Os Pais da Igreja criam na imortalidade da alma?



Que a imortalidade da alma não era uma crença adotada pelos primeiros Pais da Igreja, em especial os do século I até meados do século II d.C, isso fica evidente pela própria argumentação imortalista que sempre cita apenas os Pais de tempos bem posteriores, começando por Orígenes e avançando até Agostinho. Eles realmente não têm nenhuma prova irrefutável dessa doutrina que possa ser encontrada em qualquer obra de qualquer Pai da Igreja que tenha convivido mais de perto com os apóstolos. Neste artigo, portanto, irei provar resumidamente como que a patrística refuta a imortalidade incondicional da alma naquilo que tange aos primeiros séculos de Cristianismo.

Inácio de Antioquia (68 – 107 d.C) cria que seria encontrado como discípulo de Policarpo depois que a ressurreição tivesse sido consumada, e não imediatamente após a morte em algum estado intermediário:

”Uma vez que a Igreja de Antioquia da Síria está em paz, como fui informado, graças à vossa oração, fiquei mais confiante na serenidade de Deus, se com o sofrimento eu o alcançar, para ser encontrado na ressurreição como vosso discípulo (Carta de Inácio a Policarpo, 7:1)

Era na ressurreição – e não após a morte – que Inácio se reencontraria com Policarpo, e seria reconhecido como seu discípulo. O mesmo ele afirma aos cristãos de Éfeso:

”Fora dele [Jesus], nada tenha valor para vós. Eu carrego as correntes por causa dele. São as pérolas espirituais com as quais eu gostaria que me fosse dado ressuscitar, graças à vossa oração. Desta desejo sempre participar para me encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, que estão sempre unidos aos apóstolos pela força de Jesus Cristo” (Inácio aos Efésios, 11:2)

Inácio queria se encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, mas a pergunta que não quer calar é: “quando”? Qualquer imortalista responderia que seria logo após a morte e antes da ressurreição, quando supostamente a “alma imortal” de Inácio partiria para o Céu e se encontraria na sua herança, junto aos cristãos de Éfeso. Porém, Inácio diz claramente que seria na ressurreição que isso aconteceria! A crença de Inácio de que era somente na ressurreição dos mortos que os cristãos entram em sua herança celestial e se reencontram com os demais cristãos era crida também por Policarpo (69 – 155 d.C), contemporâneo de Inácio, que afirmou que a ressurreição não é somente do corpo (como creem os imortalistas), mas também da alma:

“Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo” (O Martírio de Policarpo, 14:2)

Justino (100 – 165 d.C) foi ainda mais além e declarou que aqueles que criam que a alma vai para o Céu após a morte e antes da ressurreição nem sequer poderiam ser considerados cristãos, mas estariam no grupo daqueles que eram considerados «ímpios e hereges», que ensinavam «doutrinas que são em todos os sentidos blasfemas, ateístas e tolas»:

"Além disso, eu indiquei-lhe que há alguns que se consideram cristãos, mas são ímpios, hereges, ateus, e ensinam doutrinas que são em todos os sentidos blasfemas, ateístas e tolas. Mas, para que saiba que eu não estou sozinho em dizer isso a você, eu elaborarei uma declaração, na medida em que puder, de todos os argumentos que se passaram entre nós, em que eu devo registrá-las, e admitindo as mesmas coisas que eu admito a você. Pois eu opto por não seguir a homens ou a doutrinas humanas, mas a Deus e as doutrinas entregues por Ele. Se vós vos deparais com supostos Cristãos que não façam esta confissão, mas ousem também vituperar o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, e neguem a ressurreição dos mortos, sustentando antes, que no ato de morrer, as suas almas são elevadas ao céu, não os considereis Cristãos. Mas eu e os outros, que somos cristãos de bem em todos os pontos, estamos convictos de que haverá uma ressurreição dos mortos, e mil anos em Jerusalém, que será construída, adornada e alargada, como os profetas Ezequiel e Isaías e outros declaram" (Diálogo com Trifão, Cap.80)

O Diálogo com Trifão, escrito por Justino, é ainda mais interessante por ser apresentado em forma de diálogo. Nele, podemos ver as incoerências da crença de que a alma é imortal e também como que os primeiros cristãos contestavam essa crença de origem pagã. Por exemplo, Justino afirma que as almas dos homens são em tudo semelhante às almas dos animais:

Velho: E todas as almas de todos os seres vivos podem compreendê-Lo? Ou são as almas dos homens de um tipo e as almas dos cavalos e de jumentos de outro tipo?

Justino: Não. Mas as almas que estão em todos são semelhantes. (Capítulo 4)

Aqui Justino declara que as almas humanas não são diferentes das dos animais. Se lermos o relato da criação em Gênesis, vemos que ambos são descritos como sendo alma-nephesh (Gn.1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16; Lv.11:46). Alguns imortalistas, na tentativa de refutar este fato bíblico, tentam dizer que as almas dos animais são diferentes das almas humanas, pois a deles seria mortal, enquanto a nossa seria imortal. Isso é o que o homem velho estava dialogando com Justino, mas este nega que haja diferença entre ambas as almas, exatamente como prega a doutrina bíblica holista!

Mais a frente, vemos um interessante diálogo de Justino com o Velho, onde os dois discorrem sobre a natureza do universo e sobre o destino da alma após a morte. Desde que o universo lhes pareceu gerado (como a Bíblia ensina que foi), eles concluem que as almas não podem ser imortais, mas morrem após a morte do corpo:

Velho:Você diz que o mundo também é não-gerado?

Justino: Alguns dizem que sim. Eu, porém, não concordo com eles.

Velho: Você está certo, pois que razão alguém tem para supor que um corpo tão sólido, possuindo resistência, composto, mutável, em decomposição, e renovado a cada dia, não surgiu de alguma causa? Mas se o mundo é gerado, as almas necessariamente também são geradas, e talvez em algum momento elas não existam, porque elas foram feitas por conta dos homens e outros seres vivos, se você for dizer que eles foram gerados totalmente à parte, e não juntamente com seus respectivos órgãos.

Justino:Isso parece estar correto.

Velho: Não são, pois, imortais?

Justino: Não, desde que o mundo pareceu-nos ser gerado. (Capítulo 5)

Justino afirma que as almas não são imortais, porque o universo foi gerado. Então, vem a parte que alguns imortalistas se utilizam, tirando-a de seu devido contexto, que é quando o velho que debate com Justino (e não o próprio Justino) afirma que as almas não morreriam completamente, mas as almas dos justos iriam para um “lugar melhor” após a morte, e as dos injustos iriam para um “lugar pior”, esperando o dia do julgamento. Já vi alguns imortalistas fazerem uso dessa passagem na intenção de passar a ideia de que Justino não cria que a alma morria após a morte, mas eles se esquecem de que foi o próprio Justino que corrigiu este pensamento do homem velho logo na sequencia do Diálogo:

Velho:Mas eu não digo, na verdade, que todas as almas morrem, para que fosse verdadeiramente um pedaço de boa sorte para o mal. E depois? As almas dos piedosos permanecem em um lugar melhor, enquanto as dos injustos e perversos estão em um lugar pior, esperando o momento do julgamento. Assim, alguns que tem sido dignos de serem apreciados por Deus nunca morrem, mas outros são punidos, desde que Deus quer que eles existam e sejam punidos.

Justino:O que você diz, então, é de uma natureza similar com o que Platão ensina sobre o mundo, quando ele diz que ele é realmente sujeito à decadência, na medida em que foi criado, mas que nem vai ser dissolvido, nem encontrar-se com o destino da morte por conta da vontade de Deus. Parece-lhe que o mesmo pode ser dito da alma, e em geral de todas as coisas? Para as coisas que existem depois de Deus, ou em qualquer momento existem, estas têm a natureza de decadência, e podem ser apagadas e deixarem de existir, pois só Deus é ingênito e imortal, e por isso mesmo Ele é Deus, mas todas as outras coisas criadas por Ele são corruptíveis. Por esta razão ambas as almas morrem, uma vez que, se fossem ingênitas, elas nem teriam pecado, nem seriam preenchidas com a loucura, e nem seriam covardes ou ferozes; nem seriam de bom grado se transformarem em porcos e as serpentes em cães, se fossem não-geradas.

