Breve resumo do preterismo



O preterismo é a crença de que a grande tribulação apocalíptica já aconteceu em 70 d.C e diz respeito à guerra travada entre Jerusalém e Roma nesta época, com a consequente destruição do templo e o fim do sacerdócio judaico. Essa corrente teológica se divide em dois grupos principais:
                                
PRETERISMO PARCIAL

Os preteristas parciais ensinam que a tribulação de fato ocorreu em 70 d.C, mas outros eventos apocalípticos como a segunda vinda de Cristo, a ressurreição dos mortos e o estabelecimento de novos céus e nova terra são eventos futuros. Assim, eles fazem uma grande confusão com o livro de Apocalipse, reinterpretando-o da forma que mais lhes apraz, ainda que corrompa os princípios básicos da exegese.

Por exemplo, eles dizem que o Apocalipse é puramente simbólico dos capítulos 1 até o 18, não descrevendo eventos literais; porém, o capítulo 19 deve ser entendido de forma literal, pois Jesus retornará literalmente no fim dos tempos. Entretanto, o capítulo seguinte (20) é de novo interpretado alegoricamente pelos preteristas parciais, pois eles não creem em um milênio literal e nem em um aprisionamento literal de Satanás ou em uma batalha de Gogue e Magogue (v.8).

Entretanto... os capítulos 21 e 22 são de novo entendidos de forma literal ou parcialmente literal, visto que creem em novos céus e nova terra, nas bodas do Cordeiro, que Deus fará novas todas as coisas e que enxugará toda a lágrima. Ou seja: o preterismo parcial é uma completa salada de frutas, onde os seus “intérpretes” podem fazer com o Apocalipse o que bem entenderem e considerarem como “literal” ou “simbólico” o que lhes der na telha, não importa o contexto. O seguinte quadro abaixo dos acontecimentos registrados no Apocalipse vem seguido da interpretação que os preteristas parciais dão a estes eventos e de uma refutação à confusão criada por eles:

Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
A queda da Babilônia (vs.1-24)
Bodas do Cordeiro (v.7)

Volta de Jesus (vs.11-16)

A besta e os reis da terra batalham contra o povo de Deus (v.19)

Besta e Falso Profeta lançados vivos no lago de fogo (v.20)
Satanás é preso por mil anos (v.2)

Ressurreição dos mortos (v.4)

Satanás é solto da prisão depois dos mil anos (v.7)

Batalha de Gogue e Magogue (v.8)

Diabo lançado para sempre no lago de fogo (v.10)

Juízo Final dos mortos (v.12)

Se vocês notarem, verão que pela cronologia do preterismo parcial a queda da Babilônia (identificada como sendo Jerusalém) ocorre em 70 d.C. Mas logo em seguida entra em cena as bodas do Cordeiro e a volta de Jesus – aí não é mais 70 d.C, é para o fim dos tempos mesmo! Só que, para a infelicidade deles, logo depois a besta faz guerra contra o povo de Deus, e, como eles identificam a besta como um personagem ou um império do século I d.C, novamente João está retratando acontecimentos de 70 d.C. E a besta e o falso profeta (que, segundo eles, reinaram em 70 d.C) foram lançados vivos no lago de fogo, sinal de que João tinha mesmo regressado a 70 d.C depois de narrar um acontecimento futuro.

Então Satanás é preso, mas aí ocorre a ressurreição dos mortos, acontecimento que eles creem ser futuro (a maioria dos preteristas parciais crê na ressurreição da carne no fim dos tempos, apenas uma parcela não crê). Ou seja: João saiu de novo de 70 d.C e veio parar no fim dos tempos. E ele narra Satanás sendo solto depois do milênio (se nós estamos atualmente no milênio e Satanás é solto depois do milênio, então é um acontecimento futuro e não de 70 d.C).

