20 de maio de 2014

O que significa "Igreja"? - Parte 1


A primeira coisa que devemos fazer antes de entrarmos no debate em si sobre a Sola Scriptura é destruirmos as bases pelas quais o católico romano se apoia, na distorção de um termo muito empregado na Bíblia, que é a “Igreja” (no grego, ekklesia). O truque utilizado por eles consiste em usar o termo “Igreja” significando a priori a instituição romana deles. Então, quando eles dizem que “a interpretação da Bíblia está sujeita à Igreja” ou que “a Igreja definiu o cânon” eles estão nada a mais dizendo senão que a Igreja Romana definiu um cânon, que a Igreja Romana é a coluna e sustentáculo da verdade, que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja Romana, e assim por diante.

Esta interpretação do termo é assumida por eles a priori, ou seja, está implicitamente incluída em todas as menções que eles fazem ao termo. Assim sendo, ao invés de eles provarem biblicamente ou mesmo historicamente que por “Igreja” os antigos entendiam exatamente aquilo que hoje é conhecido como “Igreja Católica Romana”, eles formulam seus argumentos como se essa definição já fosse certa, porque na concepção deles é certa, e eles seguem essa concepção ao invés de provar essa concepção.

De fato, se por “Igreja” se entende a Igreja de Roma em particular, nada precisaria ser provado – a própria premissa já bastaria. Se Cristo de fato fundou a Igreja Romana e se é essa Igreja Romana a coluna da verdade, não há nenhuma razão para um apologista romano discutir qualquer outro argumento, nem para qualquer evangélico contestar qualquer coisa. Tomado a priori, se a Igreja é uma instituição e se essa instituição é a Romana, eles estariam certos em seus conceitos. Mas essa afirmação solta, que parte de duas premissas, não prova nenhuma delas.

A primeira premissa é a de que: (a) a Igreja é uma instituição. A segunda premissa é a de que: (b) essa instituição é a Romana. Perceba que somente provando a validade das duas premissas combinadas é que um católico romano poderia satisfatoriamente enfiar goela abaixo o seu conceito pessoal de Igreja na formulação de seus argumentos. Sem provar as premissas, qualquer argumento que use o termo no contexto dos versículos bíblicos ou nos Pais da Igreja seria completamente inútil, pois os autores não estariam se referindo à mesma coisa que os romanistas entendem hoje pelo termo, como fazendo uma menção à sua própria instituição religiosa.

Comecemos, então, mostrando o que a Bíblia Sagrada tem a nos dizer a respeito.


A Igreja é uma instituição?

A primeira premissa implícita no entendimento deles sobre o termo “Igreja” é que a Igreja é uma instituição religiosa. Este é o ponto de partida para a segunda premissa, de que essa instituição é a Romana. Mas será mesmo que a Bíblia apoia a ideia de que a Igreja é uma instituição? À luz da Bíblia, a Igreja não apenas não é uma instituição, como é claramente identificada como sendo os próprios cristãos. A mundialmente reconhecida Concordância de Strong, que é o maior e mais respeitado léxico do grego já conhecido, dá os seguintes significados para Igreja (ekklesia):

1577 εκκλησια ekklesia
de um composto de 1537 e um derivado de 2564; TDNT - 3:501,394; n f
1) reunião de cidadãos chamados para fora de seus lares para algum lugar público, assembleia
1a) assembleia do povo reunida em lugar público com o fim de deliberar;
1b) assembleia dos israelitas;
1c) qualquer ajuntamento ou multidão de homens reunidos por acaso, tumultuosamente;
1d) num sentido cristão;
1d1)assembleia de Cristãos reunidos para adorar em um encontro religioso
1d2) grupo de cristãos, ou daqueles que, na esperança da salvação eterna em Jesus Cristo, observam seus próprios ritos religiosos, mantêm seus próprios encontros espirituais, e administram seus próprios assuntos, de acordo com os regulamentos prescritos para o corpo por amor à ordem;
1d3) aqueles que em qualquer lugar, numa cidade, vila, etc, constituem um grupo e estão unidos em um só corpo;
1d4)totalidade dos cristãos dispersos por todo o mundo.

Como vemos, simplesmente não existe um sentido institucional para ekklesia, que é a palavra sempre utilizada na Bíblia quando se refere à Igreja. O próprio sentido etimológico já resolve a questão. Klesia significa “chamados”, e ek significa “para fora”[1]. Juntos, ekklesia significa “chamados para fora”, isto é, os que foram chamados para fora do sistema de valores que o mundo ensina. Assim sendo, a própria etimologia da palavra é suficiente para nos mostrar que a palavra não tem ligação primária com instituição, mas com pessoas.

