25 de agosto de 2012

O celibato obrigatório dos sacerdotes


Quer se casar? Então nem pense em ser padre. A Igreja Romana tira o seu livre-arbítrio e a decisão pela vida sacerdotal unida à matrimonial, para impor o celibato obrigatório do clero, coisa tal que não é vista nem sequer na Igreja Ortodoxa, onde os sacerdotes são livres para optarem pelo celibato ou pelo matrimônio, assim como ocorre nas igrejas evangélicas. 

A questão aqui é: pode-se unir o matrimônio ao sacerdócio? Para os católicos de Roma, uma exclui a outra, de modo que ou você é casado e não padre, ou é padre e não é casado. Não existe essa “opção” de ser padre e ao mesmo tempo casado. Cabe, então, analisarmos nas Escrituras se aqueles que exerciam o sacerdócio no Antigo e Novo Testamento eram realmente proibidos de se casar.  


*Os sacerdotes do AT não eram proibidos de se casar 

No Antigo Testamento há muitas restrições estabelecidas aos sacerdotes, como, por exemplo, o fato de que eles não podiam raspar a cabeça (Ez.44:20), nem deixar o cabelo comprido (Ez.44:20), nem poderiam beber vinho ao entrarem no átrio interior (Ez.44:21), entre outras restrições que chegaram ao fim com o Novo Testamento. Porém, mesmo nesta época de grandes restrições, não existe absolutamente nenhuma menção de que os sacerdotes não podiam se casar! 

Na verdade, Deus fala para eles “tomarem virgens da linhagem da casa de Israel, ou viúva que for viúva de sacerdote”(Ez.44:22). Isso é claramente um apoio ao matrimônio, e não um impedimento a ele. Assim, vemos que, mesmo na época de grandes restrições sacerdotais como era o Antigo Testamento, nem mesmo aí havia proibição ao matrimônio por parte dos sacerdotes – quanto menos no Novo! 


*Pedro era casado 

A Bíblia afirma que Pedro tinha sogra, onde se deduz que ele era casado – e Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste acamada, e com febre” (Mt.8:14). Alguns católicos objetam dizendo que a esposa de Pedro já havia morrido e que Pedro largou a mulher dele para seguir Jesus.  

Contudo, a primeira suposição não passa de mera especulação sem qualquer credibilidade, tentando forçar uma interpretação que não aparece nem nas Escrituras, nem tampouco nos escritos dos Pais da Igreja. Ao contrário, o que vemos nos escritos dos primeiros Pais é exatamente que Pedro continuou com sua esposa e criou os seus filhos, e esteve junto dela até o momento do martírio. Eusébio de Cesareia conservou registros históricos a este respeito, através de Clemente de Alexandria (livro VII dos Stromateis): 

Ou também vão desaprovar os apóstolos? Porque Pedro Felipe criaram filhos... conta-se, pois, que o bem-aventurado Pedro, quando viu que sua própria mulher era conduzida ao suplício, alegrou-se por seu chamamento e seu retorno para casa, e gritou forte para animá-la e consolá-la, chamando-a por seu nome e dizendo: ‘Oh, tu, lembra-te do Senhor!’”(História Eclesiástica, Livro III, 30:1-2) 

E a segunda teoria, então, é ainda mais absurdamente ridícula, pois Paulo diz que, “se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente” (1Tm.5:8). Se Pedro “largou” a sua esposa para ir seguir Jesus, isso significaria simplesmente que ele teria negado a fé e se tornado pior que o descrente, visto que era assim que Paulo chamava aqueles que tinham um matrimônio e não cuidava dos seus.  

Além disso, deduzir através de Mateus 19:27-29 que Pedro se “divorciou” da sua esposa (largando-a) é uma interpretação muito defeituosa do texto bíblico, visto que uma das coisas que Jesus mais repudiou foi exatamente o divórcio (Mt.19:3-6). Seria ridículo acreditar que Jesus criticava tanto o divórcio, se ele mesmo tivesse tirado discípulos de suas respectivas esposas, simplesmente abandonando-as, como se faz com uma divorciada! 


*Os irmãos do Senhor e os apóstolos eram casados 

Paulo escreveu dizendo: 

“Não temos nós o direito de levar conosco uma esposa crente como fazem os outros apóstolos, os irmãos do Senhor e Pedro?” (1 Coríntios 9:5) 

Os católicos objetam dizendo que a tradução correta deste versículo não é “esposa crente”, mas “mulher irmã”. Porém, o original grego traz adelphe gune. Adelphe significa “irmã” (tanto em sentido natural como também em sentido espiritual, como crentes, irmãs em Cristo), enquanto gune significa “esposa” ou “mulher”. Seria sem lógica Paulo estar falando que os apóstolos levavam consigo em suas viagens uma “mulher irmã”, no sentido de que todos eles levavam as suas irmãs naturais em suas viagens.  