Note que o homem Velho realmente propôs a imortalidade da alma a Justino, mas foi o próprio Justino quem refutou aquele pensamento logo em seguida, dizendo que o homem Velho estava pensando da mesma forma que Platão, de que o mundo não vai ser dissolvido, e de que o mesmo poderia ser aplicado com relação à alma (que não se dissolveria após a morte). Isso estaria errado pelo fato de que as coisas criadas por Deus tem uma natureza corruptível, e por essa razão “ambas as almas morrem”, isto é, tanto as almas dos homens como também as dos animais perecem após a morte, não são imortais como cria Platão. Mais adiante, Justino reitera mais uma vez que a alma deixa de existir após a morte, e que o homem não existe mais quando o espírito da vida é retirado dele, não existindo mais a alma:

Sempre que a alma tem de deixar de existir, o homem não existe mais, o espírito da vida é removido, e não há mais alma, mas ele vai voltar para o lugar de onde foi feito” (Diálogo com Trifão, Cap.6)

Para Justino, quando Deus retira do homem o sopro de vida que Ele soprou originalmente nas narinas de Adão, o homem não existe mais, a alma deixa de existir e «não há mais alma»; o homem como um ser integral volta para o lugar de onde ele foi formado: o pó da terra. Por isso, a ressurreição é a única esperança para trazer o homem de volta à existência, como Justino também declara a Trifão:

Trifão:Diga-me, então, devem os que viviam de acordo com a lei dada por Moisés, viverem da mesma maneira com Jacó, Enoque, Noé, na ressurreição dos mortos, ou não? 

Justino:Quando citei, senhor, as palavras ditas por Ezequiel, que, ”mesmo que Noé, Daniel e Jó estivessem nela, eles não poderiam livrar seus filhos e suas filhas, o pedido não lhes seria concedido", mas que cada um deve ser salvo pela sua própria justiça, disse também que aqueles que suas vidas foram reguladas pela lei de Moisés de igual modo devem ser salvos. Pois o que está na lei de Moisés é naturalmente bom, piedoso e justo, e foi prescrito a ser praticado por aqueles que devem obedecê-la, e foi designada para ser realizada em virtude da dureza dos corações do povo, e feita também para aqueles que estavam debaixo da lei. Desde aqueles que fizeram o que é universal, naturalmente, e eternamente bom é agradável a Deus, eles serão salvos por esse Cristo na ressurreição, em pé de igualdade com os homens justos que foram antes deles, ou seja, Noé e Enoque, e Jacó, e quem mais existir, juntamente com aqueles que conheceram esse Cristo, Filho de Deus, que foi a estrela da manhã e submeteu-se ao encarnar-se, e nascer desta virgem da família de Davi, a fim de que, por nesta dispensação, a serpente que peca desde o princípio e os anjos com ele possam ser destruídos, e que a morte possa ser desprezada, para sair eternamente, na segunda vinda de Cristo, aqueles que acreditam n'Ele e viveram aceitavelmente. (Capítulo 45)

É tão claro como a luz do dia o fato de que Justino cria que seria na ressurreição (que acontece na segunda vinda de Cristo) que aqueles que já morreram (tais como Noé, Enoque e Jacó) iriam ser salvos e sair para a vida eterna. Por isso ele se regozijava da morte: não por pensar que tinha uma “alma imortal” que sobrevivesse conscientemente após a morte, mas por crer que Deus o ressuscitaria e o tornaria imortal nessa ressurreição:

Mas nós nos regozijamos da morte, acreditando que Deus nos ressuscitará a nós pelo seu Cristo, e nos fará incorruptíveis, e intactos, e imortais, e sabemos que as ordenanças impostas em virtude da dureza dos corações do povo em nada contribuem para o desempenho da justiça e da piedade” (Diálogo com Trifão, Cap.46)

Por tudo isso, a vida eterna seria herdada somente após a santa ressurreição, e não antes dela:

“Ele [Josué] não apenas teve o seu nome alterado, como também foi sucessor de Moisés, sendo o único de seus contemporâneos que saiu do Egito, ele levou os sobreviventes para a Terra Santa e foi ele, e não Moisés, que conduziu as pessoas para a Terra Santa, e assim como ela foi distribuída por sorteio para os que entraram junto com ele, assim também Jesus Cristo virá novamente e distribuirá a boa terra para cada um, embora não da mesma maneira. Pois o primeiro [Josué] deu-lhes uma herança temporária, visto que ele não era nem Cristo, que é Deus, nem o Filho de Deus; mas este último [Jesus], após a santa ressurreição, nos dará a posse eterna(Diálogo com Trifão, Cap.113)

Os homens de todas as épocas que creram em Cristo e que viveram de acordo com a Palavra de Deus “estarão” {futuro} naquela terra, e “herdarão” {futuro} o eterno e incorruptível bem:

“E, portanto, todos os homens em todos os lugares, quer escravos ou livres, que creem em Cristo, e reconheceram a verdade em suas próprias palavras e dos Seus profetas, sabemos que eles estarão com ele naquela terra, e herdarão o eterno e incorruptível bem (Diálogo com Trifão, Cap.139)

Se Justino cresse que herdamos a vida eterna antes da ressurreição (no momento em que a alma “voa” para o Céu após a morte), então ele teria dito que os que já morreram já estão naquela terra prometida por Deus, e que já herdaram o eterno e incorruptível bem. O fato de ele colocar tudo no tempo futuro nos mostra mais uma vez que ele não cria na imortalidade da alma. A posse da vida eterna era vista como um acontecimento depois da ressurreição dos mortos, e não antes:

E a Palavra, sendo o Seu Filho, veio até nós, tendo sido manifestado em carne, revelando tanto si mesmo como também o Pai, dando-nos a ressurreição dos mortos e, depois, a vida eterna (Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.1)

Por isso mesmo ele advogava a tese bíblica de que a ressurreição não é meramente do corpo, mas do corpo e da alma, pois tanto o corpo como a alma formam o homem, e consequentemente tanto o corpo como a alma morrem, e tanto o corpo como a alma ressuscitam na ressurreição:

“Pois o que é homem, senão um animal racional composto de corpo e alma? É a alma chamada de homem por si mesma? Não, mas é chamada a alma do homem. Será que o corpo pode ser chamado de homem? Não, mas é chamado o corpo do homem. Se, então, nenhum deles é por si só o homem, mas o que é composto dos dois juntos é chamado de homem, e Deus chamou o homem para a vida e ressurreição, Ele chamou não uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo (Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.8)

Se Ele não tinha necessidade da carne, por que Ele iria curá-la? E o que é o mais convincente de todos: Ele ressuscitou os mortos. Por quê? Não era para mostrar como a ressurreição deveria ser? Como, então, Ele ressuscitará os mortos? Suas almas ou os seus corpos? Manifestamente ambos (Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.9)

Arnóbio foi outro a declarar que a tese da imortalidade da alma era crida em sua época por “pensadores recentes e fanáticos”:

"Não há motivo, portanto, que nos engane, não há motivo que nos faça conceber esperanças infundadas aquele que se diz por alguns pensadores recentes e fanáticospela excessiva estima de si mesmos que, as almas são imortais (Arnóbio, op. cit., Liv. II, 14-15; pag. 51)

Essa é uma declaração enfática que nos leva a crer novamente que quando a imortalidade da alma entrou na Igreja não foi por ser pregada desde sempre pelos apóstolos, mas foi ao longo de um processo de desvio doutrinário, começando a ser pregada por apenas alguns “recentes”, que, influenciados pela filosofia grega platônica, trouxeram para dentro da Igreja o conceito pagão de que a alma seria imortal. Os pensadores da época que criam que a alma era imortal eram questionados pela sua própria infantilidade e ignorância em ver este assunto desta forma:

“Mas se você está realmente certo de que as almas dos homens são imortais e dotadas de conhecimento, quando elas voam para cá, deixe-me questionar a juventude que você vê as coisas pela sua ignorância, estando acostumado aos caminhos dos homens” (Arnóbio, Against the Heathen , Livro II, Cap.24)

Arnóbio enfatiza também que as almas não são incorpóreas, o que é outra base e fundamento da tese imortalista que é derrubada, juntamente com a crença de que elas seriam “imortais”:

Além disso, o mesmo raciocínio não só mostra que elas [as almas] não são incorpóreas, mas também as privam de toda e qualquer imortalidade, e remete-as para os limites dentro dos quais a vida é normalmente fechada” (Arnóbio, Against the Heathen, Livro II, Cap.26)

Por fim, outros dois autores cristãos do segundo século d.C que são bem importantes para entendermos o pensamento presente na Igreja da época, são Teófilo de Antioquia (120 – 180 d.C) e Taciano, o Sírio (120 – 180 d.C), que são da mesma época, sendo que ambos eram filósofos e ambos discorreram amplamente sobre a ressurreição, sobre a natureza humana e sobre a vida após a morte. Começaremos por Teófilo, que escreveu três livros a Autólico, e disse:

“Ó homem, se compreenderes isso, e viveres de maneira pura, piedosa e justa, poderás ver a Deus. Antes de tudo, porém, entrem em teu coração a fé e o temor de Deus, e então compreenderás isso. Quando depuseres a mortalidade e te revestires da incorruptibilidade, verás a Deus de maneira digna. Com efeito, Deus ressuscitará a tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o imortal, contanto que agora tenhas fé nele. Então reconhecerás que falaste injustamente contra ele” (Teófilo a Autólico, Livro I, Cap.7)

Acima constatamos três pontos principais. O primeiro, é que a natureza humana atual é mortal. A segunda, é que a alma ressuscita juntamente com o corpo, o que era uma crença comum no século d.C. E o terceiro, que é somente na ressurreição, quando o homem se torna imortal, que ele verá o imortal, Deus. A doutrina tardia da imortalidade da alma mudou tudo isso, pois prega que o ser humano possui atualmente a imortalidade na forma de uma alma imortal, ensina que a ressurreição é somente do corpo e também que veremos a Deus logo após a morte, antes mesmo da ressurreição. Quanta diferença disso para aquilo que os Pais da Igreja criam e ensinavam!