Maaassss.... logo após ele ser solto depois dos mil anos ocorre a revolta de Gogue e Magogue, que é uma batalha final entre o remanescente de Satanás e os servos de Deus. Então eles não perdem tempo e logo situam como uma figura da guerra de 70 d.C! Como se não bastasse, logo em seguida a esta guerra ocorre o lançamento do diabo no lago de fogo e o juízo final, que eles creem que são acontecimentos futuros (ou seja, João saiu de novo de 70 d.C e voltou a falar do fim dos tempos mais uma vez...).

Enfim, essa cronologia maluca feita pelos preteristas parciais nos mostra como que essa vertente teológica sequer pode ser levada a sério. Os preteristas completos são mais coerentes neste sentido: afirmam que todos estes acontecimentos, sem exceção, já aconteceram em 70 d.C. Mas quando um preterista parcial escolhe alguns destes acontecimentos e os joga para 70 d.C e depois arbitrariamente escolhe outros destes eventos e os lança para o fim dos tempos, ainda que o texto bíblico mostre uma sucessão lógica de acontecimentos e não uma drástica revira-volta na cronologia dos fatos, mostra que realmente não sabe o que fazer com o Apocalipse em mãos. É uma contradição atrás da outra.

João narrava um fato em sequencia do outro: por exemplo, Satanás é solto da prisão e então começa a revolta de Gogue e Magogue. Portanto, não pode ser que Satanás seja solto num futuro distante depois do término do milênio, se a revolta de Gogue e Magogue já aconteceu figurativamente em 70 d.C. Ou tudo aconteceu em 70 d.C, ou tudo isso ocorrerá no futuro. Essa completa inconsistência do preterismo parcial diante dos eventos escatológicos é o que fez com que a parcela de adeptos do preterismo parcial fosse caindo cada vez mais através dos tempos para ir aumentando o número de adeptos do preterismo completo, que, embora muito mais herético, pelo menos tem bom senso em seguir uma linha lógica de acontecimentos, onde o 1 vem antes do 2, o 2 vem antes do 3 e o 3 vem antes do 4, e não onde está tudo misturado e vira a maior confusão.

Mas o principal problema do preterismo parcial é mesmo que ele faz uma desassociação entre a tribulação e a segunda vinda, que são acontecimentos que ocorrem um logo em seguida do outro. Eles terão principalmente que explicar o porquê que todos os evangelistas que descreveram a tribulação e a volta de Jesus posicionaram ambos os acontecimentos como sendo simultâneos, na mesma época, um logo em seguida do outro. Em Marcos, o evangelista deixa claro que a tribulação e a segunda vinda aconteceriam “naqueles mesmos dias”, e não em épocas diferentes:

“Ora, naqueles dias, depois daquela aflição, o sol se escurecerá, e a lua não dará a sua luz. E as estrelas cairão do céu, e as forças que estão nos céus serão abaladas. E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória” (Marcos 13:24-26)

O evangelista Mateus, por sua vez, diz que Jesus voltaria em glória “logo depois” da tribulação:

“E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Mateus 24:29-30)

Lucas, o médico amado, segue a mesma linha dos outros dois evangelistas e emprega o termo “então” (tote, no grego, que significa “naquele momento”, ligando dois acontecimentos) entre a tribulação e a volta de Jesus:

“E haverá sinais no sol e na lua e nas estrelas; e na terra angústia das nações, em perplexidade pelo bramido do mar e das ondas. Homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que sobrevirão ao mundo; porquanto as virtudes do céu serão abaladas. E então verão vir o Filho do homem numa nuvem, com poder e grande glória” (Lucas 21:25-27)

Fica claro, portanto, que os três evangelistas descreveram nitidamente de formas diferentes o mesmo princípio básico: de que Jesus volta imediatamente em seguida da grande tribulação. Absolutamente nenhum deles passou entender um intervalo longo (como de dois mil anos ou mais) entre um e outro acontecimento. Ao contrário, deixaram evidente que aconteceria “logo em seguida, naqueles dias, então...”. Isso faz com que o preterismo completo caia em total descrédito diante da comunidade acadêmica séria.