É evidente que Paulo estava usando adelphe no sentido de irmãs em Cristo – ou seja, crentes. Agora, cabe raciocinar um pouco: ainda que gune não significasse uma mulher esposa, mas somente uma mulher, então que mulher crente que os apóstolos e os irmãos de Jesus levariam consigo em suas viagens? Ora, a única mulher que é companheira do homem em todas as suas viagens é a esposa.  

Portanto, tendo em vista que gune também tem o significado de “uma esposa”(Strong, 1135) e que a única mulher que é uma companheira individual de cada homem para onde este vai é a esposa, fica claro que Paulo estava mesmo falando de “esposas crentes”, e não de irmãs naturais ou de uma mulher qualquer.  

Outra prova de apoio que temos é a interpretação que os Pais da Igreja tinham a respeito deste texto bíblico e do matrimônio dos apóstolos. Ao invés de eles dizerem que eram todos celibatários (como ensinam os católicos para os padres atuais), vemos Clemente de Alexandria (150 – 215) afirmando que os apóstolos eram casados e criaram filhos, dando-nos uma lista dos “apóstolos que comprovadamente foram casados”: 

“Clemente, cujas palavras acabamos de ler, em seguida ao que foi dito anteriormente e por causa dos que rechaçam o matrimônio, dá-nos uma lista dos apóstolos que comprovadamente foram casados e diz: ‘Ou também vão desaprovar os apóstolos? Porque Pedro e Felipe criaram filhos; e mais, Felipe deu maridos a suas filhas, e Paulo, ao menos em certa Carta, não vacila em dirigir-se a sua consorte que não levava consigo para facilitar o ministério’”(História Eclesiástica, Livro III, 30:1) 

Portanto, a interpretação dos primeiros Pais era precisamente a mesma que os evangélicos têm a este respeito, sobre o matrimônio dos apóstolos. Infelizmente, os católicos realmente não estão com a pontaria certa em suas interpretações. 


*O evangelista Filipe era casado: 

Lucas registra no livro de Atos: 

“Partindo no dia seguinte, chegamos a Cesaréia e ficamos na casa de Filipe, o evangelista, um dos sete. Ele tinha quatro filhas virgens, que profetizavam”(Atos 21:8-9) 

Se Filipe tinha quatro filhas, então presume-se que ele tinha esposa. É claro que os católicos vão apelar para o mesmo repeteco cansativo e já há muito refutado (dizendo que Filipe tinha abandonado a sua esposa para seguir Jesus, ou que era viúvo, divorciado, ou sabe-se lá o que), mas as refutações a estes argumentos amadores já foram apresentados acima, e se aplicam perfeitamente também a Filipe, visto que é outro citado na lista dos “apóstolos que foram comprovadamente casados”, de acordo com Clemente de Alexandria e daquilo que foi conservado por Eusébio de Cesareia. 


*Paulo escreve que os bispos deveriam ser maridos de uma só mulher: 

Paulo ordena àqueles que queriam se tornar bispos: 

“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?), não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo” (1 Timóteo 3:1-7) 

Paulo não iria dizer que era para os bispos serem maridos de “uma só mulher” (v.2) se fosse proibido os bispos se casarem. Com isso, Paulo está claramente incentivando a vida matrimonial dos bispos, e não a suprimindo. Note que Paulo cita uma série muito grande de restrições e regras estabelecidas aos sacerdotes, dezessete, para ser mais exato. E o que mais impressiona é ver que nesta lista de 17 restrições e regras não há qualquer menção a não poder se casar!  

Diz que não pode ser dado ao vinho, não pode ser espancador, não pode ser cobiçoso, não pode ser contencioso, não pode ser avarento, não pode ser neófito... mas sobre não poder se casar, absolutamente nada! Na verdade, o que Paulo proibia não era o casamento, mas sim se casar com mais de uma mulher.  

Foi por isso que ele disse que os bispos deveriam ser marido de “uma só mulher” (v.2), proibindo ser marido de mais de uma (como ocorria naquela época e como ocorre até hoje em círculos mulçumanos). Se Paulo fosse contra ser casado, ele não teria somente proibido ser casado com mais de uma mulher – ele teria proibido o próprio casamento com uma só mulher!  

Alguns católicos objetam dizendo que estes bispos eram viúvos (acredite se quiser, eu já li este argumento!), e Paulo estava simplesmente dizendo que, enquanto as esposas deles estavam vivas, eles deveriam não ter tido nenhuma outra esposa além delas. Porém, parece que eles ainda não perceberam que todo o contexto da passagem está no tempo presente.  

Paulo diz que o bispo governe bem a sua própria casa” (v.4), e não que governava bem a sua casa”. O tempo está no presente também com relação aos filhos (tendo os seus filhos”) e à esposa (seja marido de uma só mulher”, e não tenha sido marido de uma só mulher”). Portanto, esta interpretação católica, além de defeituosa, é um tiro de morte na própria exegese e gramática, nada a mais do que o fruto do desespero para alguém que já não possui mais argumentos convincentes de refutação. 