Outro fato que Teófilo nos mostra e que, como já vimos, é totalmente compatível com a Bíblia e com aquilo que disse Justino de Roma, é que os animais também são almas viventes:

“E disse Deus: ‘Que as águas produzam répteis de alma vivente e aves que voam sobre a terra debaixo do firmamento do céu’. E assim se fez. E Deus fez os monstros grandes do mar, e toda alma dos animais que se arrastam, que as águas produziram conforme suas espécies, e todo volátil alado segundo a sua espécie. E Deus viu que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: ‘Crescei e multiplicaivos e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra’. Houve tarde e houve manhã: quinto dia.E disse Deus: ‘Que a terra produza alma vivente conforme a sua espécie, quadrúpedes e répteis e feras da terra segundo a sua espécie’. E assim se fez. E Deus fez as feras da terra conforme a sua espécie e os animais segundo a sua espécie, e todos os répteis da terra”(Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.11)

Depois que a doutrina pagã da imortalidade da alma ganhou força dentro do Cristianismo, ficou comum os teólogos da imortalidade negarem que os animais sejam ou possuam alma, e a grande maioria das traduções vertem os textos acima (a exemplo de outros onde aparece nephesh para os animais) como “criaturas viventes”, antes que como “almas viventes”, que é o real significado do hebraico nephesh. Tudo para negar que os animais são tão nephesh quanto o ser humano, e que, por isso, nephesh não é nem nunca foi um elemento eterno, imortal e imaterial presente na natureza humana.

O curioso é que estas mesmas traduções que adulteram o original hebraico e traduzem por “criatura” onde deveria ser “alma” relacionando-se aos animais, no mesmo contexto traduzem a mesma palavra [nephesh] por alma mesmo quando se refere a seres humanos! A manobra por trás disso tudo é muito clara: eles querem passar a falsa ideia de que nephesh (alma) é um elemento imortal e imaterial que está presente em nós mas não nos animais; por isso, traduzem essa palavra por “alma” quando se refere aos seres humanos, mas não traduzem por “alma” quando a mesma palavra é aplicada igualmente aos animais, ou senão todos ficariam sabendo que nephesh não é um elemento imortal coisa nenhuma!

Teófilo também faz um contraste entre nós e Deus, mostrando que Deus é imortal, enquanto o homem deixa de existir por um tempo, até voltar à existência em uma ressurreição futura:

“Os luzeiros contêm o exemplo e símbolo de um grande mistério, pois o sol é símbolo de Deus e a lua o é do homem. Como o sol difere muito da lua em poder e glória, assim Deus é muito diferente da humanidade; como o sol permanece sempre cheio e não diminui, assim Deus permanece sempre perfeito, repleto de poder, inteligência, sabedoria, imortalidade e de todos os bens. Em troca, a lua perece cada mês, e de certo modo, morre, e é símbolo de como é o homem; depois torna a nascer e cresce, para demonstrar a ressurreição futura(Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.15)

De todos os escritos de Teófilo, o meu preferido é aquele em que ele trata mais diretamente sobre a constituição da natureza humana. A crença unânime entre os imortalistas é a de que o homem foi criado naturalmente possuindo a imortalidade, isto é, que a alma é naturalmente imortal, e isso vale para todo mundo, justos ou ímpios, crentes ou incrédulos. Por outro lado, eu não digo que a alma foi criada naturalmente imortal (o que já vimos que é uma heresia), mas nem que ela foi criada mortal, e sim que foi criada com a possibilidade de ambas, mas o homem, ao escolher o pecado, trouxe a morte a si mesmo, e, desta forma, o homem não se tornou imortal, mas mortal por natureza. É exatamente isso o que Teófilo nos explica com grande sabedoria nessas palavras:

“Poder-se-á dizer: ‘O homem não foi criado mortal por natureza?’ De jeito nenhum. ‘Então foi criado imortal?’ Também não dizemos isso. ‘Então não foi nada?’ Também não dizemos isso. O que afirmamos é que por natureza não foi feito nem mortal, nem imortal. Porque se, desde o princípio, o tivesse criado imortal, o teria feito deus; por outro lado, se o tivesse criado mortal, pareceria que Deus é a causa da morte. Portanto, não o fez mortal, nem imortal, mas, como dissemos antes, capaz de uma coisa e de outra. Assim, se o homem se inclinasse para a imortalidade, guardando o mandamento de Deus, receberia de Deus o galardão da imortalidade e chegaria a ser deus; mas se se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, seria a causa da morte para si mesmo, porque Deus fez o homem livre e senhor de seus atos. O que o homem atraiu sobre si mesmo por sua negligência e desobediência, agora Deus o presenteou com isso, através de sua benevolência e misericórdia, contanto que o homem lhe obedeça. Do mesmo modo como o homem, desobedecendo, atraiu sobre si a morte, assim também, obedecendo à vontade de Deus que quer, pode adquirir para si a vida eterna. De fato, Deus nos deu lei e mandamentos santos, e todo aquele que os cumpre pode salvar-se e, tendo alcançado a ressurreição, herdar a imortalidade (Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.27)

Teófilo acima foi simplesmente brilhante em suas colocações. Deus não criou o homem com uma alma imortal, pois, se o tivesse criado imortal, «o teria feito deus»; nem tampouco o criou mortal, senão poderia parecer que Deus é a causa da morte, ou seja, que Ele não deixou a nós outra opção a não ser a morte. A imortalidade ou mortalidade, portanto, estava dependente da escolha do homem. Dito em termos simples, a possibilidade de possuir a imortalidade não estava baseada em uma alma imortal recém-implantada, mas condicionada à obediência a Deus.

Mas, no Jardim, o homem preferiu comer do fruto proibido, pecou e desobedeceu ao Criador, e atraiu a morte para si mesmo. Desde então o homem passou a ser naturalmente mortal, por causa do pecado, que afetou tanto o corpo como a alma. Como disse o pastor luterano Martin Volkmann: “A diferença, segundo certo modo de pensar, é que a parte supostamente imortal não foi afetada pelo pecado em nós, enquanto na outra forma de pensar reconhece-se a natureza radical do pecado e proclama uma nova vida através da obra salvadora de Deus”. O homem, desta forma, «se tornou a causa da morte para si mesmo, porque Deus o fez livre e senhor de seus atos».

O homem tornou-se naturalmente mortal pela sua própria negligência e desobediência. Mas Deus, pela Sua misericórdia, deu-nos a possibilidade de sermos imortais, se obedecermos a vontade de Deus, podendo adquirir a vida eterna. A pergunta que devemos fazer é: “O que Deus providenciou para poder nos conceder uma vida eterna (imortalidade)”? A resposta não é uma alma naturalmente imortal, mas sim a ressurreição dos mortos. A ressurreição é, por assim dizer, o “antídoto” para a imortalidade, é por meio dela que os santos podem obter a vida eterna. Foi por isso que Teófilo disse que, tendo alcançado a ressurreição, podemos herdar a imortalidade.

A imortalidade não é uma posse já garantida através da detenção de uma alma imortal em nossa própria natureza, mas sim algo que herdaremos, no futuro, através da ressurreição dos mortos, para aqueles que forem obedientes a Deus. Este pensamento mina toda uma noção de imortalidade natural da alma, onde o homem já foi criado possuindo naturalmente a imortalidade, onde tanto justos como ímpios viverão eternamente e são imortais, onde o pecado afeta apenas o corpo e não a alma, e onde a ressurreição não passa de uma encenação desnecessária e já estaríamos no Céu muito antes dela acontecer.

