Jerônimo cria na primazia do bispo de Roma?


Alguns católicos se utilizam dos escritos de Jerônimo para apoiar a tese do primado jurisdicional da Igreja de Roma, em particular ao bispo romano. É verdade que muitas vezes Jerônimo colocava o bispo de Roma em um patamar de honra e autoridade na Igreja, mas não é verdade que ele o classificava como estando acima dos demais. Como podemos ter certeza disso? Simplesmente porque Jerônimo considerava os outros bispos também como “papas”, e vai além e diz ao bispo de Alexandria que ele era “o mais abençoado papa” da Igreja: 

”Jerônimo para o mais abençoado papa Teófilo [Alexandria]”(Jerônimo, Letter 63, To Theophilus) 

Isso prova que ele não considerava o bispo de Roma como sendo o único “papa”, mas considerava em igualdade todos os bispos, como merecedores deste título. Ademais, será que pelo fato de que ele disse que Teófilo, bispo de Alexandria, era “o mais abençoado papa”, significa que ele estava em um patamar de superioridade em relação a todos os outros bispos, que era infalível em ex cathedra ou que era um “bispo dos bispos”? É claro que não. 

Se isso vale para Teófilo, por que razão deveria ser diferente com o bispo romano? De fato, se Jerônimo cresse que o bispo romano fosse o cabeça de toda a Igreja e estivesse em um patamar autoritativo de superioridade em relação a todos os outros bispos, ele não teria escrito que Teófilo era o papa mais abençoado da Igreja, pois o maior seria o próprio bispo de Roma. Porém, Jerônimo vai além e diz ao bispo de Alexandria: 

“Jerônimo, para o mais abençoado papa, Teófilo. A letra da sua santidade me deu um duplo prazer, em parte porque pelo o que ela trouxe aos seus portadores, os estimáveis homens, bispo Ágato e diácono Atanásio, e em parte porque tem mostrado o seu zelo pela fé contra uma heresia das mais perversas. A voz da sua santidade tem tocado em todo o mundo, e para a alegria de todas as igrejas de Cristo as sugestões venenosos do diabo foram silenciadas(...) Ao mesmo tempo peço que se você tem qualquer influência sobre o assunto dos decretos sinodais, que você encaminhe a mim, para que, fortalecido com a autoridade de um prelado tão grande, eu possa abrir minha boca para Cristo com mais liberdade e confiança. O presbítero Vincent chegou de Roma há dois dias e o saúda humildemente. Ele me diz uma e outra vez que Roma e quase toda a Itália devem a sua libertação, depois de Cristo, às suas cartas. Prova de diligência, portanto, do mais amoroso e mais abençoado papa, e sempre que tiver oportunidade de escrever aos bispos do Ocidente não hesite em suas próprias palavras - para cortar com uma foice afiada os brotos do mal” (Jerônimo, Letter 88, To Theophilus) 

Ele não apenas chama Teófilo de “o papa mais abençoado", como também afirma que a voz dele tem ressoado pelo mundo inteiro, silenciando as sugestões venenosas do diabo. Como se não bastasse, ele reafirma também a “autoridade de um prelado tão grande”, e afirma que os próprios romanos deviam a sua libertação a este bispo de Alexandria, e não o contrário! No final, ele o chama de “o mais amoroso e mais abençoado papa”. Onde foi parar a tal “primazia” do bispo de Roma?  

Em outro momento, quando ele acusa as heresias de Orígenes, ele pede que uma carta seja enviada para ele e para o bispo de Constantinopla, mas não cita o bispo romano: 

“Uma carta sinodal deve ser enviada para mim e para o bispo de Constantinopla, e para quaisquer outros que você acha que se encaixam, expressando a condenação de Orígenes por consenso universal e condenando também a heresia infame, a qual ele era o autor”(Jerônimo, Letter 90, From Theophilus to Epiphanius) 

O interessante é que ele diz que a condenação das heresias de Orígenes deveria ser um “consenso universal” na Igreja, e, de acordo com os católicos, o bispo de Roma era um “papa universal” que mandava em toda a Igreja universalvemente, com poderes plenos, supremos e absolutos. Portanto, o bispo de Roma deveria ser, por esta lógica, o primeiro a ser notificado destas coisas, o primeiro a receber as cartas sinodais a este respeito.  

