto, 6:1-9.
[97] Carta a Diogneto, 10:7.
[98] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, Vol. 1.
[101] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, Vol. 1.
[102] ibid.
[103] ibid.
[104] Henry Constable, The Duration and Nature of Future Punishment. Disponível em: https://davidlarkin.files.wordpress.com/2012/05/henry-constable-1868-duration-and-nature-of-future-punishment.pdf
[105] Tertuliano, De Anima.
[106] Epístola 190, 15; citado na Enciclopédia Católica, vol. 12, 41.
[107] Voltaire, Sobre a Alma, c. 1.
[108] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, Vol. 1.
[109] Henry Constable, The Duration and Nature of Future Punishment. Disponível em: https://davidlarkin.files.wordpress.com/2012/05/henry-constable-1868-duration-and-nature-of-future-punishment.pdf
[110] Contra as Heresias, Livro II, 34:3.
[111] Henry Constable, The Duration and Nature of Future Punishment. Disponível em: https://davidlarkin.files.wordpress.com/2012/05/henry-constable-1868-duration-and-nature-of-future-punishment.pdf
[112] Contra as Heresias, Livro II, 34:4.
[113] Veja também “Livro IV, 20:6”.
[114] Contra as Heresias, Livro II, 20:3.
[115] Contra as Heresias, Livro IV, 8:1.
[116] Contra as Heresias, Livro III, 19:1.
[117] Contra as Heresias, Livro III, 19:1.
[118] Contra as Heresias, Livro III, 7:1.
[119] Contra as Heresias, Livro IV, 37:6.
[120] Contra as Heresias, Livro IV, 14:1.
[121] Contra as Heresias, Livro IV, 24:2.
[122] Contra as Heresias, Livro V, 5:2.
[123] Contra as Heresias, Livro IV, 38:3.
[124] Contra as Heresias, Livro IV, 38:3.
[125] Contra as Heresias, Livro IV, 13:4.
[126] Contra as Heresias, Livro IV, 39:2.
[127] Contra as Heresias, Livro IV, 15:2.
[128] Contra as Heresias, Livro IV, 41:3.
[129] Contra as Heresias, Livro IV, 38:1.
[131] Henry Constable, The Duration and Nature of Future Punishment. Disponível em: https://davidlarkin.files.wordpress.com/2012/05/henry-constable-1868-duration-and-nature-of-future-punishment.pdf
[132] Contra as Heresias, Livro IV, 26:2.
[133] Contra as Heresias, Livro IV, 26:2.
[134] Irineu, Fragmentos, No. 39.
[135] Le Roy Edwin Froom, The Conditionalist faith of Our fathers, Vol. 1.
[136] DOCKERY, David S. Hermenêutica Contemporânea à luz da igreja primitiva. Editora Vida: 2001, p. 76
[137] SPINELLI, M. Helenização e recriação de sentidos. Porto Alegre: Edipucrs, 2002, p. 84.
[138] Clemente de Alexandria, On the Salvation of the Rich Man 5, em ROBERTS, A; DONALDSON, J.  The Ante-Nicene Fathers: Translations of the Writings of the Fathers down to a.D. 325, Grand Rapids: 1981, vol. II, p. 592.
[139] Stromata, 6:6.
[140] Stromata, 6:9.
[141] Orígenes, De Principiis, Livro III, c. 5.
[142] De Principiis, Livro II, 9:7.
[144] Cânon IX.
[145] Da Alma e da Ressurreição.
[146] Contra os Pagãos Livro II, 14-15.
[147] De Asceticis.
[148] Enchiria, ad Laurent. c. 29.
[149] J.N.D. Kelly, Early Christian Doctrines, revised edition (San Francisco: Harper, c. 1979), p. 490.

11 comentários:

  1. *O* rs, Lucas ninguém refuta você! Você fez mais um belo trabalho! :D

    Eu li que os judeus criam na pré-existência das almas, baseado em João 9:2, Que é diferente da doutrina platônica de reencarnação, Mas os espíritas adoram usar essa passagem para "provar" a doutrina estapafúrdia deles...

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    1. Oi Lilian. Há discussões em torno deste texto de João 9:2. É possível que os discípulos perguntassem a Jesus sobre a crença comum no mundo pagão (da pré-existência das almas), de forma hipotética e não como afirmando algo, mas alguns estudiosos comentam que na tradição farisaica o bebê que chutava a barriga da mãe era punido ao nascer. Eu ainda não pude confirmar com certeza se esta tradição judaica é autêntica, mas é possível que os fariseus cressem assim mesmo, e neste caso a pergunta não era tanto sobre a pré-existência mas sim se aquele homem havia sido punido por algo que tivesse feito enquanto ainda estava no ventre da mãe. De qualquer forma, a resposta categórica de Jesus FULMINA com qualquer possibilidade de ter sido por algo antes de nascer. Ele responde:

      “Seus discípulos lhe perguntaram: ‘Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?’ Disse Jesus: ‘Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele” (João 9:2-3)

      Aqui vemos o mais claro contraste entre a teologia de Jesus e a teologia reencarnacionista. Enquanto para estes a culpa de alguém que já nasceu defeituoso recai sobre a própria pessoa deficiente, a quem se julga antecipadamente ter sido má em sua “vida passada”, para Jesus os que sofrem não são os culpados pelo seu próprio sofrimento. Assim sendo, os milhares que nasceram com alguma imperfeição não são alvos de julgamentos pré-concebidos ou acusações gratuitas, mas de amor e compaixão.

      Deus lhe abençoe!

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    2. Lucas o que Calvino defendeia subre este assunto?

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    3. Calvino era imortalista, mas não defendia a pré-existência das almas.

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  2. Aqui: http://falhasespiritismo.org/tag/pre-existencia/

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  3. Olá Lucas,
    Cara, eu estou vivendo um processo de reaprendizado em relação a todas as doutrinas que aprendi, e isso ocorreu especialmente pela mão de Deus e não por mérito meu. Tenho algumas perguntas que gostaria de te fazer sobre esse assunto, mas ficaria muito feliz se pudesse fazê-las de forma particular. Caso aceite, meu e-mail é herbert_wr@hotmail.com, entre em contato comigo, por favor, ficarei muito agradecido.
    Grande abraço,
    Na Paz de nosso Senhor

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    Respostas
    1. Olá, Herbert, a paz de Cristo. Notifico que já enviei o e-mail. Caso ele não tenha chegado, me notifique por aqui. Deus lhe abençoe!

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  4. Gostei muito sobre a Imortalidade da Alma, mas acreditar ou não interfere na salvação ou na vivência cristã?

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    Respostas
    1. Não no sentido de que crer na imortalidade da alma fará perder a salvação (óbvio que não), mas que pode interferir neste ponto e na vivência cristã, pode sim. Existem inúmeros casos de pessoas que abandonaram a fé por não conseguir acreditar em um deus Drácula que atormenta os pecadores por toda a eternidade em um lago de fogo literal, e outros tantos se mantém na fé apenas por medo de ir para um lugar desses, e não por amar a Deus ou por desejar estar com Ele.

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  5. Parabéns Lucas.Excelente trabalho. O evangelho precisa de defensores contra o fermento dos fariseus. É muito claro que a salvação consiste na ressureição. Para que não pereçamos, Deus enviou o salvador, o qual disse de si mesmo: 'eu sou a ressureição e a vida' Jo 11.25. Que Deus te dê força para continuar nessa grande batalha pela verdade do evangelho.

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