Essa realidade que os imortalistas não podem aceitar, que é o fato de que há uma “lacuna” (inexistência) entre a morte e a ressurreição, que a Bíblia metaforicamente chama de “sono”, era muito bem crida pelos Pais da Igreja, como Taciano, que também reiterou que, da mesma forma que o homem não existe antes de nascer, ele também não existirá após a morte, só voltando a existir através da ressurreição, quando se dará a reintegração de todos os homens por ocasião do julgamento:

“Por isso, também cremos que acontecerá a ressurrei­ção dos corpos depois da consumação do universo, não como dogmatizam os estóicos, segundo os quais as mes­mas coisas nascem e perecem depois de determinados períodos cíclicos, sem utilidade nenhuma, mas de uma só vez. Totalmente acabados os tempos que vivemos, dar-se-á a reintegração de todos os homens por razão do julga­mento. Então seremos julgados não por Minos ou Radamante, antes de cuja morte, como dizem os mitos, nenhuma alma era julgada, mas o juiz é o próprio Deus que nos criou. Por mais que nos considereis charlatães e palhaços, nada disso nos importa, depois que cremos nesta doutrina. Com efeito, do mesmo modo como, não existindo antes de nascer, eu ignorava quem eu era e só subsistia na substância da matéria carnal – mas uma vez nascido, eu, que antes não existia, acreditei em meu ser pelo nascimento – assim também eu, que existi e que pela morte deixarei de ser e outra vez desaparecerei da vista de todos, novamente voltarei a ser como não tendo antes existido e portanto nasci. Mesmo que o fogo destrua a minha carne, o universo recebe a matéria evaporada; se me consumo nos rios ou no mar, ou sou despedaçado pelas feras, permaneço depositado nos tesouros de um senhor rico. O pobre ateu desconhece esses depósitos, mas Deus, que é rei, quando quiser, restabelecerá em seu ser primei­ro a minha substância, que é visível apenas para ele”(Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.6)

A mesma verdade da natureza humana criada “neutra” podendo se tornar mortal ou imortal pela sua própria escolha é reforçada também por Taciano:

“Todavia, como a virtude do Verbo tem em si a presciência do futuro, não por fatalidade do destino, mas por livre determinação dos que escolhem, predisse os acontecimen­tos futuros, freou a maldade por suas proibições e louvou os que perseveram no bem. Aconteceu, porém, que os homens e os anjos seguiram e proclamaram Deus àquele que, por ser criatura primogênita, superava os demais em inteligência, justamente ele que se havia revelado contra a lei de Deus. Então a virtude do Verbo negou a sua convivência não só ao que se tornara cabeça desse louco orgulho, mas também a quantos o haviam seguido. E o homem, que tinha sido criado à imagem de Deus, apartando-se dele o espírito mais poderoso, tornou-se mortal e aquele que fora primogênito, por sua transgressão e insensatez, foi declarado demônio, e os que imitaram suas fantasias se transformaram no exército dos demônios que, por razão de seu livre-arbítrio, foram entregues à própria perversidade” (Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.7)

Nós não fomos cria­dos para a morte, mas morremos por nossa própria culpa. A liberdade nos deixou; nós que éramos livres, nos tor­namos escravos; fomos vendidos pelo pecado. Deus não fez nada mau; fomos nós que produzimos a maldade; nós que a produzimos, porém somos também capazes de recusá-la”(Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.11)

E a realidade de que a ressurreição não é somente do corpo, mas também da alma, também era crida por Taciano, seguindo o exemplo de todos os outros Pais da Igreja de sua época que já foram citados fazendo o mesmo tipo de menção, tais como Justino, Policarpo e Teófilo:

“Com efeito, nem a alma poderia por si mesma jamais se manifestar sem o corpo, e nem a carne ressuscita sem a alma (Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.15)

A alma, segundo Taciano, não pode jamais se manifestar sem o corpo. Ele certamente deveria explicar isso para os imortalistas atuais, que creem e ensinam que passaremos longos tempos manifestados no Céu apenas em alma e sem um corpo físico ressurreto.


CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS

É claro que, para quem já está cego e não quer enxergar, de nada adiantará um artigo tão claro, extenso e esclarecedor como esse, ainda que eu multiplicasse as citações até a máxima potência. Existem muitas pessoas que já estão tão profundamente cegas e enganadas pelas tradições humanas, que mesmo se lerem tudo isso e muito mais, e ainda que se deparem com a verdade escancarada na frente delas, vão sair daqui e continuar exclamando aos quatro cantos da terra que “a alma é imortal, a alma é imortal, a alma é imortal”.

Mais do que isso, não duvido que sejam capazes de, mesmo sabendo de toda a verdade já revelada, ainda tenham a cara de pau de dizer que a imortalidade da alma é uma doutrina ortodoxa do cristianismo, o que diante dos fatos não passa de uma verdadeira piada, é uma lenda para aqueles que no mínimo se dão ao trabalho de estudar a fundo os escritos patrísticos do primeiro ao segundo século d.C, que constituem um verdadeiro arsenal de declarações altamente destrutivas contra os pilares da crença pagã em uma alma imortal.

Não, os Pais da Igreja mais próximos dos apóstolos jamais creram que a alma era imortal, pois essa nunca foi uma doutrina apostólica. Com Orígenes (que amava fantasiar e metaforizar tudo) e Clemente de Alexandria, o Cristianismo passou a adotar a crença de que possuímos uma alma imortal. Curiosamente, nem mesmo estes autores sabiam direito do que estavam falando. Orígenes, que mais tarde foi declarado herege pela própria Igreja, não foi apenas aquele que começou a propor que a alma era imortal; ele também propôs a preexistência das almas ou reencarnação, ao induzir que foram os méritos de uma vida anterior que fizeram com que Jacó tivesse sido amado por Deus:

“Então, depois de ter examinado mais a fundo as Escrituras a respeito de Jacó e Esaù, achamos que não depende da injustiça de Deus que antes de ter nascido e de ter feito algum bem ou mal - isto é nesta vida -, tenha sido dito que o maior serviria o menor; e achamos que não é injusto que no ventre da mãe Jacó tenha suplantado seu irmão (...), se crermos que pelos méritos da vida anterior com razão ele tenha sido amado por Deus por merecer ser preferido ao irmão (Orígenes, I Principi, Torino 1968, Livro II, 9, 7)

O outro, por sua vez, propôs que os apóstolos foram evangelizar no inferno:

“Os apóstolos, seguindo o Senhor, evangelizaram também aqueles que se encontravam no Hades; evidentemente era necessário que os melhores discípulos se tornassem imitadores do Mestre também lá” (Clemente de Alexandria, op. cit., Livro VI, 45,5: pag. 688-689)

Até mesmo Voltaire percebeu essa grande confusão que se tornou a Igreja depois da adoção da crença de que a alma era imortal – cada um cria em uma coisa diferente:

“Que importam em questões inacessíveis à razão, essas novelas criadas por nossas incertas imaginações? Que importa que os pais da Igreja dos quatro primeiros séculos acreditassem que a alma era corporal?Que importa que Tertuliano, contradizendo-se, decidisse que a alma é corporal, figurada e simples ao mesmo tempo? Teremos mil testemunhos de nossa ignorância, porém nem um só oferece vislumbre da verdade” (Voltaire, Sobre a Alma, Cap.1)

Então, aquilo que antes era o evangelho simples, puro e sincero, onde a alma era naturalmente mortal por causa do pecado e o homem poderia se tornar imortal na ressurreição da alma e do corpo, se tornou a maior bagunça, e dali para frente começaram a dar margens a uma série de outras grandes heresias que foram surgindo com o passar dos tempos. Dentre tais heresias, destaca-se a crença no purgatório, a intercessão dos santos (crida por muitos Pais da Igreja a partir do terceiro século d.C), a da preexistência da alma, a da reencarnação, a da comunicação ou evocação dos mortos, a das rezas aos mortos, e por ai vai.

O Cristianismo já estava infectado pela primeira mentira pregada pela serpente – que “certamente não morrerás” (Gn.3:4), que era e é a base para todos os demais enganos e mentiras perpetuados até os nossos dias. A partir do momento em que alguns «pensadores recentes e fanáticos»começaram a implantar a semente da imortalidade da alma no seio da Igreja antiga, uma série de outras heresias destrutivas começou a entrar na Igreja como o fruto deste processo. Graças a Deus que, possuindo tão grande arsenal de 206 provas bíblicas contra a imortalidade da alma, e mais um outro arsenal insuperável de provas históricas de que os primeiros Pais da Igreja jamais deram crédito a essa heresia, hoje podemos rejeitar essa doutrina profana e colocá-la no mesmo lugar onde ela se encontrava na época dos apóstolos: das portas para fora da Igreja Cristã e alicerçada unicamente no mais puro paganismo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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Comentários

  1. Professor, Lucas, acabei de ler seu artigo neste instante. Confesso que fiquei impressionado com as declarações dos vários pais da Igreja com relação a mortalidade da alma, onde os apresenta confirmando que a alma é mesmo mortal. No entanto, para muitos, inclusive eu, pode haver aí uma barreira, explicada pela sua palavra aqui:

    “Existem muitas pessoas que já estão tão profundamente cegas e enganadas pelas tradições humanas, que mesmo se lerem tudo isso e muito mais, e ainda que se deparem com a verdade escancarada na frente delas, vão sair daqui e continuar exclamando aos quatro cantos da terra que “a alma é imortal, a alma é imortal, a alma é imortal...”