*Conclusão 

Após este estudo que vimos, podemos responder objetivamente à pergunta do início (se pode-se unir o sacerdócio ao matrimônio), com a mesma resposta de Paulo à Timóteo: 

"Eis que nos últimos dias alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentira e tem cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento...” (1 Timóteo 4:1-3) 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)


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8 comentários:

  1. Perfeito! Lucas eu também tenho notado algumas coisas estranhas na bíblia ave maria. Tem uma passagem notoriamente adulterada nela se encontra em Matheus, a no capítulo 3 e a segunda no capítulo 4. Ambas as passagens são traduzidas pelos protestantes como "Arrependei-vos porque é chegado o reino dos céus" são de João o Batista e Jesus Cristo respectivamente. Ocorre que na bíblia católica estão traduzidas como "Fazei penitência" porque é chegado o reino dos céus" até aí nenhuma novidade conhecendo a doutrina de salvação através de obras mortas ensinadas por Tobias, Macabeus e outros apócrifos aceitos pelo romanismo. Só que o interessante é que quando é necessário traduzir novamente em todo o novo testamento "arrependimento" fica arrependimento mesmo na bíblia católica é o que acontece por exemplo em Apocalipse 3:19 na tradução da bíblia ave-criatura. Pra quem tem a tradução correta sabe que Cristo a semelhança de quando estava no seu ministério chama as igrejas ao arrependimento, se a tradução da expressão "arrependimento" fosse mesmo "fazer penitência" porque então é "arrependimento" que aparece nas bíblias católicas? A mesma coisa ocorre em Hebreus 6:1 e 6:6/ II timóteo 2:25/ II Coríntios 7:10/ Romanos 2:4. Mas o mais bizarro ocorre em Atos 11:18 e Atos 13:24, nessas passagens são descritas partes dos primeiros sermões dos apóstolos chamando o povo ao arrependimento e não a penitência e isso de novo na bíblia ave-criatura, só que dessa vez em Atos 13:24 é dito que João chamava as pessoas ao ARREPENDIMENTO, como pode? A bíblia católica contradiz ela mesma?

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    1. A Ave-Maria é mesmo uma tradição adulterada e tendenciosa. Só de ver como eles traduziram o versículo abaixo, já mostra que eles não tem escrúpulos mesmo...

      "E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus" (Mateus 1:25)

      Quando o certo era:

      "E não a conheceu ATÉ QUE deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus" (Mateus 1:25)

      Não preciso nem comentar nada...

      Sobre a questão da penitência em vez de arrependimento, é mais uma adulteração grosseira. Quando Jerônimo traduziu por "penitência" em sua versão em latim, o significado de penitência na época era o mesmo que arrependimento. O problema é que mais tarde essa palavra foi tendo um sentido cada vez mais deturpado e violado pela Igreja Romana, transformando em rituais como forma de pagamento de uma dívida, e as versões católicas modernas MANTÉM a "penitência" neste sentido distorcido do original, incorrendo em gravíssimo erro de anacronismo e alterando assim o significado original de arrependimento.

      O Gyordano Montenegro escreveu mais detalhadamente sobre isso neste artigo:

      http://cristianismopuro.blogspot.com.br/2014/12/a-importancia-da-traducao-correta-das.html

      Abs!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Minha opinião a respeito deles (RCC) é a mesma sua, eles adotam as mesmas doutrinas quando se trata de idolatria, de apostasia e de invenções doutrinárias espúrias, a diferença é que adotam um estilo de culto mais parecido com o pentecostalismo evangélico para conseguir segurar seus fieis na ICAR e não continuar perdendo legiões de membros para as igrejas evangélicas (já que muitos fieis católicos não suportam o tradicionalismo morto e então procuram algo mais "vivo").

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  2. O que me diria em relação a este versículo?

    “Pedro começou a dizer-lhe: Eis que deixamos tudo e te seguimos. Respondeu-lhe Jesus: Em verdade vos digo, ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, esposa, ou filhos, ou terras, por causa de mim e por causa do Evangelho, que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, e terras, com perseguições, e no século vindouro a vida eterna”. (Marcos 10,28- 29).

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    1. Jesus ressalta hiperbolicamente a necessidade de autonegação e renúncia para seguir a ele. É óbvio que ele não estava falando em termos literais, nem desejava que sua mensagem fosse assim entendida. Como alguém vai receber cem vezes mais casas ainda nesta vida? Isso seria o apogeu da teologia da prosperidade! Como alguém vai receber cem vezes mais mães? Pensei que cada um só tivesse uma!

      É evidente que a mensagem ali expressa é hiperbólica. Jesus não estava dizendo para ninguém abandonar sua família, porque Paulo disse que quem faz isso negou a fé e é pior que um descrente (1Tm.5:8). O importante é renunciar a si mesmo, tomar sua cruz e segui-lo. Significa abrir mão dos prazeres deste mundo, colocar tudo em segundo lugar e Deus em primeiro. Implica em buscar o Reino de Deus e a Sua justiça acima de tudo. Acima de casa, acima de irmãos, acima de pai, acima de mãe, acima de esposas, etc. Era o que estava sendo enfocado mediante a hipérbole.

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    2. Grato pela resposta.

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