Paulo confirma este conceito, ao dizer:

“Saúdem os irmãos de Laodiceia, bem como Ninfa e a igreja que se reúne em sua casa”(Colossenses 4:15)

Como pode uma instituição religiosa se reunir dentro da casa de uma pessoa? É a instituição romana que se reúne na casa de Ninfa? Evidentemente, Paulo entendia que “Igreja” nada mais era senão os próprios cristãos. São os cristãos (Igreja) que se reúnem na casa de Ninfa. A casa dela, embora fosse um “templo”[2], não era a própria Igreja, nem era parte de uma instituição maior. A Igreja, de fato, era o que se reunia dentro daquela casa – os crentes fieis.

Sempre quando Paulo falava da Igreja, ele nunca fazia acepção a um templo ou a alguma instituição onde os cristãos se reuniam, mas sim aos próprios cristãos. Foi assim que ele também se referiu à Igreja que se reunia na casa de Árquipo e à Igreja que se reunia na casa de Áquila:

“À irmã Áfia, a Arquipo, nosso companheiro de lutas, e à igreja que se reúne com você em sua casa (Filemom 1:2)

“As igrejas da província da Ásia enviam-lhes saudações. Áqüila e Priscila os saúdam afetuosamente no Senhor, e também a igreja que se reúne na casa deles (1ª Coríntios 16:19)

“Saúdem Priscila e Áqüila, meus colaboradores em Cristo Jesus. Arriscaram a vida por mim. Sou grato a eles; não apenas eu, mas todas as igrejas dos gentios. Saúdem também a igreja que se reúne na casa deles(Romanos 16:3-5)

Quando Paulo dizia para saudarem a Igreja, ele não estava enviando saudações a uma instituição romana, mas aos próprios crentes, que se reuniam nas casas. Eles eram a Igreja. A Igreja, biblicamente, é o Corpo de Cristo:

“E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” (Efésios 1:22,23)

“Pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador” (Efésios 5:23)

“Pois o que eu sofro no meu corpo pela Igreja, que é o Corpo de Cristo, está ajudando a completar os sofrimentos de Cristo em favor dela”(Colossenses 1:24)

Paulo é claro ao afirmar que a Igreja é o Corpo de Cristo. E ele nunca disse que o Corpo de Cristo é uma instituição religiosa. O que ele sempre afirmou em todas as suas cartas é que o Corpo de Cristo são os próprios cristãos, os que adoram a Deus em espírito e em verdade:

“Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular”(1ª Coríntios 12:27)

Cada cristão é individualmente um membro do Corpo, e os cristãos como um todo formam aquilo que conhecemos como Igreja. A Igreja, portanto, em uma concepção bíblica em nada tem a ver com uma instituição. Paulo se posicionou contrário à tese de que o templo fosse a casa de Deus, porque a casa de Deus, que é a Sua Igreja, somos nós:

“Mas o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens” (Atos 7:48)

O templo em que Deus habita não é uma instituição religiosa, mas nós mesmos:

“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?” (1ª Coríntios 6:19)

“Certamente vocês sabem que são o templo de Deus e que o Espírito Santo de Deus vive em vocês” (1ª Coríntios 3:16)

“Nele vocês também estão sendo juntamente edificados, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito”(Efésios 2:22)

O templo de Deus, que na antiga aliança era o templo de Jerusalém, na nova aliança somos nós mesmos, onde Ele habita por meio do Seu Espírito, o Espírito Santo. Não há uma transferência de Jerusalém para Roma na questão da ekklesia, mas de Jerusalém para o coração de cada cristão regenerado.

Era mais ou menos o conceito institucional de Igreja que a mulher samaritana tinha em mente quando conversou com Jesus. Ela disse:

“Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Jesus declarou: Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém” (João 4:20-21)

Havia algo de “institucional” presente no pensamento daquela mulher. Para ela, o “lugar onde se deve adorar” era Samaria. Para os judeus, era no Templo de Jerusalém. Os judeus e os samaritanos estavam brigando por algo particular, entre Jerusalém e Samaria, como os católicos fazem com Roma. Todos querendo provar que a sua Igreja institucional é a “verdadeira”, e que as demais instituições ou denominações são “falsas”. Um católico romano diz que a Igreja verdadeira é a Romana; um católico ortodoxo diz que a Igreja verdadeira é a Ortodoxa. Ambos têm a mesma mentalidade que os judeus e samaritanos tinham na época em que viviam em pé de guerra.

Mas qual foi a resposta de Jesus? Ele disse:

“Jesus declarou: Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (João 4:21-24)

Para Jesus, o que importava não era o local da adoração. Não importava qual era o “templo verdadeiro”. Ele não estava preocupado com o aspecto “institucional”. Para ele, os verdadeiros adoradores são aqueles que o adoram em espírito e em verdade. São esses os adoradores que o Pai procura, e não os que façam parte desta ou daquela instituição, ou que tenham este ou aquele templo como o local de adoração exato. Cristo dispensou a discussão sobre locais e se focou no coração do homem.