    Vou fazer a leitura cuidadosa de todos os outros artigos seus sobre o assunto e saberei se fui pego, como milhões de cristãos, pela tradição ou não. Devo reconhecer que nunca parei para estudar o outro lado da questão, mas o farei, pois bem sei que tradição é uma praga. Veja dois exemplos aqui: Se você diz hoje numa classe de escola dominical que quem cortou o cabelo de Sansão não foi Dalila, vai haver protestos. Sabe por que? Porque alguém uma vez disse que foi Dalila, e o mundo cristão, sem consultar as Escrituras, acreditou. O problema é que a Bíblia afirma com toda clareza que foi um soldado. Se você diz que não foi Moisés quem tocou com o cajado no Rio Nilo para que as águas se transformassem em sangue você vai ter problemas. No entanto, a Bíblia diz que foi seu irmão, Arão. Pois é, Lucas, alguém um dia disse que foi Moisés e assim ficou. É isso que a tradição faz.

    Pode deixar que estou agora mesmo indo atrás do outro artigo seu, as “206 provas bíblicas contra a imortalidade da alma” e te prometo que farei a leitura com a maior atenção do mundo, pois minha crença até hoje é de que a alma é imortal.

    Outra coisa, esse artigo seu é um enorme problema para a teologia convencional evangélica que crê na doutrina da imortalidade da alma, pois ela reforça outra doutrina, a da intercessão dos santos. Ora, se eles, depois que morrem, partem dessa vida para estar com o Senhor, como poderíamos fortificar nosso argumento contra o catolicismo de que eles não intercedem diante de Deus? Outro problema é saber como ficaria a passagem que diz sobre Cristo ter descido às partes mais baixas da terra e ter levado cativo o cativeiro, um alusão, segundo a nossa interpretação, de que Jesus levou as almas do santos do Velho Testamento para a sua glória. Esse é o outro lado da moeda, pois se eles estavam embaixo, então não estavam em cima, no céu, como querem os católicos. Sendo assim, se concordamos com essa interpretação, então os santos do Velho Testamento jamais intercederam a Deus por ninguém em sua época, e aquelas passagens que mostram Osias, Jeremias e outros, depois de mortos, intercedendo por Israel, não passam mesmo de mentiras apócrifas, como sabemos que é. Ora, se o corpo voltou ao pó aguardando a ressurreição que ainda não ocorreu, então quem intercedia eram suas almas. E se as almas estavam em cativeiro, embaixo, não no céu, como puderam ter acesso ao trono de Deus intercedendo pelos vivos? Aqui o catolicismo entra pelo cano. E se a alma realmente fica fora da existência depois que a pessoa morre, então a coisa vai ficar bem pior para o catolicismo.

    Pois é, professor, esse mundo dá voltas, se correr o bicho pega se ficar o bicho come.

    Vou ler com mais atenção tudo o que você escreveu sobre o assunto e depois vou me posicionar.

    Abraços

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    1. Olá, Alon.

      Recomendo, se você quiser se aprofundar mais sobre o tema, que não leia apenas as 206 provas, pois ali é apenas um compêndio bem resumido e sintetizado das provas principais, ou seja, eu apenas as exponho e não argumento em favor delas. O lugar onde eu argumento mais extensivamente acerca de cada uma delas é no meu livro, "A LENDA DA IMORTALIDADE DA ALMA", as 206 provas são apenas uma exposição bem resumida de cada uma das evidências bíblicas contra a imortalidade da alma.

      Recomendo também a leitura destas refutações se você achar necessário, dos principais pilares da doutrina imortalista (outros são refutados no livro, mas estes que eu expus no site são os que eu creio serem os principais):

      http://apologiacrista.com/index.php?pagina=1084461433

      Ressaltando que, embora eu considere a imortalidade da alma uma doutrina muito perigosa e também o fundamento das demais mentiras, eu respeito aqueles que pensam diferente de mim, estou aberto a um diálogo aberto e franco sobre isso e não creio que o simples fato de crer que a alma é mortal ou imortal vá determinar na salvação ou perdição de um homem, embora evidentemente as CONSEQUENCIAS de se crer numa alma imortal (como comunicação com os mortos, intercessão dos santos, reeencarnação, anulação da crença na ressurreição, reza aos defuntos, culto aos mortos e outros derivados dessa doutrina) podem sim levar alguém à perdição e também à idolatria.

      Um grande abraço!

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  2. Caro Lucas, peço sinceras desculpas por te incomodar novamente. Mas enquanto debatia com um amigo sobre se Justino cria ou não na imortalidade da alma, ele me propôs o seguinte texto:

    ""Vede o fim que tiveram os imperadores que vos precederam: todos morreram de morte comum. Se a morte terminasse na inconsciência, seria uma boa sorte para todos os malvados. Admitindo, porém, que a
    consciência permanece em todos os nascidos, não sejais negligentes em convencer-vos e crer que essas coisas são verdade" (Justinho de Roma, I Apologia, 18)"

    Ele afirma que nesta passagem, Justino seria adepto da doutrina da Imortalidade da alma (nem preciso falar que ele nem tentou refutar todos os argumentos onde expus que Justino não cria no mesmo).

    Como eu não tenho acesso a livros de patrística e não sou muito bom no inglês, gostaria de ajuda da sua parte. Agradeço desde jáh se puder, se não puder tudo bem ^^

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    Respostas
    1. Olá, a paz de Cristo.

      O seu interlocutor, por desinformação ou desonestidade, se "esqueceu" de mencionar a CONTINUAÇÃO dessa passagem na Apologia de Justino, que explica como que ele passou a crer que a alma é imortal. Vejamos como que foi:

      "De fato, a necromancia, o exame das entranhas de crianças inocentes, as evocações das almas humanas e os que são chamados entre os magos de espíritos dos sonhos e espíritos assistentes, os fenômenos que acontecem sob a ação dos que sabem essas coisas devem persuadir-vos de que, mesmo depois da morte, as almas conservam a consciência. Do mesmo modo, poderíamos citar os que são arrebatados e agitados pelas almas dos mortos, aos quais todos chamam de possessos ou loucos; aqueles que entre vós são chamados de oráculos de Anfiloco, de Dodona, de Piton e outros semelhantes; as doutrinas de escritores como Empédocles e Pitágoras, Platão e Sócrates, aquela caverna de Homero, a descida de Ulisses para averiguar essas coisas, e outros que disseram coisas parecidas. Recebei-nos, portanto, pelo menos de modo semelhante a esses, pois não cremos menos do que eles em Deus e sim
      mais do que eles: esperamos recuperar nossos próprios corpos depois de mortos e enterrados, porque dizemos que para Deus não há nada impossível" (Justinho de Roma, I Apologia, 18)

      Note que a continuação do verso citado pelo seu interlocutor deixa claro que Justino passou a crer na imortalidade da alma através daquilo que acontece entre os PAGÃOS, como a necromancia, a feitiçaria, os relatos de autores pagãos e a filosofia de autores gregos platônicos, dentre eles o próprio Platão. Não foi por meio de um estudo das Escrituras ou por conservar alguma doutrina apostólica, que nem sequer é citada por Justino em parte alguma sobre este tema. E ele diz para os cristãos RECEBEREM essa doutrina. Não se "recebe" algo que já esteja presente. Isso evidencia que os cristãos não criam na imortalidade da alma mas eram incitados a "receberem" tal doutrina por causa daqueles acontecimentos que Justino citou que aconteciam entre os pagãos e que chamavam a atenção dele mesmo e o levava a crer que a alma era imortal, e não por uma análise das Escrituras ou da doutrina apostólica.

      Portanto, essa passagem em seu devido contexto eu vejo muito mais como uma prova a favor da mortalidade da alma do que contra ela, pois mostra que a imortalidade da alma é uma doutrina que entrou no Cristianismo através do puro paganismo e filosofia grega, e não através das Escrituras Sagradas ou de algo que já fosse crido desde sempre pela Igreja cristã.

      Deus te abençoe!