Contudo, ele nem sequer aparece aqui. Jerônimo apenas faz referência à autoridade dele mesmo e do bispo de Constantinopla, mas não do bispo de Roma, que para os católicos teria autoridade para resolver tudo sozinho, pois seria supostamente o “bispo dos bispos”. Isso explica o porquê que Jerônimo não aceitava que o costume adotado em Roma servisse de padrão para todas as demais igrejas cristãs: 

“Mas você vai dizer: como, então, que em Roma um presbítero é ordenado apenas na recomendação de um diácono? Ao qual eu respondo como se segue. Por que você apresenta um costume que existe em uma única cidade? Por que você se opõe às leis da Igreja uma exceção insignificante que deu origem à arrogância e orgulho? (Jerônimo, Letter 146, To Evangelus, Cap.2) 

Se Roma tivesse autoridade suprema e universal na Igreja, então ela que deveria impor os costumes e regras na Igreja, e não o contrário. Se a autoridade romana fosse universal (e não apenas sobre o território romano), então as medidas que ela adotaria deveriam ser adotadas em toda a Igreja.  

Porém, não apenas vemos que as demais comunidades cristãs da época não aceitavam nem adotavam o costume aceito pelos romanos, como também vemos Jerônimo se referindo a eles como sendo um “costume que existe em apenas uma única cidade. Nota-se claramente aqui como que Jerônimo não cria que Roma tivesse um papel supremo e universal a tal altura. 

“Uma única cidade” mostra claramente que o poder de Roma não era extensivo sobre todas as demais igrejas locais. Roma era apenas “uma exceção”, não passava de “uma única cidade”, e não uma autoridade universal e infalível. É por isso que ele diz que aquilo era uma “exceção insignificante” que deu origem a “arrogância e orgulho” 

Se Jerônimo cresse na primazia jurisdicional da Igreja Romana, não chamaria aquilo de “exceção insignificante”, pois seria da maior importância, visto que Roma supostamente seria a maior de todas as igrejas cristãs da época.  

Porém, ele se opõe ao costume adotado em Roma, não considera que Roma tenha autoridade sobre todas as demais igrejas, mas a chama de “uma única cidade”, diz que era uma “exceção insignificante” e ainda afirma que aquilo conduzia à “arrogância e orgulho”! Como que Jerônimo cria na primazia romana? Só mesmo nos maiores malabarismos católicos! 
Além disso, o mesmo afirma que era Policarpo o “chefe de toda a Ásia”em sua época: 

“Policarpo, discípulo do apóstolo João e por ele ordenado bispo de Esmirna era chefe de toda a Ásia, onde ele viu e teve como professores alguns dos apóstolos e das pessoas que tinham visto o Senhor” (De Viris Illustribus, 17) 

Os católicos afirmam que o bispo romano tinha primazia universal, isto é, autoridade suprema sobre o mundo inteiro, sobre todas as igrejas cristãs locais (o que evidentemente incluiria a Ásia, é claro). No entanto, Jerônimo diz que era Policarpo, e não o bispo de Roma, o “chefe de toda a Ásia” em sua época, ou seja, aquele que tinha a maior autoridade naquela importante região, a tal altura. Portanto, a autoridade do bispo romano se limitava a Roma – não se estendia à Ásia, não era uma “primazia universal”! 

Concluímos, portanto, que Jerônimo jamais tinha em mente a primazia jurisdicional do bispo de Roma, da forma que os católicos creem hoje. Uma análise e um estudo sério e criterioso em seus escritos demonstra exatamente o contrário das alegações católicas, como sempre fracas e superficiais ao extremo, e fáceis de serem refutadas. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo. 

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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Comentários

  1. Lucas,

    Outro pai da Igreja muito utilizado para sustentar o primado jurisdicional e eclesiástico de Pedro é Irineu de Lyon.Especialmente quanto a obra "Adversus Hairesis"(Contra as Heresias).Mandei umas citações para o nosso amigo "Conhecereis a Verdade" e ele me disse o contexto de cada uma delas.O artigo está bom,mas seria também bom um outro artigo sobre Irineu de Lyon.

    Feliz aniversário!

    Abraços!

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    Respostas
    1. Olá.

      Um artigo sobre o mesmo tema abordando Irineu de Lyon será feito em seu devido tempo. Agradeço-lhe pela sugestão.

      PS: obrigado pelo feliz aniversário :)

      Excluir

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