PRETERISMO COMPLETO

Os preteristas completos são pelo menos mais honestos e coerentes consigo mesmos: creem que, se a tribulação já ocorreu, então Jesus já voltou. Sendo assim, eles datam a tribulação e a segunda vinda de Cristo para 70 d.C. Mas isso, ao invés de explicar alguma coisa, apenas aumenta os problemas e multiplica imensamente as heresias. Na verdade, o que este ensino traz consigo são várias outras heresias que são extremamente mais destrutivas do que o próprio preterismo parcial.

Um exemplo claro disso é que eles são forçados a negarem a ressurreição da carne, pois, se Jesus já voltou em 70 d.C e a ressurreição ocorre na segunda vinda de Cristo (1Co.15:22,23; 1Ts.4:15), e em 70 d.C ninguém ressuscitou corporalmente, “conclui-se” que não existe ressurreição da carne. Sendo obrigados, portanto, a negarem a ressurreição física por causa do preterismo deles, eles são forçados a buscarem versículos isolados nas Escrituras que lhes sirvam de pretexto para fundamentar essa e outras heresias junto aos saduceus, gnósticos e outros grupos heréticos que negavam a ressurreição da carne.

Os preteristas completos negam toda a história do Cristianismo ortodoxo, que sempre ensinou a ressurreição física. Paulo foi zombado pelos gregos porque pregava a ressurreição da carne que os gregos não criam (At.17:18-33), afirmou também que a sua maior esperança como cristão era na ressurreição da carne (At.26:6-8), se juntou na assembleia com os fariseus que pregavam a ressurreição da carne e contra os saduceus que negavam a ressurreição física (At.23:6-10), afirmou que sem a ressurreição os mortos já teriam perecido e a nossa esperança em Cristo se limitaria apenas a esta presente vida (1Co.15:18,19), e que, neste caso, seria melhor comer, beber e depois morrer (1Co.15:32).

Ele ensinou que o corpo físico seria ressuscitado para se tornar um corpo glorioso (1Co.15:42,43), seguindo o ensinamento de Jesus, que afirmou que os corpos que estão nos túmulos um dia sairiam para a ressurreição da vida ou da condenação (Jo.5:28,29). Paulo pregou também que Deus dará vida aos nossos corpos mortais, se referindo ao corpo físico (Rm.8:11), e que Deus transformará os nossos corpos humilhados para tornar semelhante ao corpo glorioso de Cristo (Fp.3:20,21), que, por sua vez, ressuscitou fisicamente e literalmente (Lc.29:39-43; At.2:30; Jo.1:19-21).

Paulo dá o xeque-mate em tais descrentes na ressurreição física ao afirmar que aqueles que criam que a ressurreição já havia passado (por crerem que era puramente espiritual representando o novo nascimento) eram hereges e estavam pervertendo a fé cristã (2Tm.2:17-18). Não há como negar este ensino tão claro e evidente da ressurreição da carne, a não ser para quem já está desesperado em encontrar algum pretexto “bíblico” para não crer em um fundamento tão óbvio. A crença na ressurreição da carne era tão universal entre os cristãos que foi mantida e pregada por todos os discípulos dos apóstolos que conviveram com eles, tais como Inácio (35 – 107), Clemente (35 – 97) e Policarpo (69 – 155), que inclusive foi discípulos do próprio apóstolo João. É por isso que o Credo Apostólico diz claramente: “creio na ressurreição da carne”.

Os primeiros cristãos tiveram que formular enormes tratados provando a ressurreição da carne e refutando os pagãos que não criam nesta doutrina fundamental do Cristianismo. Justino escreveu um tratado sobre a ressurreição, Teófilo escreveu três livros a Autólico provando a ressurreição, Taciano em seu Discurso contra os Gregos refutou a incredulidade destes numa ressurreição física, e Irineu desempenhou um brilhante papel na defesa da ressurreição da carne em seu famoso tratado “Contra as Heresias”, onde ele refuta as heresias gnósticas, dentre elas a descrença na ressurreição da carne.