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  3. E a Segunda Epístola de Clemente aos Coríntios, cujo autor é desconhecido, também desconhecia a imortalidade da alma:

    DESPREZO TOTAL AO MUNDO
    V. Este mundo deve ser desprezado
    Portanto, irmãos, renunciemos nossa estadia neste mundo e façamos a
    vontade d'Aquele que nos chamou; não tenhamos medo de nos apartar
    deste mundo, pois o Senhor disse: "Sereis como cordeiros no meio de lobos".
    Porém, Pedro O contestou e disse: "O que ocorre, então, se os lobos
    devorarem os cordeiros?" E Jesus respondeu a Pedro: "Os cordeiros não
    precisam ter medo dos lobos depois de mortos. Vós também não deveis
    temer os que vos matam e nada mais podem fazer. Temei antes Aquele que,
    depois de tiverdes morrido, tem poder sobre a vossa alma e vosso corpo,
    para atirá-los na geena de fogo".
    Vós sabeis, irmãos, que a estadia desta carne neste mundo é depreciável e
    dura pouco; porém, a promessa de Cristo é grande e maravilhosa, a saber: o
    repouso do reino que vem e a vida eterna. O que podemos fazer, então, para
    obtê-los, senão andar em santidade e justiça, e considerar que estas coisas do
    mundo são estranhas para nós e não desejá-las? Pois quando desejamos estas
    coisas, nos desviamos do reto caminho.
    VIII. A necessidade do arrependimento enquanto vivermos neste mundo
    Nós que estamos na terra, portanto, devemos nos arrepender, porque somos
    argila na mão do artesão. O oleiro modela uma vasilha e a deforma ou
    rompe com suas mãos, dando-lhe uma nova forma; uma vez, porém, que a
    tenha posto no forno aceso, não mais poderá repará-la. Assim também
    ocorre conosco, enquanto estamos neste mundo: arrependendo-nos de todo
    coração das coisas más que fizemos na carne, poderemos ser salvos pelo
    Senhor, em razão da oportunidade para o arrependimento. Mas, quando
    tivermos partido deste mundo, não poderemos mais confessar, muito
    menos arrepender-se. [Cadê o Purgatório numa ocasião dessas?] Portanto, irmãos, se fazemos a vontade do Pai, se mantemos pura a carne, se guardamos os mandamentos do Senhor, receberemos a vida eterna. Eis o que o Senhor diz no Evangelho: "Se não
    guardastes o que era pequeno, quem vos dará o que é grande? Pois eu vos
    digo: o que é fiel no pouco, é fiel também no muito". Na verdade, o que Ele
    quer dizer é: mantenham a carne pura e o selo sem mácula, para que possam
    receber a vida.

    ResponderExcluir
  4. Continuando:
    IX. Seremos julgados na carne
    Que ninguém entre vós diga que esta carne não será julgada, nem que não se
    levantará novamente. Entendei isto: Em que fostes salvos? Em que
    recobrastes a vista se não nesta carne? Portanto, temos que guardar a carne
    como templo de Deus, pois da mesma forma que fostes chamados na carne,
    sereis também julgados na carne. Se Cristo, o Senhor que nos salvou, sendo
    primeiramente espírito, se fez carne e nela nos chamou, da mesma maneira
    receberemos nossa recompensa nesta carne. Assim, amemo-nos uns aos
    outros, para que possamos entrar no reino de Deus. Enquanto tivermos
    tempo para ser curados, coloquemo-nos nas mãos de Deus, o médico,
    dirigindo-lhe um tributo. De que tipo? Arrependimento procedente de um
    coração sincero, porque Ele conhece todas as coisas com antecedência e sabe
    o que existe no nosso coração. Portanto, dediquemos a Ele um eterno
    louvor, não só com os lábios mas também com o nosso coração, para que Ele
    possa nos acolher como filhos. Eis que o Senhor também disse: "Estes são os
    meus irmãos: aqueles que fazem a vontade do meu Pai".

    XIV. A Igreja espiritual
    Portanto, irmãos, se fazemos a vontade de Deus, nosso Pai, pertenceremos à
    primeira Igreja, que é espiritual, que foi criada antes do sol e da lua; porém,
    se não fazemos a vontade do Senhor, seremos como a Escritura, que diz:
    "Minha casa se transformou em covil de ladrões". Logo, prefiramos ser a
    Igreja da vida, para que sejamos salvos. E não creio que ignoreis que a Igreja
    viva "é o corpo de Cristo", porque a Escritura diz: "Deus fez o homem, varão
    e mulher". O varão é Cristo; a mulher é a Igreja. E os livros e os apóstolos
    declaram de modo inequívoco que a Igreja não apenas existe agora, pela
    primeira vez, como assim desde o princípio, porque era espiritual, como
    nosso Jesus também era espiritual; porém, foi manifestada nos últimos dias
    para que Ele possa nos salvar.
    Pois bem: sendo a Igreja espiritual, foi manifestada na carne de Cristo, com
    o qual nos mostrou que, se alguns de nós a guarda na carne e não a
    contamina, a receberá novamente no Espírito Santo, pois esta carne é a
    contrapartida e a cópia do espírito. Nenhum homem que tenha
    contaminado a cópia, pois, receberá o original como porção suja. Isto é,
    portanto, o que Ele quer dizer, irmãos: Guardai a carne para que possais
    participar do espírito. Porém, se dizemos que a carne é a Igreja e o espírito é
    Cristo, então o que trabalhou de forma corruptível com a carne também
    trabalhou de forma corruptível com a Igreja. Logo, este não participará do
    espírito, que é Cristo. Tão excelente é a vida e a imortalidade que esta carne
    pode receber como sua porção o Espírito Santo que vai unido a ela.
    Ninguém pode declarar ou dizer "as coisas que Senhor preparou" para os
    seus eleitos. [para os imortalistas, a carne não “pode” receber, mas “vai” receber a vida e a imortalidade, pois eles declaram que os justos viverão eternamente com seus corpos no céu e os ímpios eternamente com os seus corpos no inferno]

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  5. Continuando:
    XIX. Recompensa dos justos, ainda que possam sofrer
    Portanto, irmãos e irmãs, após ouvir o Deus da verdade, leio-vos uma
    exortação a fim de que possais prestar atenção às coisas que estão escritas,
    para que possais salvar-vos a vós mesmos e aos que vivem no meio de vós.
    Peço-vos como que uma recompensa: arrependei-vos de todo coração e
    procureis a salvação e a Vida. ... Bem-aventurados aqueles que obedecem estes mandamentos; ainda que precisem sofrer aflição por um breve momento no mundo, reconhecerão o fruto imortal da ressurreição.

    XX. As verdadeiras riquezas
    ... Ao único Deus invisível, Pai da verdade, que nos enviou o Salvador e
    Príncipe da imortalidade, por meio do qual Deus também nos manifestou a
    verdade e a vida celestial: a Ele seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

    Ele cita isto:
    XVII. [continuação]
    ... E "os vermes não morrerão e seu fogo não se apagará, e servirão de
    exemplo para toda a carne". Está dito do dia do juízo, que os homens verão
    aqueles que, entre vós, viveram vidas ímpias e tiveram obras falsas quanto
    aos mandamentos de Jesus Cristo. Porém, os justos, tendo boas obras e
    sofrido tormentos, bem como aborrecido os prazeres da alma, quando
    contemplarem aos que têm obras más e negaram a Jesus com suas palavras e
    atos, sendo castigados com penosos tormentos e um fogo inextingüível,
    darão glória a Deus, dizendo: "Há esperança para Aquele que serviu a Deus
    de todo coração".

    Mas isto não é problema, pois você já explicou o significado do “verme imortal” e do “fogo inextinguível”.

    Depois leia aí as duas epístolas para ver se você encontra mais alguma coisa e refuta alguma ou outra passagem que os imortalistas queiram usar!

    Paz e graça!

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    Respostas
    1. Oi Felipe, obrigado por transcrever aqui estes valiosos textos da segunda epístola de Clemente. Eu não trabalhei com essa epístola em meu livro porque é duvidoso se foi realmente o Clemente romano quem escreveu esta carta, mas indiscutivelmente ela foi escrita em até meados do século II d.C, portanto remete a tempos nos quais a Igreja ainda não trabalhava com a ideia de imortalidade da alma. Me chamou atenção dois pontos interessantes nesta epístola, começando por como Clemente cita o texto de Mateus 10:28:

      "Vós também não deveis temer os que vos matam e nada mais podem fazer. Temei antes Aquele que, depois de tiverdes morrido, tem poder sobre a vossa alma e vosso corpo, para atirá-los na geena de fogo"

      Veja que Clemente faz sua versão do texto que não tem nada a ver com a versão que os imortalistas trazem. Para os imortalistas o significado do texto de Mt.10:28 é que existe uma alma imortal que sobrevive à morte corporal. Eu já expliquei este texto milhares de vezes, em especial aqui:

      http://desvendandoalenda.blogspot.com.br/2012/12/podem-matar-o-corpo-mas-nao-alma.html

      Me surpreendeu ver que Clemente tem exatamente a MESMA interpretação minha, e eu juro que não tirei essa interpretação dele. Eu já tinha lido a segunda epístola de Clemente mas não tinha notado este detalhe. Clemente tinha a mesma interpretação textual que eu expus no artigo (e que também está no meu livro). Isso me surpreendeu bastante, positivamente, é claro, uma vez que mostra que os primeiros cristãos tinham precisamente esta mesma interpretação que eu expus.