A antiga aliança, feita entre Deus e os judeus, estava chegando ao fim. Os judeus iriam crucificar Jesus, e a Igreja tomaria o lugar da comunidade judaica na nova aliança que se aproximava. Ele “veio para o que era seu, e os seus não o receberam”(Jo.1:11). Então, ele afirma que estava próximo o tempo de chegar a nova aliança, onde a ekklesia não seria nem em Jerusalém nem tampouco em Samaria. Qualquer católico romano poderia olhar para este texto e então sugerir: “Claro, será em Roma! Cristo estava profetizando sobre a Igreja Romana”!

Porém, o que o nosso Senhor respondeu foi o contrário. Cristo não falou que a Igreja-ekklesiada nova aliança estaria centralizada em Roma ou em qualquer outro lugar, como Jerusalém era na antiga aliança. Ao contrário: afirmou que a Igreja seria aqueles que o adorassem – independentemente de locais ou instituições – em espírito e em verdade. 

Qualquer crente em Cristo Jesus, que “guarda os mandamentos de Deus, e têm o testemunho de Jesus Cristo” (Ap.12:17), adorando-o em espírito e em verdade, éessa Igreja de Cristo, independentemente da congregação, denominação ou instituição religiosa em que congrega, que por si só nada mais são senão placas, que não conduzem ninguém à salvação.

Portanto, ao invés de a Igreja ser uma instituição religiosa com sede em Roma e liderada por um papa com poderes de infalibilidade, ela é o Corpo de Cristo que é formado por todos aqueles que o adoram com sinceridade de coração, em espírito e em verdade. A Igreja não é Judaica, Samaritana ou Romana, mas Cristã – cada um de nós.

Destruindo-se o conceito de Igreja como uma instituição ou denominação em particular, caem por terra os argumentos do tipo: “onde estavam as igrejas protestantes antes do século XVI?”, pois a Igreja verdadeira nunca fui uma instituição A ou B, mas sim a totalidade de cristãos sinceros que viveram o evangelho bíblico em todas as eras, o que sempre existiu, e nunca deixará de existir (Mt.16:18).

Antes de Lutero já existiam cristãos sinceros, como os morávios, os valdenses, os anabatistas e outros grupos menores, nos séculos anteriores à Reforma. John Huss, o “precursor” da Reforma, que foi assassinado na Inquisição, viveu no século XIV, assim como John Wycliffe. Como também o próprio Concílio de Tolosa (no século XIII) atesta, existiam grupos anônimos menores, que se mantinham fieis a Deus e que buscavam ler a Bíblia, sendo severamente perseguidos e mortos por isso[3].

Até mesmo entre os católicos ortodoxos há um evangelho mais puro que no catolicismo romano, que é capaz de levar alguém à salvação. Em resumo, nunca houve um tempo em que cristãos verdadeiros não existiram, mesmo que à parte da Igreja de Roma. Assim como em Israel Deus havia preservado sete mil joelhos que não se dobraram diante de Baal (1Rs.19:18; Rm.11:4) mesmo quando todo o restante de Israel havia se desviado, também na era da Igreja Deus sempre preservou uma minoria que se mantinha fiel, mesmo quando a maioria se desviava.

É por isso que a porta da salvação é estreita (Mt.7:14), e que poucos entram por ela (Lc.13:24). A Igreja, como sendo o Corpo de Cristo (cristãos), sempre existiu, antes e depois de Lutero. As portas do inferno nunca prevaleceram contra estes verdadeiros e fieis cristãos, que são a Igreja. A Igreja como uma instituição, porém, é um conceito falso e fantasioso criado pela Igreja Romana para seu próprio benefício.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

-Extraído de meu livro: “Em Defesa da Sola Scriptura”.


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[1]A palavra ek possui dois significados possíveis nos léxicos do grego: “para fora” ou “de dentro de”. No primeiro caso, seria “para fora” do mundo. No segundo, eles teriam sido chamados “de dentro” do mundo para fora dele. De um jeito ou de outro, o sentido transmitido é o mesmo: pessoas que estavam em um lugar – o mundo – e que são chamadas para fora dos sistemas e valores carnais que este mundo possui.

[2]Os cristãos, por causa da perseguição religiosa dos primeiros séculos, se reuniam em casas, ao invés de templos. Com o fim da perseguição, eles passaram a congregar em templos, como vemos hoje. Assim sendo, a casa de Ninfa era na época o equivalente ao que o templo é hoje.

[3]Concil. Tolosanum, Papa Gregório IX, Anno Chr. 1229, Canons 14:2.

2 comentários:

  1. Parabéns mais uma vez. Ótima explicação. Fiquei sumido por falta de tempo e agora sem pc, por isso nunca mais comentei, mas seus textos continuam muito bons

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