Absolutamente todos os Concílios, todos os Credos e todas as Confissões de Fé da Igreja Primitiva e das igrejas reformadas continuaram ensinando a ressurreição da carne. Infelizmente, tais preteristas completos precisam desesperadamente negar a ressurreição física e desmentir dois mil anos de Cristianismo que sempre ensinou essa doutrina, pois, doutra forma, o preterismo completo iria à sua total ruína. Não só isso, mas o preterismo completo também é obrigado a negar a existência atual dos dons espirituais, visto que Paulo disse que cessariam quando Jesus voltasse (1Co.13:8-10). Paulo também dizia que conhecia a Deus apenas parcialmente, e que somente quando Jesus voltasse nós o conheceríamos plenamente, e João diz que neste momento veremos Deus face a face (1Co.13:2 com 1Jo.3:2).

Sendo que os preteristas creem que Jesus já voltou, isso significa que nós (diferentemente dos apóstolos) já conhecemos Deus plenamente, e já O estamos vendo face a face! Ainda mais mirabolante do que isso é crer que novos céus e nova terra já foram feitos e não existe mais mar (Ap.21:1), e que Deus já enxugou dos olhos toda a lágrima e já não mais existe pranto, morte, luto, choro e nem dor, pois essas coisas já passaram (Ap.21:4). Certamente, o preterismo nos leva aos maiores disparates bíblicos sem noção e sem precedentes na história, a verdadeiros malabarismos com a Bíblia na mão e a um total desprezo à história e à ortodoxia cristã, derrubando os mais históricos fundamentos cristãos para sustentar uma tese herética, antibíblica e cheia de engano.


CONCLUSÃO

Diante deste quadro, vemos que o preterismo só leva os seus leitores de um abismo para outro abismo. O mais sábio e correto diante das Escrituras é crer no futurismo bíblico, que está de acordo com o fato de que Jesus voltará futuramente vindo sobre as nuvens e que todo olho O verá (Ap.1:7), que a ressurreição dos mortos ainda irá acontecer por ocasião desta segunda vinda (Ap.20:4) e que Deus criará novos céus e nova terra onde, aí sim, não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap.21:4).

Corrobora com tudo isso o fato de que historicamente João escreveu apenas em 95 d.C, no final do reinado de Domiciano, fato este que era unaminidade entre os Pais da Igreja. Sendo que João descrevia acontecimentos futuros, fica evidente que não se tratava de uma guerra local entre Jerusalém e Roma, vinte e cinco anos antes. Além disso, a Bíblia descreve a tribulação como sendo um acontecimento global, que engloba “todas as nações da terra” (Mt.24:30) e que está para vir sobre todo o mundo, para pôr à prova os que habitam na terra” (Ap.3:10).

Desta forma, é incorreto pensarmos que o Apocalipse diz respeito a eventos passados sobre uma guerra local, que Jesus já voltou e a ressurreição nunca aconteceu. O mais correto é ficarmos com a clareza das Escrituras do que com os malabarismos de quem insiste em defender uma crença ferrenhamente antibíblica, e que por fim acaba apenas aumentando os problemas a serem superados. Defender o ponto de vista bíblico do futurismo significa não ter que fazer malabarismos nem manobras com a Bíblia na mão para forçar um texto a dizer aquilo que precisa dizer para se encaixar em alguma tese humana.

Significa poder deixar o texto fluir livremente em seu sentido mais natural, ao invés de obrigatoriamente ter que forçar ao extremo as metáforas, alegorizando radicalmente todas as descrições escatológicas que foram feitas por Jesus e pelos apóstolos, e todo o livro de Apocalipse. Significa poder manter as doutrinas cristãs mais ortodoxas que sempre serviram de fundamento para o Cristianismo, em mais especial a ressurreição física dos mortos para a vida eterna ou para a condenação.

E, principalmente, significa manter viva a chama da esperança em uma segunda vinda de Cristo a esta terra, “para trazer salvação àqueles que o esperam” (Hb.9:28). Esperemos com paciência e grande ânimo essa segunda vinda, quando ele de fato enxugará toda a lágrima e o mal será verdadeiramente extinto do mundo, e não onde ele já fez tudo isso de mentirinha.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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