      Também me chamou atenção a parte que diz:

      "Bem-aventurados aqueles que obedecem estes mandamentos; ainda que precisem sofrer aflição por um breve momento no mundo, reconhecerão o fruto imortal da ressurreição"

      Veja que Clemente diz que o momento em que os cristãos seriam recompensados com a imortalidade é na ressurreição, e não antes disso. Ele diz que agora passamos por muitas aflições, mas chegará o momento do alívio, da vitória, da recompensa, e este momento está relacionado com o "fruto imortal da ressurreição". A ressurreição sempre foi o foco dos primeiros cristãos, o momento em que eles vislumbravam sua recompensa e coroação futura, depois de batalhar tanto tempo aqui na terra. Lastimavelmente, depois que a imortalidade da alma entrou no seio do Cristianismo a doutrina da ressurreição foi sendo cada vez mais ofuscada, ao ponto de hoje praticamente não ser mais ensinada em púlpito nenhum.

      Grande abraço!

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  6. Agora esses textos são do Clemente de Roma verdadeiro, a 1ª Epístola de Clemente aos Coríntios, e vê-se claramente que ele cria na mortalidade da alma:

    1º) Ele cria que a "vida em imortalidade" era um "presente" ou "dom" e que é necessário lutar "para nos tornarmos participantes de Seus dons prometidos":
    CAPÍTULO 35: 1 – 4
    Meus amados, como são ricos e admiráveis os presentes [ou dons!] de Deus! Vida em imortalidade, esplendor em justiça, verdade em liberdade, fé em confiança, continência em santidade... e tudo isso chegou ao nosso conhecimento.
    Então, o que não há de estar preparado para os que nele aguardam? O Criador e Pai dos séculos, o próprio Santíssimo conhece a grandeza e a beleza de seus dons. Lutemos, assim, para sermos contados no número dos que Nele esperam, para nos tornarmos participantes de Seus dons prometidos. [Lutar por algo que já se possui? – o dom da vida em imortalidade]

    2º) Ele disse que é "atravé dele (de Jesus)" que nos podemos "saborear" o "conhecimento imortal":
    CAPÍTULO 36: 1-2
    Amados irmãos, este é o caminho no qual encontramos a nossa salvação:
    Jesus Cristo, o sumo-sacerdote de nossas oferendas, o protetor e auxílio em
    nossa fraqueza. Por ele, olhamos para o alto dos céus. Através dele, descobrimos a face
    imaculada e soberana de Deus. Através dele, abriram-se os olhos do nosso
    coração. Através dele, nossa inteligência obtusa e obscura se abre ao
    encontro da luz. Através dele, o Senhor quis que saboreássemos do
    conhecimento imortal. Sendo Ele o esplendor de Sua grandeza, é tanto
    maior que os anjos, tendo recebido em herança um nome superior ao deles. [Através do Senhor Jesus é que temos o conhecimento imortal]

    3ª) Citando Isaías 53:12, ele diz, no capítulo 16, verso 13, da Epístola dele que a ALMA de Jesus foi entregue à morte:
    “Por isso terá multidões como herança e distribuirá os troféus dos poderosos pelo fato de sua ALMA ser entregue à MORTE e ele ter sido contado entre os ímpios.”

    Agora olha o texto original de Isaías: Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua ALMA na MORTE, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores. Isaías 53:12

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  7. Agora olha ele (Clemente de Roma) falando da ressurreição dos mortos, com uma esperança que nenhum imortalista tem a respeito dela:
    1º CLEMENTE
    CAPÍTULO XXIV
    1 - Amados, observemos como o Senhor não cessa de dar-nos provas de que, no futuro, a ressurreição se concretizará. Deu-nos prova dela primeiramente ressuscitando Jesus Cristo dos mortos.
    2 - Amados, vejamos como se dá a ressurreição há seu tempo.
    3 - O dia e a noite nos manifestam a ressurreição: dorme a noite, ressuscita o dia; o dia se retira, chega a noite.
    4 - Exemplifiquemos com os frutos da terra: como e de que modo faz-se a semeadura?
    5 - O semeador sai e espalha, semente por semente, pela terra lavrada, que caem secas e nuas sobre a terra e aí se desfazem; desta decomposição, a grandiosa providência do Senhor as ressuscita, de forma que, de uma, aumentam para muitas e produzem fruto.
    CAPÍTULO XXV
    1 - Consideremos o sinal prodigioso que ocorre na região oriental, isto é, nas terras próximas da Arábia.
    2 - Aí existe um pássaro chamado fênix, único na espécie e que vive quinhentos anos. Quando está para morrer, ergue seu próprio sepulcro usando incenso, mirra e outras plantas aromáticas e, ao completar seu tempo, aí se introduz e morre.
    3 - De sua carne em decomposição nasce uma larva que se alimenta da matéria putrefata do animal morto e cria asas; quando se torna forte, levanta o sepulcro onde se encontram os restos de seu ancestral e carrega-o, voando da terra da Arábia até a cidade do Egito chamada Heliópolis.
    4 - E, em plena luz do dia, aos olhos de todos, transporta e depõe aqueles restos sobre o altar do sol; a seguir, retoma o voo de volta.
    6 - Então os sacerdotes examinam os calendários e percebem que ele chegou ao se completarem quinhentos anos.
    CAPÍTULO XXVI
    1 - Devemos, então, considerar grandioso e estranho o fato de o Criador operar a ressurreição de todos aqueles que lhe serviram santamente na confiança de uma boa fé, se ele ilustra até por um pássaro a grandeza de sua promessa?
    2 - Lê-se em alguma parte: "Hás de me ressuscitar e eu te louvarei". E: "Deitei-me e adormeci; levantei-me porque tu estás comigo".
    3 - E Jó adverte novamente: "Ressuscitarás minha carne que suportou todo esse sofrimento".
    CAPÍTULO XXVII
    1 - Que nossas almas se apeguem por uma esperança assim Àquele que é fiel em Suas promessas e justo em Seus juízos.
    2 - Aquele que proibiu a mentira, tampouco haverá de mentir, pois nada junto a Deus é impossível, exceto a mentira.
    3 - Portanto, que se acenda novamente dentro de nós a fé Nele e reconheçamos que todas as coisas estão próximas Dele.
    4 - Com apenas uma palavra de sua grandeza, estabeleceu tudo e, com uma só palavra, pode destruir tudo.
    5 - Quem diria a Ele: "O que fizeste?", e quem resistiria à força do seu poder? Fará tudo quando e como quiser. Nada das coisas que ordenou haverá de passar.
    6 - Tudo está diante de Seus olhos, nada escapa de Sua determinação.
    7 - Os céus anunciam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de Suas mãos. O dia comunica a façanha ao dia, a noite transmite seu conhecimento à noite. Não há palavras nem discursos em que suas vozes não são ouvidas.

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  8. Alguém sabe onde posso encontrar o Dialogo com Trifão em portugues e PDF?

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    1. Diálogo com Trifão, infelizmente, só tem em inglês (até que alguém o traduza).

      Você pode ver aqui:

      http://www.newadvent.org/fathers/0128.htm

      Abraços.

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  9. Agora complicou, verificando na fonte que você me passou, estar realmente como você citou mas diferente dessa que encontrei, http://teofilando.blogspot.com.br/2012/10/dialogo-com-trifao-parte-i.html

    A questão é saber qual estar certa.

    Pra mim faz mais sentido essa que postei.

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    1. A que eu passei é uma referência internacional, usada por todo mundo em todo lugar. De qualquer forma, eu não notei diferença de um para o outro, exceto no fato de que eu passei referências de TODA a obra, enquanto aquele site pegou apenas os primeiros capítulos e deixou todo o resto (ou seja, a grande maioria) sem traduzir. Mas note que as partes principais (as que foram citadas aqui) estão mais ou menos iguais à forma com que está lá, inclusive na parte principal do Diálogo em que Justino refuta que as almas sejam imortais:

      – Portanto, esses filósofos nada sabem sobre essas questões, pois não são capazes de dizer sequer o que é a alma.
      – Parece que não sabem.
      – Tampouco, se pode dizer que ela seja imortal, porque, se é imortal, é claro que deva ser incriada.
      Eu lhe disse:
      – De fato alguns, chamados platônicos, a consideram incriada e imortal.
      Ele perguntou:
      – Tu também consideras o mundo incriado?
      – Alguns dizem isso, mas eu não tenho a mesma opinião.
      – Fazes muito bem. Com efeito, por qual motivo um corpo tão sólido, resistente, composto e variável e que a cada dia morre e nasce, procederia de algum princípio? Todavia, se o mundo é criado, forçosamente as almas também o serão e haverá um momento em que elas não existirão. De fato, foram feitas por causa dos homens e dos outros seres vivos, ainda que digas que elas foram criadas completamente separadas e não junto com seus próprios corpos.
      – Parece que é exatamente assim.
      – Então são imortais.
      – Não, uma vez que o mundo se manifesta como criado.
      – Contudo, eu não afirmo que todas as almas morram. Isso seria uma verdadeira sorte para os maus. Digo, então, que as almas dos justos permanecem num lugar melhor e as injustas e más ficam em outro lugar, esperando o tempo do julgamento. Desse modo, as que se manifestaram dignas de Deus não morrem; as outras são castigadas enquanto Deus quiser que existam e sejam castigadas.

      (...)

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    2. – Por acaso, estás dizendo o mesmo que Platão sugere no Timeu a respeito do mundo, isto é, que em si mesmo, enquanto foi criado, ele também é corruptível, mas não se dissolverá, nem terá parte na morte por vontade de Deus? Pensas o mesmo também a respeito da alma e, em geral, a respeito de todo o resto?
      – Com efeito, além de Deus, tudo o que existe ou há de existir possui natureza corruptível e sujeita a desaparecer e deixar de existir. Apenas Deus é incriado e incorruptível e, por isso, ele é Deus; mas, além dele, todo o resto é criado e corruptível. Por esse motivo, as almas morrem e são castigadas. De fato, se fossem incriadas, elas não pecariam, nem estariam cheias de insensatez, nem seriam covardes ou temerárias, nem passariam voluntariamente para os corpos de porcos, serpentes ou cães, nem seria lícito obrigá-las a isso, caso fossem incriadas. De fato, o incriado é semelhante ao incriado e não apenas semelhante, mas igual e idêntico, sem que seja possível um ultrapassar o outro em poder ou em honra. Daí se conclui que não é possível existir dois seres incriados. De fato, se neles houvesse alguma diferença, jamais poderíamos encontrar a causa dela, por mais que a procurássemos; pelo contrário, remontando com o pensamento até o infinito, teríamos que parar, vencidos, num só incriado, e dizer que ele é a causa de todo o mais.
      Eu perguntei:
      – Por acaso, tudo isso passou distraído a Platão e Pitágoras, homens sábios, que se tornaram para nós como a muralha e fortaleza da filosofia?
      Ele me respondeu:
      – Não me importo com Platão ou Pitágoras ou qualquer outra pessoa que tenha sustentado essas opiniões. De fato, a verdade é esta e podes compreendê-la com o seguinte raciocínio: a alma ou é vida ou tem vida. Se ela é vida, terá que fazer viver outra coisa e não a si mesma, da mesma forma que o movimento move outra coisa mais do que a si mesmo. Ninguém poderá contradizer o fato de que a alma viva. Portanto, se ela vive, ela não vive por ser vida, mas porque participa da vida. Uma coisa é aquilo que participa e outra aquilo do qual participa. Se a alma participa da vida é porque Deus quer que ela viva. Portanto, da mesma forma, um dia ela deixará de participar, quando Deus quiser que ela não viva. De fato, o viver não é próprio dela como o é de Deus. Como o homem não subsiste sempre e a alma não está sempre unida ao corpo, mas quando chega o momento de se desfazer essa harmonia, a alma abandona o corpo e o homem deixa de existir. De modo semelhante, chegando o momento em que a alma tenha que deixar de existir, o espírito vivificante se afasta dela e a alma deixa de existir, voltando novamente para o lugar de onde tinha sido tomada.

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  10. A diferença estar aqui:

    Na fonte que você me passou estar como você citou:

    Justino: O que você diz, então, é de uma natureza similar com o que Platão ensina sobre o mundo, quando ele diz que ele é realmente sujeito à decadência, na medida em que foi criado, mas que nem vai ser dissolvido, nem encontrar-se com o destino da morte por conta da vontade de Deus. Parece-lhe que o mesmo pode ser dito da alma, e em geral de todas as coisas? Para as coisas que existem depois de Deus, ou em qualquer momento existem, estas têm a natureza de decadência, e podem ser apagadas e deixarem de existir, pois só Deus é ingênito e imortal, e por isso mesmo Ele é Deus, mas todas as outras coisas criadas por Ele são corruptíveis. Por esta razão ambas as almas morrem, uma vez que, se fossem ingênitas, elas nem teriam pecado, nem seriam preenchidas com a loucura, e nem seriam covardes ou ferozes; nem seriam de bom grado se transformarem em porcos e as serpentes em cães, se fossem não-geradas.

    Já na que eu encontrei traduzida essa pergunta é separada, e podemos identificar que realmente é feita por Justino quando ainda era platônico e por ser platônico acreditava na imortalidade da alma:

    – Por acaso, estás dizendo o mesmo que Platão sugere no Timeu a respeito do mundo, isto é, que em si mesmo, enquanto foi criado, ele também é corruptível, mas não se dissolverá, nem terá parte na morte por vontade de Deus? Pensas o mesmo também a respeito da alma e, em geral, a respeito de todo o resto?

    A diferença é essa: essa resposta é separada aparentando ser do velho cristão.

    – Com efeito, além de Deus, tudo o que existe ou há de existir possui natureza corruptível e sujeita a desaparecer e deixar de existir. Apenas Deus é incriado e incorruptível e, por isso, ele é Deus; mas, além dele, todo o resto é criado e corruptível. Por esse motivo, as almas morrem e são castigadas. De fato, se fossem incriadas, elas não pecariam, nem estariam cheias de insensatez, nem seriam covardes ou temerárias, nem passariam voluntariamente para os corpos de porcos, serpentes ou cães, nem seria lícito obrigá-las a isso, caso fossem incriadas. De fato, o incriado é semelhante ao incriado e não apenas semelhante, mas igual e idêntico, sem que seja possível um ultrapassar o outro em poder ou em honra. Daí se conclui que não é possível existir dois seres incriados. De fato, se neles houvesse alguma diferença, jamais poderíamos encontrar a causa dela, por mais que a procurássemos; pelo contrário, remontando com o pensamento até o infinito, teríamos que parar, vencidos, num só incriado, e dizer que ele é a causa de todo o mais.

    Analisando o dialogo de Justino com o velho como um todo, vemos que é mais coerente que essa resposta realmente seja do velho e não de Justino visto que é a narrativa da conversão de Justino ao cristianismo. Como Justino não era cristão e sim platônico era ele quem acreditava na imortalidade, já o velho que era cristão defendia que só há um ser incriado e por isso incorruptível, imortal. No final do capitulo vemos Justino confirmar isso e pregar para Trifão. Quanto as demais citações a respeito desse dialogo, até onde pude verificar estão iguais e realmente Justino após sua conversão passou a discordar e condenar quem cria na imortalidade da alma, vemos isso no capitulo 80.

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    1. Concordo com você, obrigado pela explanação.

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  11. O que se ganha querendo provar que a alma não é imortal? Sendo a alma mortal ... ela não RESSUCITARIA ...

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    1. O que se ganha? Quer mesmo que eu faça uma lista?

      1) Fim de praticamente TODOS os falsos sistemas religiosos fundamentados na crença na existência de uma alma imortal que sobrevive ao corpo depois da morte (catolicismo, islamismo, hinduísmo, budismo, seitas orientais, espiritismo, Nova Era, etc).

      2) Fim do purgatório e do limbo.

      3) Fim de falsos ensinos como intercessão e canonização dos santos.

      4) Fim do culto aos mortos ou reza pelos defuntos.

      5) Fim da reencarnação.

      6) Fim de doutrinas que só apavoram as pessoas e as afastam da fé com sérias dúvidas sobre o caráter de Deus, como o tormento eterno.

      7) Fim da idolatria por alguém que já morreu.

      8) Fim das solenidades em honra aos mortos.

      9) Fim da missa aos mortos.

      10) Fim do culto às imagens de mortos.

      Eu posso continuar a lista até 2050, se quiser.

      Quanto à sua objeção final, ela só demonstra o quanto os imortalistas carecem da capacidade de um mínimo de raciocínio lógico. É JUSTAMENTE pelo fato de a alma morrer que ela pode ressuscitar, afinal de contas NÃO SE RESUSSCITA ALGO QUE ESTÁ VIVO, só se ressuscita alguma coisa que está morta, caso contrário o próprio conceito de ressurreição perde completamente o sentido.

      Estude. Estudar faz bem e não morde.

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